FÁBULA CONTEMPORÂNEA
O falcão, mal o sol raiou, saiu de seu esconderijo no alto
da montanha e ficou contemplando a paisagem. "Lindo esse mundo",
pensou, olhando lá em baixo a maravilhosa floresta que fora
criada, algum tempo antes, por Alguém que ele não
saberia dizer quem era.
O espetáculo, porém, mexeu com sua imaginação
criativa. Especialmente o brilho do sol, que reinava, absoluto,
sobre toda a criação.
Abriu as asas, com a majestade própria dos falcões,
desceu até à floresta e convocou alguns dos animais,
seus amigos prediletos, para uma reunião. Foi direto ao assunto:
— Meus amigos, eu os convoquei para lhes transmitir uma idéia
que tive hoje, quando, logo ao raiar do sol, contemplei esta floresta
de beleza indescritível. Os seres que não voam não
podem sequer imaginar como ela é bela. Mas os bichos que
a povoam estão muito desorganizados e, assim, não
desfrutam de tudo o que este mundo pode oferecer. Minha idéia
é fazer algo para mudar essa situação e para
isso preciso da colaboração de vocês.
— Vossa Excelência permite um aparte?
— Fale, companheiro, mas não gostei do "Excelência",
pois essa palavra ainda nem existe. O tratamento de "Majestade",
que acabo de criar, é mais adequado à posição
de Faraó, que me cabe por poder pairar acima de todos vocês.
— Perdoe a nossa falha, majestade. O que eu queria perguntar
é porque o macaco não foi convocado para esta reunião.
— Ah, querido súdito, não sei o que deu no macaco,
mas ele está insuportavelmente snob. Desceu das árvores,
passou a andar ereto, não se considera mais bicho e diz que
vai emigrar para outras plagas onde tenha tranqüilidade para
desenvolver sua inteligência.
— Todos os macacos fizeram isso?
— Não, só aquele alto, de cabeça grande
e que, por isso, se julga melhor do que os outros.
— Mas onde estão os outros, que também não
vemos, há tempo.
— Eles estão proibidos de descer das árvores.
O cabeçudo disse que quem não obedecer ele "pega,
mata e come". Como o macacão é fortíssimo,
ninguém ousa a ele se opor. Voltemos, porém, ao nosso
assunto, pois para desenvolvê-lo não precisamos de
macaco algum. Meu projeto para organizar a bicharada é criarmos
uma confraria que, desde logo, proponho que se chame Companheiros
de Rá, Ísis e Osíris. Como seremos o único
grupo organizado, daremos as ordens. Quem se opuser, morre. Todos
terão de temer a ira suprema.
— Mas como os outros saberão que pertencemos à
confraria , falamos em nome dos seres supremos e devemos, assim,
ser respeitados e temidos?
— Usaremos nomes e vestes especiais. Você, chacal, terá
o codinome de Anúbis; você, boi, passa a se chamar
Ápis; você, jararaca, será Atum; você,
gata, fica batizada de Bastet; e você, crocodilo, será
chamado de Sobek. Eu, como encarnação maior dos seres
supremos, serei conhecido ora como Rá, às vezes como
Hórus, em outras ocasiões como Amon, tudo para confundir
mais ainda a ralé, que não poderá sequer me
olhar diretamente. Com o mesmo objetivo, minhas vestes serão
as mais suntuosas e cobertas de ouro. Aliás, esse metal passa
a ser de uso exclusivo da confraria. Quem ousar desobedecer a esse
primeiro mandamento, será fulminado. Também de nosso
uso exclusivo serão os hieróglifos, que eu já
inventei, mas guardava em segredo até agora. Só nós
saberemos o que eles significam. Assim, a bicharada reles só
saberá das coisas ouvindo nossas palavras.
— Perdoe-me a interrupção, divino Rá,
mas gostaria de um esclarecimento. A confraria é fechada
ou novos sócios poderão ser admitidos?
