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Adriana Boimer |
| Grão de Areia
Ultrapassei
os últimos metros que me distanciavam da ponte. Então, mais uma entre
dezenas de vezes, tentei compreender a razão pela qual ele havia sugerido
aquele lugar para conversarmos. -
Olá, como está nesta manhã? Encontrei-o
sentado em um banco de pedras junto à cabeceira da ponte. -
Ótimo. Sente-se, minha querida... Olhei
para o seu rosto já marcado pelo tempo e fiz a pergunta que me
acompanhara até então: -
Por
que estamos aqui? Este lugar é um tanto agitado para uma boa conversa. -
Por
aqui passam centenas de pessoas a cada hora, algumas belas, outras nem
tanto, mas no geral, muito parecidas. Entretanto, cada uma dessas pessoas
terá um pensamento, um intuito diferente ao atravessar esta ponte. Você
mencionou que gostaria de falar-me sobre alguns acontecimentos, algumas
pessoas... imaginei que seria interessante passarmos algum tempo
observando essas pessoas tão distintas e paralelamente tão parecidas. Em
pensamento, congratulei-me por estar em tão boa companhia... Ainda que
nos conhecêssemos a apenas três semanas, por menos tempo que tivéssemos
passado juntos, a impressão que eu tinha era que bastava um de seus
olhares para que aquela mente notável soubesse dos meus pensamentos,
sentimentos, tivesse respostas para perguntas que eu sequer saberia fazer. -
Diga-me,
por que ninguém está satisfeito como é ou com o que é? O senhor faz
alguma idéia da razão pela qual existam tantas Carolinas querendo ser Déboras
e Déboras querendo se Carolinas? -
Apenas
suponho... o ser humano vive constantemente tentando superar-se. Imagine
como seria se todos estivéssemos satisfeitos, conformados com o que
temos... provavelmente muitos não mais trabalhariam, não produziriam,
somente ficariam em casa desfrutando do conforto de um bom e velho sofá,
alguns talvez nem iriam à praia para não mudar o tom da pele e, caso
todos tivéssemos predileção por amarelo, creio que pareceríamos bilhões
de canários dentro de um imenso viveiro, comendo
e fazendo o mesmo todos os dias. Responda-me você: de onde vem
essa súbita incerteza? -
Talvez
de uma crise de identidade ou algo parecido. Estou me deparando com
problemas em tudo e em todos. Seriam apenas dilemas, simples de serem
solucionados... mas antes disso, assim como pregos batidos em uma tábua
errada e depois arrancados, deixam buracos para que nunca seja esquecido o
que fizemos e falamos, deixamos de fazer e falar. Algumas vezes até é
possível voltar atrás e preencher essas marcas com um pouco de massa
corrida, mas só por algumas vezes. Perdida
em minha própria confusão, tive a vaga sensação de ver uma criança
saltar da calçada para o meio da rua.... ouvi uma freada brusca e sem
atinar ao certo o que fazia, lancei-me sobre o franzino menino na esperança
de salvá-lo... Creio que tenha obtido
êxito, mas eu fiquei inconsciente, caída no chão. Acordei,
acredito que muito tempo depois, sonsa, sem ter certeza do que acontecera.
Pelo cheiro forte de remédios impregnado em minhas narinas, presumi estar
em um hospital, o que a princípio deixou-me aliviada, afinal, estava sob
cuidados e, pela aparelhagem sofisticada que havia em volta, pelo
semblante de eficiência e profissionalismo dos homens e mulheres de
branco que entravam e saíam do meu quarto, rapidamente estaria longe
dali... homens e mulheres de branco... começam a me preocupar as idas e
vindas de tantos médicos e enfermeiros. Alguns familiares vieram para
ver-me, o que fez agravar minha preocupação. Minha mãe foi a primeira a
entrar, chorava copiosamente e tudo que eu falava, na tentativa de
apaziguar sua dor, somente aumentava seu pranto. Gritei, tentei sacudir
seus ombros na esperança de arrancá-la daquela agonia, daquele transe,
mas foi em vão. Foi após a terceira visita, com a garganta dolorida de
tanto gritar, que percebi quem encontrava-se em transe... quem estava em
agonia... quem não se fazia ouvir simplesmente por não poder falar...
Eu... Eu. O
passar dos dias levou-me ao desespero. Todos olhavam em minha direção, médicos
anotavam, outros apenas analisavam, no entanto, ninguém conseguia
realmente me ver, me ouvir. Aquele quarto estava sendo ocupado apenas por
um corpo adormecido, inconsciente, em estado de coma. Não
tenho conhecimento do tempo exato que passei naquela cama em completa
letargia, em extrema aflição. Já
não suportava ver meus entes queridos desolados, desamparados, chorosos.
Já não suportava vê-los, ouvir seus sussurros tristes, sem poder abraçá-los
e dizer que estivera, durante todo aquele tempo, ouvindo-os. O
passar dos dias tirou-me o desespero. Não queria nem mesmo sentir, estava
perdendo as forças, estava sendo levada pelo desânimo. Então avistei-o
sentado em um sofá próximo à janela. Meu sábio amigo olhava-me em silêncio,
seus olhos denunciavam pesar, mas não choravam. Gostaria de saber o que
passava por sua mente. Em resposta, ele aproximou-se e confidenciou-me,
como se eu pudesse ouvi-lo, que sentia falta de nossas conversas. Muito
tempo depois da partida do meu visitante, ainda sentia presas na garganta
as palavras que não pude pronunciar. Queria contar-lhe a dimensão do meu
problema... Queria falar-lhe sobre a aflição que sentia... falar que
aprendi, vivendo, o que verdadeiramente é estar aflito, desesperado...
falar que me deparei com um problema real e infelizmente a solução não
seria tão simples, pois sequer dependia somente de minha vontade.
Novamente minha mãe sentou-se ao meu lado, segurou meu rosto entre as mãos
e pôs-se a chorar. Deixaria
de fazê-la sofrer... Suavemente virei a cabeça e vi médicos,
enfermeiros, meus queridos pais, todos correndo, alvoroçados, abismados,
sorrindo entre lágrimas... Voltei...
sem saber como nem mesmo por quê. Talvez por efeito dos cuidados médicos,
por tamanha vontade ou por conta de um milagre... apenas sei dizer que
voltei.
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