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ARTIGOS EVIRT

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Ivan Martins

 Conto

Finados

 

Lovegildo Vieira de Vargas, era esse o seu nome de batismo, mas,  na intimidade, todos o chamavam Gildo. O certo é que era um homem metódico ao extremo. Metódico para levantar às sete da manhã todos os dias,  metódico  para  o café da manhã, às oito, almoço às doze, etc.

O método o levava, é claro, às missas dominicais, à comunhão de Páscoa, à missa do galo e às visitas anuais a seus mortos queridos do Dia de Finados.

Com chuva ou com sol, Lovegildo tomava uma condução, munia-se de flores em boa quantidade e dirigia-se ao São Miguel e Almas. Custava um pouco a se orientar, cada ano o cemitério estava maior. Trazia o número da sepultura num papelzinho e, afinal, localizava o lugar onde, numa pedra de mármore, se lia:

                                    Astrogildo Nunes de Vargas

                                    Nilda Vieira de Vargas

                                    Cacilda Vieira de Vargas

                                    Saudades Eternas...

Ali repousavam para sempre o pai, a mãe e a irmã, inesquecíveis criaturas que fizeram parte afetiva de sua formação e às quais ele devia tanto. O pai, esforçado comerciante de secos e molhados, era o homem que lhe legara o

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Método de vida que até hoje guardava e que tanto lhe tinha valido, sobretudo no amor e dedicação ao trabalho. Comerciante para o qual não havia feriado nem domingo, eis que em tais ocasiões ele fazia meio dia de trabalho, mas trabalhava. Nunca se lembrara de ver o pai, doente, deixando de abrir o estabelecimento, o Bar Armazém Cruz de Malta, que ficava na Rua Venezianos, na Cidade Baixa, nos fundos do qual  residia com a família. Um dia, teve um colapso cardíaco e morreu, ali mesmo, junto ao balcão da sua casa de comércio.

A mãe, exímia costureira com requintada freguesia entre as senhoras de bem do bairro e adjacências. “Dona Nilda é capaz de fazer desde uma camisola até um vestido de noiva”, dizia a clientela. Pobrezinha, morrera tísica de tanto trabalhar principalmente depois que o pai se fora e que a subsistência da família tornara-se difícil.

Não menos inesquecível e igualmente louvável era Cacilda, a irmã mais velha. Outra que, quando o pai morrera, deixou os estudos e foi trabalhar no balcão das Americanas, cumprindo expediente de dois turnos puxados. Pegava seu bonde na Avenida João Pessoa e descia na esquina da Rua da Praia. Não era longe, não caminhava muito, mas, coitadinha, passava o dia de pé, atendendo num departamento de utensílios domésticos.

Cacilda fora noiva por dez anos de Gomercindo Junqueira, também comerciário, funcionário da Livraria do Globo. Passaram dez anos tentando juntar dinheiro para se casar, mas, quando já estavam quase conseguindo o suficiente, Gomercindo se apaixonou pela mulata Zenilda e, de um dia para o outro, deixou de freqüentar a casa dos Vargas. Cacilda, que já era magra e nervosa, entrou numa depressão galopante e veio a falecer, virgem, de câncer no útero.

Finados - 3

Quando Sr. Astrogildo morreu, já tinha comprado o jazigo nº 15.445, de 2º ordem, no Cemitério da Irmandade São Miguel e Almas e mandado fazer uma pedra de mármore com pequenas esculturas em baixo relevo, prontinha para pôr o seu nome e das demais pessoas da família que ali repousariam seus restos mortais até a hora do Juízo Final.

Não se passou muito tempo depois da importante  aquisição e seu Astrogildo já  estava  inaugurando  o novo lar. O seu espírito organizado e preventivo, ao falecer, não dera despesa. Para as custas de sepultamento, tinha deixado um pequeno seguro de vida que cobria tudo. Lovegildo só tivera de providenciar a afixação do nome.

O mesmo acontecera com a mãe e a irmã. Tudo estava pronto e até o seguro de vida já tinha sido providenciado. E para ele mesmo, Lovegildo também estava pensando em fazer o tradicional seguro. Depois, era só providenciarem a colocação de seu nome na lápide. Mas, certo dia de finados em que visitava seus entes queridos, se perguntou: Mas vou deixar o seguro para quem? Quem providenciará o meu sepultamento?

Lovegildo era solteirão. Tinha feito algumas tentativas, mas não conseguira se acertar com ninguém: ou a candidata era perfeita como esposa e futura mãe, mas fisicamente muito mal dotada ou era linda e doidivanas. É verdade que quase aceitara se casar com Enilda, uma vizinha da Rua Venezianos, onde ele ainda residia. Enilda era uma moça muito dedicada a ele. Até já tinha começado a fazer um enxoval. Mas, coitada, além de manca, tinha mau hálito e uma miopia que obrigava-a  usar um par de lentes grossíssimas. Romperam.

Mas e o seguro? Aquela idéia começara a perturbá-lo de verdade. Pensara pedir a alguém, um seu colega de Repartição, talvez, para que ficasse encarregado das providências. Mas não encontrou ninguém de confiança suficiente. Muito preocupado,

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Chegava a sonhar que morrera, também do coração como o pai, e que estava insepulto vagueando pelo cemitério, procurando pelo jazigo da família.

No Finados do último ano do século, Lovegildo foi fazer sua tradicional visita. Sentia-se um pouco angustiado. Seu eterno problema ficava mais sensível naquele dia e naquele ambiente. Puxou do papelzinho, "nº15.445", procurou, localizou e leu:

            Astrogildo Nunes de Vargas

                                    Nilda Vieira de Vargas

                                    Cacilda Vieira de Vargas

                                    Lovegildo Vieira de Vargas

                                    Saudades Eternas...

A princípio, não acreditou no que lia. É verdade que, preocupado com aquele problema, tinha pensado em mandar colocar o seu nome na lápide para que tudo ficasse mais fácil para o cumpridor do encargo fúnebre, pensou. Mas, tinha certeza, ainda não tivera tempo de providenciar.

Escutou vozes e olhou em torno de si. O pai, a mãe e a irmã sorriam para ele com ar de felicidade. Num banco, ali de fronte, Enilda, com um ramalhete de flores do campo na mão, chorava de mansinho, atrás dos seus óculos de grossas lentes, sem nada ver...

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