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ARTIGOS EVIRT |
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Izabel Martho
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| O
ROBE PRETO Os
Shoppings são lugares fascinantes, onde tudo se compra e onde tudo
acontece. Por lá desfilam pessoas em busca de sonho e realidade, pessoas
com dinheiro para simplesmente gastar, e outras sem ele, para simplesmente
olhar. Homens
sentam-se às mesas dos bares do shopping para tomar cerveja e fechar negócios,
ou abrir negócios, ou simplesmente ajudar nos negócios dos outros. Mulheres
andam pelos corredores, sobem ao piso superior, descem ao piso inferior,
para procurar um marido, ou o marido que ainda não chegou em casa. Kadine,
naquela noite, estava lá por estar, nem aborrecida, nem alegre. Sua irmã
a acompanhava e ambas tagarelavam sobre moda, um caso amoroso que apenas
começara, a festa que estava para acontecer, quando Kadine parou, olhando -
Que homem lindo, Lu!!! É esse exatamente o que procuro. -
Quem Ka? Aquele vendedor? Não acredito... -
Imagine, saia das trevas. Esse aí do robe preto em cetim. -
Ah, sim! Entendi. -
Veja que elegância, Lu. O homem com quem eu venho sonhando esses anos
todos. O
robe era em cetim preto no acabamento. O resto era em cetim estampado com
delicados detalhes dourados. Uma das mangas longas balançava levemente,
acenando para Kadine. -
Sinta o perfume dele, Lu. Não é divino? Ele acabou de tomar banho de
imersão com sais... Ai, Lu. E passou uma colônia francesa. -
O que mais você sabe sobre ele? -
E fuma cachimbo. A banheira é de mármore. -
O que tem a ver cachimbo com mármore? -
Tem tudo a ver. Um homem que toma banho numa banheira de mármore, só
pode fumar cachimbo, usar perfume francês e um robe preto... -
O que esse Apolo come, Ka? Barras de ouro, polvilhadas com rubis e
diamantes? -
Barras de chocolate suíço, polvilhadas com amêndoas picadas. -
Bebe prata derretida, com cubinhos de água marinha? -
Licor de Apricot, com cubinhos de... ora, pare de me gozar, Lu. -
Imagine, gozar! Eu já gosto do tipo mais esportivo: sem cachimbo, mármore
ou licor. Aquele pijama ali ficaria ideal no meu Fernando. -
É mesmo, é a cara dele. -
Vamos agora, que já estão nos observando e faz tempo. -
Para onde? Ah, já sei. Vamos ver a pasta de couro para mim. -
Para combinar com ele? -
Claro, tudo tem que estar de acordo com ele. Continuaram
conversando e gargalhando em meio às pessoas que passavam. Enquanto
olhavam outra vitrine exibindo outros tipos de robes, viram um mais
sofisticado ao lado de um simples e comum. -
Olhe, Lu! Será que se a gente comprar um robe desses, vem um homem dentro
dele como brinde? -
Vem, sim. Dentro desse vem um Olavo. -
E dentro daquele ali? - apontou para a peça simples, feiosa. Luana
respondeu: -
Ah, ah, ah, dentro desse vem o Zezão. -
É mesmo... Riram
até chorar. Haviam acabado de conversar com o Zezão, um rapaz fanhoso e
simples. -
Coitado, Kadine, você não tem pena? -
Você que falou... E
riram ainda mais, até quase perderem o fôlego. É para isso que servem
os shoppings. As pessoas lá se encontram e desencontram, falam mal e
falam bem, riem porque choram, ou choram porque riem... -
Que tal um sorvete tipo italiano? -
Mas que tipo de italiano, Lu? -
Kadine, você não pensa em outra coisa. Já está traindo o Robe Preto? -
Imagine. Adoraria o sorvete sim. Mas vamos dar uma passadinha lá em
frente de novo? -
Meu Deus, que paixão!!! E o Jê? -
Jê? O Jê entra naquele robe de algodão, vindo de promoção ainda ganho
de algum parente... Chegaram
ao caixa: -
Duas casquinhas, por favor, pediu Lu. -
Que sabor? -
De Vanilla para mim, respondeu Kadine. -
Um Vanilla e um chocolate. Saíram
lambendo os sorvetes com prazer e pararam novamente diante da loja de
roupas masculinas.Ele estava lá, no mesmo lugar, altivo e orgulhoso.
