Ivan de Almeida |
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O Brasil e o mundo depois do WTC Aos
poucos vão "caindo as fichas" sobre o episódio do dia 11 de
setembro e, à medida que isto acontece, algumas idéias surgem. Há
cerca de 10 anos vivemos neste Brasil à espera da prosperidade que vem de
fora. Abdicamos de todo esforço para o desenvolvimento autóctone que,
durante os quarenta anos anteriores praticamos com algum sucesso, para
esperar que a riqueza mundial a nós chegasse, o que aconteceria, ao que
se dizia inevitavelmente, se "fizéssemos o dever de
casa", isto é, se nos colocássemos como matéria amorfa e plástica
para a livre expressão das forças do mercado. Privatizamos,
concedemos, negociamos, desmontamos estruturas produtivas e aquela
prosperidade que viria de fora não chegava aqui, ora devido à crise na
Ásia, ora devido ao México, ora à Rússia, há pouco devido à
Argentina, e assim por diante. Temos ouvido durante anos "Agora tudo
vai dar certo, teremos finalmente o desenvolvimento sustentado", e
ele não acontece, frustrado pelo bater das asas da borboleta chinesa,
russa, argentina, enfim, qualquer perturbação. Esse
eterno esperar, entretanto, não aconteceu em todo o mundo, pois as nações
desenvolvidas prosperaram incessantemente. Mas nós, que tanto precisamos
do desenvolvimento, esperamos que a chuva da riqueza internacional aqui caísse
ou ao menos um chuvisco, rebarba daquela que caía copiosa e incessante
nos centros do poder econômico mundial. Agora,
anuncia-se a recessão americana. Tendo havido o gravíssimo fato, a
guerra instantânea pós-moderna, estima-se que a já cambaleante economia
americana se precipitará em recessão, acompanhada pelo restante do
mundo. Mais uma vez as nuvens úmidas que aguardávamos se desfazem sem
irrigar nosso solo. Quantas
frustrações ainda devemos sofrer por hipotecar nosso desenvolvimento ao
beneplácito dos centros de poder econômico mundial, caprichosos, volúveis,
inconstantes? Creio que só um ingênuo ainda acha que tal chuva chegará.
Quanto tempo ficaremos inermes esperando que outros nos dêem de presente
aquilo que é nosso dever fazer, isto é: desenvolver este Brasil social e
economicamente para que seu povo alcance uma vida digna, independentemente
(ou o quão independentemente for possível) do que vier a acontecer na
Malásia ou em Hong Kong? Se
a chuva de fora não virá (e não virá, perdoem-me os crentes), é hora
de carregarmos em baldes a água para o nosso plantio nacional. Pode ser
mais difícil, pode ser mais custoso, mas tenho certeza que uma nação
que não retira de si mesma a força para se criar não a terá por
outorga. É hora de nossos governantes e de nossas elites buscarem no
Brasil os elementos para superar esse grave estado em que nos encontramos,
para dar a sua população um projeto de vida digna que não seja
simplesmente a cópia piorada de modelos externos. É hora de não mais
justificar as protelações nas políticas
de desenvolvimento econômico e social pela situação internacional, ou
então assumir que essa protelação será para sempre. Certamente
voltados para nós mesmos (o que não significa xenófobos ou fechados ao
mundo), buscando em nós mesmos a riqueza geradora de riqueza, nos
colocaremos em melhores condições até mesmo para ser um interlocutor
considerado entre as nações. Uma nação de joelhos e com pires na mão
não merece qualquer respeito. Agora
sabemos que durante um bom tempo a riqueza não virá de fora. Não temos
outra opção senão desenvolvê-la aqui. E não se trata de ideologia
nacionalista. Afastadas as fantasias globalizantes, pois isso acontecerá
não apenas aqui, mas em todo o mundo, podemos reencontrar-nos e ver que não
somos assim tão feios e atrasados. Podemos voltar a ver que temos um
projeto próprio de civilização a perseguir, com a nossa cara, em lugar
de querermos nos tornar simulacros de simulacros.
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