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Serg Smigg 

 


(Dedicado à Kika, Blumenau [BIG TIMBER], e às mulheres fantásticas que ela representa tão bem)


O vazar do Olho Cego

Enquanto o tempo desenhava, calmamente, os últimos três anos ao redor de sua vida, usando para tanto alguns fatos corriqueiros de seu dia-a-dia, sua mente desenhava o efeito do prazer de ver sua ex-mulher em extrema decadência. Decadência real, era o que procurava dizer a si mesmo. "Ex-cônjuge", segundo os parâmetros da legislação vigente. "Ex-propriedade", segundo seus próprios parâmetros pessoais.

Tinha levantado um mundo à parte do mundo a que imbecis....

- ... só você é importante no mundo, meu filho. Lembre-se sempre disso.

... chamam de normal e o tinha instalado ao redor dela, da mulher. Tinha esquecido lamentações pessoais da pós-adolescência com as quais fez fender sua personalidade doentiamente propensa ao egocentrismo....

- ... é o centro do mundo, filho. O homem mais importante dele.

... para roubar se si mesmo o direito à própria vida e entregar a ela de forma plena e, como descobrira mais tarde, com alegria por tê-lo feito. Conhecera-a numa festa....

- ... olá, Roberta. Deixe que eu apresente meu amigo, Roberto...

... de casamento de um amigo de faculdade, muito tempo depois de ter prometido a si mesmo que jamais se deixaria envolver por mulher alguma, pois tinha planos irrevogáveis para seus futuros. Enriquecer. Dinheiro e mulheres são fatores intocáveis, plenamente distintos, tão distintos que não co-existem, era o que pensava. Talvez haja algumas enzimas na composição química destes dois elementos que não se combinam, que se destruam reciprocamente, costumava dizer aos colegas, quando nos bares.

- ... ele sempre me disse que quer distância de mulheres compromissáveis, mas não é o que estou lendo em seus olhos enquanto olha para você, Roberta....

Mas Roberta tinha posto abaixo toda sua estrutura com apenas um sorriso furtivo, sorrateiro, desinteressado, lançado por detrás de um copo de licor que levava aos lábios vermelhos sem batom, numa roda de amigos, naquela noite. Não fora bem um sorriso, ou apenas um sorriso, mas um míssil catapultado de uma base militar poderosa e atingido sua atenção inexpugnavelmente. Por ela, a partir de então, tinha vivido. Tanto por causa dela como para ela. Todo seu ser macho se içara das profundezas dos mundos sub-mentais, nos quais era rei absoluto, para dizer-lhe que viveria para todo o sempre em prol de sua felicidade. Sua auto-promessa de enriquecer o quanto antes tinha, agora, um motivo a mais e certamente o mais forte deles. Já não enriqueceria por simplesmente querer, mas por ela.

Tornou-se advogado antes do que planejara, montou contatos políticos tão facilmente quanto se propusera, fez-se conhecido nas rodas de falcatruas tão inteligentemente quanto determinara e casou-se com Roberta....

- ... engraçado você se chamar Roberta e eu tê-la conhecido aqui, numa festa de casamento....

... muito antes de que pudesse se lembrar notadamente que, dentro de si próprio, dinheiro e esposa são incompatíveis. Afinal, amava-a como se um espectro em órbitas pessoais de homem seguro e determinado.

Por cinco anos seguidos deu o paraíso a ela. Mostrado como se adora uma mulher, a despeito de todos os seus jogos interiores em contrário. Todas as horas que passou engalfinhado em contendas políticas, chegando tarde em casa, já há muito passada a hora do jantar. Os filhos que não quisera ter para não desalojar a beleza de seu corpo lindo. A casa muito bem montada para que ela nela reinasse. A distância que incutira no relacionamento com seus próprios familiares e com os familiares dela, para que não atrapalhassem a deliciosa vida em comum. Os caríssimos vestidos que comprara. A proibição ao trabalho que fizera lei conjugal para que ela não envelhecesse. As vezes que a trancara em casa para que a fealdade da vida não conspurcasse seu semblante maravilhoso...

