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ARTIGOS EVIRT

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Carlos Borghi  

São Paulo

  

O Homem que pensava alto

 

Aloísio  desde criança falava sozinho. Era mania. Filho único, habituou-se a brincar só e “viver” os personagens de suas brincadeiras. Quando ingressou na escola, utilizava o método de ditar para si próprio as suas lições e assim conseguia aprender melhor. Tornou-se adulto e precisou controlar um pouco o seu ímpeto, pois não pegava bem um homem barbado falando sozinho o tempo todo. Mas mesmo assim, conseguia em seu serviço como técnico em eletricidade, desenvolver os seus projetos e analisar seus esquemas bem melhor se estivesse falando para si mesmo o que pensava. A fala era para ele, o fio condutor de suas idéias.

 Com isto, ganhou fama de excêntrico, estranho. Seus colegas, sem que ele visse, diziam entre si que ele possuía uns “hábitos meio estranhos”, fazendo significativamente um sinal com o dedo indicador batendo em suas próprias têmporas.

 Em uma segunda-feira logo de manhã, começou a enfrentar o maior problema de sua vida. Havia terminado um longo projeto e apenas restava tirar as cópias finais e assinar os documentos cabíveis, quando o seu chefe lhe comunicou, peremptoriamente, que ele deveria mudar a filosofia do projeto e recomeçar tudo de novo; porém não lhe seria concedido prazo extra para a execução deste serviço.  Fervendo por dentro, tomado pela fúria, foi obrigado a cerrar os dentes e concordar, humildemente com o aprendiz de ditador:

 - Ok,  Chefe. Farei de novo até amanhã!

- Só que pensar ele podia. E pensou!

 - Sua besta idiota!! Só me ferra! Vou passar a noite trabalhando.

 O “chefe”, em toda a extensão da palavra, aprumadinho em sua camisa social e calça de sarja nova, do alto de seu metro e meio, arregalou os olhos e assombrado indagou, meio incrédulo:

 -  Como é que é?!?

 -  Hãã!?

 - De que foi que me xingou?   - a incredulidade persistia. Ouvira, mas não acreditara que realmente ouvira.

 - Eu não te xinguei. Apenas disse: “Ok chefe, eu farei de novo até amanhã”.

 - Depois!! Depois disto você me xingou. Eu ouvi muito bem. Chamou-me de besta idiota!

 Aloísio ficou apavorado. Ele não dissera aquilo, apenas pensara. Como  o chefe ouvira? Será que no costume de monologar sempre, falara pensando que pensava?

 - Exatamente!   - Disse o patrão.  - Exatamente! Você pensou que pensou, mas deixou sua voz expressar em alto e bom som o que você pensa de mim.

 O espanto cresceu. Aloísio ficou completamente atônito, quando ouviu o absolutista ameaçar ao sair:

 - A besta idiota ainda não te ferrou, mas vai te ferrar. Está demitido! Arrume suas coisas e suma daqui!!

 - No ônibus para casa, não conseguia se conformar com o acontecido. Não compreendia como podia ter  se enganado daquela maneira. Só podia ser estresse. Só podia. Sua mente voava:

 - Ai meu Deus do céu, devo estar ficando louco. De tanto falar sozinho agora eu me confundo e falo ao pensar que penso. Daqui a pouco eu estou precisando ser internado num hospício. Droga... Esse motorista louco bem que podia ir mais devagar, para essa porcaria não balançar tanto. Ai, ai...  Desempregado. E agora? Como vou pagar as contas? Aquele  desgraçado do meu chefe sempre quis ter essa oportunidade. Como tem gente besta, olha só aquele tonto com blusão amarelo berrante! Tá ridículo! Aposto que acha que tá abafando. Vou tomar um porre hoje. Vou beber até cair desmaiado e esquecer de tudo.  Onde vou arranjar outro emprego? Eu devia morrer, isso sim, pois é melhor do que ficar louco falando sem saber! Ai, minha cabeça! Esse vidro é tão duro e a porcaria do ônibus não para de chacoalhar. Eu queria esmurrar alguém. Droga. Tô ficando louco mesmo. Eu devia me matar. Devia me mataaaarrr!!!

 Neste momento alguém pôs a mão em seu ombro, e ele virou-se para o banco de trás,  dando de cara com uma velhinha simpática inclinada para frente e falando com toda delicadeza:

 - Moço, tenha calma, não fique tão nervoso assim. Tudo vai dar certo! O mundo é que está maluco e não você. Logo você encontra outro emprego, não atente contra a sua vida, porque  o suicídio não resolve nada. Nem pense mais nisto!

 - A senhora tá falando o quê??  Eu nunca sequer pensei em tirar a vida, minha senhora!  E não sou louco coisa nenhuma, sou perfeitamente normal.

- Ah! Pensar em se matar, pensou sim senhor! Até falou isto, e todos nós aqui ouvimos claramente.

