Serg Smigg |
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O jeito brasileiro de ser tem sido pintado em cores românticas, de Portinari a Tarsila do Amaral; em versos fortes de sobrecenho grave, de Drumond a Martinho da Vila; em projetos nobres de linhas cadenciadas e belas, a partir de Niemeyer. Esse esforço do brasil-indivíduo de constituir uma fotografia viva do Brasil-povo é inerente a qualquer ser humano que mantenha acesa em si uma chama de paixão, patriotismo ou orgulho, de qualquer país do mundo. Salvaguardada a noção de se ter conseguido ou não rascunhar nossa alma, desse esforço ter-se imprimido ou não na paixão pelo País, é notório que pouco se conseguiu. A própria história da construção do Brasil dita alguns limites para se chegar ao âmago do como é o brasileiro. A mistura de raças naturalmente imposta pela colonização, em maior grau, portuguesa, mas também, em níveis consideráveis, espanhola e holandesa que, por si, trazem um pouco do europeu para dentro de nossa corrente sangüínea, e a força atrativa do País sobre as muitas raças do mundo durante os últimos duzentos anos, geram um homem nacional de muitos traços, quiçá traços de todos os povos do mundo. Não à toa, Sílvio Romero ruflou os primeiros ecos de preocupação com o “atraso do povo brasileiro”, no final do século passado. De seu trabalho, sob as condições e dados da época, resultou a certeza de que o provo brasileiro era assim uma mescla da mescla do europeu com os povos aqui nativos menos evoluídos. E um conceito: o Brasil não deve ser uma cópia da antiga metrópole.
Desde então, ser ou não cópia tem sido base de pensamentos de estudiosos e profissionais sociais. Porém, a identidade nacional, se vista sob o prisma da pureza de raça ou originalidade de comportamento, está longe de ser entrevista, posto que, como qualquer outro nativo de qualquer país, o brasileiro é influenciável, construtível e elaborável (não reelaborável) a partir do convívio com culturas diversas, como ocorreu, e ocorre até então, ao longo de sua história. É possível, assim, dizer que a miscigenação natural, primeira e diretamente envolvida com a colonização, depois com os arroubos também naturais de sinhozinhos encantados com as curvas das índias e negras capturadas para o trabalho escravo, como bem descreveu Casa Grande e Senzala, fizeram a genética social da população nacional. Deposto o regime imperialista no sentido político, deflagrou-se o regime imperialista no sentido comercial. A necessidade cada vez maior de países desenvolvidos instaurarem suas forças de comércio pelo mundo é análoga a uma enorme nave espacial com milhares de tubos de escapamento que, ao invés de gazes diversos vindos dos motores, fazem chover nos territórios subalternos os gazes de suas próprias culturas. A partir de que
momento o caboclo nacional manteve inerte em seu guarda-roupa a calça
surrada, o chapéu de couro, os calçados de fitas de couro curtido
entrelaçadas artesanalmente e passou a usar apertadas calças jean, chapéus
de material sintético preto com suas bordas içadas, botas com estrelas e
muito bem lustradas? Desde quando passamos a admitir crianças e
adolescentes com chapéus pontiagudos, narizes plásticos curvos, mantos
negros longos, em nosso rol de festas folclóricas? Hoje, falamos hambúrguer
com tal naturalidade que é notável o estado de nebulosidade na qual se
encontram os sacis, botos, as festas juninas, os bumba-meu-boi. Este mesclar de formatos diversos entra para nossa cultura por portas das mais sutis e surpreendentes, desde a música estrangeira acirradamente imposta pela mídia, roupas enfadonhamente impostas pelo cinema gringo, gestuais malevolamente impostos por ícones de comportamento adolescente nas revistas forasteiras. Mas é pela porta do comércio que a miscigenação comportamental, e não mais genealógica, tem acontecido de forma mais perceptível. Fritjof Capra, no excelente O Ponto de Mutação, reconstrói os passos da globalização mórbida atual e a projeta para um regime bem mais sensato. Porém, até chegar àquela projeção, seus pensamentos corroboram os de Roland Corsibier no que tange à ação bem mais corrosiva do avanço das culturas dos considerados países ricos sobre as dos humilhados países pobres. O estado latente de autocomiseração dos povos pobres em relação à tecnologia dos ricos amealha as linhas desse amálgama comportamental. É status comer cheese-salada, cheese-lingüiça, cheese-qualquer-coisa; é chic dizer hardware e software. E, atualmente, é deprimente observar o desesperado esforço da mídia internacional para nos fazer aceitar o nível de paternidade com o qual se pintam os EUA.