- ... se eu cresse em destino, diria que isto é uma de suas brincadeiras....

... e destruísse a paz no lar. A imagem de homem forte que criara em torno de si mesmo para que ela tivesse um ser a quem venerar. Nem mesmo suas jogadas políticas permitiu que ela notasse, a fim de preservar aquela imagem. As dezenas de telefonemas diários, do escritório para casa, para simplesmente dizer que a amava. Tudo, tudo fizera para que se sentisse uma rainha.

Não obstante, ela o tinha deixado.

- ... o que faz na vida, Roberto ?

Viveu em função dela, a desmiolada. Não entendeu tudo que preparara, tudo que fizera, tudo que amealhara para que tivessem uma vida abastada. Ela o tinha deixado, usado um colega para comunicar-lhe que entraria com pedido de divórcio.

Havia sido uma perda incontestável depois de se refazer da surpresa absoluta e, antes de cair totalmente aquele seu mundo de "eus" somente, o mundo se formara numa espécie de buraco negro, enquanto seu colega comunicava sua decisão. Sua vida tinha sido um conjunto de perdas até o momento em que se julgou adulto bastante para jamais tornar a aceitá-las. Pelo menos não complacentemente. Aprendeu a brigar com tudo e com todos por vitórias com armas próprias, conseguidas ao longo da vida, não importando o tipo ou o nível de belicosidade delas. Pegara cada dia sem comida e o acrescentara aos futuros dias de fartura; cada hora de desgosto e a transpusera às que conseguiria, fatalmente, repletas de gozo pessoal. Portanto, não era possível que o jogo estivesse perdido quando seu time estava jogando excepcionalmente bem, que a tinta da caneta do cliente milionário acabasse no exato momento em que este assinava o cheque, que o pára-quedas se rasgasse a apenas dez metros do chão. Estava tudo tão bem.... aquilo era uma brincadeira. Ela não poderia deixar de notar a burrada que estava fazendo ao deixar um homem como ele, ao permitir que fosse livre no mundo, jogando para trás todos os cinco anos de paz e companheirismo que ele, com sua inteligência e sagacidade, havia conseguido embutir no relacionamento dos dois. De sapatos à boa alimentação, passando por conforto pleno, ele tinha transformado sua vida em torrentes de felicidade.

Mas o tinha deixado...

- ... não agüento mais esta pressão...

... para viver uma vida de liberdade, era o que tinha dito. Liberdade para que? Para buscar seu próprio sustento ? Para trabalhar e se sentir útil ? Teria capacidade para isso ? Ele a tinha feito, ela a tinha mantido como ser humano, ele a tinha transformado em ser adorável.

Pois bem.... dera-lhe três anos, a partir da assinatura do divórcio....

- ... e então, vou vê-la....

.... para se arrepender daquela idiotice. Perceberá que não poderia viver sem seu apoio. Afinal, na vida nababesca que a fizera viver, nem mesmo a faculdade de odontologia havia terminado, tão protetor ele havia se mostrado...

- ... e me deliciar com sua decadência, imbecil. Ficarei na esquina da rua imunda onde morará, seja onde for, observando a fachada do barraco que chamará de casa. Sorrirei dos trapos que terá como roupas e dos dentes cariados tentando ser sorrisos, sua dentistazinha medíocre...

... e tão nobres sentimentos havia oferecido.

Entrou no carro importado que comprara especialmente para visitá-la, naquela tarde de sol de um domingo gostoso. Dias antes, contratara um detetive particular apenas para saber de seu paradeiro.

- ...só o endereço, nada mais. Deixe que o resto faço eu...,

Deixaria que a vida fizesse o restante do trabalho, furando as solas dos sapatos caros com os quais a presenteou, sorridentemente. Deixaria que a vida calejasse aquelas mãos para as quais pagara manicures com a incumbência de realçarem seu frescor natural, deixaria que sua pele alva se escurecesse sob o sol forte a procura de empregos. Que suas roupas se surrassem lentamente e se folgassem ao redor do corpo que emagreceria claramente, sob o efeito da fome que passará ao não mais poder contar com o conforto que ele próprio havia se encarregado de fazer fluir em sua vida. Estúpida.

