Wilson Pacheco |
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CRÔNICA DO AVIÃO Morei
um ano em Madrid enquanto realizava o Doutorado na Universidade
Complutense. Uma das coisas que me chamou a atenção entre os espanhóis,
e fato comum nos europeus, é a preocupação com o lazer, férias, etc.,
haja vista a quantidade de “tours” longos, rápidos,
médios, enfim, cada feriado um pouco mais alongado, as empresas de
turismo se estrebucham para oferecer o melhor para um pouco de felicidade.
Como médico, sei que o lazer aumenta a produção de endorfinas e, com
isso, o bem-estar. Em suma, viajar é bom, faz bem à saúde e, portanto,
alonga o tempo e a qualidade de vida, como tantos outros prazeres.
Recentemente,
fiz uma viagem para os Estados Unidos, mais precisamente para Miami, onde
participei de reunião com o Departamento de Bombeiros 911. Mesmo estando
a trabalho, não resta dúvidas de que uma ida ao exterior sempre faz bem.
Entretanto, algumas coisas se colocam como advogados do diabo no bem-estar
e antídotos das tais
endorfinas. Senão, vejamos:
O
preço da passagem aérea, logicamente levada em consideração frente aos
parcos reais do salário insalubre do brasileiro, já se torna um problema
para a saúde com o peso do carnê de pagamento.
Claro que quando falo em passagem aérea, estou falando naquela que
mantém as aeronaves no ar: classe econômica, a exageradamente maior,
aquela da trombose, mal da classe de mesmo nome.
O
interessante é que, apesar do grande número de passagens econômicas e
domésticas, em algumas lojas não se pode comprar moeda local, como no
aeroporto de Guarulhos. Dentro das salas de embarque internacional, o real
não é aceito. Imaginem a imagem do estrangeiro que deseja gastar os últimas
espécimes desta moeda e seu próprio país da moeda não reconhece. Bem,
são coisas de Brasil.
Interessante
é que, na minha infância, fila significava a mais expressiva propaganda
anti-comunista, mas para fazer o check-in, entrar no avião, sair do avião
é um “Deus nos acuda!” da quantidade de filas. Há o exagero de
botarem as pessoas dentro de um ônibus, de pé, uma vez que são poucos
os assentos, tirando-as da sala de embarque onde estavam sentadas e
fazerem-nas esperar minutos seguidos a ordem de ir até a aeronave.
Lá
chegando...Bem, lá é a grande demonstração das diferenças sociais que
maculam o mundo, embora quem viaje de avião ainda pode colocar-se dentro
do que existe de ápice da escala social E, como passei pela mesma via
sacra, perguntei-me:
1-
Por que a primeira classe e a classe executiva (certamente
a segunda classe), não entram depois da econômica (de certo, a última
classe, a ralé)?
2
– Por que a classe econômica, que é a substancialmente maior, não
entra e sai pela parte de trás da aeronave, deixando a frente somente
para aquelas privilegiadas?
Você
deve estar se questionando do porquê das minhas sugestões.
Fácil! É para não submeter nenhuma das classes ao desagradável.
Vamos
começar pelas mais altas. Ora, entram confortavelmente primeiro, são
recebidos com champanhe, poltronas reclináveis, coquetel e aí, quando
degustando nababescamente suas benesses, entra aquela ralé, cheia de
pacotes, batendo em seus frágeis braços, quase derramando suas taças e
ainda olhando com olhar de mal-querência por pura inveja e complexo de
perseguição social.
Agora,
vamos à resposta aos menos
favorecidos. Deveriam, por misericórdia, ser poupados de entrar,
deparar-se com o céu e depois, o contraste de dezenas de bancos
apertados, inimigos dos joelhos e desconhecedores do verbo inclinar.
Quando finalmente, dentro do avião, sentados com o joelho forçando
o banco anterior e sentindo na bunda os joelhos finos ou grossos a forçá-la,
ao menos levanta os olhos aos céus dando graças por terem acabado as
filas. Ledo engano, há a fila para os poucos banheiros proporcionalmente
aos que existem para as classes do topo.
Ao
final da viagem, os limiares das dores estão baixos, passam novamente
pelas ricas poltronas com lençóis etc. etc., carregados de torcicolos,
tromboses e constatando o esforço sobrenatural das aero (moças, velhas,
feias, mal-humoradas) para fingir um sorriso para os da classe econômica.
Ah, econômica para as empresas aéreas! Mas,
já do lado de fora, olham saltitantes para os ares do local visitado ou
sentindo os odores da terra natal, lembram a espera para receber as malas.
Que pena, uma mala tão nova e chegou toda estraçalhada!
Mesmo assim, vale a chegada. Falta
apenas a fila do táxi.
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