Toda essa gama de subterfúgios de guerra conceitual é satisfatoriamente amparada pela força da comunicação de massa, processo visivelmente melhor capturado e dominado pela mídia e estratégia americanas. O confronto entre a cultura nacional e estrangeira é questão de discussão acalorada desde muito, ainda que em lugar algum tenha chegado. Herbert Schiller retrata com primazia os interesses estruturais dos EUA para que a informação seja devidamente manipulada e levada a efeito a partir do que querem ou não, do que precisam ou não os magnatas americanos. Embutidos nas fitas cinematográficas, nas entrelinhas dos textos jornalísticos, na força da imagem dos ídolos fabricados em câmaras de tortura de Hollywood e nos salões de estética de Nova Iorque, Paris, Roma, estão os interesses estrangeiros em dominar a cultura subdesenvolvida para que as colônias sociais estejam sempre disponíveis à cada vez maior fome capitalista dos impérios. Travestido de absorção de tecnologia e cientificismo, o expansionismo dos desenvolvidos abraça cada vez mais fortemente as frágeis estruturas de culturas do submundo tecnocrata. Não de forma natural, mas forçado sob os panos do sub-interesse, o esticar dos tentáculos das empresas de publicidade estrangeiras, notadamente americanas, torna-se paulatinamente mais escancarado à medida que a inserção do comportamento de fora abocanha o comportamento nativo. A música com inflexão de sereias que acompanha os passos da dança macabra do imperialismo estrangeiro em solo nacional sai das estruturas da Televisão, principalmente. É impossível desvincular a problemática da cultura brasileira sem imaginar o poder desse veículo de muitas rodas, mas de poucas roldanas. E não seria imaginativo pensar na Televisão não apenas como veículo de comunicação, pura e simplesmente, mas igualmente a serviço do capitalismo mal compreendido exposto nas cartilhas dos países imperialistas.
Passo a passo, os pés massacrantes das transnacionais vão imprimindo as marcas de saltos pontiagudos de seus sapatos que, aliás, em boa parte das vezes são fabricados no mesmo solo que marcam. Esse peso, sentido na presença indulgente do capital forte e selo monetário poderoso, destitui a sociedade invadida de sua soberania em pontos vitais para sua sobrevivência. Necessidades forasteiras são postas em primeiro plano, tirando o pêndulo regulador do equilíbrio da massa de humanos que compõem a nação subalterna, agindo, por exemplo, na visão política e econômica. Investimentos sociais são espremidos sob voracidade difusionista das múltis; política humana é execrada diante da constante papelização do trabalho, isto é, o trabalho produtor de bens dá lugar ao trabalho produtor de papéis que, por ter sido investido de maior valor que alimentos, vestuário e bem-estar físico, catalisam maiores interesses, muitas vezes aplaudidos pelos líderes do próprio país esmagado.
Nota-se em tudo isso a queda alucinante da importância dos ideais na consciência dos seres que constituem uma nação. A partir do momento que ocorre a invasão em sua cultura por parte de instituições externas, o sentido de luta pela sobrevivência de sua cultura desloca-se para o de sobrevivência física e estrutural. Junta-se a esse fato a idiotização geral provocada, de forma estudadamente não evidente, pela (duvidosa) qualidade dos conceitos sublocados nas imagens que os estrangeiros fazem entrar no mercado dominado. Não é surpreendente, desta forma e ainda que infelizmente, que um político da situação galgue os degraus das pesquisas eleitorais pelo desprezível fato de trazer a público distorções de verdades que, se mostradas sob outras circunstâncias, seriam facilmente absorvidas. E, de forma ainda mais alarmante, que tal galgar de degraus tenha por mola propulsora a imagem de KLB’s, Chitãozinhos, Xororós, Gugus, como se seus sorriso fossem suficientes para alicerçar idéias realmente altruístas.
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