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ARTIGOS EVIRT

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Adriana Boimer  

  

 A MENINA DOS OLHOS

 

Senti um certo ar de mistério á minha volta... O cenário era composto por um vale não muito grande, algumas colinas, uma nascente de águas cristalinas e carvalhos, enormes carvalhos... Soberana no meio de tudo aquilo, estava ela. Pensativa, olhava para o rio, o vento revoltava seus cabelos avermelhados fazendo-os parecer chamas que possuíam vida própria. Não era propriamente uma beldade, mas havia algo, imagino os olhos, que mesmo àquela distância considerável me atraíam como dois pequenos ímãs. A princípio acreditei que pudesse ser modelo, seus traços pareciam mesclar suavidade com uma pitada de rebeldia, o que atribuía a ela uma beleza exótica, mas admito que faltavam-lhe alguns centímetros. Seus cabelos talvez não fossem vitoriosos em nenhum concurso de cosméticos e tratamento, mas a cor de fogo lhe emprestava um ar selvagem. Seu corpo possuía curvas generosas, nada escultural, apenas bem distribuídas. Tentei em vão definir o que meus olhos viam, pois estava perante uma esfinge.

Havia sido incumbido por um cliente de avaliar um chalé nas redondezas. A princípio tencionei recusar o pedido, era seu advogado, mas me encontrava assoberbado e talvez fosse melhor que enviasse outra pessoa. Já estava completando a ligação na qual falaria com meu cliente, quando lembrei-me que acima de tudo éramos amigos... Talvez não me custasse tanto prestar-lhe esse favor, algumas horas, um pouco de trabalho acumulado para a noite, mas era válido, afinal.

Faltavam ainda um ou dois quilômetros para chegar ao meu destino quando parei entre meio ás árvores para observá-la, porte altivo e perdida em pensamentos, pela primeira vez. Meu relógio indicava que já se passavam cinqüenta minutos desde a minha chegada, mas se era verdade, quase uma hora havia se passado em dez, talvez quinze segundos. Não tinha noção do tempo cronológico e mesmo antes de conhecê-la , tive a impressão que nossa convivência era algo secular. De repente, ela começou a se afastar sem ao menos notar minha presença e quanto a mim, fiquei inerte com os pés cravados no chão, olhos fixos naquela figura que lembrava-me um pássaro frágil na mão dos homens que não se pode manter preso, pois seu espírito não existe sem ser livre, no máximo sobrevive. Quando consegui me mover e retomar meus sentidos, já não a via mais, então lembrei a razão pela qual estava ali.

Meus dias seguiam rotineiramente e eu quase esquecia daquela que para mim não passara de uma alucinação, uma produção da minha mente cinematográfica com efeitos especiais e uma boa dose de realismo, mas apenas um produto da minha imaginação fantasiosa.

Quase trinta dias após a, então definida, alucinação, numa noite como outra qualquer, sonhei com ela. Seus cabelos estavam ainda mais revoltos e em seu rosto transparecia uma angústia tamanha que eu seria capaz até de tocar... À  beira do rio com a alma em prantos, ela parecia desfigurada.

Por uma semana convivi com um fantasma assombrando-me, atormentando minha mente, insistindo em dizer que eu deveria procurá-la. Por que? Desta forma me questionei inúmeras vezes, nem sequer  a conhecia e afora os cabelos vermelhos, não possuía nada de especial que chamasse atenção, não era de longe o tipo mulher fatal, tão pouco tinha certeza de que era real. Ainda assim, retomei o caminho do tal chalé. Sentei-me no leito do rio sentindo-me patético e com o passar das horas o ridículo da situação aumentava. Um respeitado homem de negócios, sentado displicentemente no gramado um tanto úmido de um lugar completamente estranho, esperando por uma pessoa simplesmente desconhecida na esperança... de quê?... Exorcizar seu fantasma?... Irritado com o sol sorrindo largo no céu, gracejando à minha total falta de senso real, levantei-me e voltei à realidade.

No dia seguinte, como se dependesse daquilo para continuar vivo, estava eu novamente sentado na grama à espera da "misteriosa aparição", e assim retornei àquele lugar todos os dias na semana seguinte, até vê-la, em um desses dias, aproximar-se com seus cabelos em chamas, usando um vestido simples de algodão verde musgo, trazendo nas mãos um livro que logo se pôs a ler.

Durante os dois meses que se seguiram, mudei meus hábitos, alterei minha rotina, apenas para continuar vendo-a, incógnito. Tencionava apresentar-me, mas acabava sempre adiando, pois não queria corromper a imagem que tinha, sem ao menos saber produto de quê era essa imagem, nem a natureza do desejo de estar perto dela constantemente. Receava também macular o cenário que mais parecia uma tela pintada a óleo, já que ela fazia parte, eu não.

Descobri assim que até mesmo uma pessoa tão prática e realista como era, poderia ser um tanto melancólica ou quem sabe romântica. Sinceramente tive vontade de rir, contudo, estava ciente do meu comportamento, e espreitar alguém sem seu conhecimento não poderia ser classificado como um ato louvável.

Certo dia, quando, quase no final de seu livro ela levantou-se para partir, eu decidi que já não era suficiente observá-la ao longe. Então, repassei mentalmente o que diria e me aproximei... Foi o momento mais estranho que vivi... realmente constatei que apesar de não ser nenhuma deusa da beleza, era perfeita... por pouco consegui conter o riso diante da minha confusão. O que pretendia dizer, esqueci, seria mais fácil começar apenas com um olá...Ela arregalou seus grandes olhos verdes e confessou-me que estava em dúvida se algum dia eu tomaria coragem para abordá-la. Reparei que na capa do livro em suas mãos, o título estava rabiscado e logo acima, a lápis, dizia: A menina dos olhos.

 


[Volta]