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Wilson Pacheco



POBRE PAÍS DOENTE MENTAL 

  

Confesso que ás vezes me dá inveja não termos um pouco de sangue espanhol e não ficarmos resignadamente esperando a benevolência do rei. Sim, rei, pois todo aquele plebiscito para decidir se o que queríamos era monarquia ou república, desde que o atual presidente assumiu, já que venceu a idéia de república e presidencialismo, adotou a figura real através da qual só e exclusivamente as suas verdades e deboches são verdadeiros.

Há muito tenho sugerido uma grande noite de queima dos livros do Sr. Fernando Henrique Cardoso, que fez com que gastássemos nosso dinheiro comprando aquelas falácias de homem de esquerda, sociólogo, preocupado com o povo, com a fome do terceiro mundo. Menos mal, e devo curvar-me a El Rei por ele mesmo ter considerado aquilo tudo a forma mais tranqüila de ganhar dinheiro, com meia dúzia de mentiras que nunca acreditou e nem professou.

Professor da USP, por menos de vinte anos e aposentado integralmente, quantas greves esse senhor fez por salários, por melhorias da universidade e por vida mais digna aos brasileiros.

Pobre país demente. A única preocupação que toca ao povo é que a seleção não se classifique para a copa do mundo. É bem verdade que é a preocupação Del Rei também, pois o povo sem o ópio e com risco da Argentina ser campeã, as coisas podem pegar fogo por aqui.

Hoje, quando os escravos digo trabalhadores, funcionários públicos) e os bobos-da-corte reclamam das poucas patacas que recebem para tentar o pão de cada dia, El Misericordioso Rei, fornece um generoso aumento de 3,5%, altamente significativo para um país de moeda estável e sem inflação. Onde, Majestade?

Confesso também que sinto vontade que um membro do Taliban fosse funcionário público brasileiro e assistisse àquelas sessões de deboches das manifestações de El Rei na televisão, bem como seus ministros, cabeçudos ou não. País esquizóide, embora com cobertura oral. Vive em festa, lota o maracanã, vibra com o Guga e, quando muita gente pensa que está havendo queima profunda de fogos, na verdade é a barriga desta grande torcida, roncando de fome para deleite Del Rei. Sim, afinal, diante das questões de partilha dos partidos que lhe dão sustentação, brigas de acusações gravíssimas onde nas quais ambas as partes falam a verdade, ele, EL REI, diz apenas que quer terminar sua gestão em paz lembrar que, quando disse isso, ainda faltavam mais de um ano e meio para o fim)

Ora, senhor Rei, como ter paz com mais da metade da população em necessidades profundas? Quando muitos de seus súditos passam fome absoluta? Quando ladrões de galinha apodrecem dentro de verdadeiras jaulas, com disponibilidade de 6 lugares lotadas  com trinta, quarenta para que morram logo por esgotamento do ar.

Enquanto isto, ladrões de bilhões dispõem de horários nobres na televisão para, diante de documentos comprobatórios, dizer que tudo não passa de armação, diante de El Rei inerte, com suas pesadas nádegas sobre o trono que subiu à cabeça e, se pudesse, em nome do samba de uma nota só, que é o sofismático real estável que já necessita de mais de dois e meio para a compra de um dólar, somente sonha ainda que o povo lhe eternize já não mais como El Rei, mas talvez como personagem divina salvadora da pátria que brevemente não gastará mais com energia, pois foi vendida; não gastará com telefonia porque foi vendida; não gastará com transporte porque foi vendido; não gastará com educação porque está privatizada; não gastará mais com povo porque morreram todos os cidadãos e suas cinzas servem de adubo para enriquecer o solo para uma próxima descoberta.

Povo louco, povo esquizóide! Enterra a cabeça no travesseiro ou nas cachaças de Faustões, Sandys e Juniores ou ainda bundas e mais bundas e permite que El Rei continue sentado no trono, quando talvez simples tapas retirassem todos de lá

 Para nossa vergonha e desilusão, todos os partidos de oposição estão de boca fechada, para, talvez da mesma forma, fazerem seus reis e continuar tudo como está.

É possível que a justiça morosa, desanimadora, com a qual tenho algumas pendências a meu favor, não resolvidas há mais de 4 anos, hoje me prenda por ofender a lisura e a bondade Del Rei. Mas tudo isto faz parte do reino mágico do Brasil, onde jogar de azul ou amarelo muda completamente a história do jogo.          


  • Wilson Pacheco é Doutor, Mestre e Professor de Anatomia da Universidade Federal de Santa Catarina.

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