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ARTIGOS EVIRT

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Ivan Martins

 Conto

     LEMBRETES  

"Para alcançar o seu objetivos, 
o
diabo é capaz de citar as escrituras" 
W. Shakespeare

                                                                

"Glória, tu podes ir. Eu vou ficar trabalhando até mais tarde." A moça hesitou  um pouco. "Mas se o senhor precisar de mim..." "Não. Não é justo. Tu sabes que a empresa não paga hora extra...". Ela se calou e começou arrumar a sua mesa de trabalho, na saleta ao lado. Apanhou o seu livro de poemas, sempre trazia um para ler nas horas vagas. Depois voltou: "Também não é justo para com o senhor..."Ele sorriu: "Mas eu sou chefe de  departamento, ganho comissão, não tenho direito legal de receber hora extra. Vai Glória, não te preocupes comigo. É o ônus que eu tenho de pagar, por não ter de bater ponto. Tenho que terminar este relatório para a reunião do Conselho Diretor amanhã. Boa noite e obrigado, tu és uma  excelente secretária, mas deves ter as tuas obrigações em casa...Não é justo."

Ela foi apanhar a sua bolsa no armário e tomou direção do corredor de saída. "Então até amanhã, Doutor Daniel, " disse ao passar pela porta do gabinete. "Só me faz um favorzinho antes de sair. Me arranja uma garrafa térmica com café. Deve haver alguma lá na copa...Olha, se não tiver sobrado nenhuma não precisa fazer café novo! Isso é serviço para a dona Francisca." A moça foi para o interior das dependências do escritório, demorou um pouco,  voltou depois com uma térmica e a colocou na bandeja, junto às xícaras. Fizera café novo .

Na manhã seguinte quando chegou,  abriu o computador e encontrou na mesa de trabalho da tela um lembrete:

  Há quem  tenha  alma  diferente, preocupando-se em adivinhar o que o outro sente...                     

 Glória, Glorinha, como a chamavam os colegas do escritório, ficou sem entender, pensando… Claro, só poderia ter sido o doutor Daniel o autor do poemeto. Gentileza! Foi uma forma de agradecer o café. E começou a sua rotina diária. Seu chefe só chegaria pela tarde. Ela tinha páginas e páginas para digitar. Botou mãos à obra.

 Quando Daniel chegou, nas primeiras horas da tarde, Glorinha não tinha voltado do almoço. Ele foi para a sua sala, tomou um café e sentou-se a sua  mesa, abriu o computador e deu com um lembrete na tela:

 Difícil a tarefa de quem tem que adivinhar  aqueles  que costumam se ocultar...

 Sorriu. Em seguida o interfone tocou. Era Glorinha avisando que já tinha chegado, se precisasse de algo era só chamar. "Me traz a agenda, Glória. O que é que temos para hoje? Muita coisa?" Em seguida ela entrava na sala com um disquete na mão. Sentou-se ao computador e ali estava o seu lembrete.  Dirigiu para ele um rápido olhar com os seus olhos grandes e negros e abriu o disquete que continha todas as tarefas para o dia. Leu a pauta, frisando: "O senhor não pode perder muito tempo com o seu Eduardo. A reunião da diretoria é às 17 horas. Seu Eduardo está marcado para às l6:30. Só que ele costuma falar pelos cotovelos, o senhor sabe..." Disse, sorrindo e ajeitando seus cabelos pretos e brilhantes. "Foi bom tu me lembrares disso. De qualquer forma, quando faltar dez para às cinco, tu me dá um toque."

Eduardo, o contador-chefe, chegou pontualmente  à hora marcada. E nem poderia ser de outro modo, ele nunca se atrasava. Mas nunca tinha hora para acabar as suas intermináveis ponderações contábeis. Glorinha teve que avisar doutor Daniel de que a hora da reunião se aproximava. Em pouco tempo ele deixava sua sala, acompanhado do contador que ainda falava: "As coisas não estão boas, doutor Daniel, não estão nada boas. Faça ciente disso a diretoria!". Ao passar pela secretária, Daniel pediu: "Preciso que tu me esperes. Vamos ter que trabalhar um pouquinho depois que a reunião terminar, certo?". "Tudo bem, eu espero".

O interfone tocou e Daniel, da sala da Diretoria, pediu à secretária um balancete que seu Eduardo deixara com ele. "Escuta, Glorinha, me traz em mão esse documento. Não manda pelo “Boy”. São sigilos." Ela foi pessoalmente. A sala estava repleta de homens engravatados, num clima desconfortável. Daniel olhou para ela, demoradamente, enquanto a moça lhe passava o balancete. Inclinara-se protegendo os seios de um decote exagerado. Os executivos presentes também olharam, como procurando um momento de “relax” naquela reunião tensa e só de homens. Daniel agradeceu e lhe entregou um outro documento, pedindo que ela digitasse o seu conteúdo no arquivo "compras", no computador do seu gabinete. Lá estava:

 Nenhum homem pode confessar, assim no mais, 
seus  sentimentos,
se pode provocar ressentimentos!

