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Serg Smigg 

 



 O Lobo de Blumenau e seus dois Chapéus

 

Um setembro ranzinza estava dando mostras de que a primavera ainda estava longe. Não no calendário, mas no clima, já que boa parte do frio agosto parecia querer se agigantar mais que o necessário nas semanas posteriores. O sol ainda era criança, criança perdida na multidão, em meio a ventos que faziam das nuvens como que embarcações aéreas, apesar de muito bonitas, cujo trajeto parecia levá-las a lugar algum n’uma viagem insólita e lenta.

Como o sol, eu também estava meio que perdido em Blumenau e, como setembro, meio ranzinza sob meus próprios climas interiores repletos de nuvens mais obscuras que aquelas que via no lindo céu da região. Era a primeira vez que visitava a cidade do chopp, naquele momento envolvida em preparativos para a festa de outubro, já conhecida de todo país. Estava lá a convite de uma grande livraria para apresentar meu livro, AS ÚLTIMAS OVELHAS, na época recém-lançado, e meu espírito pulava de uma sensação à outra como pássaro no cio a procura de um galho acolhedor onde houvesse uma fêmea carinhosa. Havia insegurança nos meus dias, improdutividade em minhas ações, ociosidade mórbida e mortal em meus quefazeres e tudo aquilo me desagradava sobremaneira, pois, em sentindo o passar do tempo em minhas entranhas sem que meus objetivos, alguns pelo menos, fossem tocados, embafustava-me em mim mesmo, vasculhando minhas próprias células cerebrais à procura de destinos e caminhos. 

Era uma quarta-feira e era tarde. Tarde na vida, também, não apenas no relógio. Caminhava lento, mas não cabisbaixo, pelas ruas desconhecidas de Blumenau, largas e abundantes em gentes, mas não em amigos. Via prédios e não via lares, via corpos e não via pessoas, via o longe e não via o onde. As palavras de conforto e força expostas no AS ÚLTIMAS OVELHAS pareciam se perder dentro sua própria nascente, minha mente, pois, por motivos mil, faltava-me o senso da perspectiva, o sorriso da esperança, faltava-me o chão para o passo seguinte. Estava em Blumenau para mostrar minha obra e não tinha a mínima condição para tanto. Aquilo para o qual corri toda minha vida começou a ir embora no momento em que me aproximei, como um maço de feno, diante do cavalo, pendurado por um barbante e este atado ao corpo do animal. A nulidade do passo dado em direção ao feno chega a ser ridícula e, mesmo assim, o cavalo continua a andar. Assim me sentia em relação a meus objetivos: anulado.

A Rua Quinze de Novembro era só movimento e, para mim, movimentos desconhecidos. Não reconhecia os risos, as brincadeiras, a cerveja nas mesas de bar expostas nas calçadas. As próprias calçadas me pareciam não seguras, como meu caminhar, improfícuo. Contudo, sempre gostei de andar. É, antes de passatempo, um ritual de auto-desobsessão. Foi n’um caminhar meio que intranqüilo que o avistei, pois foi n’um repente estranho que me vi na Ponte de Ferro, uma passagem de bela estética arquitetônica da cidade. Uns cinqüenta anos no corpo e milhões no espírito, roupas rotas como vestimenta física e paz como vestimenta espiritual. Estava andando, antes, dançando, a dez ou quinze metros à minha frente. Mantinha os braços abertos como se voasse e, em passos largos como se buscasse superar obstáculos que eu não via, sorria a cada lance de chão ganho. Diminui o ritmo dos passos. Algo nele me chamou a atenção e precisava saber o que poderia ser. Notar que ele içava o rosto para o alto enquanto sorria foi menos esclarecedor que os dois chapéus que usava na cabeça, um sobre o outro, e a atenção que chamava dos transeuntes me era mais que normal, para as circunstâncias. Os chapéus eram algo estranho n’um mundo normais, de visual pré-requisitado, de posturas pré-fabricadas diante de espelhos para depois serem mostradas em sociedade. 

Mas foi seu semblante que me disse muito. E seus olhos. Tinha o brilho da inteligência nos olhos e o da amizade no semblante, apesar de completamente despojado de sutileza na postura. Parecia fazer o que lhe ia n’alma sem se importar com terceiros, se tais terceiros  pre-julgam, prognosticam, se tais terceiros “amanhecem no hoje”, como me disse momentos depois, me fazendo entender parte de seu comportamento. Levantava o rosto e movia os braços, parava, continuava, observava. Tudo nele era normal, naturalmente provindo de dentro de si. Nada que fizesse podia ser pré-classificado, pois tudo nele tinha a força da certeza de si mesmo e a grandiosidade dos que sabem o que fazem na vida e onde querem chegar.

- As pessoas que me olham se esquecem de si mesmas por alguns instantes e,    conseqüentemente, de suas próprias falhas, o que as torna momentaneamente perfeitas.


