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ARTIGOS EVIRT

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Marcelo Nocelli

São Paulo - SP

 

De técnico e louco, todo mundo tem um pouco

 
  Maciel sobe as portas de aço, arruma o balcão, coloca os aparelhos prontos em teste, limpa as bancadas, pega um televisor na prateleira de orçamentos. Abre a tampa traseira do aparelho, com multímetro e osciloscópio teste os componentes, CI's, transistores, resistores, mede os capacitores, um defeito comum, o aparelho não mostra imagens, chega a conclusão de que o defeito esta no flay-back, levanta-se e dirige-se ao telefone para informar o valor do conserto ao cliente, antes de alcançá-lo o aparelho começa a tocar:

Eletrônica Máster, bom dia! - Atende educadamente Maciel
- Bom dia, o senhor atende à domicilio?
- Claro! qual o problema?
- Bem... Temos uma tv aqui que não troca de canais... Perdemos o botão do seletor.
- Ok! O senhor pode me informar a marca e o modelo do aparelho para que eu já leve o seletor novo?
- Ah sim, é uma tv antiga. Uma National, e o modelo é... Bem na etiqueta aqui atrás esta escrito cc2340, será que é esse o modelo?
- Sim, é este mesmo. Assim fica mais fácil, e posso resolver na hora. Qual o endereço?
- É... Rua Orlando Mendes, número trezentos e cinqüenta e um...
- Seu nome? Por favor.
- É... É... Meu nome é Doutor Douglas, você pode procurar por mim ou pelo Amaral, caso eu não esteja.
- Ah sim tudo bem, estarei ai às duas da tarde.
- Obrigado, estaremos aguardando... Quando chegar, entre pela porta de serviços, fica na rua ao lado, temos vários portões aqui. Ah... Esqueci de falar, estamos no hospital Vera Cruz.
- Sem problemas doutor. Até logo.

Maciel continua seu trabalho, ao meio-dia baixa as portas para o almoço, volta as treze e trinta, pega sua mala de ferramentas e sai em direção ao hospital. Chegando ao local informado, passa pelo portão principal onde dezenas de pessoas esperam em fila com sacolas e pacotes. Pergunta pelo portão de serviço e é informado por um segurança. Ao chegar é recebido por outro segurança com cara de invocado:
- Pois não. O que deseja?
- Eu sou o técnico eletrônico. Vim para consertar um televisor.
- Ah sim o Amaral já havia comentado, ele esta aguardando o senhor, mas temos um problema.
- Qual?
- O que tem nesta mala? Posso dar uma olhada?
- Claro, fique à vontade. Só tem ferramentas, chaves de fenda, multímetro, alicates, etc...
- Ah sim foi o que imaginei (diz o segurança abrindo a mala) Mas o senhor não pode entrar com estas ferramentas. Pode ser perigoso.
- Mas como vou consertar uma televisão sem minhas ferramentas?
- Temos muita coisa aqui, não acredito que o senhor vai precisar de tudo isso, acho melhor levar só o que realmente via precisar.
- Bem já que é assim. Na verdade o chamado é só para colocar um botão do seletor de canais, este aqui (diz Maciel retirando a peça da mala)
- E pra trocar isso quais ferramentas vai precisar?
- Bem se for realmente só isso, nenhuma, então posso entrar tranqüilamente apenas com o botão, agora se ao chegar lá eu verificar algum outro problema, venho buscar as ferramentas que precisar OK?!
- Neste caso sem problemas senhor. Vou lhe dar a chave daquele armário ali para que o senhor guarde sua mala de ferramentas, ao sair é só retirar suas coisas e devolver a chave ao outro segurança, pois já são 14:15h e às 14:30h temos mudança de turno, é muito provável que quando você sair teremos outras pessoas na portaria.
- Sem problemas, posso entrar agora?
- É melhor esperar pelo Amaral, é mais seguro que ele o acompanhe.

Maciel aguarda alguns minutos, entra na sala de espera um senhor aparentando uns sessenta anos, com andar calmo e olhar atento:
- O senhor deve ser o técnico?!
- Isso mesmo. Meu nome é Maciel, sou da eletrônica Máster.
- OK! Vamos lá! Mas peço ao senhor a gentileza de não olhar muito para os pacientes, alguns são agressivos, outros brincalhões, mais acabam tomando um tempo danado da gente, então o senhor não saia do meu lado e se for cumprimentado por alguém, cumprimente-o também, mas nada mais que isso, se for encarado por alguém, por favor, não encare de volta. Você sabe como são doentes mentais, nunca se sabe o que estão pensando, esses malucos ao mesmo tempo em que estão calmos, podem ficar irritadíssimos.