Glória digitou o documento e, em seguida foi para a sua sala. Várias pessoas procuraram pelo Chefe do Departamento. Vários foram os telefonemas que atendeu, além de ter que registrar a entrada da correspondência do dia e responder algumas cartas mais urgentes. No fim da tarde estava cansada. Gostaria de ir embora para casa, mas tinha de ficar. Havia sido expressamente convocada! O interfone tocou, era o doutor Daniel novamente, da sala de reuniões. "Glória, minha filha, a reunião vai se demorar muito. Não precisas me esperar. Podes ir embora." "Mas doutor, não tem nenhum problema se tiver de esperar, avisei minha mãe que ia chegar mais tarde". "Não, minha querida, não é justo. Podes ir!"

Quando Daniel voltou a seu gabinete e ligou o computador para algumas anotações, encontrou mais um lembrete:

Por que temer ressentimento alheio se já não existe mais qualquer receio
de não se encontrar apenas um coração, há muito condenado à solidão?

Daniel sorriu e ficou pensativo. Em seguida tirou o casaco e a gravata, ligou o ar condicionado e preparou-se para começar o seu trabalho: redigir minuciosamente a ata da reunião da Diretoria. Os membros do Conselho Diretor estavam, a seu ver, dispostos a pedir concordata! Estava na hora de ele arranjar outro poleiro. Tinha um nome conhecido na praça como economista de alto gabarito! Não lhe faltaria uma boa colocação nas empresas concorrentes. Tratou de pôr em execução, imediatamente, seu plano. Fez algumas ligações com contatos importantes em São Paulo. Tocou o interfone: "Fui fazer um lanche e já estou de volta, à sua disposição, doutor Daniel."

Trabalharam até tarde e por nenhum instante trocaram uma só palavra sobre os lembretes mútuos. Enquanto trabalhavam no gabinete, Daniel pediu licença e se afastou por alguns momentos. Na sala dela, digitou apressadamente:

  Se há um coração em solidão não há porque qualquer temor, 
s
e a gente guarda em si
tão grande e sufocado amor ...

Quando voltou, ela, discretamente, se afastou pretextando ter de apanhar alguma coisa em sua sala. E, claro, enquanto ela lia o lembrete na sua sala, ele lia no gabinete:

                    Por que deixar de enfrentar a vida a dois e continuar, perdida num sonho, 
sem viver, só  a desejar
  quando se tem tanto amor pra dar?

Quando Glorinha voltou ao gabinete, Daniel a abraçou, beijou-a ardentemente e , sem dizer palavra, começou a despi-la.

- Não, Daniel. Não gostaria que esse amor tão bonito tivesse esse andamento. Precisamos pensar um pouco e conduzir as coisas em outros termos."

 - "Mas querida, nós acabamos de descobrir esse amor. É preciso que vivamos essa experiência encantadora até o climax, hoje, agora! E o nosso climax será como um brinde ao amor maravilhoso que vamos passar a viver de hoje em diante. Somos os dois livres, livres e descompromissados, só temos mesmo é que providenciar a legalização da nossa união, se  é disso que tu falas..."

 - "Não , interrompeu a moça,  não vou te cobrar nada a não ser a certeza da continuação desse sonho que há tanto tempo eu guardava só pra mim!"

 Ele a impediu de falar mais, calando-a com beijos ardentes de desejo, ao mesmo tempo que terminou de despi-la, antegozando os momentos que viriam e devorando com os olhos a beleza de sua nudez, estendida no tapete da sala.  Amaram-se de forma febril e  com a violência de quem aguardava ansiosamente aquele momento.

 No dia seguinte, Daniel não apareceu no escritório. No outro, Glorinha soube que ele tinha pedido demissão  e, segundo se comentava, fora para São Paulo trabalhar numa empresa concorrente. Entrou então no gabinete dele, meio desnorteada, recordou os momentos inesquecíveis que havia vivido ali. O computador estava ligado com o protetor de tela: o logotipo da empresa, que girava lentamente. Ativou o aparelho.  Mais um lembrete:

Glorinha,  querida: Nunca na minha puta vida tinha escrito qualquer poema! 
Sou
  romântico por natureza...
Adeus, gostosa ! Mereces uma rosa...

Glorinha deixou-se ficar ali por algum tempo, olhando para o último lembrete. O protetor de tela voltou a funcionar e o logotipo da empresa reapareceu girando, girando como a cabeça dela...

 


[Volta]