bannerartigos.gif (36969 bytes)

banner_publique2.gif (11775 bytes)

bannerpleno.gif (64299 bytes)

Sérgio Murilo Ferreira 

Rio de Janeiro



A Prostituta Enigmática



Todos as tardes, ao final de mais um dia de trabalho, Julião iniciava a longa caminhada do Castelo até a Praça Tiradentes, onde encarava a tremenda fila do 355 – Tiradentes-Madureira. Pra variar, nunca havia ônibus no ponto. Resignado, ele entrava como sempre na “fila do sentado”, não só porque poderia aguardar o próximo carro, evitando viajar no último banco, mas também por não ter pressa para chegar em Vicente de Carvalho, onde morava. Na velha Praça Tiradentes, grupos de pessoas conversavam animadamente, ao mesmo tempo em que devoravam pipocas numa velocidade espantosa. A cada dois vagarosos passos, os sacos eram esvaziados, amassados e atirados ao chão, formando sobre o mosaico de pedras portuguesas e até cada terminal, um ziguezaguear de passarelas avermelhadas. Uns, mais concentrados, liam jornal ou faziam palavras cruzadas; outros, mais estressados, gritavam e discutiam no celular como se fossem os únicos na fila. Julião a tudo olhava indiferente e contemplativo, pois já vira aquele filme um caminhão de vezes.

Os ônibus chegavam a intervalos de vinte minutos e, em segundos, com as portas ainda parcialmente abertas, aspiravam o primeiro lote de passageiros que completaria sua lotação. Não raro, levavam uma meia dúzia em pé, afinal alguém poderia saltar na Central para pegar o trem. Os idosos e as grávidas ficavam sempre para o próximo carro, pois sabiam que já não podiam contar com a gentileza de ninguém para lhes dar o lugar e ter que viajar horas pendurado numa argola e ensanduichado pelo não-mais-acabar de passageiros que embarcavam ao longo da Av. Brasil.

Quando Julião já estava sob o túnel metálico que demarca o terminal, com cerca de dez ou doze passageiros à sua frente, ele percebeu a olhá-lo uma linda e estonteante morena, que ao vê-lo paralisado sorriu-lhe timidamente, deixando à amostra uma fileira de dentes alvos e alinhados, emoldurados por um par de lábios carnudos e atrevidos.

Julião, visivelmente hipnotizado, enfiou no bolso da calça o que restava do amendoim que comprara minutos antes e, bastante excitado, saiu disfarçadamente da fila, a tempo de ver a linha mulher levantar-se, ajeitar a apertada calça jeans, descer até a calçada e olhá-lo mais uma vez, só que agora praticamente obrigando-o a segui-la.  Sem pestanejar, completamente desnorteado, ele atravessou imprudentemente a movimentada rua lateral, a tempo de ver a bela desconhecida parar na porta de um velho sobrado. Apressou-se o mais que podia e ao chegar em frente ao sinistro prédio, pode alcançá-la ainda nos primeiros degraus da imensa escadaria. Subiram rapidamente e, sem perguntas, chegaram ofegantes à recepção, quando Julião surpreendeu-se ao ver a mulher debruçar-se no balcão, pegar a chave no quadro pendurado na parede e colocar embaixo do braço um rolo de papel higiênico. Foi aí que a ficha caiu. Era uma mulher da vida, uma piranha que o atraíra para aquela espelunca disfarçada de motel. Mas já era tarde e Julião não podia perder outra viagem, pois já perdera uma quando saiu da fila do ônibus, prestes a embarcar. 

Ela rapidamente abriu a porta do quarto e entrou no banheiro para lavar-se, enquanto  Julião, sentado à beira da cama, refletia sobre o risco iminente de pegar uma gonorréia naquele matadouro. De repente levantou-se e foi até um armário sem porta à procura de uma camisinha esquecida, mas só achou uma latinha de pomada japonesa, três grampos, dois cotonetes e um frasco de éter pela metade. Voltou a sentar-se e deu uma olhada para o lençol branco encardido, todo marcado de cigarro e pintas de sangue. Tirou o tênis, as meias e colocou-os no tapete junto à cama, o que liberou um forte odor que acabou por contaminar o apertado quarto.

Após dez minutos de suspense, a mulher abre a porta do banheiro e com uma toalha toda esfarrapada em volta da cintura, liga o som no maior volume e começa a pular e a grunhir desesperadamente diante do embaçado e velho espelho.  Julião, que já afrouxara o cinto e se preparava para ficar de cueca, levanta-se segurando a calça e, sem que ela perceba, puxa a tomada da parede e volta num salto para a cama.

Estarrecido e momentaneamente apoplético, ele então observa que a mulher continua grunhir e a se requebrar mesmo com o som desligado, não deixando dúvidas de que era uma deficiente auditiva e consequentemente muda, não obstante fosse linda e sensual. Evidentemente que ela sabia que ao ligar o som, qualquer que fosse a estação sintonizada, a música se faria ouvir, menos para ela. A cena surreal deixou Julião constrangido e  desmotivado para qualquer aventura sexual. Até quando aquela criatura iria conseguir camuflar a sua mazela, sem sequer imaginar que o seu tumular silêncio talvez tornasse a relação muito mais interessante?

Ao ver Julião se recompor, vestindo a roupa e tentar calçar o tênis, a pobre mulher, inconformada com a iminente perda do freguês, começou a gesticular desordenadamente, agarrando-se a sua calça e puxando-a para baixo com uma força descomunal, quase derrubando-o.  Foi com imenso sacrifício que ele conseguiu segurá-la com um braço e, com o outro livre, retirou do bolso uma nota de cinquenta toda amassada e jogou na cama.  Em segundos ela pegou o dinheiro, enfiou no sutiã preto e correu para abrir a porta. Julião saiu logo atrás, desceu a carcomida e barulhenta escada, pulou os degraus de quatro em quatro,  ganhando a rua e a liberdade. Envergonhado e ofegante, respirou fundo, ajeitou o cabelo, consultou o relógio, olhou comprido para o fim da fila que serpenteava a praça, passou pela frente do ônibus e, cabisbaixo, entrou na fila do “em pé”.