Kadine deslumbrava-se diante daquela figura masculina. Ela quase podia
aspirar seu perfume, e na face sentir a maciez dos pêlos do tórax,
imaginando-se com o rosto apoiado em seu peito magnífico. Shoppings fazem
dessas coisas, fazem enxergarem-se luzes coloridas, e é por isso que as
pessoas vão aos shoppings. -
... heim, Kadine? -
Oi, Lu. Por que me importuna com essa sua vozinha impertinente? Você sabe
o que eu estava fazendo? -
Bem, resposta à primeira questão: porque não tenho outra. Resposta à
segunda questão: você estava olhando não sei o quê. Os olhos brilhavam
e o rosto corava. -
Pois é, sua atrevida. Eu decolei e flanava, Lu. -
Você está sempre flanando... -
Sempre que um anjo me leva em suas asas... -
Nossa!!! Essa foi demais... -
Demais nada. Acabo de levar um belo tombo das asas do anjo. Você o
alvejou com sua voz irritante. -
Tá bom. Eu te ajudo a subir de novo... -
Agora não quero mais. Vamos andando. -
Vamos embora, que eu já me cansei. Caminharam
para a saída, ondulantes e alegres. Sentiram
o ar quente da noite estrelada da cidade acolhedora, apesar de grande.
Passaram pelo estacionamento, descendo depois a rampa que saía na Avenida
Faria Lima, fervilhando de faróis. Levavam consigo o “espírito do
Shopping”. Suas luzes brilhavam dentro delas e seu perfume agradava suas
narinas. -
Lindo aquele relógio de pulseira dourada, não é, Lu? -
Eu gostei mais daquele outro. -
É, na verdade, gostei dos dois. Hum, aquele perfume francês, o Fantasme,
não é divino? -
Acho que todos os fantasmas são divinos. -
Não acho, não. Imagine o fantasma de dona Aparecida, seria divino? -
Não, seria “diabino”. -
Por falar em diabino, e a namorada do seu digníssimo marido? -
Diabina também. Atravessavam
mecanicamente as ruas, viravam esquinas, um tropeção aqui, um outro lá. -
Oh, Lu, como estou carente! Gostaria de receber esse homem embrulhado para
presente, no dia de Natal. -
Pois então peça ao Papai Noel, mas só para o ano que vem. O deste ano já
foi. -
E quantas vezes já não pedi!? Mas só me aparecem tranqueiras, e eu
odeio esses mocinhos com o rosto que não é de homem, nem de menino. É
verdadeira cara de bunda. -
Nossa! Coitados dos mocinhos, Kadine. Como você é má!!! -
Eu sou má, mas você adora minha malda...a.....aiiiiiii. Havia
metido o pé num buraco do asfalto, torcendo-o, caindo de joelhos. -
Aiiiii, meu joelho. Olhe você, Lu. Devo estar com a rótula exposta. -
Nossa, está sangrando, sim. Mas sem exageros, não é? Vamos que lá em
casa eu coloco remédio. -
Arde. -
Arde e cura. -
Ai, a saia ergueu para eu ser atingida na carne. -
Que drama, Ka! Não é como ser criança e ralar o joelho? -
Claro, é como ser criança. Se cada ralada no joelho tirasse de nossa
cara um ano, juro que viveria caindo. -
Está doendo muito? -
Olhe, dói, viu? Arde prá diabo. E
Kadine gritou como criança mesmo, quando a irmã esborrifou o mertiolato
sobre o ferimento. -
Como eu vou para casa agora andando? Maldita a hora em que eu quis vir a pé.
