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ARTIGOS EVIRT

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Adriana Boimer  

  

NAS SOMBRAS, A PERFEIÇÃO

 

Num passe de mágica, o ar começou a ficar opressivo, as paredes imaginárias passaram a mover-se umas na direção das outras tentando sufocá-la e, às cegas, esmurrava qualquer vulto e qualquer fantasma na esperança de fugir daquele mundinho claustrofóbico. Então, ouviu-se a voz exasperada do diretor, pedindo para que cortassem a cena, argumentando que a jovem atriz não estava sendo suficientemente convincente, que lhe faltava emoção e veracidade.

 A definição mais próxima da perfeição para a bela Donna seria: jovem, mas nem tão jovem; atriz, mas nem tão atriz. Fechando os olhos, ela exilou-se de todos que a observavam e tentou encontrar uma forma, um bom motivo que a levasse a esquecer de si e adentrar naquela personagem, sentir na pele as queimaduras daquele ser fictício. Ocorreu-lhe então que a melhor maneira de ser o centro das atenções, mesmo que por uma única vez, seria usar as falas daquela personagem em benefício das sua próprias “queimaduras”. Abriu seus belos olhos “cor de mel” e começou a gritar, como se o mundo estivesse prestes a acabar e ela fosse a única responsável ou a única que poderia salvá-lo. Rapidamente alguém ligou uma câmera e todo e qualquer gesto dela passou a ser filmado.

 Donna precisava mostrar ao mundo o quanto ele próprio fazia-a sentir-se inútil, o quanto era difícil parecer perfeita perante uma sociedade, perante tantas pessoas que, ainda que inconscientemente, cobravam isso como se elas próprias estivessem a um passo da perfeição. Seus olhos faiscavam, suas mãos permaneciam fechadas em punho, preparadas para socar o primeiro que a contrariasse, pois naquele momento a atriz deixara de existir e o ser humano frustrado e irado estava mostrando seus instintos mais primitivos, aqueles mesmos instintos que durante tantos anos estiveram tão bem escondidos por baixo de fina película de educação. Consecutivamente, acontecimentos de sua vida eram transmitidos à sua mente, como cenas de novela mexicana e Donna repassava para todos a sua volta as emoções que já vivera e tantas outras que reprimira por medo, vergonha, por princípios que ela nem mesmo lembrava a procedência. Mas naquele momento nem a moral e os bons costumes a calariam. Aquele era o seu momento, era somente ela e ninguém mais, contra um mundo inteiro, contra cobranças e preconceitos, contra ela própria, suas próprias cobranças, preconceitos e limitações.

 Aos poucos, as sombras que lhe turvavam a visão foram dissipando-se, as figuras foram retomando suas formas e Donnna pôde ver os rostos que a observavam. Talvez nenhum deles pudesse imaginar que ela não estivera realmente interpretando, contudo, naquele breve instante, todos respeitavam-na, admiravam, pois havia sido o seu momento de perfeição. Um único minuto, talvez questão de segundos e todos, de uma maneira particular, em algum ponto do caminho, tornam-se perfeitos. Por questão de segundos, Donna percebeu que só poderia provar sua inutilidade, para um mundo soberbo, se ela própria não existisse, porque, de alguma forma, ela sempre seria única. Então a bela Donna rendeu-se à perfeição da criação humana, a criação pela mente e mãos humanas, aquela que surge do nada e é tão espontânea que, de início, não se sabe de onde vem nem para que serve, mas é magnífica pelo simples fato de ser a primeira; aquela que surge e não consegue ocultar a semelhança com alguma outra, assim como uma massa nova recheada com coisas velhas, uma filmagem de um fato que já foi visto, uma canção monótona e antiga, regravada por uma banda recém-formada  e que, provavelmente, será imortalizada pela interpretação do cantor, provando que algumas vezes o reflexo torna-se de efeito ainda mais brilhante e espetacular que o próprio sol.


[Volta]