— Não, a confraria não é fechada. Novos
sócios poderão vir a ser aceitos, mas só com
prévia e expressa autorização minha. Também
eu (e só eu) escolherei os nomes e vestes que passarão
a usar.
O projeto foi um sucesso. A floresta se desenvolveu, foram construídos
imensos palácios, enormes estátuas, pirâmides
e templos, muitos e muitos templos.
A confraria também cresceu, na mesma proporção
dos templos, mas nada mudou em relação ao monopólio
do saber.
Quando os animais comuns tinham dúvidas, o único recurso
para se esclarecerem era recorrer a um dos membros da confraria.
Estes, abnegadamente, não deixavam uma consulta sem resposta.
Certo dia, um minúsculo hamster procurou um templo com uma
dúvida nunca antes formulada: por que só os membros
da confraria não trabalhavam, eram gordos e saudáveis,
moravam em palácios ou nos suntuosos templos e viviam cobertos
de ouro? O progresso fora muito bom para eles, mas, para o comum
dos animais, a desorganização anterior não
parecia pior do que as condições em que agora viviam.
Bondosamente, o consultado respondeu: "É a vontade de
Amon e suas razões são inescrutáveis."
O hamster nada disse, porque não era burro nem temerário,
mas pensou: "Como são inescrutáveis as razões
de Amon? Está na cara que ele só gosta de quem monopoliza
os hieróglifos". Juro que hei de inventar um meio de
acabar com esse monopólio da informação e da
comunicação. Com ele eu vou virar esta floresta de
pernas para o ar."
Coitado do hamster. Pouco depois morreu, em uma das inúmeras
pragas que periodicamente assolavam a terra e com ele morreram as
esperanças de mudar a organização da floresta.
Em uma outra floresta, longe dali, mas não muito, os animais
também se organizaram, mas de um modo um tanto diferente.
A maior diferença foi em relação à confraria
dominante. Era inteiramente aberta e nela qualquer um, desde que
fosse bom de bico, poderia entrar. A maior semelhança era
em relação aos templos e aos participantes da confraria
que os controlavam. O mais famoso era o localizado em um recanto
chamado Delfos. Os seres supremos tinham nomes diferentes —
Zeus, Hades, Afrodite, Atena, Poseidon, etc. — e nenhum bicho
tinha o direito de se arrogar representante direto de qualquer deles.
A segunda floresta também prosperou muito, sobretudo na área
intelectual, mas quando um outro hamster começou a questionar
o monopólio da informação e da comunicação,
ele foi preso e condenado a beber cicuta.
Depois disso, por motivos que nunca ficaram bem esclarecidos, a
segunda floresta entrou em decadência.
Foi a vez de se organizarem os descendentes de uma loba, moradora
em uma terceira floresta.
Os lobinhos eram os bichos mais espertos que já haviam existido.
Sua organização era fantástica e eles não
tinham a menor cerimônia em se apropriar de tudo o que lhes
parecia bom das florestas vizinhas. Com relação aos
seres supremos, por exemplo, nem se deram ao trabalho de imaginar
outros. Pegaram os que existiam na segunda floresta e simplesmente
mudaram seus nomes. Zeus passou a ser Júpiter, Hades virou
Plutão, Afrodite transformou-se em Vênus, Atena em
Minerva e Poseidon em Netuno.
Da primeira floresta apropriaram-se do sistema de centralização
absoluta do poder. Também, como no outro caso, mudaram o
nome do principal representante do ser supremo e o Faraó
passou a se chamar César.
Ocorre que também entre os bichos a história se repete
e acabou surgindo, na figura de uma ave do paraíso, alguém
para contestar a opressão que se espalhava por todas as florestas
conhecidas.
A ave do paraíso não pregava violência. Ao contrário,
sua mensagem era apenas de amor. Mesmo assim, os lobinhos se assustaram
e pregaram a dissidência em uma cruz.
