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ARTIGOS EVIRT

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Fernando Firmo 

Rio de Janeiro

  

 RECANTOS

 

Encostado no balcão, lia o jornal. As notícias me escandalizavam tanto quanto o aspecto da lingüiça que beliscava a título de tira-gosto. As palavras do companheiro de trabalho ainda passeavam pela minha cabeça sem encontrar um lugar para deixar ficar: “Fernando, vai baixar a repressão!”. Mas que diabos! O que quer dizer isto afinal? De onde aparece esta coisa que teu corpo aprendeu a antever tão bem? Coisas do Brasil. Diga ao povo que fico! Esse era pra ter ido embora. Esse e o do bigode. E todos os outros, claro. Muy conocida de nosotros, la repressión.
 

Pedi mais uma cerveja e recusei outra porção. É preciso tirar a poeira disso tudo, meu amigo. Da lingüiça, inclusive. Enquanto me divertia por alguns segundos com o esforço feito por um rapaz ao esperar o banheiro vagar, acabei por ouvir o comentário surgido no grupo ao lado:  “Isso é uma zona, uma baderna, no tempo dos militares não tinha essa esculhambação!”. O ovo da serpente . . . eu o coloquei contra a luz e vi nitidamente o feto se mexer. Caramba! Se ao menos esta lingüiça prestasse!

 Lia mais um capítulo do escândalo sobre a ferrovia norte-sul. As pessoas perderam a capacidade de se indignar, filosofava ao percorrer os rostos de meus companheiros de bar. Não, não é isto! Na verdade, o jornal é uma grandessíssima peça de ficção e eu sou o único que não percebi. A realidade era aquela história que um sujeito ao meu lado contava.

 Peguei o bonde na parte em que ele tirava peça por peça da roupa da secretária, um avião. Os detalhes iam se desfilando à medida que a platéia se excitava. A Historia já havia se transformado numa orgia louca, rica em detalhes, quando me apareceu na cabeça, cristalina, uma certeza: “Este cara tá mentindo”. Fiquei olhando o grupo e percebi a inutilidade de minha descoberta. Esta era a maneira de fazer sexo das pessoas. No bar, entre amigos.

 Comecei a considerar seriamente a possibilidade de estar ficando bêbado. Cheguei à conclusão de que isto não fazia a menor diferença diante daquele senhor de barbas brancas a me olhar insistentemente. Vencido pela carência contida naqueles olhos, abandonei pelo meio a reportagem sobre o tal escândalo, dobrei o jornal e pensei: “Nunca gostei de ficção mesmo”. O homem se encostou, pediu um conhaque e passou a falar. Era separado da mulher, odiava-a profundamente, não tinha um pedaço da bexiga, trabalhava em algo chatíssimo ligado a seguro etc. Já estava prestes a outorgar-lhe o Prêmio Novel da Normalidade Final do Século XX quando minha cabeça produziu: “Fernando, coincidências não existem!  Eu sei. Luísa e Marcos também. Você nunca deu papo em boteco, agora relaxa e goza!”

 Em meio a bexigas a menos e pastilhas 007 a mais, veio a frase: “Você é daqueles com quem se pode falar”. Examinei detidamente a probabilidade de ele estar se referindo à bexiga. Era nula. Por uma timidez tão estúpida quanto natural, respondi que pagava impostos e reclamava do governo, era flamengo, tinha complexo de Édipo, sei lá mais o quê. Não adiantou. Disse-me ser músico, com mais de trezentas músicas inéditas e, muito modestamente, afirmou nada dever ao Lupicínio Rodrigues. Quase entrei em pânico quando percebi que ele estava em trâmites burocráticos para começar a cantar. Desesperado, procurei evitar uma cena por demais constrangedora que se avizinhava. Fracassei.

 O homem começou a cantar. Instantes depois, eu estava escandalizado com a beleza daquela voz, daquelas melodias, das letras. Foram mais de cinco canções seguidas enquanto eu olhava aquele homem, profundamente chocado por ele não ter parte da bexiga. Num dado momento, ele deu um gole no conhaque e ficamos em silêncio. Seus olhos brilhavam, também os meus. Olhei para a rua e pensei: “Aonde se esconde, onde se perde tudo isso?”  Viva qualquer coisa, canta Caetano Veloso em algum lugar . . .

 Despedimo-nos. Dei uma pichadinha no governo, ele disse temer a perda do resto da bexiga. Mas não adiantou. Coincidências não existem. Ao chegar em casa, meu companheiro de trabalho tinha ligado. “Fernando, vai baixar a repressão amanhã na empresa!”.  Mas que diabos! Esta era hora de ficção ao telefone?  Fui dormir assobiando uma das canções que tinha acabado de aprender.

 

  • Fernando Augusto Teixeira Firmo é Engenheiro - Aragão  - E-mail: fatf@uol.com.br

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