Droga! -
Você quer que o meu digníssimo a leve de carro? -
Imagine... Prefiro ir sofrendo, sozinha na madrugada fria. -
Fria, Kadine? Com uma temperatura de trinta graus? -
É mesmo. Esqueci-me que estamos no verão desta “caliente” Rio Preto.-
Riram. Uma
semana depois, um cascão feio enfeitava o joelho esquerdo de Kadine. Ela
voltara para Campinas, após as férias do final do ano. E
era mesmo só o que Kadine queria naquele momento: meter-se debaixo da
manta de pele, envolvendo a cabeça, o corpo todo, escondendo-se do
mundo.Lecionara o dia todo. Andara de circular. Não se conformava em
estar andando de ônibus, quando em sua cidade tinha seu próprio carro,
telefone ao lado da cama e outras comodidades mais. “Quisera
eu ter asas, grande par de asas, brancas, para voar para a vida, para voar
para a morte.” Adormeceu
por meia hora. Despertou um pouco assustada, olhando para o despertador.
Nove horas da noite. “Vou
ao shopping. Hoje eu preciso mesmo ir ao shopping”. Espreguiçou-se
com lentidão, começou a colocar uma das pernas para fora da manta,
sentiu frio e voltou a encolher-se sem ânimo. “Mais
cinco minutos, só”. Mais
dez minutos de preguiça transcorreram até Kadine pôr-se para fora da
cama, espreguiçando-se e bocejando. “Agora
eu vou”. Foi
até a janela, podendo perceber que fora a noite tinha uma temperatura
agradável.Nem trocou sua calça “fuseau” e a túnica com que estivera
o dia todo. Desceu, e foi para o ponto do ônibus a um quarteirão do prédio.Mais
dez minutos e estava chegando ao shopping às nove horas e vinte minutos.E
foi rápido como um raio o que viu. O
próprio Robe Preto sem ele, empurrando um carrinho de compras, com um
cachimbo na boca, dirigindo-se para o Hipermercado.Este a olhou fixamente,
como a querer parar. Kadine chegou mesmo a parar sob o ímpeto de correr
atrás dele, de interromper seus passos. Estava diante de um milagre. Sim,
ele existia mesmo. E
o homem não sabia se voltava ou se continuava. Continuou. Entrou no
Hipermercado. Kadine,
percebendo sua insensatez, tomou o caminho oposto. Entrou no shopping.
Iluminou seus olhos e sua alma com os produtos importados, as velas
coloridas e perfumadas, o estojo infantil com o qual imaginava presentear
a sua sobrinha, as canetas coloridas para o sobrinho. Lembrava-se
das noites quentes no shopping de sua cidade no maravilhoso verão. Saiu
daquela loja sem nada comprar. Era sempre assim: namorava por um tempo os
objetos de que gostava, vindo a comprá-los posteriormente. Dobrou à
esquerda, na Joalheria. Viu algumas bijuterias em outra loja, pensando na
mãe e na irmã, e um belo estojo de barbear para o pai. A
loja de perfumes importados não podia ser deixada de lado. -
O Paloma Picasso, quanto está? -
R$ 56,00 -
O Laguna, de Salvador Dali? -
R$ 45,00. -
O Regine’s? -
Não temos. -
Ah, e aquele? É lançamento? -
É sim, de Rochas. -
Ah, está bem, obrigada. Saiu
da loja e lembrou-se de olhar para o pulso. “Pôxa,
dez para as dez!” Correu
para comprar um incenso “Gold Statue” e um tablete de chocolate meio
amargo. Ainda deu tempo de pegar uma casquinha de sorvete italiano sabor
Vanilla. Quando
subia no Circular, voltando para o pensionato, a casca da ferida do joelho
repuxou, doendo um pouco, o que a fez lembrar-se do Robe Preto. Deu
uma olhada em volta, pela janela do veículo. Muitas pessoas circulando,
cruzando seus caminhos, indo e vindo, alegres e tristes, carregadas de
pacotes ou mãos vazias. Ele
não cruzava caminho com ninguém, nem nesta noite, muito menos em outra
qualquer. Nem em Campinas, nem em Rio Preto. A casca do joelho de Kadine
soltou-se, deixando debaixo dela uma pele meio brilhante e lisa, como o
contorno de um mapa. Não
apenas uma marca insignificante, mas a marca de uma forte lembrança: um
Robe Preto
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