 Levantou apavorado, arregalando os olhos e encarando a velhinha como  se esta fosse um demônio saído das profundezas. De tão desconcertado, puxou a campainha e desceu no próximo ponto sem nem ao menos saber onde estava. Ao descer do ônibus, porém, o homem do blusão amarelo, o ridículo, lhe interpelou:

 - Eu tô ridículo mas tô legal das idéia, malucão. Não fico falando besteira sozinho, viu, ô palhaço. E se tá com vontade de morrer mesmo vem pra cima, mano!!

 Aloísio  desceu correndo do ônibus. Estava totalmente fora de si e arrumar briga com malandro era uma das coisas de que precisava. Foi andando em direção à sua casa,  com medo de pensar. Não restava dúvidas de que estava falando tudo o que pensava. Estava totalmente convencido de que se tratava de excesso de trabalho e preocupação. Umas boas horas de sono e tudo voltaria ao normal.

 Ao virar a esquina de sua rua, deparou com a paixão de sua vida. Era Vilma, a garota mais linda de todo o bairro, e para não correr riscos de falar o que pensava toda vez que a via, disfarçadamente pôs uma das mãos sobre a boca, para mantê-la bem fechada.

 - Que doçura! Se me desse bola e fosse menos nojenta e metida seria a mulher mais maravilhosa do mundo. Nem me olha...

 Mas ela olhou. Olhou e ofendeu:

 - Metida e nojenta é sua mãe, seu cachorro. Vê se te enxerga!!

Quase gritou em desespero. Levou as duas mãos à boca, sabendo que era inútil. Estavam todos ouvindo os seus pensamentos. Não era possível, mas era verdade. Ele não falara, desta vez, e ela ouvira seus pensamentos. Os pensamentos!!

 Avermelhando pela vergonha, não teve coragem de dizer nada, e correu para casa, onde ficou trancado em seu quarto até de tarde, com dor de cabeça e pensando que teria um ataque mortal.

 Só saiu de lá à tardinha para desabafar com a sua mãe. Ela lhe compreenderia.

 Sentou-se à mesa e a mãe começou  a comer assistindo a novela como sempre. Fechou sua boca, e pensou diretamente:

 - Mãe, eu estou precisando de ajuda.

 Sem erguer os olhos da TV, a genitora continuou a comer e respondeu, chorosa:

 - Se é dinheiro, eu não posso fazer  nada. Paguei as contas ontem e agora dinheiro só no final do mês, cê sabe que a aposentadoria não dá pra nada, e ultimamente cê tem me dado bem pouco dinheiro, porque também não tem e além disso...

 - Não é nada disso, mãe. Eu não quero dinheiro!   ¾   sempre pensando, boca fechada.

 - Olhe, filho, já te disse: se for problema com os rabo-de-saia que você anda por aí, eu não quero nem ficar sabendo. Não quero guria nenhuma no portão de casa dizendo que vou ser avó...

- Mãe. Pare de dizer bobagens e olhe para mim!!

 Segurando na mão, o garfo, olhou para ele pela primeira vez naquele dia e falou, sem entender mas procurando no rosto, no cabelo, nas roupas. Como nada visse de diferente:

- Estou olhando, e daí?

 - E daí que eu não estou falando com você. Estou pensando com você!  Está vendo só? A minha boca está bem fechada e você está me ouvindo. Eu tapo ela com as mãos e você continua me ouvindo. E não é só você. A vizinha está ouvindo os meus pensamentos, o meu chefe está, as pessoas no ônibus também. Só me meti em encrenca, desde que saí de casa!!

 O garfo caiu em cima do prato, e a boca da mulher sentada à mesa escancarou. Primeiro ela duvidou. Desconfiou de alguma brincadeira. Disse que era truque de ventríloquo, procurou algum mini-gravador escondido, pensou mil coisas. Depois vendo que parecia ser verdade, começou a andar pela cozinha, até que, sentando-se novamente, vaticinou:

 - Cuidado, meu filho, cuidado!  Isto pode te causar muitas desgraças. Nossos pensamentos são a única maneira que temos de ser cem por cento sinceros e o mundo não está preparado para a sinceridade. O homem não quer saber e nem ouvir verdades, quer apenas que mostremos o que é educado, conveniente e socialmente adequado!

Aloísio não duvidou nem um pouco da fatídica  profecia materna, pois naquela manhã havia provado o quanto aquilo era verdade. Por alguns dias não saiu de dentro de casa, com medo. E se porventura os sonhos dele fossem audíveis também? Que horror! Como poderia controlar as visões de sua mente??

 Alguns dias depois, resolveu enfrentar esse medo e saiu às ruas, disposto a controlar os pensamentos.

 A sensação era de que estava nu. Tinha receio de tudo e de todos. Andava com a cabeça baixa e rapidamente. Não sabia onde ia, mas continuava. Pensou em tomar uma cerveja com os amigos do bar do Teleco, para refrescar a cabeça, mas desistiu rapidamente: era melhor que o dono do bar nunca imaginasse os pensamentos  que sua mulher despertava em seu freguês. Foi até a biblioteca para ler um pouco, mas após três ou quatro advertências a bibliotecária pediu que se retirasse, pois ler “falando alto” (assim disse ela) atrapalhava os demais usuários...

