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Wilson Pacheco

 

BRASIL, A DESCOBERTA SIDERAL

 

Se, muito antes dos portugueses, nós tivéssemos uma visita (ou descoberta se quiserem) de seres adiantados (ou atrasados se quiserem) de outros planetas e se estes se reportassem ao seu rei sobre o novo mundo que se depararam, certamente escreveriam a carta (ou fax, e-mail, telepatia, como queiram) assim:

Majestade:

Aportamos em um gigante ladeado por água. Interessante! Com nosso problema de superpopulação, fere os olhos a quantidade de terra por habitante, promovendo uma distribuição generosa da mesma a cada um de seus cidadãos. Mesmo assim, eles vivem em grupos socialmente organizados, com um sistema de governo onde a sabedoria, capacidade, liderança, honestidade e exemplo de dignidade são os predicativos indispensáveis para ocupar os cargos de tal sistema. Nada de corrupção eleitoral conforme ocorre conosco e tampouco grandes latifúndios nas mãos de alguns e outros se enovelando por baixo de pontes, viadutos ou mesmo bancos toscos de jardim, conforme já dizia Vicente Celestino (Ah, vossa majestade não conhece! É um cantor que aparecerá no futuro)

Meu Deus! Penso nas crianças de nosso planeta que vivem pedindo em cada esquina onde os discos voadores param nos sinais eletrônicos intergaláticos e me dá inveja de ver a fartura de comida que aqui eles têm. Sabe que não se dobraram aos impulsos inovadores da indústria doméstica. Não querem saber de geladeira nem de freezer. Este, então, eles acham uma barbaridade, pois a produção de alimentos deles é praticamente infinita e acessam aos celeiros quando querem e utilizam somente o necessário. Veja, majestade, sempre comem fresquinho. Nada de armazenagens. nem agrotóxicos, hormônios para ganho de peso, etc.

A indústria do vestuário não existe, pois os brasileiros têm em mente que a natureza levou milhares de anos para chegar à perfeição da pele. Parece estranho para nós que vivemos fazendo desfiles de moda. Nossas mulheres têm que pôr trajes novos em cada ocasião e o resto já rasgado, velho, puido, damos então para os que precisam, por nossa cultura de estarmos vestidos, mas que não têm condições de comprar. Veja que simples: eles vestem roupas novas diariamente, afinal a pele é renovada diariamente. Extraordinário, não? Quando viram a minha roupa me perguntaram quando eu havia adquirido. Falei que era nova, tinha menos de três meses e eles riram dizendo: a nossa foi feita hoje!

Diversão? Nossa Senhora, cantam e dançam todos os dias. Não ferem seus ouvidos com aqueles sons mecânicos que Vossa Majestade sabe o quanto custa, pois a indústria lança um novo diariamente e temos que comprar para acompanhar a evolução.

Agora, majestade, ponto alto é o sistema de saúde. Primeiro que, tendo uma alimentação adequada, caminham pelas matas diariamente, respiram ar puro, pois não há chaminés aqui, eles possuem boa estrutura corporal e praticamente não têm doenças. Eu sei que vossa majestade deve estar pensando na prevenção. Isso mesmo, eles previnem-se contra as doenças, não agredindo o meio em que vivem. Entretanto, quando porventura adoecem, não é problema, pois possuem médico de plantão vinte e quatro horas por dia. E não dá aquele atendimentozinho de cinco minutos não! As vezes fica dias sobre o doente. Aqui, esse doutor chama-se pajé ou curandeiro. Não, não é magia negra ou branca. Ele tem um enorme arsenal de medicamentos perfeitamente dominado tecnicamente. Ele sai, vai na floresta e colhe os medicamentos, únicos ou associações. Sabe que nenhum vem com subdose nem falsificado. Inclusive, não tem esse negócio de comercial, genérico, similar etc. Todos são do mesmo laboratório e completamente seguros. Pelo menos até hoje ninguém morreu por que falta de médico ou porque o remédio não fez efeito por falsificação. Apesar do médico e da farmacopéia, não vi ninguém com gripe, nem as mulheres tomam anticoncepcional, pois o controle de natalidade é perfeito.

Resumindo, majestade, esse povo, essa nação, é excepcionalmente feliz. Possue teto, terra, comida, não há crise de emprego como nós temos. Chamou-me a atenção que nenhum chefe é submetido a impeachment por corrupção. A água é límpida, tem distribuição natural, não há hidrômetro e a luz é de energia eterna vinda do sol e da lua. Claro, majestade, chega muito bem a luz, pois não há poluição no céu.

Não têm a menor idéia do que seja inflação, juros, CPMF, ministro da economia, bate boca em congresso.

Gostei muito do sistema de aprendizado através de fábulas, alegorias e lendas, além do sistema do aprendizado pelo problema. Me parece que outra nação dita do primeiro mundo vai inventar isso quase 5 séculos depois.

Imagina se há trombadinhas ou menor abandonado e tráfico de drogas!!! Vão vender para quem, se todos são donos da produção?

Pois é, majestade, chegamos com nossos espelhos, colares, brilhantes, mas pensando bem, resolvemos cair fora porque nossos computadores acusaram a presença de um vírus na história dessa nação. Tal vírus é tão patogênico que a floresta desaparecerá, a doença vai liquidar muita gente dessa população, perderão o controle de propriedade agrária infinita, a comida ficará controlada por alguns que caçarão e pescarão tudo num dia só, se possível. Haverá necessidade de muitos médicos, mas acessíveis só para alguns e muitas misérias mais, como a necessidade de muitas pontes nas cidades para abrigar mais gente sem moradia. Mas o mais grave é que nosso computador profeta diz que esse vírus festejará os quinhentos anos de sua chegada...e aí, nós resolvemos não fazer parte de tal festa. Creio que vossa majestade deve ter chegado à conclusão que, sem nada do que eles dispõem, tratar-se-á de uma nação profundamente doente, como a nossa.

São essas minhas notícias, majestade. Sugiro que não voltemos mais aqui e lutemos para tentar impedir a chegada desses vírus, afim de que essa nação possa ser o paraíso e a manutenção do éden na terra, pois creio que não há o que comemorar, não acha?

Pero Vaz de Caminha Sideral

 

  • Wilson Pacheco é Doutor, Mestre e Professor de Anatomia da Universidade Federal de Santa Catarina.

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