Nova repetição da história. A tentativa de
sufocar idéias diferentes acabou tendo justamente o resultado
inverso ao pretendido. O império dos lobinhos entrou em decadência
e o mundo mergulhou em trevas.
Os únicos que permaneceram organizados foram os discípulos
da ave do paraíso. Acabaram formando uma nova confraria,
que pretendia atuar em todas as florestas do mundo conhecido.
Eram também muito espertos e, nutrindo-se dos ensinamentos
do passado, logo monopolizaram o conhecimento, a informação
e a comunicação.
As regras que
vigiam ao tempo do desaparecido império da primeira floresta
ressurgiram como que por milagre. Quando os animais comuns tinham
dúvidas, o único recurso para se esclarecerem era
recorrer a um dos membros da confraria. A diferença é
que estes não mais intermediavam a infinidade de seres supremos
que antes existira. Agora todos representavam um único ser
supremo, cujas ordens estavam registradas em um calhamaço
que só eles podiam ler.
No princípio, as coisas até que não foram ruins,
porque os seguidores da ave do paraíso tinham bom coração
e realmente procuravam ajudar aos animais menos favorecidos.
Aos poucos, porém, os anuns, aquelas aves negras, de má
catadura, foram ingressando na confraria e acabaram dominando-a
completamente. Nessa ocasião, as vestes dos confrades voltaram
a ser o principal instrumento de indicação de sua
categoria. Só que agora eram negras, "mais negras que
a asa da graúna."
Os anuns eram de uma ferocidade brutal, embora se apresentando como
seguidores da ave do paraíso, que havia sido a personificação
da candura. Chegaram ao cúmulo de queimar seus desafetos
em fogueiras no meio da floresta.
Esse tipo de trevas perdurou por vários séculos, mas
um dia um simples pica-pau descobriu que podia, com seu potente
bico, desenhar letras em pequenos blocos de madeira.
De início,
ele nem imaginou a força do que ele estava criando, mas reuniu
seus companheiros e, solenemente, anunciou:
— Acabo de inventar a Imprensa.
Alguém na platéia observou:
— Acho que os anuns não vão gostar nada disso.
— Pouco me importa. E, para provar, o primeiro livro que vou
imprimir é justamente o calhamaço de onde os anuns
tiram sua força.
— Alguém mais exclamou, em tom de advertência:
— Já estou sentindo cheiro de pica-pau assado na fogueira.
Para surpresa geral, entretanto, os anuns nem se importaram. Até
riram.
— O que o pica-pau inventou é um simples brinquedo.
Aquelas lambuzeiras que ele produz nem se comparam com nossos sublimes
alfarrábios manuscritos. Nossa palavra é a única
que continuará valendo.
Quando os anuns perceberam o poder que tinha a palavra escrita,
reproduzida aos milhares, já era tarde. Seu monopólio
do conhecimento, da informação e da comunicação
chegara ao fim. Eles ainda tentaram impedir a impressão de
livros e queimaram muitos deles, junto com seus autores e editores,
mas tudo foi em vão.
Tempos depois, uma enorme águia de bico recurvo, pregou 95
teses nas portas de um templo da confraria dos anuns, que existia
em uma clareira chamada Wittenburg, numa floresta negra.
A confraria dos anuns rachou ao meio e nunca mais voltou a ter o
poder de que antes desfrutava, de modo absoluto.
As trevas que haviam coberto o conjunto das florestas começaram
a se dissipar e cada vez um número maior de animais comuns
começaram a ler e a pensar. Com isso, começaram também
a ver que muitas coisas não eram justas e precisavam ser
modificadas.
Na floresta franca foi onde as leituras produziram a maior tensão.
Esta foi tão violenta que os animais comuns acabaram perdendo
a cabeça (metaforicamente) e deceparam (literalmente) as
cabeças dos integrantes da confraria dos pavões que
ali era a dominante.
