Mar e Mar: navegar é possível.
Eles seriam duas crianças comuns, normais para suas idades, caso não possuíssem um enorme fascínio pela vida marítima. Mar e Mar, assim como eram conhecidos, na verdade Marquinhos e Mariana, viviam sonhando com a possibilidade de conhecerem a realidade contada dos piratas, aquelas histórias de filmes, desenhos e tudo mais. Foi então que ali mesmo, naquele belo quarto de criança, o sonho começou a tomar formas reais. O que parecia talvez coisa de outro mundo para alguns já crescidos, para eles era o início de uma viagem fantástica.
Os objetos tomaram as formas desejáveis: aquele barquinho esquecido e velho tornou-se um majestoso navio de mastro alto e suntuoso; os lençóis, as velas; o boneco fardado, o segundo comandante; as bonecas usadas e surradas pelas brincadeiras, as lindas senhoras que os acompanhariam; os bichos de pelúcia, animais que latiam e miavam. Não poderiam faltar os jogos do cassino, as panelinhas que serviriam ao mestre-cuca para deliciosas iguarias e por fim, o mar. Este já havia crescido em seus coraçõezinhos de tanto choro e lágrima que derramavam dia a dia, noites e noites sonhando em navegar.
Tudo pronto pensaram Mar e Mar juntos como sempre faziam. Ele o mais velho, conhecedor de regras e o primeiro Comandante delegava as ordens:
- "Mar, você será responsável por toda a parte de recepção e organização da viagem" Interrupção para um breve espirro.
- "O Comandante, ou melhor, o Sub-Comandante obedecerá as minhas determinações, o senhor Guloso ficará responsável pela cozinha e o Jeitoso pela arrumação dos quartos e despensas em geral"
O sonho iniciou. Chuvas tempestades, trovoadas, nada demoveria de seus pensamentos ou corações o desejo de continuar.
O Comandante sempre altivo, de cabelos quase negros, olhos expressivos e grandes. Mar, a menina esperta, esguia, cabelos encaracolados e aloirados, de olhos tão expressivos e grandes quanto do irmão não desgrudava os olhos do mar. Afinal era ele o causador do sonho pueril de ambos.
Mas aqueles olhares longínquos e inigualáveis foram interrompidos por uma súbita e expressiva atemoridade. Estavam todos encurralados entre dois imensos animais aquáticos, duas baleias gigantescas que ali passavam com seus filhotes. Seu Guloso chegou à proa e gritou:
- "Será falta de alimento, seu Comandante"? - Logo interrompido por outro não menos diferente:
- "Creio que não. Talvez uma ajeitada ali ou acolá, tudo ficaria arrumadinho, arrumadinho". - Completou Jeitoso.
Do outro lado, uma das senhoras:
- "Meus filhos, o que falta é a compreensão, os pais estão querendo proteger os seus filhotes e não entendem que prejudicam a nossa embarcação".
- "Parem, parem"! Gritou o Comandante. "Pensarei em algo".
Mar então sugeriu:
- "Soltemos o cachorro, o gato e tudo que pudermos, assim talvez, o barulho os assustem para partirem".
- "Não é uma má idéia" - Todos ao mesmo tempo.
A sugestão foi executada, mas pouco resolveu. Os animais continuaram por ali, interrompendo a viagem.
Uma outro senhora, que fora enfermeira na brincadeira de menina, falou com firmeza:
- "Um dos filhotes está ferido, temos que cuidá-lo. Tragam a minha maleta de curativos".
Todos saíram de seus postos e foram ajudá-la. Uma tarefa nada fácil pois o bicho era pesado e grande, mais dócil e carismático. Mar e Mar, as duas crianças adoráveis, tornaram-se incansáveis na luta pela sobrevivência do animal.
A noite chegou, mas somente na tarde seguinte a vitória foi alcançada: o restabelecimento foi recebido com aplausos e agora, os novos amigos poderiam partir. A viagem prosseguiu ainda por alguns dias, sempre vivendo situações inusitadas e inesquecíveis, trazendo-os ao convívio de outros amigos.