Eu não cria que ouvira aquilo, sentados n’uma calçada sob ventos e sóis concomitantes, de um quase indigente, de um homem que tem audácia bastante para sair às ruas com dois chapéus na cabeça e, ainda assim, se sentir seguro sobre seu próprio gestual.

Muito prazer, - lançou sua mão para mim como se me desse um objeto valiosíssimo de presente – eles me chamam de Lobo. Mas não me pergunte o por quê do “Lobo” e nem quem são eles. O “lobo” talvez eu explique, mas o “eles” me é plenamente desconhecido.

 Sorri, sempre observando seus chapéus. Era tudo que eu podia fazer. Dei-lhe a mão como se tomasse nas minhas um objeto valiosíssimo, mas não frágil. O calor que dele vinha era diferente. “É o calor da amizade plena sem motivos ou origens”, disse-me ele, “nunca sentiu antes?” Não. Jamais havia sentido, pelo menos não naquele diapasão sobrenatural.

 - Os chapéus? E por que não? Sou eu quem os quer, quem os usa. É assim que os quero e para mim, meu próprio querer é minha lei, é assim que acho que devo usá-los. Sou mais que alguns gestos não sociais em plena rua, mais que dois chapéus n’uma mesma cabeça, mais que roupas rotas. Veja! Além de tudo isso, sou também sorrisos e perseveranças, olhares amigos e semblantes calmos. Chamam-me o Lobo sem perceber a essência do lobo como um ser não abstrato, mas físico, palpável e, observe, belo e astuto. Vêem meus chapéus como o ponto de equilíbrio entre o que não gostariam de ser e o que realmente são, embora todo manancial de sabedoria sobre si mesmo não está mais longe que o caminho entre seus cérebros e seus corações. As pessoas que aqui me fitam são as mesmas que não saem do divã, sem jamais terem se deitado n’um deles. São capas de livros que nada dizem, nada acrescentam.

Conversamos por muito tempo, sentados na calçada que agora já me parecia mais segura. O mundo estava me parecendo mais seguro, apesar de fragilmente solto no espaço sem conta. O homem ao meu lado nem percebia as pessoas que torciam o pescoço para nos observar. A vida parecia passar por ele com a alegria de existência que jamais vislumbrei n’um ser humano. Os chapéus em sua cabeça perderam a importância do socialmente correto e passou ter importância de fato, como uma marca de nascença. A certeza que de era assim que ele próprio se amava e se respeitava transbordava de cada gesto ou sorriso ou palavra. Imaginei lunetas coloridas diante de seus olhos, pelas quais ele via apenas o colorido da vida. Contudo, sabia que não era bem assim. Descobri isso sua maneira de se expressar. As lunetas estavam acopladas em si, como retinas, talvez nos olhos de suas meninas-dos-olhos e não eram coloridas e sim, coloriam. Os fatos da vida eram para ele como que matéria-prima para sua alegria e forma de ser. O que não fosse de boa qualidade, simplesmente mantinha estocado. Vivia o momento, vivia o ser.

 Ele se levantou e aprumou-se. Disse que tinha coisas a fazer. “Conquistar o mundo, por exemplo. E já. Não quer me ajudar?”. Apertei sua mão novamente e novamente senti a força da “amizade sem origens”. Sentado, senti que me puxava para cima. Achei o momento fantasticamente belo, pois içou-me lentamente como se quisesse mostrar que o fazia e me olhava nas profundezas dos olhos enquanto me puxava. Foram apenas segundos no gesto, mas fora como se tivesse sido lançado para o cosmo e, quando pensei que já tinha me surpreendido em tudo com aquele ser, disse-me algo que deixou-me pasmo.

 -   “... Todo ser humano tem uma parte de si, escondida não se sabe onde, que vê o lado da vida que os olhos físicos não vêem. Transcendentalistas há muito voltados para dentro de si mesmos, que já vivem mais o ‘não-ser’, para quem o existir é um conjunto de experiências a ser vivido, chamam essa parte de ‘Olho de Deus que Fala’.”

Sorriu e se foi. Não esperou minha resposta à pergunta tão sutil. Sabia que tinha me deixado em frangalhos comigo mesmo e minha falta de perspectivas para os quefazeres, para com meus objetivos. Vi-o distanciar-se da mesma maneira como o tinha visto antes, braços abertos e dois chapéus na cabeça. E já não estava surpreso quando, de volta ao hotel, abri AS ÚLTIMAS OVELHAS e procurei uma certa seqüência iniciada por “todo ser humano tem uma parte de si, escondida não se sabe onde, que vê o lado da vida que os olhos....”. Fechei o livro e o abracei como a um filho há muito desejado, como a um lobo que, se apenas visto, põe medo, mas é capaz de carinhos sensíveis, se conhecido. Deixei, então, de me preocupar ferranhamente com o que capturam de minhas palavras em meus livros ou contos ou crônicas. Afinal, há um mundo a ser conquistado.

 


  • Serg Smigg é Professor, Escritor e Revisor Profissional.

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