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ARTIGOS EVIRT

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Adriana Boimer  

  

O ESPAÇO QUE A LUZ NÃO TOCA

 

Era dia, mas a tempestade que encobria o sol com seus tons de cinza emprestava àquela tarde a falta de cor característica da noite. A iluminação artificial das ruas ia aos poucos se acendendo, criando sombras nas calçadas. E eram essas sombras que me chamavam a atenção.

Milhões de riscos e borrões misturavam-se nos ladrilhos sob meus pés e perante meus olhos atentos tomavam forma e sentido. Mas em meio a uma multidão de pessoas, parecia que somente meus olhos conseguiam ver aqueles seres nascidos das sombras, ainda desorientados, que se moviam freneticamente buscando um lugar no espaço. No relógio visto na torre da Matriz, logo acima da minha cabeça, os ponteiros corriam desenfreadamente, não sei se para adiantar ou recuperar séculos de atraso em questão de segundos e foi nesses segundos que as sombras se misturaram à multidão, integrando-se à sociedade humana, deixando de ser o espaço que a luz não toca e andando lado a lado como iguais.

Minha cabeça girava em busca da compreensão, enquanto o coração forçava passagem tentando fugir pela boca e os olhos... esses... por mais que tentassem, não acreditavam no que viam.

Não sei dizer exatamente o momento, mas quando percebi, já estava envolto pelas sombras, trilhando o mesmo caminho que elas, sem ao menos saber aonde pretendiam chegar. Ainda desorientado e com receio do desconhecido, ergui meus olhos apenas o suficiente para poder vê-las e passei a analisar aquelas figuras sem face, aqueles seres inanimados que caminhavam de cabeça baixa, talvez concentrados na tentativa de compreender o centro do universo ou talvez apenas descansando uma cabeça vazia.

Os dias iam e vinham nos ponteiros da Matriz e as minhas perguntas acumulavam-se sem que eu tivesse coragem para procurar as respostas. Notei que seus rostos eram muito parecidos e carregavam a mesma expressão. Nas mãos, cada qual trazia uma sacola, algumas muito pequenas, outras um pouco maiores, mas nenhuma parecia pesar. Andávamos e andávamos sem que nenhum daqueles rostos expressasse qualquer emoção, sem que nenhuma daquelas bocas pronunciasse uma única palavra, sem que ninguém parasse para descansar, sem que minha curiosidade ou minhas necessidades sobrepujassem meus medos... medo de questionar... medo de ser conhecedor de uma realidade que talvez fosse grandiosa demais para minha quase insignificância.

Então, desta forma, deixei-me conduzir pelo mesmo ritmo que embalava aquelas mentes entorpecidas e entreguei-me a uma cômoda valsa nos braços da vida.

Mas o mestre tempo, ainda que vagarosamente, continua sua jornada de ânimo firme, incansável, silencioso e quando já não havia muito do que reclamar, deparei-me com uma poça de água formada pelas chuvas que, minutos antes, haviam banhado as ruas e foi nessa poça que pude ver meu reflexo. Assustado, notei que o corpo que um dia tivera já não me pertencia e que em minhas mãos também havia uma pequena sacola, a qual mais que rapidamente abri na esperança de encontrar respostas. Mas ela estava praticamente vazia... virei a sacola e sacudi com toda a minha força, até que desprenderam-se do fundo dois ou três sorrisos... e só então eu percebi, tarde demais, que eu havia me deixado transformar na sombra do que poderia ter sido.

Na pequena sacola, estava guardada a bagagem que eu não soube acumular ao longo da minha existência... e só então eu percebi, tarde demais, que, assim como tantos outros, eu havia me transformado em um espaço que a luz não toca.

 


[Volta]