Mais adiante, alguma coisa estranha acontecia. Todos não paravam de escutar gritos e gemidos que pareciam de crianças. Daí, mais uma vez, eles se encaminharam para a frente do navio e constataram a evidência: três pirralhos pediam por ajuda, pois encontravam-se sozinhos e perdidos em alto mar num bote quase furado. Eles ficaram atônitos, pensando em uma forma de ajuda-los sem traumas para entregá-los as suas famílias. Tentaram jogar os salva-vidas, mas falharam, mais uma vez e mais outra e finalmente conseguiram. Já seguros, no navio, as perguntas iam surgindo sem pausa:
- "Quem são vocês"? "Como pararam aqui"? "E seus pais"? "Todos são irmãos"?
- "Calma, calma, assim ninguém conseguirá nada ou coisa alguma". - Disse o Comandante.
- "Podem responder a primeira pergunta e a todas". - Continuou ele.
- "Bem, eu sou Gigi de sete anos, irmã de Gabi de seis e somos primos de Luca de nove".- Terminou a espevitada menina, apontando para o maior deles.
- "Agora falo eu"! - Disse Luca.
- "Estávamos brincando perto daqui, próximo a nossa casa, mas de repente nos afastamos e ficamos perdidos".
- "Quanto aos nossos pais, estarão preocupados conosco e o pai de Luca, porque ele não tem mãe". Completando baixinho Gabi.
- "Esperamos a ajuda de todos vocês". - Ainda Gigi com lágrimas nos olhos, mas muito determinada em suas palavras e gestos.
- "Acho melhor tomarem um banho para em seguida comerem o meu tão delicioso e famoso prato: macarrão ao molho de camarão. - Disse o Guloso, nada modesto.
E assim, o fizeram com a tranqüilidade de Mar e a arrumação de Jeitoso. As crianças sentiam-se à vontade sem cerimônia como se já os conhecessem de longas datas e velhos sonhos.
Em seu canto habitual, o Comandante maquinava o caminho a tomar, chamando a todos para passar as ordens:
- "Mar, não as deixe sozinhas para que não sintam falta de suas casas. Os outros continuarão com suas tarefas rotineiras".
Prosseguiram viagem, em alto mar com dias e noites carregados pela turbulência marítima daquela estação do ano. Mar e Mar cada vez mais tórridos de paixão pelo mar e por tudo que conquistavam a todo instante. A menina dirigiu-se ao irmão em meias palavras:
- "Conseguiremos devolvê-los aos pais"?
- "Ora, Mar" Indignou-se o outro. - "Jamais tentamos alguma coisa sem sucesso, o sonho é a grande arma da vitória".
E quando terminara de pronunciar tais palavras, o grito dos infantes levaram-nos à frente do navio.
Mar, Mar e a tripulação sentiram-se emocionados, pois nada menos que os pais com a ajuda do guarda-marinha estavam ali. Gigi, Gabi e Luca não sabiam o que fazer. Agora, a tristeza era de deixar seus generosos e guerreiros amigos. Todos se despediram com eternos agradecimentos e juramentos de vivas lembranças.
O guarda-marinha distribuiu medalhas e troféus pelo resgate e também pela bravura de se lançarem de corpo e alma ao mar. O Comandante recebeu um beijo caloroso de Gigi e ficou rubro-rubro, os demais apertos de mão e abraços fortes.
Mais uma vez, ancoraram seus sonhos na mais pura realidade: uma verdadeira conquista é para todo o sempre. Porém à realidade precisavam retornar, mesmo que o sonho não termine.
Passaram pelas prateleiras do quarto, deixando as bonecas e bichos de pelúcia. No baú das recordações, a lembrança da farda, das guloseimas; nas camas, a vela que os guiaram e finalmente em lugar ainda mais destacado, o responsável por toda aquela realização: o pequeno navio.
Mar e Mar abriram seus lindos olhos, já que seus coraçõezinhos jamais fechavam. Eles perceberam que na vida tudo é possível até o mais remoto desejo infantil. E que sonhar é navegar em nossos mares recônditos, na mais profunda inspiração.
Anos passam e eles continuam a navegar em suas realizações.