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ARTIGOS EVIRT

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Bruno Ferreira 


O Vinho
 

   

Moisés era velho. Seu nome anacrônico e cristão era mais do que adequado para si mesmo, pois a fé de Moisés não conhecia limites nem dúvidas, e Moisés já sentia-se velho antes de ser propriamente um jovem, e agora, quando olhava para a vida no auge de seus sessenta anos, não conseguia se dividir em fases. Nem a paternidade de um filho nem a morte do pai alterou suas profundas convicções sobre honra, propósito e humildade, os três pilares que deixavam seu caminho limpo, sem doenças, sem tentações e absolutamente sem surpresas.

Foi então com um sobressalto raro em sua história, imperceptível para quem não o conhecesse intimamente, que Moisés abriu a porta do sobradinho velho e deparou-se com uma cesta de vime. A cesta continha uma confusão de papel e tecido, e, para seu alívio, foi rápido em notar, não havia criança abandonada alguma dentro do pacote. Era uma garrafa de casco verde, líquido escuro e uma rolha.

Abaixando, não sem certa dificuldade, para pegá-la, olhou para os dois lados da rua inclinada de paralelepípedos na qual morava, à procura da alma caridosa que o presenteava, mais para avisá-la que ali não era residência de nenhuma moça bonita do que por curiosidade. A rua vazia respondeu sem dificuldades que nenhuma informação adicional se poderia extrair naquela posição. Então Moisés levantou-se e, cesta na mão, caminhou para dentro.

Deixou a cesta em cima do velho piano, entre um arranjo de flores e uma foto de sua falecida esposa e já distante filho, e resolveu tomar um banho antes que ficasse mais frio do que já estava, e também para provar que levava mais que uma garrafa órfã para mexer com ele. A inquietação desenvolveu-se durante a rotina diária de barbear-se , uma das poucas concessões que garantia à vaidade. Foi durante este pequeno ritual cotidiano que Moisés sentiu algo, que não sentia há tanto tempo, que levou alguns instantes para associar suas sensações a uma palavra. Era curiosidade. Aquela que tinha matado o gato e levado os bons meninos à casa da bruxa.

Apressou-se com a lâmina, sem mesmo notar sua pequena falta de controle até o momento que se cortou na altura do queixo. Deixou sair um pequeno gemido, não por dor, mas porque sabia que sua pele velha ia demorar a cicatrizar, e quando rumava para buscar pedaços de papel higiênico, sabia que tinha uma excelente metáfora em mãos. Sua cabeça fez contas imaginárias e Moisés, agora terminando as costeletas com calma, disse a si mesmo que a pressa tinha lhe custado o dobro do tempo que levaria para fazer a barba e ir até a maldita garrafa.

Então um Moisés mais sábio saiu daquele banheiro, rumou até o topo do piano e levou a garrafa para cima da mesa, na qual fazia todas as suas refeições nos últimos vinte anos, e olhou para ela.

Seria vinho?

Com certeza aparentava ser, movia-se como vinho, mas ele sabia que qualquer coisa numa garrafa verde com uma rolha ia parecer vinho. Mesmo água, que seria um vinho branco, até sangue, que desde os tempos de Jesus, confundia-se com vinho tinto. Um presente da paróquia, talvez... Mas ele não ia lá há mais de uma década, não desde a morte de Sara, e os feriados religiosos eram escassos em Julho. Seu aniversário, no meio de Janeiro, havia sido lembrado com visita rápida do filho e carta-padrão da avícola para qual tinha trabalhado antes de aposentar-se. Em qualquer um dos casos, pensou Moisés, que tipo de pessoa presenteia um vinho sem rótulo?

Definitivamente, o que mais incomodava Moisés era a ausência do rótulo. Confirmava o teor caseiro e pessoal que sentia nesse anonimato, e pouco a pouco, a garrafa sem rótulo foi fazendo emergir em Moisés a certeza que estava muito, muito sozinho.

Foi um Moisés mais solitário que procurou um saca-rolha.

Procurando pelas gavetas, algumas delas intocadas havia meses, Moisés começou a irritar-se, sua memória não lhe servia mais como costumava servir. Sara iria saber onde estava o saca-rolha, o maldito saca-rolha.

Controle-se, pensou Moisés, era seu segundo praguejamento e voltou a ficar bravo com o suposto vinho. Sara sabia de tudo. Moisés sabia que ia encontrá-la  logo mais, e teriam uma eternidade para arrumar cozinhas no céu, se ele parasse de praguejar pelo menos.

Moisés desistiu da comodidade de um saca-rolha, e puxou uma faca de lâmina fina da gaveta. Isso mesmo. De volta a tempos, mais simples em que os homens sabiam que para abrir uma garrafa não era necessário um saca-rolha. O saca-rolha tinha sido inventado depois da rolha, e essa, depois da garrafa, e todos, com certeza, bem depois do vinho. As pessoas que mereciam os poucos espaços de admiração no coração de Moisés tinham sido as do tipo que faziam garrafas, ou inventado o vinho, mas nunca o tipo de pessoa que viria com a idéia do saca-rolha.

Tirar a rolha com a faca provou ser mais complicado que se esperava, e,  no fim do processo, pedaços de cortiça espalhavam-se como migalhas na mesa e uma rolha carcomida flutuava sobre o vinho, dentro da garrafa. Levou a garrafa até o nariz e cheirou. O cheiro intoxicante do álcool superou seus outros sentidos e Moisés foi surpreendido pelo tempo em que se deixava induzir por algumas cervejas e uísque. Esse não era o vinho sagrado. Esta bebida não sacramentava nada, a não ser fuga. Este vinho não era o sangue que Jesus proclamou seu próprio, mas sim aquele que Noé teve que abrir mão para construir a arca.

Embora Moisés realmente não acreditasse nisso, ele se convenceu que a bebida estava estragada de alguma forma, e o único motivo que evitou que a jogasse direto no lixo foi a possibilidade do galante presenteador perceber seu erro e voltar atrás do presente para sua amada.

Naquela noite, Moisés não conseguiu dormir. Primeiro culpou o cheiro do vinho. Depois, encarando a realidade, notou a grave sombra melancólica que abatia seu humor, e levantou-se. Rumou até a mesa da cozinha. Como se fizesse uma visita para um velho amigo, pegou um copo e serviu para si mesmo uma taça do vinho espesso. Parecia natural, pensou Moisés. Uma taça de vinho. Nada mais. Virou um gole tímido e seu corpo pareceu não reclamar. Na verdade, logo mais tudo pareceu, por falta de outra definição, melhor. O vinho tinha um excelente sabor, e a imagem de Sara, antes assombrando-o com tristeza, voltava com mais força numa saudade pungente que conseguia selecionar com exatidão todos os bons momentos.

Ele não se incomodou com o veneno.

Pois sabia que era isso desde o começo, embora as coisas neste instante fossem muito mais claras e óbvias. Ele podia sentir o cheiro pútrido da bebida contaminada, mas mesmo esse cheiro fétido e ocre resumia-se em perfume, e,  elevado como estava, flutuando para fora deste mundo, alegrou-se de ter abraçado essa tentação e perdoou, por fim, o inventor do saca-rolha.

Sobre o misterioso enamorado que tinha produzido o vinho, Moisés realmente esperava poder um dia encontrá-lo para agradecer por tudo, avisá-lo que ele ia ter de parar de praguejar e matar pessoas, mas que, quando aqui em cima, tudo valia a pena.


  • Bruno Ferreira é Universitário. 

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