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Maurício da Silva 



ALTERIDADE E CIDADANIA

 

A palavra alteridade, que possui o prefixo alter do latim possui o significado de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação e dialogar com o outro. A pratica alteridade se conecta aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais religiosos, científicos, étnicos, etc. Na relação alteritária, está sempre presente os fenômenos holísticos da complementaridade e da interdependência, no modo de pensar, de sentir e de agir, onde o nicho ecológico, as experiências particulares são preservadas e consideradas, sem que haja a preocupação com a sobreposição, assimilação ou destruição destas. “Ou aprendemos a viver como irmãos, ou vamos morrer juntos como idiotas”(Martin Luther King).

A prática da alteridade conduz da diferença à soma nas relações interpessoais entre os seres humanos revestidos de cidadania. Pela relação alteritária é possível exercer a cidadania e estabelecer uma relação pacífica e construtiva com os diferentes, na medida em que se identifique, entenda e aprenda a aprender com o contrário.

“Olhe para os dedos de sua mão. Eles são diferentes. Ainda bem. Exatamente por serem diferentes eles são harmoniosos quando vistos em conjunto. Já imaginou se eles fossem todos iguais?
Certamente teríamos dificuldade de fazer o que fazemos de maneira tão natural. A humanidade, pode-se dizer, é semelhante a uma mão. Somos diferentes numa família. Somos diferentes numa região. Somos diferentes numa nação. A diferença é inerente, portanto, à natureza humana. Que bom que assim seja.”(Carlos Pereira).


Devido ao fenômeno da hipertrofiação do ego do ente humano, o homem tem demonstrado, ao longo de sua história, ser incapaz de reconhecer e conviver pacificamente com o diversificado, com o pluralizado. Em função da inalteridade e da anticidadania, o homemóide tem ampliado a violência generalizada, as guerras, os movimentos de intolerância, as antipatias mecânicas gratuitas, os atos de separatismos, o nefasto racismo, a exclusão, o ódio, a intolerância, a discórdia, o desequilíbrio ecológico e o seu próprio desequilíbrio. Qual seria a saída de estado caótico de da existência no Planeta Terra? Formar o educando em valores de alteridade e cidadania, consoante o paradigma gnoseolístico.

Ao se deparar com o diverso devemos, inicialmente, retirar da mente os agentes psicológicos do preconceito e da preocupação, isto é, aqueles julgamentos pré-concebidos, que e entram em ação desnecessariamente antes do tempo e aqueles trazem uma ocupação negativa espaço mental antecipada, com perda de energia. Devemos acabar com todo tipo de pré-conceito colocar a mente em branco para receber o conteúdo do outro sem uma opinião previamente formada. Faz necessário estar em estado de alerta percepção para entender os motivos pelos quais o outro concebe as coisas do seu jeito, estabelecer uma relação empática com o interlocutor, para finalmente, construir o ensino-aprendizado na relação, ampliar a capacidade de correlação, de interdependência, de entendimento e convivência fraternal.

No Terceiro Milênio, as práticas da cidadania e da alteridade são fundamentais diante da globalização das experiências, do ambiente plural diversificado pela globalização das relações e facilidade nas comunicações. Imprescindível até pelo clima conflituoso que cresce entre os povos.

O Dr. Samael sempre dizia que quanto maior for adversidade, maior será a oportunidade de crescimento. Não temos mérito nenhum em tratar bem a que nos trata bem também, mas sim em tratar bem a quem nos trata mal. Pela relação de alteridade é possível tratarmos bem a todos, independentemente de como nos tratam. O crescimento é eminente quando lidamos com aqueles que pensam, sentem e agem diferentemente da gente, numa relação alteritária. Numa relação alteritária se torna possível estabelecer uma convivência solidária entre os aparentes divergentes. É necessário sepultar de uma vez por toda os agentes da inalteridade e da anticidadania que tanto infelicitou a humanidade nos tempos da inquisição, dos regimes autoritários, das ditaduras, etc., que muitos homemóides ainda tentam ressuscitá-los das mais diversas formas.

Não há princípios de alteridade naqueles que não aceitam a dissidência de antigos companheiro, que não aceitam a oposição deliberada, a opinião, o ponto de vista diferente e adota-se uma postura de discriminação, trata o diferente com a indiferença não adota a tolerância como princípio básico de mediação das relações interpessoais. Não é um cidadão alteritário quem não consegue amar a natureza, os seres vivos e aos outros, que repudia o seu irmão simplesmente por ele possuir uma visão diferente de enxergar o mundo, de ver a mesma realidade.