Fez-se envolver numa nuvem esfuziante de perfume francês somente para que ela vislumbrasse a distância social entre os dois e escolheu um paletó no qual a etiqueta da grife mundial saltasse a olhos até mesmo menos atentos. Tinha passado a manhã na manicure e cabeleireiro e ambos, unhas e cabelos, reluziam a plástica comprada com muitos dinheiros. Mas aquilo tudo não passaria de pretensas formas de vinganças baratas se comparado à altivez através da qual a fitaria, do alto de seu ápice de homem forte e bem posto na vida. Esmagaria sua leviandade com um sorriso muito bem trabalhado e a faria notar, de uma vez por todas, sua estupidez medonha. Faria com que percebesse o homem que perdeu, o companheiro do qual se separou, o amigo que traiu. O homem perdido, o companheiro separado e o amigo traído não o caracterizariam a contento, raciocinou bem. Seria melhor "senhor contra o qual se rebelou".

Diminuiu a velocidade numa esquina específica e conferiu o endereço que o detetive fornecera. O bairro não era tão pobre quanto sua megalomania procurou vislumbrar ao longo dos anos, mas não se comparava, claro, ao bairro em que morava, com seguranças às portas das mansões e jardins se espalhando diante das fachadas. Estacionou em frente à casa, aguardou alguns minutos para que algumas crianças se aproximassem e admirassem o carro, a roupa, o perfume. Isto tornaria mais clara sua posição de vencedor perante a mulher.

- ... a Dona Roberta não está ai, moço...

Um ousado menino lhe dirigiu a palavra sem ao menos olhar para ele, em resposta ao gesto que expressara de acionar a campainha. Tirou automaticamente uma nota de dez reais da carteira e estendeu o braço ao garoto, que ficou apenas observando o dinheiro sem tocá-lo.

- Ela tá na praça, trabalhando. Todos os domingos ela fica lá, a tarde toda.

"Trabalhando", ele ironizou. "Tadinha... que peninha dela". Entrou novamente no carro e rumou para a direção apontada pelo garoto e, em sua cegueira mental, não notara que não havia meninos em volta de seu carro, nem sentindo seu perfume, nem admirando suas roupas. Não notou também que alguma coisa na fachada da casa teimava em chamar sua atenção, como um ponto móvel qualquer fortemente amarelo no horizonte imóvel fortemente azul, observado apenas por soslaio. Talvez a pintura da casa, o tipo de porta, uma janela entreaberta. Sabia-se lá! O importante era que estava em direção a três anos passados em esperas e expectativas.

Cantalorou por todo o percurso até a praça enquanto....

- "... o que havia diante da fachada da casa miserável daquela vagabunda?..."

... a imaginava atrás de um tabuleiro de míseros, desprezíveis e pobres salgadinhos feitos com esforço e suor nos finais de dias cansativos de um trabalho qualquer, igualmente exaustivo. Ou debaixo de um toldo maltrapilho, quentíssimo pelo sol de tardes, enfrentando fregueses da banca de pastel...

- ".... seria o muro da casa que me chamou a atenção ? Mas um muro tão normal..."

...gritando seus desejos de pobres: "dá um de carne", "p'ra mim, de queijo". Ou, quem sabe, vendendo bugigangas trazidas sorrateiramente do Paraguai, escondidas de fiscais corruptíveis. Tamborilou os dedos no volante, acompanhando Chico Buarque em "...amanhã vai ser outro dia, amanhã vai ser outro dia...". Ouvia sua própria voz em coral com a de Chico e sentiu-a capacitadamente apropriada para a circunstância.

- ... o muro. Não, não é o muro. Talvez o jardim. Droga! O que há na casa de tão importante ???

