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ARTIGOS EVIRT

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Adriana Boimer  

  

A RAZÃO DO SER


Pedro era um homem sem muitos atrativos, não fosse pelos olhos  castanhos, donos de um brilho intenso que parecia gritar querendo jogá-los  para fora de seu rosto, era definitivamente um homem comum.

Pedro era simplesmente Pedro... Acordava todos os dias antes do galo cantar e o sol já o pegava no caminho para o trabalho. Tinha por companhia em sua jornada um cachorro vira-lata a quem chamava Fiel. Este era seu melhor amigo, o único na verdade.

O homem era pobre, morava numa casa pequena, madeira velha, vidros  quebrados, cortinas desbotadas e ainda assim parecia sentir um orgulho  daquilo, como se possuísse um majestoso palácio. Enquanto caminhava pelas ruas, cantava uma antiga canção, talvez uma saudação ao novo dia, ao sol que  nascia, ou simplesmente estivesse espantando seus males, mas isso ninguém  jamais saberá dizer. O brilho em seus olhos denunciava sua vontade de mudar o mundo, contudo  seus atos e omissões desmentiam-no, fazendo parecer que ele na verdade ignorava  a existência de um mundo.

Durante toda a sua vida, Pedro trabalhou confeccionando brinquedos de madeira. Nada que falasse, andasse ou tivesse pilhas. Não tinha ambição, o que muitos consideravam um defeito. A verdade é que ninguém entendia como uma pessoa poderia passar toda uma vida sendo pacata, talvez até otimista,  ter tão pouco em retorno e nunca reclamar. Alguns acreditavam que fosse mero comodismo, outros diziam que não podia mesmo ser diferente, afinal, o pobre homem era ignorante demais para ser melhor.


Pedro era simplesmente Pedro... Os dias nasciam e depois do sol poente cediam seu lugar à noite e a rotina de Pedro continuava. Não parecia melhor do que realmente poderia ser, nem pior. Cumprimentava, agradecia, mas não dividia com ninguém suas aflições nem tampouco suas alegrias, apenas era gentil, e ainda assim, apenas o necessário, pois acreditava existir uma medida para tudo e aquilo que estivesse em demasia, perdia um pouco da realidade. Algumas pessoas imaginavam que ele vivesse fora do que é determinado real, mas nunca se atreveram a dizer isso  a ele. Contudo, ninguém pensou na hipótese de que ele fosse assim por opção,  pois jamais alguém conseguiria ser tão "conformado" e viver tão só. Fiel, seu cão, era o único que fazia parte do seu mundo e parecia ser conhecedor dos segredos da alma de seu dono e amigo. Realmente o era, mas ele não contaria absolutamente nada a ninguém.


 Numa bela manhã de outono, pois seus olhos viam com beleza as folhas secas caindo para que novas brotassem, Pedro "partiu". Descobriram somente três dias depois, quando o proprietário da fábrica de brinquedos onde trabalhava resolveu procurá-lo.


 Assim Pedro se foi, deixando a impressão de nunca ter feito mais do que  apenas existir, levando a tristeza de nunca ter sido compreendido... Assim  Pedro se foi, deixando nas pessoas uma imensidão de "porquês". Mas partiu levando consigo a certeza de ter arrancado sorrisos através de seu trabalho. Enfim, de alguma forma, mesmo que solitário, ter feito parte do espetáculo interminável, por que não dizer, magnífico da vida.


 Quanto a Fiel, a partir daquele dia ninguém mais o viu. Alguns dizem  acreditar que ele tenha partido junto com seu inseparável amigo, mas quem  sabe, ele apenas tenha saído a procura de um novo lar. Isso ninguém
jamais saberá dizer...

   


[Volta]