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ARTIGOS EVIRT

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Lenisio Bragante 

Paraíba

 

SÚPLICA DE UM CADÁVER DESCONHECIDO   


                 
 
Há homens que doam  seus corpos em vida para estudos e pesquisas, e o fazem de forma consciente e, certamente, orgulhosa com a chance de proporcionar novas e importantes descobertas para  a Humanidade. Outros como eu vêm para uma Faculdade sofrer dissecções, para o estudo da anatomia. O meu corpo não servirá a grandes descobertas; capazes de mudar o curso da humanidade. Nem eu, honestamente, esperava por tanto. Estou muito satisfeito com o meu papel de ator mudo e inerte no grande palco do teatro da vida acadêmica e, também, ciente do pouco que tenho a oferecer. Podem aprender anatomia comigo, ou melhor, em mim, para não errar na anatomia dos nossos semelhantes, ou melhor, dos vossos semelhantes. 

Desculpem-me é que às vezes esqueço da minha condição de morto mumificado. Quando em vida sempre fui pobre, nunca tive grandes ambições além de viver. Após a morte, única certeza da vida, se fosse consultado, gostaria de ser sepultado como todos os meus pares. Mas o destino levou-me para uma cova cheia de líquido sufocante. No primeiro momento, pensei até que não fosse resistir;  a minha carne pouca, mas acabei acostumando-me e para minha surpresa continuo inteiro até hoje. Pois bem; diante do exposto, peço, em nome de Deus, a todos aqueles que possam  ajudar-me que não permitam, enfiar minha cara na lama depois de morto. Mesmo quando pobre e excluído nunca envolvi-me com a polícia. 

Morri com ficha limpa. Não envergonhei aos meus. Por tudo isso eu vos peço que não deixem matar-me novamente. Morrer de vergonha deve ser cruel. A morte natural e de verdade se doeu já nem me lembro. Mas hoje tenho vergonha de sair na rua, escondido na calada da noite como se bandido fosse. Deixem-me na minha sepultura líquida do Departamento de Morfologia da UFPB e por favor respeitem-me como fazia o grande Professor Asdrúbal Marsiglia de Oliveira. E apesar de resignado com minha condição de livro de carne e osso; servindo para algo nobre, coisa que não consegui fazer em vida. E caso não sirvam mais meus inertes músculos para dar dinâmica aos vossos pensamentos de futuros benfeitores da humanidade; sepultem-me numa cova de verdade pois há tempos que deixei o mundo das mentiras.

 Este artigo surgiu como forma de protestar o roubo de um cadáver do departamento de
 morfologia da UFPB feito, na calada da noite, por indivíduos capazes de vender almas.


  • Lenisio Bragante é Médico, Mestre em Cirurgia geral e Professor assistente de Cirurgia do
    Curso Médico da UFPB.


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