Imaginou se ela estaria sorrindo enquanto atrás da banquinha fétida. E se permaneceria sorrindo ao vê-lo. Não. Ele seria algo como uma tapa naquela cara linda. Estaria ainda linda? Ou os três anos passados em penúria teriam sido uma incrível corrente de ventos levando para longe tudo ao redor, inclusive a beleza ?
Ia lentamente pela rua, saboreando antecipadamente o momento único de sua vida. Fizera falir muitos empresários, efeito de sua arrogância como representante de credores intransigentes, e nestes momentos o sabor do poder era bem o sabor de néctares cósmicos. Mandara para o presídio muitos acusados que nem sabia serem ou não culpados e nestes momentos o espírito de imperador era bem a medida de suas vontades. Contudo, nenhuma situação poderia ser comparada àquela, jamais. Com empresários e réus seus vínculos era irreais, forjados a partir do cheque de seus próprios clientes. Com ela, a esposa, o caso era outro. Saciar sua sede de vingança a partir da sua destruição seria mais que fantástico. Seria anormalmente belo.

Desceu do carro e buscou-a com os olhos, mantendo neles o brilho da inimizade tão forte quanto o do amor que antes nutrira por ela. Ao longe, viu um aglomerado de crianças pobres em pequena algazarra...

- ...a janela pintada em cor berrante? ...Não... não havia janelas em cores berrantes na casa daquela uma... Algo acima na casa? Ou próximo ao telhado? Sim.... era possível.

... ao redor de duas pessoas, uma das quais, de longe, pareceu apresentar a silhueta de Roberta. Firmou os olhos e da impressão insegura à certeza surpreendente foi apenas um átimo. Realmente era ela. Rodeada de crianças estúpidas e fedorentas. Caminhou em sua direção fazendo realçar o semblante altivo no gesto de içar mais a cabeça, instalou os óculos escuros para que, ao tirá-lo, o impacto ao fitá-la fosse prudentemente fabricado e redesenhou os próprios passos como decididos e seguros. Infelizmente, ela estava no centro da praça, pensou. Não poderia vislumbrar o carro, mas poderia admirar suas roupas e sapatos e cabelos. Estenderia a mão para que notasse o esplendor dela. Simplesmente a esmagaria.

Enquanto caminhava, seu campo visual se completava. Foi assim que se apercebeu de um clima diferente, uma organização anormal para uma praça e, principalmente, uma praça de pobres. O sol era algoz, porém, não o sentia, já que sua atenção estava toda voltada ao consultório improvisado ali montado. Talvez se chovesse em tempestades nem as sentisse. O vestido branco de Roberta transformou-se em jaleco, o cansaço imaginado em seu semblante em sorriso leve e gostoso, os sapatos surrados em sapatilhas brancas simpáticas. E não havia churrasquinhos ou pastéis em suas mãos ou sobre uma barraca fétida. Nem barraca havia, mas uma cadeira de dentista no centro de uma quadra de futebol e uma broca nas mãos de Roberta. 

Um homem, também de branco, trabalhava em outra cadeira, um pouco distante. Roberto morreu um pouco mais ao notar o sorriso de tal homem dirigido à Roberta. Não pelo sorriso em si, mas pela maneira como fora sorrido. Todos os seus próprios a ela jogados até então pareceram estúpidos, já que vinham de presentes caros, de circunstâncias montadas, pré-feitas por sua conta bancária. O homem sorria belezas indizíveis à mulher que, minutos antes, estava desdentada, maltrapilha, vencida e a tornava a mulher mais linda e feliz do mundo.

A extraordinária aparência física de Roberta completou sua morte, contudo, foi o que ela deixava no ar ao seu redor que realmente enterrava em definitivo o punhal no homem imbecil que se fez por toda sua vida em seu interior. Era algo de plenitude, de auto-forma, de busca a si mesmo, de ternura. Coisas que jamais havia visto enquanto juntos e, pensou, mesmo que com tais tivesse deparado, talvez nunca as tivesse reconhecido, pois não faziam parte de seu campo de ação inteligente. Seus cabelos esvoaçantes eram qualquer algo de auréola para sua alma; seus gestos seguros diziam da profissional fantástica em que conseguiu se formar naqueles três anos; a música que agora cantarolava, acompanhada por todas as crianças, dizia do prazer do trabalho sem recibos bancários tolhendo sua espontaneidade; as brincadeiras com todas as boquinhas abertas ao réu redor, como passarinhos esperando comida, entraram no âmago de Roberto e dilacerou tudo que ainda houvesse lá dentro.