Foram muitos anos de turbulência, mas as mentes acabaram serenando
e relativa paz voltou a reinar no conjunto das florestas. Longe
se estava das desejadas liberdade e justiça para todos, mas
muito já evoluíra a organização dos
animais, desde aquela manhã primordial em que o falcão
reunira seus amigos prediletos.
A paz era precária e muitas injustiças continuavam
prevalecendo, mas a maioria dos animais parecia despreocupada, achando
que o tempo resolveria todos os problemas.
Foi quando uma hiena megalomaníaca escreveu um livro —
Minha Luta — conclamando todos os animais da floresta negra
em que morava a se reunirem em uma novíssima confraria para
dominarem todas as florestas.
O livro não fez o sucesso que a hiena esperava, mas conseguiu
reunir em torno dela bastantes feras dispostas a segui-la incondicionalmente.
As vestes que as distinguiam eram bem mais simples do que as das
confrarias do passado. Eram apenas camisas pardas. O grupo era bem
grande, mas não o suficiente para dar execução
aos planos mirabolantes que estavam em sua origem. Foi quando um
bichinho nojento, chamado fuinha, ingressou na confraria e logo
se fez amigo do Führer, título que a hiena se autoconcedera.
A pretensão inicial do fuinha foi ser designado responsável
pela promoção do grupo, garantindo ter meios para
faze-lo crescer vertiginosamente. Desanimado e incrédulo
o Führer perguntou:
— Como você pretende fazer isso?
— Com o rádio, meu Führer, o primeiro meio de
comunicação realmente de massa, que foi inventado
há relativamente pouco tempo e que ninguém até
agora usou para fins políticos.
— Você está delirando. O rádio é
apenas um brinquedo. Aqueles guinchos que ele produz nem se comparam
com nossos sublimes livros. A palavra escrita é a única
que continuará valendo.
O fuinha, porém, sabia do que estava falando e fez do microfone
a sua arma. Em poucos anos, a confraria da hiena era a organização
mais forte que a bicharada havia conhecido e começou a invadir
e dominar todas as florestas vizinhas.
A força era tanta que ninguém imaginava possível
detê-la. Somente um .bode, velho, mas de enorme sabedoria
e coragem maior ainda e que morava em uma ilha próxima ao
covil da hiena, resolveu enfrenta-la.
Mesmo os mais dedicados companheiros do bode estavam temerosos.
— É melhor negociar com a hiena, pelo menos salvaremos
a pele.
— De jeito nenhum. Só os loucos ou os idiotas imaginam
possível negociar com uma hiena hidrófoba. Além
disso, nós temos a mais poderosa frota de golfinhos que existe
e, como estamos em uma ilha, a hiena não terá como
nos atingir. Vamos reunir nossas forças e mais tarde destruiremos
aquela fera ensandecida.
— Você é que deve estar louco, bode. A hiena
dispõe de número incalculável de tubarões
que acabarão por afundar nossos golfinhos. Além disso,
ela tem a seu serviço a maior frota de urubus (amestrados
por um gordíssimo porco). Eles virão pelos ares e
não teremos como nos defender.
—
Nós temos colibris e eu confio neles.
No final, o bode estava certo. Os colibris enfrentaram valentemente
os urubus e impediram que a floresta da ilha fosse tomada. Ficou
famosa a frase do velho bode: "Nunca tantos deveram tanto a
tão poucos."
Depois de muita luta, as feras foram derrotadas e a hiena matou-se.
A paz voltou a reinar e, para evitar novas loucuras, a bicharada
fundou a Organização das Florestas Unidas –
UFA.
Não muito tempo mais tarde, um lince, famoso pela acuidade
de sua visão, procurou a coruja, que presidIa a UFA:
— Precisamos fazer alguma coisa. As gralhas estão se
apossando da televisão.
— Que mal você vê nisso, meu caro lince?
— As gralhas são irresponsáveis.
— Não se preocupe, a televisão é apenas
um brinquedo, não tem como nos prejudicar...
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