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João Batista Lago 

Rondônia

 

Censura inconsciente ou
desejo latente de censura

 

A não compreensão da exata dimensão de uma sociedade complexa, moderna, contemporânea - conseqüentemente heterogênea – nos conduz inconscientemente a restringir nosso raio de análise sobre os atos e fatos dos atores de uma determinada sociedade. E quando restringimos essa visibilidade, evidentemente, propomos a nós mesmos os limites daquilo que, por ventura, queremos produzir ou fabricar.

O resultado dessa restrição é, sem dúvida, em termos gerais, a banalização da análise. Ou seja: levamos todo o mapeamento de um determinado ato ou fato para o ralo comum das vicissitudes - uma decorrência de culturas preconceituosas, ainda que inconscientes e não-culturais.

Assim sendo, não nos permitimos às complexidades ou heterogeneidades inerentes às sociedades complexas contemporâneas, importantes para o desenvolvimento global, integral e até mesmo holístico do “sistema” do corpo social.

 

Recentemente, um fato de repercussão nacional, no Brasil, envolvendo um famoso psicanalista russo, quase que causara uma comoção em todo o país. Essa a impressão que tivemos a partir dos noticiários e comentários posteriores ao fato protagonizado pelo psicoterapeuta. Em síntese: ele dopava os seus clientes (em geral adolescentes) para em seguida abusar sexualmente dos mesmos. Um comportamento desviante e individualizado; porém, não-banalizado, portanto. (E antes que alguém se esmere em achar que este artigo está a serviço de quaisquer defesas ou ataques adianto que ele não passa de uma visão antropo-sociológica.)

O discurso principal deste artigo, em verdade, não é a patologia ou a miopraxia do médico russo. O que se pretende aqui e agora é questionar alguns desejos ou vontades subjetivas ou cognitivas dos que individualizadamente entendem que o fato – como notícia – não deveria ser mostrado em rede nacional de televisão.

O desejo da não-divulgação do fato, por si só, também é um comportamento desviante. Essa atitude, individualizada, não pode sobrepor-se ao fundamental: dar oportunidade de conhecimento e consciência (do fato) a todos que dele queiram ter conhecimento ou consciência.

Sou, por princípio, radicalmente contrário a toda e qualquer manifestação ou restrição da notícia. Pertenço a uma escola do jornalismo livre e despegado de todos ou quaisquer, por menores que sejam, atitudes coercitivas, porque no intestino delas está o anacronismo de posturas ditatoriais.

As imagens são, de fato, fortes e constrangedoras, porém não são banais. E por isso mesmo devem (como foram) ser divulgadas para dar conhecimento e consciência de comportamentos desviantes da parte do todo. Como tratar de um câncer se não temos conhecimento ou consciência dele?

A indignação manifesta de atores da comunicação de massa da imprensa é compreensível. E chego a acreditar que cada um que viu as chocantes cenas, também ficou indignado. Mas isso não é motivo o bastante para uma censura compulsória.

Individualmente eu não tenho o direito de privar alguém do conhecimento e da consciência do fato, por mais doloroso que ele seja. Analogicamente: um médico não tem o direito de privar de conhecimento e consciência um determinado cliente que esteja desenvolvendo um câncer.

Zuenir Ventura, consagrado jornalista e escritor brasileiro, nos ensina que o nosso ofício, isto é, a Imprensa não pode ser vista como um ente de esferas do Poder; estanque do corpo social, pois, ela (a imprensa) não é parte do todo, ela é o todo. A imprensa, na visão de Zuenir Ventura, não pode e não deve ser modelada, como pretendem alguns, como o Quarto Poder. Quando isso ocorre jogamos a imprensa na mesma latrina dos outros três poderes.

Explicando melhor: quando desejamos ou queremos uma imprensa-poder, cognitivamente manifestamos um desejo latente do poder-de-imprensa. E é exatamente aí que mora o perigo, pois, deixamos de ser verdadeiramente Imprensa para ser, pura e tão-somente, veículo de comunicação de massa de interesses, individualizados ou coletivizados.

E mesmo quando buscamos apoio na Ética, com o fito de respaldar ou justificar pretensões autoritárias escondidas no mais íntimo de nós mesmos, temos que ser cautelosos para não nos transformarmos em condutores inconscientes de projetos autoritários ou ditatoriais.

Se não queremos ver ou assistir determinado programa ou jornal ou notícia temos o livre arbítrio de trocar de canal ou mesmo de desligar a televisão por quê estamos no nosso status quo. Até aí, tudo bem. Além disso, ou seja, querer decidir por terceiros ou por uma nação inteira é minimamente ser ingênuo autóctone um ditador presunçoso e inconsciente.

 

  • João Batista Lago é jornalista, comunicólogo, pesquisador, consultor de marketing político e diretor do Instituto Rondoniense de Pesquisa de Opinião Pública
    E-mail (profissional): irpop@estadao.com.br
    E-mail (pessoal): joaobatistalago@hotmail.com

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