Devido ao ego hipertrofiado do ente humano, por estes tempos há ausência de compreensão, ausência de cidadania, ausência da prática alteritária na família, na escola e na sociedade. Temos que viver e ensinar aos educandos a ampliar o relacionamento pela prática do alteritarismo e não pelo autoritarismo.
Eis que é chegada a hora de nos mobilizarmos para o exercício da cidadania auteritária, dar-nos as mãos a todos, aos diferentes e aos iguais. “Compreender que apenas a diferença é que verdadeiramente soma”. “Você pode pensar que eu sou um sonhador. Mas eu não sou o único”.

Na família, na escola e na sociedade devemos ensinar ao educando, através do exemplo, o principio da alteridade, como o vetor norteador das relações interpessoais, para que possa eliminar de sua psique os agregados psicológicos inumanos da xenofobia, da aversão a pessoas e coisas estrangeiras, do racismo, para evitar o ódio e as guerras étnicas, dos preconceitos de idades e de classes sociais, dos estigmas, da discriminação,etc. E para ensinar precisamos ser a alteridade em si, fazermos como fez o nosso mestre, que vivenciou a alteridade e nos ensinou assim: “Fazei aos outros aquilo que queiras os outros façam a ti”.

Se pautarmos em nossas vidas pelas relações de alteridade, jamais iremos fabricar armas, material bélico e tudo aquilo que ceifa a vida de qualquer coisa do cosmo, que holisticamente coexistem interdependentemente conosco. Pois na relação de alteridade sentimos como se fossemos o outro, sentimos bem com o bem estar do outro e sofremos com a angústia do outro. Devemos saber colocar no lugar do outro, em qualquer situação, para compreende-lo integralmente. Se possuirmos nenhuma sensibilidade pelo outro, pelas coisas da natureza, é porque não somos revestidos de alteridade, não sabemos conviver com a pluralidade.

Alteridade seria, portanto, a capacidade de conviver com o diferente, de se proporcionar um olhar interior a partir das diferenças. Significa que eu reconheço o outro em mim mesmo, também como sujeito aos mesmos direitos que eu, de iguais direitos para todos, o que também gera deveres e responsabilidades, ingredientes da cidadania plena. Desta constatação das diferenças é que gera a alteridade, alavanca da solidariedade, da responsabilidade, eixo da cidadania.

Os educandos da escola convencional antropocêntrica têm sido mecânica e continuamente condicionados a manterem-se extremamente fixados na valorização das suas diferenças individuais direcionadas para o robustecimento do individualismo. Daí a necessidade de educá-los para paz em valores de alteridade e cidadania. A alteridade gera a tolerância e busca uma solução, de preferência de imediato, para um problema que atormenta nossos semelhantes e busca um caminho a ser seguido, principalmente com vistas a evitar sua repetição no futuro. A verdadeira cidadania na família, na escola e na sociedade consiste aceitar as diferenças dos outros e engendrar esforços para ajudar na superação de suas dificuldades. Os agregados psicológicos da intolerância levam o anticidadão a incapacidade de perceber o outro e o universo de inter-relações sociais e culturais determinantes de uma dada situação que exige um culpado para satisfazer um erro.

0 estado de intolerância é apoiado em na ignorância de anticidadãos que buscam os menores pretextos para justificação de seus atos de maldade. A simplicidade dos sábios, a sabedoria dos silenciosos, a tolerância dos pacificadores, a alteridade e a solidariedade dos cidadãos, etc., são reais valores da Cultura da Paz e Não-violência.

O movimento da cidadania deverá crescer muito no Séc. XXI, através das pessoas que valorizam o diálogo, a alteridade, e acreditam que o respeito na diversidade e a perfeita correlação entre os direitos e os deveres se constituem nas bases da verdadeira Cultura da Paz e Não-Violência. Através da alteridade e dos demais valores de cidadania, os construtores da paz buscam educar os educandos para aceitarem e aprenderem com os que são e pensam diferentes; construir a fraternidade, a solidariedade e cidadania sempre, em qualquer lugar, apesar das divergências e das adversidades, respeitando-as sempre e procurando aprender com as diferentes opiniões; pois assim como a biodiversidade se constitui na maior riqueza ambiental, a diversidade de opiniões e enfoques se constitui na mais rica oportunidade de crescimento pessoal.

