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ARTIGOS EVIRT |
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Ivan Martins |
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Conto Os Gnomos
E
assim rodavam pela estrada que, num dia útil de semana não tinha muito
movimento. Foi quando deram com um homem sentado numa pedra à beira da
rodovia. Tinha aparência
humilde dos colonos da região e parecia estar caminhando há muito tempo.
Cléopas, um dos gnomos falou para o outro: "Vamos dar carona para
esse colono e nos divertirmos bastante até chegarmos?" O outro
concordou de imediato. O
homem agradeceu a carona oferecida e embarcou logo. Realmente estava
cansado. Na verdade tinha caminhado bastante e ainda faltavam sessenta
quilômetros para chegarem a Canela, embora ele devesse seguir adiante.
"Não importa, até Canela já me ajuda muito. Lá eu pretendo tomar
uma condução". E acomodou-se no banco traseiro. "Mas não
corram muito, advertiu". - "Ora,
não se preocupe. Esse fusca é uma carroça! Estamos acostumados a
dirigir trenós, puxados por renas através das nuvens..." - disse Cléopas,
muito seriamente, olhando para ver a cara do velho. O
colono sorriu e não disse nada. A viagem prosseguiu. De repente ele
perguntou: "Vocês não têm nada para se comer? Estou com uma fome
danada!" Ao que Cléopas respondeu: "Temos sim, mas não creio
que vá gostar do que costumamos comer". E passou para o colono uma
cestinha de vime, coberta com um guardanapo vermelho-xadrez. Ele afastou o
guardanapo e olhou com uma cara de espanto. "Mas isso são flores!
Vocês costumam comer isso?" O que estava na direção deu uma risada
e Cléopas continuou: "Claro, o senhor não sabe que os homens estão
descobrindo agora que as flores são produtos excelentes para alimentação
e também para curar as doenças? Já ouviu falar dos Florais de Back?"
O colono sorriu amarelo e começou a mastigar pétalas de rosas,
margaridas, girassóis e outras. Havia uma grande variedade na cestinha.
Cléopas o ajudou comendo também e passando algumas para seu companheiro. - "Parece
que não conseguimos apavorar muito o cara", segredou Cléopas para o
motorista. Foi quando o motor do carro começou a tossir e, aos poucos,
foi parando. O que estava na direção alardeou: "Acabou a gasolina!
Esquecemos de encher o tanque desta droga!” - "Não
esquenta!", disse Cléopas, "Olha ali, junto aquela rocha, há
uma vertente de água purinha. O senhor faça o favor de me alcançar um
garrafão de vinho vazio que tem aí atrás do banco". Cléopas
voltou com um garrafão cheio d‘água. O outro abriu o capô e ele
entornou a água no tanque de gasolina. Ficou olhando a cara do colono
enquanto concluía a operação."Pronto. Podemos ir adiante, minha
gente!" O motor foi acionado e o fusca saiu rodando normalmente. O
resto da viagem o colono permaneceu calado, sem qualquer pergunta.
Encucado com o fato, Cléopas, voltou à carga: "O senhor não sabia
que a melhor gasolina é a água de fonte?" O colono meneou a cabeça,
mas não falou nada. Estavam
chegando em Canela e pararam diante de uma pousada. A noite tinha descido
e a cidade estava toda iluminada com as lâmpadazinhas da decoração de
Natal. O homem desceu do carro e agradeceu. Tinha de continuar andando.
Seu destino era mais adiante. Cléopas e o outro gnomo se apiedaram dele e
insistiram em que ele ficasse. Vamos jantar, dormir um bom sono nesta
pousada. Amanhã o senhor continua sua viagem. Não se preocupe com as
despesas. Dinheiro não nos falta e se abaixou juntando algumas folhas no
chão que logo se transformaram numa boa quantidade de notas. Mas estava
escuro e Cléopas achou que o colono não tinha percebido mais aquela
proeza. Durante o jantar, que o carona insistiu que não fosse de pétalas e sim um bom galeto com vinho, disse que precisava partir cedo. Tinha muito trabalho a fazer durante os próximos dias. Os dois também disseram o mesmo: "E nós? Não queira saber o que temos de trabalho no Natal!” "Vamos lhe confessar a verdade", disse Cléopas com ar misterioso, "Somos gnomos, auxiliares de Papai Noel!”. - "Ah, exclamou o colono, muito interessante!”. - "E
então, o senhor não se espanta com isso? Acredita na existência dos
gnomos, ajudantes de Papai Noel?” - "Claro
que acredito. Não fossem eles como se arranjaria o bom velhinho?" - "Não
vai dizer que acredita em Papai Noel, também?" - "Bem,
aí já é preciso ter um pouco mais de imaginação. Sabem, eu acho que
Papai Noel é uma figura que os gnomos inventaram para esconder o seu
trabalho durante o Natal. Mas é bom que as pessoas acreditem na existência
real de uma figura imaginária. É preciso acreditar em milagres. É
preciso acreditar nos sonhos. Só assim eles podem se realizar..." - "Não
senhor. Não é invenção não. Papai Noel existe em carne e osso! E vou
lhe dizer uma coisa: a oficina principal dele aqui no Sul é em São José
dos Ausentes." - argumentou o gnomo motorista que era meio caladão. Durante
a noite, enquanto repousavam, Cléopas segredou para o seu companheiro:
"Esse cara está gozando com a nossa cara. Ele fingiu que acreditou
que somos gnomos..." De
manhã muito cedo, recém amanhecendo, Cléopas ouviu um ruído e levantou
a tempo de ver, pela janela do quarto, o velho saindo pela porta da
pousada, embarcando num trenó puxado por quatro parelhas de renas que alçaram
vôo, tomando o rumo de São José dos Ausentes... (Inspirado
em Lc. 24.13)
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