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Wilson Pacheco

 

A SAÚDE DO BRASILEIRO E O CEMITÉRIO GLOBAL


Não é difícil diagnosticar a reprodução, quase bacteriana, das faculdades da área de saúde, especificamente medicina, no Brasil. Quando estava realizando o experimento da tese doutoral na Universidade Complutense de Madrid, me surpreendi quando fiquei sabendo o número de médicos que aquela cidade forma por ano: 600 médicos.

Questionei o meu catedrático se aquelas cifras não causavam um desemprego médico enorme e ele me disse que não só médico, mas também de engenheiros, advogados, dentistas, farmacêuticos, ópticos, enfim, todas as profissões de nível superior, mas que uma das grandes diferenças da Espanha para o Brasil é que lá o desempregado tinha o terceiro grau e o nosso, analfabeto. Claro que este é um aspecto importante numa nação de terceiro mundo, onde 8 mil quilômetros de mar já não suportam mais tantos canos de esgoto, ou pior, num País onde comumente a gente se depara com indivíduos urinando na rua, como se poste, traseira de ônibus, estacionamentos de veículos de passeio, se transformassem num passe de mágica, num exuberante mictório.

Se nossos desempregados tivessem pelo menos um mínimo de conhecimento do quanto são vítimas da mídia, das religiões, de governos pessimamente intencionados e conjuminados com interesses espúrios internacionais, teríamos mais líderes e certamente outro destino para o povo. Todavia, neste mesmo País de terceiro mundo, a reprodução desenfreada de faculdades sequer arranha o descaso em que se encontra a saúde no Brasil.

Na verdade, cada exemplo que abordarmos aqui seria suficiente para escrever vários artigos denunciando as falhas, a má vontade e o desejo de seu continuísmo. Interessante é que, nos dias de hoje, quando falamos tanto em globalização, em modelos globais etc etc, palavras que causam até asco de ficar repetindo, paradoxalmente não copiamos os bons exemplos.

Permite-se ensino religioso e não se exige preparo e treinamento para cuidados básicos com o trauma, a terceira causa de morte no mundo e a primeira baixo dos quarenta anos de idade. Mas, se exigiu, por força de multa, um kit de emergência médica em veículos falho, insuficiente, inadequado e caro. ( se levarmos em conta que o aumento do salário mínimo foi de sete reais e o governo achou que foi bastante coisa ) Estamos numa das épocas mais perversas de distribuição de rendas, de desemprego, de crise alimentar, importando grãos de tudo quanto é espécie.

Na saúde, o mais eficiente tratamento é a prevenção. Ora, como não se fala ainda num trabalho sério, emergencial, intensivo de controle de natalidade, a bem da manutenção da cadeia alimentar?

Gastam-se fortunas com campanha anti-drogas e a verminose continua a fabricar "barrigudinhos" em todas as regiões. O que dizer do retorno da tuberculose?

O que foi efetivamente feito dos laboratórios que imperdoavelmente cometeram falhas que causaram transtornos irreversíveis às pessoas e famílias? Ah, se fosse num dos paises de primeiro mundo global!

Somos um país adolescente e como tal temos nossas crises "aborrecentes". Como vamos proibir de forma paternal, de dedo em riste, algo que segundos antes foi mostrado como uma verdadeira maravilha de sucesso para um povo que vive sonhando com a garrafa do gênio? Já viram as propagandas de cigarro?
Não sei porque as companhias pagam tanto pelas propagandas. Basta o anuncio do ministério da saúde: "O MINISTÉRIO DA SAUDE ADVERTE: FUMAR FAZ MAL A SAUDE" Não parece as chamadas de atenção dos pais? "ESTOU ADVERTINDO, NÃO FAÇA TAL COISA"  E o adolescente faz, só para contrariar. Por que o Ministério da Saúde não mostra a angústia das pessoas com insuficiência respiratória, o sofrimento dos cancerosos, a morte súbita de 50% dos infartados, os mutilados de pernas e braços, tudo por causa do cigarro numa super-produção televisiva?

É isso, minha gente. Basta muito pouco para concluir que coisas importantes necessitam de poucas ações para que, efetivamente, entrem no caminho da resolução. Basta querer, basta ter boa intenção e pensar muito mais no próprio povo no que no alheio. Submeter-se aos desejos internacionais é atender tão somente o interesse de outros povos. É possível que o futuro do "país do futuro" seja tornar-se um grande cemitério do resto do mundo, pois para que serve um território sem povo?

  • Wilson Pacheco é Doutor, Mestre e Professor de Anatomia da Universidade Federal de Santa Catarina.

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