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Ismar Pereira Filho
Brasília

    

PALAVRAS PROSCRITAS

 

Interessante como certas palavras são banidas do convívio dito de respeito. Hoje coramos se alguém louvar, por exemplo, as formas abocetadas de portas e janelas de antigas catedrais. No entanto, abocetado é adjetivo derivado de boceta, que nem sempre teve o sentido que hoje tem.

Basta consultar os dicionários para encontrar a definição antiga de boceta: caixinha de levar fumo. Afinal, rapé não passa de fumo torrado, que nossos avós costumavam levar às ventas para provocar espirros e arrepios. Naqueles tempos, homens sérios, até do clero, não se envergonhavam de exibir suas bocetas em ambientes respeitáveis. Quase me esqueço de mencionar a mitológica Boceta de Pandora. Apontada como origem de todos os males, seria apropriado afirmar que essa era mesmo cabeluda.

Outra palavra proscrita é o verbo invaginar. Significa meter ou envolver como em bainha. Daí podermos falar de invaginar a espada, ou de folhas que invaginam a haste da planta, por exemplo. Hoje, esse verbo só se encontra em descrições botânicas.

Mas a lista de palavras proscritas não pára por aí. Há muito que gente fina, ou metida a tal, deixou de, digamos, cagar. Chegaram ao ponto de negar a própria animalidade. As pessoas “especiais”, havendo conseguido distinguir-se das comuns por comerem mais e melhor, não se conformam em ser iguais às comuns nem no cagar. É o cúmulo da negação da igualdade entre os homens. Nem mesmo no sagrado momento da purgação, certas criaturas admitem seu nivelamento por baixo com todos os seus irmãos. No máximo, defecam. Mas nunca verbalizam o que fazem. Morrem de vergonha. Só não têm vergonha de roubar. Roubam e ainda se vangloriam de roubar. Fazem-no e verbalizam-no.

Sabia que o verbo-pária tem certa nobreza? Vem do latim “cagare”. Deveria ser uma forma culta. Pode ser boa idéia empregá-lo como paradigma da primeira conjugação, nas escolas. Ou mesmo o verbo roubar. Que mania é essa de só conjugar o verbo amar, mesmo sabendo que nesta república se caga e se rouba muito mais do que se ama?

Ensinaram-nos a ter vergonha de certos aspectos de nossa animalidade, que associam a classes sociais desfavorecidas, eufemismo de classes espoliadas. Até nos convenceram de que não sabemos comer. Pode? Se não souber usar aquela infinidade de louças, talheres, copos e taças, dizem que você não sabe comer. E você acredita. Quem nos ensinará a envergonhar-nos de roubar, de enganar o semelhante, de sermos insensíveis à miséria e às desigualdades à nossa volta? Quem nos ensinará a não tolerar a impunidade dos grandes? Se é que algum verme pode ser grande.

Como dizia o sábio chinês No Sei Kein: "Quanto a defecar, podeis cagar à vontade."



  • Ismar Pereira Filho é Tradutor/Revisor. - Contato: ismarpf@yahoo.com.br

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