 Entrou numa agência de empregos e quando terminou a ficha, viu a atendente rasgá-la bem debaixo de seu nariz, jogar os pedaços no lixo e desafiá-lo, furiosa:

 - É isso que a “imensa baleia com nariz de tatu” faz com a sua ficha, afinal de contas aqui só tem “servicinho micho” com salário de fome, não é, seu animal mal educado e impertinente!!

 Aonde foi, com quem conversou, aonde parou, arranjou encrenca. Perdeu um amigo de vários anos, pois não conseguiu deixar de lembrar que o amigo era muito chato e lhe devia trezentos reais já há seis meses e nada...

 Procurou um médico. Este porém, tinha um jeitinho meio estranho de boiola e pensar isto foi um erro crasso. Ouviu um sermão de meia hora sobre direitos e respeito às opções alheias e depois foi posto porta afora, sem contar os seus problemas, mas pensando, bem alto, que o médico realmente era boiola.

 Tentou ainda a religião, mas na hora da missa, começou a pensar em todos os problemas que lhe afligiam a vida e o sacerdote mandou o desrespeitoso inconveniente calar a boca.

 Acuado, sentiu-se como raposa cercada por cachorros. Voltou para casa chorando. Não saiu mais e só “conversava” com a mãe em pensamento. Até ao telefone as pessoas ouviam o que ele pensava e uma velha amiga de sua mãe ao ligar, esbravejou com ele por tê-la ofendido:  “Velha coroca” é a vovozinha, ouviu bem?

 Sua vida passara a ser realmente um livro aberto. Aberto, indecente, censurável e indesejável!   Trancava-se no quarto durante horas procurando privacidade. O coitado, estava a enlouquecer. Passou a considerar a liberdade de pensamento como o maior dom do homem. Desejou nunca mais pensar. Era melhor que morresse a continuar daquele jeito.

 Na sexta-feira, dormia, quando o telefone o acordou. Sem abrir a boca ele pensou:

 -  Alô.

 Do outro lado, uma voz conhecida. Era o seu patrão, o ditador:

 - Alô?

 - Pode falar.   - sempre pensando.

 - Alô??

 - Pode falar que eu estou ouvindo.   ¾   Aloísio pensou mais alto.

 - Alô?!?  Tem alguém aí??

 Vendo que o chefe não ouvia o seu pensamento, num impulso Aloísio abriu a boca e falou:

 - Alô, chefe, pode falar.

 - Aloísio, tudo bem? Eu queria falar um pouco com você.

 - Pode falar.

 - Eu estive pensando sobre tudo o que aconteceu, e resolvi voltar atrás naquela decisão. Segunda-feira pode voltar a trabalhar, por favor. Desculpe tudo o que eu disse e vamos começar vida nova, tudo bem?

 Aloísio admirou-se e o pensamento foi voluntário. Não conseguiu impedir: “Seu cachorro desgraçado. Precisa de mim mais do que imaginava, não é?” Arrependeu-se na mesma hora e esperou a explosão do outro lado. Mas o que ouviu o desconcertou:

 - Além disso, eu vou lhe dar um substancial aumento de vinte por cento em seu salário, Ok?

 - Tá...  tá bem... Eu vou... eu vou sim. Segunda feira, então!

 - Até lá?

 - Até lá.

 Teve um estalo e imaginou que não estava mais pensando alto.  Correu até a cozinha onde a mãe preparava o almoço e concentrando-se, pensou com toda força:

 - Mãe!!

 A mãe, na pia de costas para ele não se moveu.

 - MANHÊÊÊ!!!

 Nada. Resolveu apelar para algo que a sua mãe jamais deixaria de dar importância:

 - Mãe, vão desligar a energia elétrica todos os dias no horário da novela por causa do “apagão”.

 A genitora, cortando rabanetes e cenouras, nem tchum!!

 Ele gritou, então, com todo o som de sua garganta:

 - Estou curado!!  Estou curado!!

 Ele assustou sua mãe que segurando o peito com a mão ralhou com ele por causa da gritaria. Ele nem se importou, mas abraçou-a, entre beijos e quase a levando ao solo. Se agüentasse, lançaria ela para  o alto. Saiu para a rua, de peito aberto, confiante, preparado para pensar o que quisesse e quando quisesse. Deu de cara com a Vilma que vinha em sua direção, mais linda do que nunca:

 - Oi, tudo bem?  Você pode me desculpar?

 - Claro, também devo lhe pedir desculpas!!

 - Hmmm...  Você tem compromisso hoje à noite?

 - Não tinha, até agora. Que horas eu te pego??

 O jantar da noite foi financiado pelos trezentos  reais que seu amigo veio lhe devolver, estendendo-lhe a mão e reafirmando a velha amizade. Recuperou o dinheiro, o amigo, o emprego e ganhou uma esposa...

 Esta é uma estória de liberdade de pensamento, o  bem mais precioso que cada um de nós pode ter. Liberdade de formularmos as nossas próprias idéias, por mais errôneas e inconvenientes que possam ser. São nossas.


  • Carlos Alberto Borghi Barros - [Contato

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