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ARTIGOS EVIRT

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Chico Branco

Amazonas

 

 Um Programa Problemático

  

Existem situações que acontecem por acaso e que no instante do ocorrido são até levadas a esmo, mas que depois se tornam estórias interessantes e com motivos para boas gargalhadas. Esta que vou lhes narrar aconteceu há algum tempo.

Certa vez, estava esperando por um amigo em um barzinho. Havíamos marcado um encontro para conversarmos e colocar o papo em dia. Coisa de rotina, vocês sabem. Após uns dez minutos de espera ele chegou.

-        - Oi Alfredo! Tudo bom? Ah! E desculpe a demora!

-        - Beleza amigo! O que houve? Você sempre chega primeiro!

-        - Ah Meu! Você sabe como é essa vida de fazer programas. Um dia agente tá num marasmo só, noutro, agente tá correndo pra todo lado de tanto programa que pinta pra fazer.

-        - É, eu compreendo! Fique frio, tome um choppinho pra relaxar.

-        - Com todo prazer...

Enquanto bebíamos, a conversa seguia animada como sempre. Ambos trabalhávamos no mesmo setor e isso era uma das boas oportunidades que mantínhamos pra trocar idéias a respeito. Além de falar sobre outras coisas, claro.

Paulo, sempre cheio de novidades, era quem mais falava. Eu gostava de ouvir suas explanações, pois ele sabia explicar tudo com muito detalhe. Seu único defeito era falar um pouco alto. E isso era melhor agente se acostumar do que tentar combater. E foi dada a altura de sua voz que notei as duas senhoras, já de certa idade, que estavam numa mesa próxima comendo um lanche, dando atenção a nossa conversa e olhando para Paulo com um certo ar de reprovação. Não falei nada a respeito e seguimos conversando.

-        - Sim Paulo! E aquele programa da semana passada pro ricaço?

-       -  Pô Alfredo, foi o maior saco. O cara não sabia o que queria. Num instante pedia uma coisa e noutro, já queria diferente. Quase que morro de esgotamento tentando satisfazer todos os desejos dele. Ainda bem que ele pagou tudo como combinamos no telefone.

-        - Eu imagino a cena. Você com esse “talento todo”, tentando fazer um programa onde os gostos mudam a cada instante e onde mudar de posição é preferência do cliente. Imagino!!!

-        - É colega, fazer programas exige uma boa dose de paciência e disciplina...

Foi nesse instante que uma das senhoras, não mais se contendo, levantou e falou:

-        - Francamente! O senhor não tem vergonha na cara. Tamanho homem. Vá procurar o que fazer seu cafajeste. E ainda por cima fica falando disso como se fosse uma coisa comum...Respeite! Aqui é um local público. Ora...

Depois do baita susto Alfredo reagiu à altura:

-        - Ora! Digo eu minha senhora! Retrucou Paulo. Desde quando trabalhar honestamente ofende alguém. A senhora é a primeira que conheço. Vá cuidar da sua vida. Ora essa, onde já se viu...

-        - Trabalhar!!! O senhor há mais de meia hora só fala em programa e ainda por cima dá detalhes da intimidade de seus clientes e quer que eu não me ofenda. Francamente meu senhor! Isso é uma vergonha! Isso nos ofende!

Eu, claro, já havia entendido tudo. Porém, o coitado do Paulo havia ficado tão transtornado com a interrupção da senhora que não percebera nada. E continuava tentando fazer as pobres senhoras entenderem o seu trabalho.

-        - Dona, fazer programa é minha profissão. É deste modo que sustento minha família; pago a escola de meus filhos; aluguel; etc. Saiba a senhora  que eu tenho amigos que são formados em faculdade de direito e não ganham o que eu ganho fazendo programa. Eu tenho clientes em toda Manaus, além disso, faço programas como poucos...

-       -  Pare!!! O senhor estar passando dos limites com toda essa baboseira de programa. Como ouça falar em família sendo o que é. Vá rezar e pedir perdão a Deus. Quem sabe Ele lhe tire dessa perdição. Já pensou se sua mulher descobre como é sustentada?

-        - Mas ela sabe! Até me ajuda. Tem alguns trabalhos em que ela participa. Quando temos muito serviço até nosso filho mais velho já faz. E saiba que ambos estão se saindo muitíssimo bem obrigado!

-        - Já basta meu jovem. Isso é uma coisa horrível. Onde vamos parar. Eu nunca pensei estar viva para ouvir um pai de família, se é que posso chamá-lo assim, dizer tantas palavras de perdição. Você e sua família estão perdidos. Deus me livre de ser uma vizinha sua...

-        - A senhora iria era gostar de ter um eu como vizinho. Só na rua onde moro tenho sete clientes.

-        - Meu Deus! Ë o fim do mundo! - Disse, já pálida, a mulher que voltou a sentar e foi acalmada por sua colega de mesa...

Neste instante chega Thiago, um amigo nosso.

-        - Oi pessoal! Tudo bem?

-        - Tudo! - Respondemos.

Thiago, percebendo uma certa agitação na maneira de Paulo, questionou:

-        - Ué! Paulo. Que cara é essa?

-        - Nada...Nada! Deixa pra lá. Mas sim a que devo a honra?

-        - Olha Paulo! - Disse Thiago.

 - Lembra daquele programa que você fez semana passada para aquela coroa lá do Vieira Alves? E que você disse que se ela não gostasse faria de novo? Pois é, ela acabou de me ligar é quer tudo novamente e de graça como você prometeu.

-        - Droga! Não acredito.

-        - Acredite. Ela quer você lá no fim de semana com todas as ferramentas em mãos, Ok!

-        - Tudo bem! Trato é trato. Afinal minha reputação de profissional do ramo está em jogo. Diga a ela pra marcar o horário, eu vou!

-        - Então, tá certo. Vou combinar tudo e ligo. Tchau para vocês!

-        - Tchau Thiago! - Respondemos ao mesmo tempo.

A mulher ao lado agora estava mais pálida ainda. Seu assombro era total. A outra, que até então havia se contido, estava rubra de tanta raiva. Percebi então que era hora de darmos no pé e convidei Paulo para irmos embora. No que fui prontamente atendido.

Paguei a conta enquanto Paulo já se levantava e sem olhar para a mesa das senhoras, saía rumo à porta. Recebi o troco do garçom. Levantei-me calmamente, sob o olhar de reprovação das duas senhoras e antes de dirigir-me à saída fui até a mesa delas e comentei.

-    - É minha senhora! Ele faz programas sim. Agora mesmo estamos saindo para fazer um juntos. Ah! E antes que eu me esqueça, as senhoras já ouviram falar em computador?

 

  • Chico Branco é Autor do Livro convencional: "Emoções de Momento". - [contato


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