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ARTIGOS EVIRT |
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Ivan Martins |
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Conto
LEMBRETES "Para alcançar o seu objetivos,
"Glória,
tu podes ir. Eu vou ficar trabalhando até mais tarde." A moça
hesitou um pouco. "Mas se o senhor precisar de mim..."
"Não. Não é justo. Tu sabes que a empresa não paga hora
extra...". Ela se calou e começou arrumar a sua mesa de trabalho, na
saleta ao lado.
Apanhou
o seu livro de poemas, sempre trazia um para ler nas horas vagas. Depois
voltou: "Também não é justo para com o senhor..."Ele sorriu:
"Mas eu sou chefe de departamento,
ganho comissão, não tenho direito legal de receber hora extra. Vai Glória,
não te preocupes comigo. É o ônus que eu tenho de pagar,
por
não ter de bater ponto. Tenho que terminar este relatório para a reunião
do Conselho Diretor amanhã. Boa noite e obrigado, tu és uma
excelente secretária, mas deves ter as tuas obrigações em
casa...Não é justo." Ela foi apanhar a sua bolsa no armário
e tomou direção do corredor de saída. "Então até amanhã, Doutor
Daniel, " disse ao passar pela porta do gabinete. "Só me faz um
favorzinho antes de sair. Me arranja uma garrafa térmica com café. Deve
haver alguma lá na copa...Olha, se não tiver sobrado nenhuma não
precisa fazer café novo! Isso é serviço para a dona Francisca." A
moça foi para o interior das dependências do escritório, demorou um
pouco, voltou depois com uma térmica e a colocou na bandeja, junto
às xícaras. Fizera café novo . Na manhã seguinte quando chegou,
abriu o computador e encontrou na mesa de trabalho da tela um
lembrete:
Há
quem tenha
alma diferente,
preocupando-se em adivinhar o que o outro sente...
Glória,
Glorinha, como a chamavam os colegas do escritório, ficou sem entender,
pensando… Claro, só poderia ter sido o doutor Daniel o autor do
poemeto. Gentileza! Foi uma forma de agradecer o café. E começou a sua
rotina diária. Seu chefe só chegaria pela tarde. Ela tinha páginas e páginas
para digitar. Botou mãos à obra. Quando Daniel chegou, nas
primeiras horas da tarde, Glorinha não tinha voltado do almoço. Ele foi
para a sua sala, tomou um café e sentou-se a sua mesa, abriu o computador e deu com um lembrete na tela: Difícil
a tarefa de quem tem que adivinhar aqueles
que
costumam se ocultar... Sorriu.
Em seguida o interfone tocou. Era Glorinha avisando que já tinha chegado,
se precisasse de algo era só chamar. "Me traz a agenda, Glória. O
que é que temos para hoje? Muita coisa?" Em seguida ela entrava na
sala com um disquete na mão. Sentou-se ao computador e ali estava o seu
lembrete. Dirigiu para ele um
rápido olhar com os seus olhos grandes e negros e abriu o disquete que
continha todas as tarefas para o dia. Leu a pauta, frisando: "O
senhor não pode perder muito tempo com o seu Eduardo. A reunião da
diretoria é às 17 horas. Seu Eduardo está marcado para às l6:30. Só
que ele costuma falar pelos cotovelos, o senhor sabe..." Disse, sorrindo e ajeitando seus
cabelos pretos e brilhantes. "Foi bom tu me lembrares disso. De
qualquer forma, quando faltar dez para às cinco, tu me dá um
toque." O interfone tocou e Daniel, da sala da
Diretoria, pediu à secretária um balancete que seu Eduardo deixara com
ele. "Escuta, Glorinha, me traz em mão esse documento. Não manda
pelo “Boy”. São sigilos."
Ela foi
pessoalmente. A sala estava repleta de homens engravatados, num clima
desconfortável. Daniel olhou para ela, demoradamente, enquanto a moça
lhe passava o balancete. Inclinara-se protegendo os seios de um decote
exagerado. Os executivos presentes também olharam, como procurando um
momento de “relax” naquela reunião tensa e só de homens.
