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ARTIGOS EVIRT |
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Ivan Martins |
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Conto
El dia em que me quieras Foi quando um dia, sem ter nada melhor para fazer, fui até a
confeitaria de um shopping próximo,
num fim
de tarde,
tomar um chope. Surpreendi-me em constatar que havia um pianista no
local que se esforçava para se fazer-se ouvir em meio à conversa,
dispondo de um piano ordinário. De qualquer forma, constituía um toque
de arte em meio aos desligados. A grande maioria ignorava o pianista e não
identificava a música que ele tocava, aliás, belíssima: My
way. Não me contive e fui sentar à sua mesa.
Identifiquei-me e ela,
assombrosamente me reconheceu. Ante minha manifestação de incredulidade,
repetiu o meu nome por extenso e acrescentou: os bons alunos a gente não
esquece, como também não esquece os maus! Recordamos um pouco os bons
tempos e depois ela comentou sobre o pianista que há uma semana tinha
sido contratado pela confeitaria. Ela adorava piano e, todos os dias àquela
hora, vinha ouvi-lo. “Tu gostas de música?” E diante da minha
resposta afirmativa, ela se animou a falar mais sobre o assunto. E então me contou que, quando menina, aprendera a
tocar piano. Aliás, em todas as famílias havia uma pianista. “Como tu
sabes, sem aparelho de som e CDs, música boa se fazia no teclado de um
bom piano alemão. Meu pai, que gostava muito, praticamente me obrigou a
estudar. No princípio eu o detestava. Em pouco tempo comecei a tolerá-lo
para depois me apaixonar pelo meu piano e não deixar um só dia de
acariciar as suas teclas.” “Quando mocinha, me enamorei de um aluno da escola
militar. Ele era filho de argentinos e, quando me visitava, pedia que eu
tocasse El dia
em que me quieras. Como tu
sabes, um tango que se ouve até hoje, tal o sucesso que alcançou na época.” “Nosso namoro terminou logo que o cadete encontrou
uma moça, filha de família rica e muito mais bonita do que eu, que era
miudinha, sem atrações físicas. Deixou o meu coração arrasado, mas,
muito romântica, sempre achei que ele um dia voltaria. Assim, quando
estava com saudade, ia para o piano e tocava El
dia em que me quieras ... E chorava.” Disse dona Diná com a voz trêmula
de emoção. “Um dia”, continuou ela, “quando o pianista aqui
da confeitaria fez um intervalo, tomei coragem, sentei ao piano e toquei várias
músicas. E não eram músicas antigas, não! Eu conhecia e tocava várias
melodias modernas. Quer dizer... mais ou menos novas. De uns vinte anos
para cá... Depois de 1980, não pude mais atualizar meu repertório.”
Por quê? Perguntei curioso, adoeceu? “Não, não. Vou te contar: Certo
dia cheguei em casa depois de dar a minha aula e fui, como de costume,
para o meu piano. Tu não imaginas, meu filho, o que tinha acontecido. Meu
marido se apertara de dinheiro e vendera o meu piano, alegando que aquele
traste, cheio de cupim, de nada mais servia, já que um dos meus filhos
tinha comprado um excelente aparelho de som, alta-fidelidade, estereofônico
etc. etc. e tal. Chorei a noite toda. Sofri a falta de meu piano por
meses, anos. Sonhava quase todas as noites que estava tocando e, quando
acordava, chorava...” E então
descobriu a confeitaria e recomeçou a tocar todas as tardes, não foi
assim? “Não, meu filho, não. Três ou quatro dias de apresentação e
o gerente me veio com esta: desculpe minha senhora, mas só o pianista
contratado pode usar o piano. Que bobagem! Pensei. Um piano tão vagabundo
e eles com tantos cuidados. Por certo estariam pensando que eu iria
desafinar aquela preciosidade. Reclamei. Mas ele me disse simplesmente:
problemas trabalhistas, minha senhora! Eu
quis morrer...” “Não entendi nada, meu filho, mas tive de parar e
ficar apenas à minha mesa, escutando à distância e tomando água
mineral o tempo todo.” Expliquei o que o gerente queria dizer com
“problemas trabalhistas”. Ela achou outra bobagem. “Imagine se eu ia
pôr na Justiça alguém que me proporcionara a realização dos meus
maiores anseios: tocar piano e com platéia, ainda que não muito atenta,
não achas?” Por algum tempo, ainda tive oportunidade de encontrar
dona Diná na confeitaria do shopping . Depois a perdi de vista. Certo dia, eu estava saindo de um hospital onde fora
visitar um parente e escutei um piano que vinha do subsolo. Apurei os
ouvidos e ouvi música muito bem tocada. Era enfeitada de acordes e
arpejos por mãos exímias que dominavam técnica perfeita em instrumento
de alta qualidade. Desci as escadarias que levavam à cafeteria do
hospital, um salão amplo e de pé-direito alto, proporcionando excelente
acústica. Achei uma idéia maravilhosa aquela da administração do
hospital ao contratar um pianista para dar um toque de alegria e beleza àquele
ambiente de tristeza e dor, normalmente freqüentado por pessoas que possuíam
parentes ou amigos internados e que tinham oportunidade de, ali, aliviarem
suas tensões. Aproximei-me do piano e encontrei dona Diná, sorrindo
para mim, e caprichando nas suas execuções. Ela me contou que,
aproveitando um projeto de voluntariado e solidariedade desenvolvido pelo
hospital, inscreveu-se como pianista. Mas o hospital não tinha piano!
Acredite, meu filho, eles compraram este magnífico piano alemão e
entregaram aos meus cuidados, desde que eu me dispusesse a cumprir
determinado horário. “Aceitei. Meu filho, qualquer horário para mim
serviria”, me disse rindo feliz. “Estou no paraíso. Olha, nem
preciso mais morrer!” E, enquanto eu saia olhando à distância
a carinha simpática e feliz de dona Diná, fiz-lhe um gesto de
vencedora, com o polegar para cima, enquanto ela iniciava entusiasmada os
acordes suaves e depois vibrantes de El dia em que me quieras...
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