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Joćo Batista Lago 

Rondōnia

Religião e Voto

Muito embora os atores políticos ainda tenham algum tipo de receio (preconceito ou escrúpulo?) de tocar no tema, o cognominado voto religioso - creio que essa inferência é carregada de abstracionismos - é uma abordagem que vem sendo estudada abundantemente. Hoje, o principal estudioso e pesquisador do assunto, no Brasil, é o professor da USP, sociólogo Antonio Flávio Pierucci.

No Brasil, sobretudo a partir dos anos 80, o tema passaria a ser enfatizado, principalmente dentro do circo do Congresso Nacional (1986), onde se começara a introduzir o conceito de “bancada evangélica”, isto é, uma abstração subjacente dos deputados e senadores protestantes (de todas as correntes). A partir de então, os media passaram a incorporar a expressão, o que, contribuiria para banalizá-la.

A tal bancada evangélica - e, por conseguinte, o tal voto evangélico -, para o professor Flávio Pierucci, “não existe”. Trata-se, em verdade de um deslocamento conceitual, ou seja, se considerarmos as pertenças ou os pertencimentos sociais, econômicos, políticos, religiosos, etc., verificamos que o voto é multifacetado. Isso significa aduzir: da mesma forma não existem bancadas ou votos católicos, budistas, mulçumanos, umbandistas, espíritas, etc., etc., etc. Essa afirmativa - bancada ou voto evangélico – é uma “falsa verdade”, se introduzirmos aqui os conceitos de ideologia prognosticados por Marx e Weber.

Considerando, pois, as pertenças econômicas ou políticas, sociais ou culturais, cívicas ou cínicas, o que temos, de fato e de direito, é uma bancada plural com um voto multiculturalista ou policulturalista. O que se afirma aqui é que, quando estudamos o comportamento eleitoral das pessoas e associamos esse estudo a um determinado pertencimento de religiosidade, descobrimos que não existe um voto único sob a orientação de uma determinada corrente religiosa ou coisa que o valha.

Nos “estudos” que tenho realizado aqui em Rondônia, por exemplo, tenho incluído no instrumento de pesquisa uma pergunta sobre essa temática. Ei-la: “Você votaria em candidatos indicados pela sua Igreja (pároco, pastor ou orientador espiritual)?” A esta pergunta oferece-se as seguintes categorias de respostas:

1) Absolutamente não;
2) Talvez não;
3) Depende;
4) Talvez sim;
5) Absolutamente sim;
6) Não sabe/Não respondeu.

As respostas a esta questão evidenciam que, no geral, os eleitores (16 anos ou mais) de todas as cidades onde a pesquisa está sendo realizada assumem atitudes individualizantes, e até mesmo racionalistas, ainda que cognoscitivas e inconscientes. Vejamos os resultados apurados em três cidades:

1) Alvorada do Oeste:

QUALIDADE DA INFLUÊNCIA RELIGIOSA
Qt. Cit.
Freq. (%)
Absolutamente não
20
40,0%
Talvez não
5
10,0%
Depende
6
12,0%
Talvez sim
10
20,0%
Absolutamente sim
9
18,0%
Não sabe/Não respondeu
0
0,0%
TOTAL OBS.
50
100%
Média = 2,66 - Desvio Padrão = 1,60 - Fonte: IRPOP PESQUISAS




2) Rolim de Moura:

QUALIDADE DA INFLUÊNCIA RELIGIOSA
Qt. Cit.
Freq. (%)
Absolutamente não
46
45,1%
Talvez não
9
8,8%
Depende
27
26,5%
Talvez sim
14
13,7%
Absolutamente sim
6
5,9%
Não sabe/Não respondeu
0
0,0%
TOTAL OBS.
102
100%
Média = 2,26 - Desvio Padrão = 1,32 - Fonte: IRPOP PESQUISAS



3) Urupá:

QUALIDADE DA INFLUÊNCIA RELIGIOSA
Qt. Cit.
Freq. (%)
Absolutamente não
28
56,0%
Talvez não
4
8,0%
Depende
11
22,0%
Talvez sim
6
12,0%
Absolutamente sim
1
2,0%
Não sabe/Não respondeu
0
0,0%
TOTAL OBS.
50
100%
Média = 1,96 - Desvio Padrão = 1,21 - Fonte: IRPOP PESQUISAS

Vê-se, portanto, que o tal voto evangélico ou católico, espírita ou budista, ou quaisquer outros com as mesmas características e similaridades, não passa de “falsa consciência”. Poderíamos nos alongar um pouco mais na análise desses resultados, mas isso não é nossa intenção neste artigo.
Voltemos, pois, ao que se nos interessa.

Há um exemplo que, desde a última eleição para a Presidência da República (2002), se tornaria clássico e fonte de análise das ciências social e política: a candidatura do ex-governador Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro.

O então candidato do PSB, errôneamente, orientaria sua estratégia político-eleitoral para “essa falsa verdade”. Ao tentar ideologizar o voto evangélico em benefício de sua candidatura, descortinou uma ruidosa e vergonhosa, e mesmo caricata derrota eleitoral. Ora, como o voto é multifacetado, fragmentou-se, naturalmente, entre todos os candidatos, deixando assim, Garotinho, com um “oirulito na boca”.
As pesquisas realizadas pelo Instituto Rondoniense de Pesquisa de Opinião Pública atestam a tese do professor Antonio Flávio Pierucci, ou seja, os eleitores não seguem orientação da “sua” igreja, pastor, pároco ou orientador espiritual similar.

Isso, entretanto, não significa dizer que os profissionais de marketing político-eleitoral ou coordenadores de campanhas eleitorais, não devam prestar atenção para esse nicho de mercado. É claro que têm que considerá-lo. Mas, o erro está na orientação, ou encantamento (termo usado por Pierucci em recente artigo publicado na Folha de São Paulo), única e exclusivamente, voltada para sedução desse voto polifacetado - evangélico ou outro qualquer. O que se pretende afirmar é o seguinte: os evangélicos com certeza votaram em Garotinho, mas, também, votaram em Luiz Inácio Lula da Silva, José Serra, Ciro Gomes, entre tantos outros candidatos, o que demonstra, claramente, que a lógica desse tal voto evangélico - ou de qualquer outro dentro -, num substrato, provoca o aparecimento ou o surgimento das pertenças ou pertencimentos individuais ou individualizantes.

É, pois, indispensável que tanto os profissionais do marketing político-eleitoral ou os coordenadores de campanhas, assim como os partidos políticos e os políticos propriamente ditos tenham competência nesse entendimento. Estruturar o planejamento de campanhas eleitorais requer, de todos os atores envolvidos no processo, nos dias atuais, o mínimo possível de conhecimento acadêmico-científico. Isto implica em um novo paradigma: a substituição do “tapinha na costa” por um modelo profissional.

As pesquisas sinalizam para uma nova tendência, ou seja, a existência de um novo eleitor. Eleitor este, mais individualista, senhor do seu voto, dono da sua vontade, ainda que, esse comportamento, seja incipiente e genericamente inconsciente.


  • Joćo Batista Lago - é jornalista, comunicólogo, pesquisador, consultor de marketing político e diretor do Instituto Rondoniense de Pesquisa de Opinião Pública
    E-mail (profissional): irpop@estadao.com.br
    E-mail (pessoal): joaobatistalago@hotmail.com