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Ivan de Almeida 

Rio de Janeiro

   

O Maluco



O
maluco passou gingando, xingando os porteiros. Maluco lépido, gingava pela rua parecendo feliz. E não xingou por mal, só de alegria. – “  Filhos da p....!” “Filhos da p....!”.  Em cada gingada, oscilava entre aproximar-se desafiador da entrada ajardinada do edifício e escapulir, satisfeito com a bravata.

Os porteiros eram vários, alguns com camisas brancas bem passadas, outros de macacão, fingiram movimentar-se para perseguí-lo, mas, como quem representa uma cena ensaiada, movimentaram-se só o necessário para provocar sua fuga, em meio a desafios mútuos, alguns falsamente ameaçadores, outros delirantes.

Era uma manhã ensolarada de maio, depois de alguns dias de chuva, e a luz outonal carioca a todos inebriava de felicidade. Perfeição! O azul profundo do céu, o sol carinhoso e não-cáustico, a nitidez da vegetação do Aterro no ar limpo e transparente. O maluco, que devia ter sentido frio nas noites anteriores, era a própria alegria de viver.  

Atravessou a rua, ligeiro e ainda xingando. A calça imunda e rasgada deixava as nádegas à vista. Ficaram, os porteiros, rindo, divertidos e satisfeitos, cônscios de seu juízo, pois, afinal: por que se aborrecer com alguém cujas nádegas aparecem pelos rasgos da calça?

 


[Volta]