A
não compreensão da exata dimensão de uma sociedade complexa, moderna,
contemporânea - conseqüentemente heterogênea – nos conduz
inconscientemente a restringir nosso raio de análise sobre os atos e
fatos dos atores de uma determinada sociedade. E quando
restringimos essa visibilidade, evidentemente, propomos a nós mesmos os
limites daquilo que, por ventura, queremos produzir ou fabricar.
O
resultado dessa restrição é, sem dúvida, em termos gerais, a banalização
da análise. Ou seja: levamos todo o mapeamento de um determinado ato ou
fato para o ralo comum das vicissitudes - uma decorrência de culturas
preconceituosas, ainda que inconscientes e não-culturais.
Assim
sendo, não nos permitimos às complexidades ou heterogeneidades
inerentes às sociedades complexas contemporâneas, importantes
para o desenvolvimento global, integral e até mesmo holístico do
“sistema” do corpo social.
Recentemente,
um fato de repercussão nacional, no Brasil, envolvendo um famoso
psicanalista russo, quase que causara uma comoção em todo o país.
Essa a impressão que tivemos a partir dos noticiários e comentários
posteriores ao fato protagonizado pelo psicoterapeuta. Em síntese: ele
dopava os seus clientes (em geral adolescentes) para em seguida abusar
sexualmente dos mesmos. Um comportamento desviante e individualizado;
porém, não-banalizado, portanto. (E antes que alguém se esmere
em achar que este artigo está a serviço de quaisquer defesas ou
ataques adianto que ele não passa de uma visão antropo-sociológica.)
O
discurso principal deste artigo, em verdade, não é a patologia ou a
miopraxia do médico russo. O que se pretende aqui e agora
é questionar alguns desejos ou vontades subjetivas ou cognitivas dos
que individualizadamente entendem que o fato – como notícia – não
deveria ser mostrado em rede nacional de televisão.
O
desejo da não-divulgação do fato, por si só, também é um
comportamento desviante. Essa atitude, individualizada, não pode
sobrepor-se ao fundamental: dar oportunidade de conhecimento e consciência
(do fato) a todos que dele queiram ter conhecimento ou consciência.
Sou,
por princípio, radicalmente contrário a toda e qualquer manifestação
ou restrição da notícia. Pertenço a uma escola do jornalismo livre e
despegado de todos ou quaisquer, por menores que sejam, atitudes
coercitivas, porque no intestino delas está o anacronismo de posturas
ditatoriais.
As
imagens são, de fato, fortes e constrangedoras, porém não são
banais. E por isso mesmo devem (como foram) ser divulgadas para dar
conhecimento e consciência de comportamentos desviantes da parte do
todo. Como tratar de um câncer se não temos conhecimento ou consciência
dele?
A
indignação manifesta de atores da comunicação de massa da
imprensa é compreensível. E chego a acreditar que cada um que viu as
chocantes cenas, também ficou indignado. Mas isso não é motivo o
bastante para uma censura compulsória.
Individualmente
eu não tenho o direito de privar alguém do conhecimento e da consciência
do fato, por mais doloroso que ele seja. Analogicamente: um médico não
tem o direito de privar de conhecimento e consciência um determinado
cliente que esteja desenvolvendo um câncer.
Zuenir
Ventura, consagrado jornalista e escritor brasileiro, nos ensina que o
nosso ofício, isto é, a Imprensa não pode ser vista como um
ente de esferas do Poder; estanque do corpo social, pois, ela (a
imprensa) não é parte do todo, ela é o todo. A
imprensa, na visão de Zuenir Ventura, não pode e não deve ser
modelada, como pretendem alguns, como o Quarto Poder. Quando isso
ocorre jogamos a imprensa na mesma latrina dos outros três poderes.
Explicando
melhor: quando desejamos ou queremos uma imprensa-poder, cognitivamente
manifestamos um desejo latente do poder-de-imprensa. E é exatamente aí
que mora o perigo, pois, deixamos de ser verdadeiramente Imprensa
para ser, pura e tão-somente, veículo de comunicação de massa de
interesses, individualizados ou coletivizados.
E
mesmo quando buscamos apoio na Ética, com o fito de respaldar ou
justificar pretensões autoritárias escondidas no mais íntimo de nós
mesmos, temos que ser cautelosos para não nos transformarmos em
condutores inconscientes de projetos autoritários ou ditatoriais.
Se
não queremos ver ou assistir determinado programa ou jornal ou notícia
temos o livre arbítrio de trocar de canal ou mesmo de desligar a
televisão por quê estamos no nosso status quo. Até aí, tudo
bem. Além disso, ou seja, querer decidir por terceiros ou por uma nação
inteira é minimamente ser ingênuo autóctone um ditador presunçoso
e inconsciente.