Serg Smigg |
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A Bela Ofuscada Tinha lindas curvas espalhadas pelo corpo de sensualidade perfumada e dominadora, vistas sob qualquer que fosse o ângulo, como se estivessem presentes em seus gestos por toda sua existência. Atraia a atenção dos homens por elas e das mulheres pela inveja sobre elas. Todos aqueles fios negros que se derramavam de sua cabeça eram vistos como cabelos, mas na verdade eram o explodir de fogos de artifício numa noite de paz e alegria. A impressão que dava era que gastava dinheiros às mancheias para deixá-los esvoaçantes e lindos, porém, a olhos não de todo forçados, seria fácil notar que nenhum produto é capaz de fazer brilhar aquela luz tão natural, exceto algum fator que apenas a própria natureza produzisse. Sorria com carreiras perfeitas de dentes brancos, mantidos assim por dentistas renomados, pensava-se. Mas também não haveria dentista com senso de estética o bastante para pleitear aquela perfeição. Qualquer roupa que retirasse da estante de qualquer loja, fosse qual fosse a cor ou estilo, lhe vestia como se por meses uma equipe de estilistas houvesse se debruçado sobre a prancheta, em busca da concepção da mais bela das vestimentas. Suas unhas quase não careciam de esmalte e seus lábios arroseados dispensavam batom em prol de sua própria e natural coloração feminina. Tinha nos gestos a beleza do movimento do lince no momento da espreita e a firmeza da presa no instante da fuga. Todos os adornos postos sobre ela eram antes adornados pela aura mágica à sua volta. Era bela, era linda, era fantástica. Escoaçava antes de caminhar, sonorizava antes de falar, disparava luzes antes de olhar. Era em si a linha determinante na vida dos homens, que os transformava em exigentes ou não, dependendo de já se terem deparado com ela ou não. Era simpática, jovial, bela, cativante. Se estava à espera de ônibus à calçada, nada mais era visto; se estava em sala de aula, o professor era esquecido; se em restaurante, silêncio nos talheres; se em passeio na avenida, era uma avenida deserta. As mãos delicadas pareciam ter preservado a suavidade dos movimentos de quando recém-nascida e seu bailar ao caminhar era tudo, exceto andar. Não havia quem não a olhasse. Certamente representava a opinião unânime sobre beleza e sensualidade. O mundo parava à sua volta. Todos eram como que repentinamente transformados em pintores admirando a obra da natureza, turistas se empolgando com a paisagem, amantes se embevecendo com a beleza da amante. Era um marco, era uma seta dizendo onde estava a plástica invejável, era o ponto de atenção geral, era o chamado do canto da sereia, a varinha de condão da fada. Era mulher. Dizia sem falar sobre a virtuose da mãe natureza em prover de plenitude um corpo humano. Mostrava sem apontar o orgulho de se ser humano. Sem esforço, exprimia a força do cosmos na constituição da compleição da mulher e se tornava astro-rei com milhares de satélites em órbita, cheios de prazer por orbitarem-na. Era assim a amostra máxima do que Deus pode fazer de especial e se quem a avistasse pela primeira vez não cresse em anjos perfeitos, teria o ímpeto de imaginar que jamais deixaria de crer que eles existissem. Admirá-la era esperar dias melhores, pois a sensação de benesse escapava por seus poros, seus jeitos, seus olhares. Via-se felicidade em sua imagem e calma em sua silhueta e a paz que o mundo cão escondia podia ser sentida em seu caminhar. Era bem o caminho para a busca incessante a mundos bons e belos, perfeitos e plásticos, onde o sorriso era encarado como sorriso e não como expressão de intenções indevassáveis; onde os bons-dias era ditos sem a máscara da obrigação; onde a humanidade se encaixava milimetricamente no estigma de ser humano. Era a visão da pleni-consciência da beleza humana. A calma dos mares há muito conhecidos e a paz do cair da gota do orvalho no vértice maior da folha da planta, numa manhã em que o sol sorri em dourados ao mundo que desperta. Teria o poder de parar o tempo, se quisesse. De pintar sentimentos, se pedissem e de fazer carícias com seus olhares, se precisassem. Era mulher. E era bela. Devolvia em simpatia o deleite dos circunstantes que a observavam. Era linda. Mas num relance, foi preterida. Os que a admiravam encontraram outro foco de atração visual. Foi repentina e assustadora a maneira como deixaram de vê-la ao passar pela calçada, como seu perfume natural deixou de ser percebido, como seus cabelos já não brilhavam como antes. Seu menear de quadril já era normal, seu sorriso perdera o encanto, sua voz já não tinha ouvidos abertos. Se a consideravam a exata imagem da perfeição divina, agora era mesmo mais um corpo bonito, apenas. Tinham outro foco de atenção pelo quê se mostrarem ávidos, tinham outro elo com a transcendência para se vincularem à natureza. A bela estava ofuscada. Eu tinha notado isso quando passei de carro no ponto de ônibus em que ela estava. Eu tinha adquirido o hábito de admirar a maneira respeitosa como as pessoas a observavam enquanto aguardavam o lotação. Mas naquele dia, ninguém a olhava. Ninguém era imantado pelo frescor de sua pele e ninguém se deixava envolver pelo brilho de seus dentes perfeitos, sempre à mostra na mostra intensa da intensa simpatia. Quem passava nos carros não a via mais. Tinha sido ofuscada. O engraçado era que ainda continuava sendo a expressão máxima da beleza transcendental. Mas o ser humano é um bicho de difícil compreensão e jamais vou entender o motivo pelo qual a bela mulher estava esquecida no tempo e no espaço, enquanto as pessoas observavam atentamente uma outra jovem, recém chegada ao bairro, a quem a mãe natureza tinha esquecido de embelezar, além de ter demarcado com enorme corcunda e olhos estrábicos. O ser humano é um bicho de difícil compreensão.
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