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Serg Smigg 

 

IMAGENS ATRÁS DO QUADRO

 

Gosto de arte. De qualquer delas. Sempre gostei. Todo artista vive em mundos anormais nos quais a insatisfação consigo próprio é inerente à sua alma, como o ar o é ao seu corpo no mundo normal e, quem sabe, isto explique o vazio que o acomete ao terminar uma obra. Por isso, ao verdadeiro artista, as obras são eternamente inacabadas, visto que as pretensamente acabadas nunca chegarão aos pés daquela que estava em sua imaginação.

Tenho em meu escritório um pequeno quadro de um artista desconhecido que jamais permiti que tocassem, onde dois cavalos passam sobre uma ponte côncava de alvenaria. Cavalos são minha paixão, elo entre mim e meus mundos anormais, pois a mim me parece que a natureza exercita sua arte quando esculpe um corpo de cavalo no ventre da égua para adquirir experiência ao desenhar o corpo de um homem no ventre de uma mulher. Sempre que a inspiração teima em desordenar meu gosto por textos, ponho-me diante daquele quadro e fico observando o porte elegante dos cavalos. Ainda que os deuses da arte precisem de algum tempo para fluírem até mim as energias inspirativas, elas sempre vêm e nos toques no teclado do computador, meu espírito se reconstrói. Por isso, certa madrugada, resolvi tomar o quadro nas mãos pra sentir melhor a fluência da natureza e surpreendi-me com algo atrás dele, na parede.

A umidade do ar e o calor do verão e alguns microrganismos e a falta de luz atrás do quadro trabalharam silenciosamente durante muito tempo, criando uma forma estranha e muito bonita em alto relevo que tentava me dizer alguma coisa, com riscos iniciados ao leo e sem direção lógica, cores que o acaso usou e traços que o inesperado idealizou, expressão de arte sem cursos técnicos para abranger públicos. O simples e absoluto prazer do trabalho sem a preocupação mortal com a qualidade do material, com a opinião de críticos, com a visão do observador, com o retorno financeiro. Arte sem sentimentos vergonhosos muito vistos atualmente e sem a vergonha do inseguro criticado.

Quem houvera criado aquilo? De que nada nascera aquela expressão e que tudo quereria dizer ? Que significavam aqueles traços que pareciam buscar alguma coisa em lugar algum, sob a desconhecida força da persistência inapelável ? Por que um verde muito próximo a um bege com mescla de marrom claro ? E por que eu tinha a impressão de construtividade naquela imagem ? E, Deus dos Céus, quem responderia a tudo isso?

Era uma madrugada tranqüila e meu filho, de então dois anos, resmungou ressonando e sem querer, ou ouvindo minhas perguntas por vias que os homens ainda não conhecem, acabou por respondê-las. Meu filho é um pouco aquela estampa na parede atrás do quadro. No silêncio dos exemplos, no calor de nossas brincadeiras, na umidade de nossos beijos eu estou rabiscando os traços iniciais de sua personalidade.

Dentro de alguns anos, um conhecido seu estará pensativo numa madrugada tranqüila e provavelmente se lembrará dele e de seus gestos e de suas palavras, a fim de se inspirar para algum problema qualquer. Por alguma magia mental, olhará por trás disso tudo e verá a bela expressão do artista que o esculpiu do aparentemente nada que abunda ao redor da humanidade. Deus! Eu sou o tempo e o calor e a umidade do meu filho! Ele estará sendo a arte desenhada na parede e o artista não está preocupado com fama, conta bancária ou qualidade do material comprado, pois o material não é comprado.

Que meu filho seja a expressão de beleza para um mundo que, hoje, não sei se, no futuro, terá condições de saber o que é belo

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