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Joćo Batista Lago 

Rondōnia

A Inquisição Midiática

Os assassinatos de um casal jovem, em São Paulo, e de um menor presidiário, em Ji-Paraná (RO), praticados por menores, despertou – tanto em nível nacional quanto local – e desencadeou uma série de discursos midiáticos em defesa da diminuição da imputabilidade penal do menor de 18 anos para 16 anos ou menos. Tanto nacionalmente como localmente a imprensa produziu “pressupostos implícitos” , a partir de projetos discursivos eivados de “futilidades polissêmicas” (in Bourdieu - Sobre a Televisão).

O discurso produzido no calor das tensões emocionais fabrica sentidos incoerentes no intelecto (e no interior) do coletivo inconsciente das massas. É indispensável que saibamos compreender que a discursividade da (e na) imprensa (jornal, rádio ou televisão – e mais recentemente a internet) tem por objetivo o outro (leitor, espectador, telespectador, ouvinte ou internauta).

Quando não atentamos para esse fato – seja por propósito, omissão, ingenuidade ou ignorância – protagonizamos uma mídia ditatorial, uma imprensa inquisidora, um jornalismo-tribunal, onde julgamos e, muitas vezes, condenamos o “outro”, ao enunciar conceitos e preconceitos polissêmicos que se materializam em falsas verdades.

Em muitos casos isso acontece porque o principal sujeito da imprensa – o jornalista – é despreparado acadêmico-intelectualmente. Parte expressiva do meio seria um sujeito composto por informação e formação medíocres que tem em si introjetado um projeto dita-torial e que busca na imprensa exteriorizar um pressuposto de poder, e por isso, pretende-se ver Príncipe. É exatamente a partir de então que surge a idéia da imprensa como quarto poder.

No dizer da professora Alba Zaluar “(...) A mídia é uma faca de dois gumes e pre-cisa de um controle externo. Ela se constitui como um poder. Dizem até que ela é o quarto poder. As pessoas têm medo dela. Eu tenho medo dela, porque os jornalistas são vingativos. Quando você se recusa a dar entrevista, eles se vingam. Enfim, tem que ser levado em conta esse poder. Mas é preciso que nós encontremos meios mais eficazes do que os que nós temos hoje de enfrentá-lo, de controlá-lo. Isso, de um modo geral (...)” .

A dramaticidade enunciada e implícita no texto da professora Alba Zaluar revela o poder inquisitório de parte da imprensa-violência que glamouriza o crime, o criminoso e a vítima, para, em seguida, enunciar conceitos desprovidos de quaisquer embasamentos técnico-científicos, por mínimo que seja. Esse medo imaginário – de certa forma inconsciente em algumas camadas do corpo social – e cognoscitivo seria o campus de observação e pesquisa desse jornalismo-violência.

O que pretende essa imprensa-tribunal com a diminuição da idade penal de 18 anos para 16 anos? Quais são as bases filosófico-jurídicas dessa defesa? A quem interessa crimi-nalizar jovens de 16 anos? Quem ganha com a punibilidade desses menores? Todas essas perguntas são uma provocação a uma análise consciente e distanciada de posturas desviantes dentro de uma sociedade complexa. Elas estão aqui embutidas para provocar na audiência reflexões concretas e orientadoras.

Não pretendo dá-lhas respostas imediatistas ou academicistas recheadas de pressu-postas verdades. Mas, tenho em mim, a noção exata de buscar entendê-las a partir de um realismo concreto, existencial, e sobretudo, tendo como ponto de partida uma reflexão orientada a partir da filosofia e da psicologia da Gestalt, que trabalha com campos reais, ou seja, do Aqui e Agora e que se contrapõe ao construcionismo “freudiano” fundamentados em campos passadistas. É certo que não devemos descartar o passado, mas, não podemos deixar de estabelecer uma relação, concreta e absoluta, com o presente. E aqui devemos ter em mente o estudo das diferenças (de gênero, de classe, de profissão, de instrução, de religião, de raça, econômicas, sociais e políticas, entre tantas) que a sociedade pós-moderna está a nos impor.


  • Joćo Batista Lago - é jornalista, comunicólogo, pesquisador, consultor de marketing político e diretor do Instituto Rondoniense de Pesquisa de Opinião Pública
    E-mail (profissional): irpop@estadao.com.br
    E-mail (pessoal): joaobatistalago@hotmail.com