Alteridade é uma palavra que vem ganhando uso acentuado nos meios sociais do século XXI, entretanto a palavra em si não serve para nada, se não for acompanha da praticada em si mesma. De nada adianta falar em alteridade, se tivermos em nosso interior o estado de alteridade. Esse vocábulo alteridade é relativamente novo, tanto é que nem os dicionários o registra, mas a ação que ele descreve nasceu com a humanidade e atualmente seu significado denomina uma nova mentalidade holística, que deverá vigorar na civilização deste século, certamente, irá transformar a Terra num mundo de regeneração porque se refere à aceitação das diferenças; também significa a não-indiferença, o aprender com os diferentes, o amar ou ser responsável pelo outro, aceitando e respeitando as suas diferenças.

Alteridade é uma palavra que designa em sua profundidade o holismo presente nas leis de convívio entre os seres humanos revestidos de cidadania e na relação destes com todos os seres da natureza. A pessoa alteritária é mais fraterna em todos os sentidos, deixa de criticar, julgar, agredir, infligir leis e normas e passa a ser responsável pelos deveres e obrigações. Quem é altério trilha o caminho da não-agressão, do não-julgamento, luta pela paz de seus semelhantes, por estar em paz consigo mesmo, com a humanidade, com a vida. Ao desenvolvermos a alteridade, nasce o respeito pela maneira de ser dos outros, levando-se em conta que todos somos seres em diferentes, com graus de compreensão diferente.

Já adentramos no Terceiro Milênio carregando conosco os velhos dilemas da humanidade. Chamamos de modernidade ao processo de complicação da humanidade, estamos convencidos de sermos muito superiores às gerações passadas, o que é um equívoco. Construímos o império da razão, mas destruímos os valores do coração. A racionalidade e o progresso científico-tecnológico invade os diversos âmbitos de nossa existência, mas a irracionalidade está presente na forma de inconsciência. Para que algo seja verdadeiro deve ser abençoado com o título de que está cientificamente demonstrado.

Nas nossas sociedades contemporâneas, onde impera a inalteridade, a racionalidade, sob as formas de ciência e tecnologia, no paradigma antropocêntrico, passou a ser instrumento de violência estrutural, no modelo social hegemônico neoliberal, onde se expressa como meio mais eficiente de dominação social, de controle ideológico, de exploração, de exclusão das maiorias economicamente desfavorecidas.

O sistema antropocêntrico, por intermédio da violência estrutural, vai produz vítimas de modo massivo. As vítimas da racionalidade do sistema vão ficando num beco-sem-saída. O sofrimento das maiorias excluídas ecoa pelas ruas das favelas, dos vilarejos. Mas a alteridade faz-nos adotarmos a perspectiva do olhar das vítimas, para através da cidadania profunda engendrarmos ações que nos levam a lutar para mudanças neste estado de coisa.

Os mecanismos do sistema neocapitalista antropocêntrico engendra o sofrimento as grandes maiorias de excluídos. Para este sistema anticidadão inalteritário, o outro (alter) é totalmente destituído de vida, é coisificado, reduzido a um número, a uma estatística, a um elemento do consumo. Então, para este sistema perverso, o outro não tem configuração humana, uma vez que ele é objetivado para fins de lucratividade, produtividade, uso, etc.

O sofrimento indescritível das vítimas da violência estrutural do poderio econômico; elas possuem uma alteridade irredutível que desmascara a hipocrisia neoliberalismo econômico. A alteridade das vítimas, diante das evidências, não pode ser negada nem reduzida ao silêncio através da propaganda enganosa do sistema capitalista antropocêntrico.

A da tão propalada pseudoneutralidade científico-tecnológica fica evidente ante a dor humana das vítimas denunciam esta legitimações ideológicas dos modelos sociais que proclamam a necessidade do crescimento material a custa do sofrimento humano, da existência massiva de excluídos, das vítimas da violência estrutural.

A cidadania, a ética e alteridade se constituem no tripé do paradigma holístico, no modelo, no referencial para qualquer modo de convivência humana. Elas devem ser construídas na família, na escola e na sociedade, para nortearem todo o protagonismo juvenil na construção dos futuros projetos político-econômicos e todas as dinâmicas sociais e institucionais. Elas devem constituir na base de detecção e de ação para erradicação do sofrimento das vítimas. Um cidadão alteritário possui um compromisso inadiável para com as vitimas da violência estrutural, no que se diz respeito ao seu grito por dignidade humana.

A cidadania, a ética e a alteridade se constituem na base de sustentação do homem íntegro, cuja preocupação com o seu semelhante se constitui no autêntico imperativo ético, no dever ser absoluto, que emerge do clamor irredutível das vítimas indefesas da violência estrutural para serem reconhecidas na sua dignidade humana.

“Nunca deixo de pensar naqueles que sofrem, e junto com eles caminho solidário”
(Oscar Neimayer).

 

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