Serg Smigg |
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O Jardim dos Excluídos Não
sei exatamente quando, mas me lembro de que, já faz meses, resolvi
construir um jardim em meu quintal. Sempre admirei plantas em geral, porém,
jamais as tinha visto como seres suficientemente capazes de enternecer
corações, mentes, almas. Via-as como ornamentos bastante interessantes
para salas, terrenos ou, no máximo, espíritos desconexos da realidade em
que vivemos, posto que notícias de empresários milionários que gastam
fortunas em arquitetura paisagista entravam em minha intuição
percepcional como setas indicativas do que era certo ou errado. Não que
os criticasse ou mesmo que não os compreendesse. Afinal, sentia eu, eram
donos de seus impérios, tanto financeiros quando conscienciais, e julgá-los
sob meus prismas me parecia demasiado invasão de seus mundos pessoais. Meu
filho, hoje com quatro anos, resolvera que eu não conseguiria construir
um jardim sem sua parceria ou ajuda. Apanhou sua enxada e balde plásticos,
colocou seu bonezinho e sorriu. Tem um sorriso lindo, meu filho! E
palavras estranhamente fortes, quando preciso delas. Afofamos o solo,
jogamos lixo orgânico sobre ele e lançamos vários quilos de terra
preta. Na semana seguinte, iniciamos a plantação. —
Mas por que, Pai? A
pergunta tinha nascido da ingenuidade infantil, nela se agigantado com o
conluio do sorrisinho matreiro de meu filho, e de qualquer criança que
convive abertamente com seus pais, e ganho perspectiva de força incoercível
nos seus olhares profundos entalados nos meus, capazes de mover as
montanhas que há em mim, tenho certeza. Preparava-me para retirar a
primeira das ervas daninhas que espocavam no solo, enquanto emitia uma idéia
separatista qualquer para explicar inconscientemente, a ele, meu gesto
que, filosoficamente, se tornaria improfícuo e incongruente diante de
todas as palestras que elaborei nos últimos anos, caso meu filho não se
pronunciasse tão audaciosamente como sói acontecer às crianças, tão
confiantes em si mesmas. Foi
um “Mas por que, Pai?” que expandia luzes, que concretizava certezas,
que prenunciava e ao mesmo tempo rompia preconceitos, que apanhava
palavras automáticas jogadas no ar, recoloria-as com fortes idéias
naquele instante revistas e repunha-as delicadamente na atmosfera,
formando um entressalto no vácuo de tudo que eu dissera até então a
meus ouvintes nas palestras e tudo que diria, a partir de então, a
outros, em outras tantas. Que tipo de resposta poderia dar a um “Mas por
que, Pai?” cuja lógica era mais que simplesmente um consenso hermético
ou uma sensação de fraternidade arraigada num espírito de quatro anos
de idade, fisicos? Uma das respostas seria “porque é mais fácil e rápido,
filho, retirar as ervas daninhas”. Mas nem aquela cabecinha estranha nem
minha própria cabeça, bem como meu inconsciente, se satisfariam com essa
resposta imediatista, conservadora e confortacionista. Lançar
ervas daninhas no incinerador era satisfazer-me com a imagem de força
sobre aqueles seres, e satisfazer-me com prazer; jogá-las no lixo era
roubar suas possibilidades de tornarem-se úteis; esmagá-las, esquecer o
esforço que a Mãe Natureza empreendeu no microscópico mundo dos gametas
para, já então, fazê-las participar do fenômeno do nascimento, sempre
muito surpreendente; ceifá-las, mancomunar-me com os princípios arcaicos
da “melhoria forçada de raças”. Repentinamente
percebi, nos olhos de meu filho, que os matinhos disformes e sem cores
definidas poderiam, se tivessem chance, embelezar uma parte qualquer do
jardim. Sem mesmo apartá-los do universo-habitat, o jardim, mas
aproveitando o que de bom poderiam oferecer aos olhos de eventuais
admiradores, acrescentariam uma aura diferente àquela parte de meu
quintal que não simplesmente a notória necessidade de beleza física e
constante, tão em voga na mídia atual e, vejam só, tão criticada por
mim em minhas conversas. Havia
um elo muito grande entre o homem que meu filho estava, e está, formando
em sua cabecinha e o homem de quatro anos que propunha com profundidade
marcante um novo conceito de irmandade e igualdade. Indubitavelmente, eu
soube que tal elo era o “Mas por que, Pai?”. Hoje,
não diria hipócrita, pia e peremptoriamente que aquela extremidade de
meu, de nosso, jardim apresenta uma beleza radiante ou mesmo uma imagem
boa de ser vista. Contudo, realça uma sobrenatural descarga de imagens
invisíveis entre mim e meu filho e nos faz sorrir quando, nalgumas manhãs,
ambos acordamos e apanhamos os regadores. Noutras manhãs, aquelas dos
dias posteriores às notícias de rebelião em detenções, às
reportagens sobre condições subumanas em hospitais psiquiátricos, às
informações sobre revoltas raciais pelo mundo ou às análises sociológicas
e antropológicas do comportamento dos habitantes de favelas, naquelas
manhãs invariavelmente minha sensação
de paz e harmonia intensifica-se e ganha mais força para continuar a
expor minhas mensagens nas palestras sobre evolução humana. Agora,
com o aval de um homem magnífico de quatro anos de idade.
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