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ARTIGOS EVIRT

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Ivan Martins

 Conto

                                                                                                         

El dia em que me quieras

Foi quando um dia, sem ter nada melhor para fazer, fui até a confeitaria de um shopping  próximo,  num  fim  de  tarde,  tomar um chope. Surpreendi-me em constatar que havia um pianista no local que se esforçava para se fazer-se ouvir em meio à conversa, dispondo de um piano ordinário. De qualquer forma, constituía um toque de arte em meio aos desligados. A grande maioria ignorava o pianista e não identificava a música que ele tocava, aliás, belíssima: My way.

Num relance, olhando ao acaso o perfil dos alheios freqüentadores, dei com alguém totalmente ligado ao piano e à música. Era uma doce velhinha que, enlevada, acompanhava a música com meneios de cabeça e gestos quase imperceptíveis de dedos, dedilhando sobre a mesa como se estivesse tocando aquele piano. A surpresa aumentou quando eu reconheci naquela senhora, dona Diná, que há muitos anos fora minha professora nos primeiros bancos escolares. Sim, era ela mesma: dona Diná, minha professora de português no Grupo Escolar José do Patrocínio.

 Não me contive e fui sentar à sua mesa. Identifiquei-me  e ela, assombrosamente me reconheceu. Ante minha manifestação de incredulidade, repetiu o meu nome por extenso e acrescentou: os bons alunos a gente não esquece, como também não esquece os maus! Recordamos um pouco os bons tempos e depois ela comentou sobre o pianista que há uma semana tinha sido contratado pela confeitaria. Ela adorava piano e, todos os dias àquela hora, vinha ouvi-lo. “Tu gostas de música?” E diante da minha resposta afirmativa, ela se animou a falar mais sobre o assunto.

 E então me contou que, quando menina, aprendera a tocar piano. Aliás, em todas as famílias havia uma pianista. “Como tu sabes, sem aparelho de som e CDs, música boa se fazia no teclado de um bom piano alemão. Meu pai, que gostava muito, praticamente me obrigou a estudar. No princípio eu o detestava. Em pouco tempo comecei a tolerá-lo para depois me apaixonar pelo meu piano e não deixar um só dia de acariciar as suas teclas.”

 “Quando mocinha, me enamorei de um aluno da escola militar. Ele era filho de argentinos e, quando me visitava, pedia que eu tocasse El dia  em que me quieras. Como  tu sabes, um tango que se ouve até hoje, tal o sucesso que alcançou na época.”

 “Nosso namoro terminou logo que o cadete encontrou uma moça, filha de família rica e muito mais bonita do que eu, que era miudinha, sem atrações físicas. Deixou o meu coração arrasado, mas, muito romântica, sempre achei que ele um dia voltaria. Assim, quando estava com saudade, ia para o piano e tocava El dia em que me quieras ... E chorava.” Disse dona Diná com a voz trêmula de emoção.

 “Um dia”, continuou ela, “quando o pianista aqui da confeitaria fez um intervalo, tomei coragem, sentei ao piano e toquei várias músicas. E não eram músicas antigas, não! Eu conhecia e tocava várias melodias modernas. Quer dizer... mais ou menos novas. De uns vinte anos para cá... Depois de 1980, não pude mais atualizar meu repertório.” Por quê? Perguntei curioso, adoeceu? “Não, não. Vou te contar: Certo dia cheguei em casa depois de dar a minha aula e fui, como de costume, para o meu piano. Tu não imaginas, meu filho, o que tinha acontecido. Meu marido se apertara de dinheiro e vendera o meu piano, alegando que aquele traste, cheio de cupim, de nada mais servia, já que um dos meus filhos tinha comprado um excelente aparelho de som, alta-fidelidade, estereofônico etc. etc. e tal. Chorei a noite toda. Sofri a falta de meu piano por meses, anos. Sonhava quase todas as noites que estava tocando e, quando acordava, chorava...”

 E então descobriu a confeitaria e recomeçou a tocar todas as tardes, não foi assim? “Não, meu filho, não. Três ou quatro dias de apresentação e o gerente me veio com esta: desculpe minha senhora, mas só o pianista contratado pode usar o piano. Que bobagem! Pensei. Um piano tão vagabundo e eles com tantos cuidados. Por certo estariam pensando que eu iria desafinar aquela preciosidade. Reclamei. Mas ele me disse simplesmente: problemas trabalhistas, minha senhora! Eu quis morrer...”

 “Não entendi nada, meu filho, mas tive de parar e ficar apenas à minha mesa, escutando à distância e tomando água mineral o tempo todo.” Expliquei o que o gerente queria dizer com “problemas trabalhistas”. Ela achou outra bobagem. “Imagine se eu ia pôr na Justiça alguém que me proporcionara a realização dos meus maiores anseios: tocar piano e com platéia, ainda que não muito atenta, não achas?”

 Por algum tempo, ainda tive oportunidade de encontrar dona Diná na confeitaria do shopping . Depois a perdi de vista.

 Certo dia, eu estava saindo de um hospital onde fora visitar um parente e escutei um piano que vinha do subsolo. Apurei os ouvidos e ouvi música muito bem tocada. Era enfeitada de acordes e arpejos por mãos exímias que dominavam técnica perfeita em instrumento de alta qualidade. Desci as escadarias que levavam à cafeteria do hospital, um salão amplo e de pé-direito alto, proporcionando excelente acústica. Achei uma idéia maravilhosa aquela da administração do hospital ao contratar um pianista para dar um toque de alegria e beleza àquele ambiente de tristeza e dor, normalmente freqüentado por pessoas que possuíam parentes ou amigos internados e que tinham oportunidade de, ali, aliviarem suas tensões.

 Aproximei-me do piano e encontrei dona Diná, sorrindo para mim, e caprichando nas suas execuções. Ela me contou que, aproveitando um projeto de voluntariado e solidariedade desenvolvido pelo hospital, inscreveu-se como pianista. Mas o hospital não tinha piano! Acredite, meu filho, eles compraram este magnífico piano alemão e entregaram aos meus cuidados, desde que eu me dispusesse a cumprir determinado horário.

 “Aceitei. Meu filho, qualquer horário para mim serviria”, me disse rindo feliz. “Estou no paraíso. Olha, nem preciso mais morrer!”

 E, enquanto eu saia olhando à distância  a carinha simpática e feliz de dona Diná, fiz-lhe um gesto de vencedora, com o polegar para cima, enquanto ela iniciava entusiasmada os acordes suaves e depois vibrantes de El dia em que me quieras...               

 


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