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A
RAZÃO DO SER
Pedro era um homem sem muitos atrativos, não fosse pelos olhos
castanhos, donos de um brilho intenso que parecia gritar querendo
jogá-los para fora de seu
rosto, era definitivamente um homem comum.
Pedro era simplesmente Pedro... Acordava todos os dias antes do galo
cantar e o sol já o pegava no caminho para o trabalho. Tinha por
companhia em sua jornada um cachorro vira-lata a quem chamava Fiel. Este
era seu melhor amigo, o único na verdade.
O homem era pobre, morava numa casa pequena, madeira velha, vidros
quebrados, cortinas desbotadas e ainda assim parecia sentir um
orgulho daquilo, como se
possuísse um majestoso palácio. Enquanto caminhava pelas ruas, cantava
uma antiga canção, talvez uma saudação ao novo dia, ao sol que
nascia, ou simplesmente estivesse espantando seus males, mas isso
ninguém jamais saberá
dizer.
O brilho em seus olhos denunciava sua vontade de mudar o mundo, contudo
seus atos e omissões desmentiam-no, fazendo parecer que ele na
verdade ignorava a existência
de um mundo.
Durante
toda a sua vida, Pedro trabalhou confeccionando brinquedos de
madeira. Nada que falasse, andasse ou tivesse pilhas. Não tinha ambição,
o que muitos consideravam um defeito. A verdade é que ninguém entendia
como uma pessoa poderia passar toda uma vida sendo pacata, talvez até
otimista, ter tão pouco em
retorno e nunca reclamar. Alguns acreditavam que fosse
mero comodismo, outros diziam que não podia mesmo ser diferente, afinal,
o
pobre homem era ignorante demais para ser melhor.
Pedro era simplesmente Pedro...
Os dias nasciam e depois do sol poente cediam seu lugar à noite e a
rotina de Pedro continuava. Não parecia melhor do que realmente poderia
ser, nem pior. Cumprimentava, agradecia, mas não dividia com ninguém
suas aflições nem tampouco suas alegrias, apenas era gentil, e ainda
assim, apenas o necessário, pois acreditava existir uma medida para tudo
e aquilo que estivesse em
demasia, perdia um pouco da realidade. Algumas pessoas imaginavam que ele
vivesse fora do que é determinado real, mas nunca se atreveram a dizer
isso a ele. Contudo, ninguém
pensou na hipótese de que ele fosse assim por opção,
pois jamais alguém conseguiria ser tão "conformado" e
viver tão só. Fiel, seu cão, era o único que fazia parte do seu mundo
e parecia ser
conhecedor dos segredos da alma de seu dono e amigo. Realmente o era, mas ele não contaria
absolutamente nada a ninguém.
Numa bela manhã de outono,
pois seus olhos viam com beleza as folhas secas caindo para que novas
brotassem, Pedro "partiu". Descobriram somente três
dias depois, quando o proprietário da fábrica
de brinquedos onde trabalhava resolveu procurá-lo.
Assim Pedro se foi, deixando
a impressão de nunca ter feito mais do que
apenas existir, levando a
tristeza de nunca ter sido compreendido... Assim
Pedro se foi, deixando nas
pessoas uma imensidão de "porquês". Mas partiu levando consigo
a certeza de ter arrancado sorrisos através de seu trabalho. Enfim, de
alguma forma, mesmo que solitário, ter feito parte do espetáculo
interminável, por que não dizer, magnífico da vida.
Quanto a Fiel, a partir
daquele dia ninguém mais o viu. Alguns dizem
acreditar que ele tenha
partido junto com seu inseparável amigo, mas quem
sabe, ele apenas tenha saído
a procura de um novo lar. Isso ninguém
jamais saberá dizer...
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