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Ivan de Almeida 



Castelos de Areia 

Às vezes, pego a bicicleta e saio pedalando pelo Aterro. Passo pelo Morro da Viúva, pela Praia de Botafogo, pelo Pasmado e atravesso o Túnel Novo, chegando em Copacabana. De lá, continuo pela ciclovia até o Posto Seis, o Arpoador  e Ipanema  e, ocasionalmente, vou até a subida da Niemeyer, no fim do Leblon. Saio de casa com a cabeça tomada pelos pensamentos de sempre: as providências a tomar, o que me disseram, o que eu disse, o que diria ou direi, o que farei. Pedalo. Fora a subida do Mourisco, que é interessante porque tenho que fazer algum esforço, até mais ou menos o Posto Seis nada ainda acontece e pedalar é uma determinação, uma atividade mecânica que minha vontade controla. É apenas um exercício, embora não desagradável. Lá pelo Arpoador, porém, após meia hora mais ou menos de passeio, alguma coisa começa a mudar. Pedalo mais devagar, olho mais ao redor, e meu olhar se deixa atrair, manso, pelo que acontece ou pela paisagem.

Gosto especialmente de olhar os castelos de areia. Há, entre Copacabana e o Leblon, uns cinco escultores e a cada dia seus castelos têm uma aparência um pouco diferente. Gosto dos escultores de areia, do seu cuidado em fazer algo que é provisório, frágil, fugaz, do qual são sequer donos verdadeiramente, sabendo que a sua obra, à qual dedicaram tanto capricho, pode ser danificada pelo vento, pela chuva ou mesmo por um cachorro estabanado. São obras que não perduram, mas que são delicadezas, esmero, repositórios de fantasias e infinita atenção sonhadora. Já pensei em fotografar os castelos, em colocar a máquina na cestinha da bicicleta e ir fotografando, dia após dia, as esculturas e os seus criadores. Às vezes, converso com alguns, pergunto sobre como preparam a areia, elogio os detalhes, e exerço a amabilidade carioca com os desconhecidos que nos faz tão característicos. Eles também são cariocas, mesmo se nordestinos, e aproveitam a conversa, que se alonga e se faz cordial e interessante para todos.

Gravitam naquele limbo, entre artistas e vagabundos, entre pedintes e artesãos. São da rua, sabem disso. Alguns treinam jovens aprendizes que também são do povo das ruas. O que fazem é uma riqueza, um brinco, uma jóia desta cidade tão feminina. São partes da praia, são uma graça a mais naquilo que já é tão cheio dela, uma graça delicada, uma beleza que não se revela a menos que prestemos atenção, que não se revela ao homem bruto, ao apressado, mas apenas ao contemplador e às crianças. 

Porém, gostando dos casteleiros, gosto também da chuva e do vento que arruína as suas obras, pois é o que os faz recomeçarem tudo de novo e assim produzir outra maravilha. Em longos períodos sem chuva, os castelos duram dias e dias, com pequenas reformas e um pouco de manutenção, de modo que só a chuva renovadora devolve a areia à areia. A tempestade que arruína os castelos é como o passeio de bicicleta, que desfaz meus pensamentos vãos e renova a minha contemplação, me mostrando que todas as preocupações que ocupam a minha mente são castelos de areia, transitórias, e que os objetivos, que persigo com tanto denodo e paixão, não são mais do que construções frágeis a serem varridas pelo tempo.

 


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