Sentou-se na mureta baixa de um jardim atrás de si e ali permaneceu e ali permaneceria tantas horas quantas fossem preciso para o findar da cena que via. Apoiou o cotovelo na perna e o queixo na mão e acomodou-se. Não percebia, mas uma lágrima em breve correria por sua pele bem tratada. Pouco antes disso, viu um carrinho de bebê se aproximando pela ação de uma senhora que, reconheceu, era a mãe de Roberta, hoje já de volta às raias dela. Ouviu quanto Roberta informou que a "Tia Roberta" ia ter de parar de trabalhar um pouquinho, pois tinha o mais sublime, importante e delicioso trabalho que uma mulher poderia ter. A visão de Roberta se curvando sobre o carrinho de bebê, sorrindo, olhando-o com ternura, voltando o rosto para o, agora o sabia, marido e sorrindo mais, abraçando o, agora já o percebia, filho e acarinhando-o, caminhando como em nuvens para um banco qualquer, virando-se para sentar-se, sentar-se lentamente para evitar movimentos bruscos, descobrindo o rosto angelical de uma criança que ele nunca quis ter, levando a mão ao colo para retirar de lá o seio exacerbadamente belo e repleto de leite, encaixando-o na boquinha do filho, entrefechando os olhos pelo prazer que tal gesto lhe dava, sorrir mais ainda para o filho e inspirar.... toda essa visão chegava embaçada para Roberto. Aliás, todo seu campo visual estava embaçado.

A imagem de um homem se aproximando de Roberta e o filho e se curvando sobre eles, beijando-a e ao filho igualmente, também chegava embaçada a Roberto. Outros profissionais tomando o lugar dos dois dentistas, enquanto estes se desmanchavam em prazeres a três, era uma visão que também se turvava até chegar a ele. Roberta notando sua presença ali, movimentando o rosto em sua direção para que o marido o conhecesse, o homem pondo-se ereto e fitando-o com respeito, era também uma fotografia meio apagada a ele. O olhar carinhoso de Roberta em sua direção, o mesmo olhar-míssil de oito anos antes, senhora de si, absorta pela alma de maternidade, também era imagem enevoada.

Tudo estava meio turvo, embaçado. Roberto chorava o homem que nunca tinha conseguido ser e que aquele ali, ao lado de sua ex-mulher, "ex-companheira", pensou melhor, era com tanta facilidade. O mundo, então, já não girava em prol de suas vontades e tudo que estava nele deixou de pertencer-lhe. Os cinco anos de total dedicação a ela deixaram de ser reais e notou que jamais a tinha amado, senão apenas a segurado. Seu olho estava cego e ele não havia notado até aquela tarde, cego e agora vazava uma água há muito desconhecida.

Levantou-se calmamente, aproximou-se humildemente, estendeu a mão ao homem e apertou a mão estendida dele, fixou seus olhos molhados nos olhos brilhantes de Roberta e pendeu o corpo contra seu rosto, beijando-lhe a testa. Ajoelhou-se no chão, sujando a Pierre Cardin e torcendo o bico dos sapatos irlandeses, e olhou o filho que deixara escapar em meio à sua idiotice sem tamanho. Pôs-se em pé novamente e observou todas aquelas crianças pobres assistidas pelo casal maravilhoso que agora reconhecia como tal. Virou-se, entrou no carro e desapareceu.

Quando, na volta, passou novamente diante da casa dela, não teve tento para mirar a fachada. Talvez se o tivesse feito sorriria um rasgar tranqüilo de lábios limpos ao ler "Campanha 'Amanhã será outro dia de sorrir melhor' de limpeza dentária, na praça, neste final de semana. Tragam seus filhos". Mas ainda tamborilava o volante do carro, agora já sem o Chico, rememorando a música cantada minutos antes.


  • Serg Smigg é Professor, Escritor e Revisor Profissional.

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