Daniel agradeceu e lhe entregou um outro documento, pedindo que ela
digitasse o seu conteúdo no arquivo "compras", no computador do
seu gabinete. Lá estava: Nenhum
homem pode confessar,
assim no mais, Glória digitou o documento e, em
seguida foi para a sua sala. Várias pessoas procuraram pelo Chefe do
Departamento. Vários foram os telefonemas que atendeu, além de ter que
registrar a entrada da correspondência do dia e responder algumas cartas
mais urgentes. No fim da tarde estava cansada. Gostaria de ir embora para
casa, mas tinha de ficar. Havia sido expressamente convocada! O interfone
tocou, era o doutor Daniel novamente, da sala de reuniões. "Glória,
minha filha, a reunião vai se demorar muito. Não precisas me esperar.
Podes ir embora." "Mas doutor, não tem nenhum problema se tiver
de esperar, avisei minha mãe que ia chegar mais tarde". "Não,
minha querida, não é justo. Podes ir!" Quando Daniel voltou a seu gabinete e
ligou o computador para algumas anotações, encontrou mais um lembrete: Por que temer ressentimento alheio
se já não existe mais qualquer receio Daniel sorriu e ficou pensativo. Em
seguida tirou o casaco e a gravata, ligou o ar condicionado e preparou-se
para começar o seu trabalho: redigir minuciosamente a ata da reunião da
Diretoria. Os membros do Conselho Diretor estavam, a seu ver, dispostos a
pedir concordata! Estava na hora de ele arranjar outro poleiro. Tinha um
nome conhecido na praça como economista de alto gabarito! Não lhe
faltaria uma boa colocação nas empresas concorrentes. Tratou de pôr em
execução, imediatamente, seu plano. Fez algumas ligações com contatos
importantes em São Paulo. Tocou o interfone: "Fui fazer um lanche e
já estou de volta, à sua disposição, doutor Daniel." Trabalharam até tarde e por nenhum
instante trocaram uma só palavra sobre os lembretes mútuos. Enquanto
trabalhavam no gabinete, Daniel pediu licença e se afastou por alguns
momentos. Na sala dela, digitou apressadamente: Se
há um coração em solidão
não há porque qualquer temor, Quando voltou, ela, discretamente, se
afastou pretextando ter de apanhar alguma coisa em sua sala. E, claro,
enquanto ela lia o lembrete na sua sala, ele lia no gabinete:
Por que deixar de enfrentar a vida
a dois e continuar, perdida
num sonho, Quando Glorinha voltou ao gabinete,
Daniel a abraçou, beijou-a ardentemente e , sem dizer palavra, começou a despi-la. - Não, Daniel. Não gostaria que esse
amor tão bonito tivesse esse andamento. Precisamos pensar um pouco e
conduzir as coisas em outros termos." - "Mas querida, nós
acabamos de descobrir esse amor. É preciso que vivamos essa experiência
encantadora até o climax, hoje, agora! E o nosso climax será como um
brinde ao amor maravilhoso que vamos passar a viver de hoje em diante.
Somos os dois livres, livres e descompromissados, só temos mesmo é que
providenciar a legalização da nossa união, se
é disso que tu falas..." - "Não , interrompeu a moça,
não vou te cobrar nada a não ser a certeza da continuação desse
sonho que há tanto tempo eu guardava só pra mim!" Ele a impediu de falar mais,
calando-a com beijos ardentes de desejo, ao mesmo tempo que terminou de
despi-la, antegozando os momentos que viriam e devorando com os olhos a
beleza de sua nudez, estendida no tapete da sala.
Amaram-se de forma febril e com
a violência de quem aguardava ansiosamente aquele momento. No dia seguinte, Daniel não apareceu no escritório. No outro, Glorinha soube que ele tinha pedido demissão e, segundo se comentava, fora para São Paulo trabalhar numa empresa concorrente. Entrou então no gabinete dele, meio desnorteada, recordou os momentos inesquecíveis que havia vivido ali. O computador estava ligado com o protetor de tela: o logotipo da empresa, que girava lentamente. Ativou o aparelho. Mais um lembrete: Glorinha,
querida:
Nunca na minha puta vida
tinha escrito qualquer poema! Glorinha deixou-se ficar ali por algum tempo, olhando para o último lembrete. O protetor de tela voltou a funcionar e o logotipo da empresa reapareceu girando, girando como a cabeça dela...
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