Maciel acompanha Amaral num enorme corredor mau iluminado e frio, com quartos por todos os lados, cheio de homens andando de um lado para outro, com roupas brancas esquisitas, uma espécie de lençol com mangas. Alguns o cumprimentam, outros o encaram, ao atravessar o corredor, chegam num pátio amplo com muros altos por todos os lados. Poucos homens conversam em grupo, a maioria anda e fala sozinho, Maciel observa um rapaz ainda jovem que toma certa distancia, e parte em disparada na direção do enorme muro como se tentasse alcançar o topo. Ao ver a atenção de Maciel voltada para o rapaz, Amaral responde:
- Aquele é o Robertinho, está internado aqui há quatro anos. Ele passa o dia tentando pular, já até aumentamos o muro de quatro para seis metros, na esperança dele desistir, mas não, ele encarou isso como um desafio maior ainda.


Maciel nem bem desligou sua atenção de Robertinho, sente um toque no ombro e ao olhar para trás se depara com um senhor de idade, completamente nu, a não ser por um quepe da marinha à cabeça.
- Bom dia capitão! (Diz o senhor batendo continência para Maciel)
- Ah esse ai é o coronel Dionísio, (explica Amaral) desde que foi para reserva da marinha ficou desse jeito, não tem família, apenas uma irmã que o visita uma ou duas vezes por ano. Para ele todos aqui são marujos, apenas eu sou o Almirante, foi à única maneira que descobri para ele me respeitar.

Ao final do pátio, uma sala grande, com várias cadeiras brancas enfileiradas onde alguns (mais ou menos quinze homens) estavam sentados frente à televisão desligada (e sem o botão do seletor de canais) como se esperassem alguma coisa a um bom tempo.
- Bem senhor Maciel este é o aparelho. (Diz Amaral)
Maciel dirige-se ao televisor, todos se levantam, mas sentam-se novamente assim que Amaral lança um olhar de reprovação.
Maciel assustado e pouco a vontade retira o botão do bolso:
- Bem! O problema é simples de resolver, basta colocar este botão aqui... E pronto. Está nova. Agora vocês podem assistir tv à vontade e selecionar os canais.
Quando Maciel e Amaral estavam se preparando para sair da sala, levanta-se ao fundo um dos internos, rapaz jovem, de pele branca, quase transparente, albino, com sobrancelha e cabelos cambiante entre amarelo e branco, aparentava ter quase dois metros de altura, com olhar fixo e raivoso para Maciel ele diz:
- Fui eu quem arrancou esse botão do lugar. Arranquei e joguei fora!
- Por que fez isso Claudionor? (Pergunta Amaral)
- Porque eu gosto de assistir a novela das oito, todos os dias esses caras ficam trocando de canal o tempo todo, não param em canal nenhum, cada um quer ver uma coisa e nunca se decidem. Então no sábado eu coloquei no canal da novela e tirei o botão para que ninguém mais trocasse o canal.
Amaral olha para Maciel que está inerte, e para o interno a principio com vontade de rir, mas controla-se e repreende:
- Tudo bem Claudionor, entendi! Vou conversar com todos para que cheguem a um acordo com as programações de tv, agora, por favor, não faça isso novamente, senão terei que proibi-lo de assistir televisão.
Claudionor pede desculpas e começa a chorar como uma criança, senta-se no chão com o dedo polegar na boca e a cabeça baixa.
-Levante daí Claudionor, tudo bem! Eu disse que vou proibi-lo se fizer isso novamente, mas como você é um bom menino, eu sei que não vai fazer OK! Então pode levantar-se e ir para seu quarto agora. (Amaral ajuda Claudionor a levantar-se que sai de cabeça baixa).

- Tudo bem Sr. Maciel, vamos embora. - diz Amaral sorrindo - Ao chegarem ao final do corredor, vira-se para o técnico:
- Sr. Maciel, já passou do horário de troca de turno. Eu já devia ter saído a tempos, então vou deixá-lo que siga para saída de serviço sozinho, pois tenho que sair pela porta de funcionários que fica ao outro lado. Mas não tenha medo, daqui a diante são só alguns metros e os internos desta área são inofensivos, é só o senhor seguir até o final do corredor, e já está na saída, ai o segurança abrirá o portão para o senhor, Tudo bem!
- Se forem só alguns metros, eu posso ir sozinho sim, obrigado. E qualquer problema é só ligar.

Maciel caminha quase correndo, pelo corredor e rapidamente chega ao portão de serviço, o segurança o observa por uma pequena portinhola, onde só possível ver os olhos do homem:
- Boa tarde. O senhor pode abrir o portão por favor.
- Não! - diz o segurança com as mãos no trinco da pequena abertura.
- Desculpe, mas como não pode abrir? Eu preciso ir embora! Tenho muito trabalho a fazer.
- He He He! Ora... Ora, tem muito trabalho a fazer. Ta certo!
- Meu senhor, eu sou o técnico de tv, vim aqui para consertar o aparelho dos internos.

- Ai meu chapa! Aqui todos dizem isso! Volte para seu quarto ou vou chamar o enfermeiro. - Diz o segurança fechando com violência a portinhola.

 

 

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