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Maciel
sobe as portas de aço, arruma o balcão, coloca os aparelhos
prontos em teste, limpa as bancadas, pega um televisor na prateleira
de orçamentos. Abre a tampa traseira do aparelho, com multímetro
e osciloscópio teste os componentes, CI's, transistores, resistores,
mede os capacitores, um defeito comum, o aparelho não mostra
imagens, chega a conclusão de que o defeito esta no flay-back,
levanta-se e dirige-se ao telefone para informar o valor do conserto
ao cliente, antes de alcançá-lo o aparelho começa
a tocar:
Eletrônica Máster, bom dia! - Atende educadamente Maciel
- Bom dia, o senhor atende à domicilio?
- Claro! qual o problema?
- Bem... Temos uma tv aqui que não troca de canais... Perdemos
o botão do seletor.
- Ok! O senhor pode me informar a marca e o modelo do aparelho para
que eu já leve o seletor novo?
- Ah sim, é uma tv antiga. Uma National, e o modelo é...
Bem na etiqueta aqui atrás esta escrito cc2340, será
que é esse o modelo?
- Sim, é este mesmo. Assim fica mais fácil, e posso
resolver na hora. Qual o endereço?
- É... Rua Orlando Mendes, número trezentos e cinqüenta
e um...
- Seu nome? Por favor.
- É... É... Meu nome é Doutor Douglas, você
pode procurar por mim ou pelo Amaral, caso eu não esteja.
- Ah sim tudo bem, estarei ai às duas da tarde.
- Obrigado, estaremos aguardando... Quando chegar, entre pela porta
de serviços, fica na rua ao lado, temos vários portões
aqui. Ah... Esqueci de falar, estamos no hospital Vera Cruz.
- Sem problemas doutor. Até logo.
Maciel continua
seu trabalho, ao meio-dia baixa as portas para o almoço,
volta as treze e trinta, pega sua mala de ferramentas e sai em direção
ao hospital. Chegando ao local informado, passa pelo portão
principal onde dezenas de pessoas esperam em fila com sacolas e
pacotes. Pergunta pelo portão de serviço e é
informado por um segurança. Ao chegar é recebido por
outro segurança com cara de invocado:
- Pois não. O que deseja?
- Eu sou o técnico eletrônico. Vim para consertar um
televisor.
- Ah sim o Amaral já havia comentado, ele esta aguardando
o senhor, mas temos um problema.
- Qual?
- O que tem nesta mala? Posso dar uma olhada?
- Claro, fique à vontade. Só tem ferramentas, chaves
de fenda, multímetro, alicates, etc...
- Ah sim foi o que imaginei (diz o segurança abrindo a mala)
Mas o senhor não pode entrar com estas ferramentas. Pode
ser perigoso.
- Mas como vou consertar uma televisão sem minhas ferramentas?
- Temos muita coisa aqui, não acredito que o senhor vai precisar
de tudo isso, acho melhor levar só o que realmente via precisar.
- Bem já que é assim. Na verdade o chamado é
só para colocar um botão do seletor de canais, este
aqui (diz Maciel retirando a peça da mala)
- E pra trocar isso quais ferramentas vai precisar?
- Bem se for realmente só isso, nenhuma, então posso
entrar tranqüilamente apenas com o botão, agora se ao
chegar lá eu verificar algum outro problema, venho buscar
as ferramentas que precisar OK?!
- Neste caso sem problemas senhor. Vou lhe dar a chave daquele armário
ali para que o senhor guarde sua mala de ferramentas, ao sair é
só retirar suas coisas e devolver a chave ao outro segurança,
pois já são 14:15h e às 14:30h temos mudança
de turno, é muito provável que quando você sair
teremos outras pessoas na portaria.
- Sem problemas, posso entrar agora?
- É melhor esperar pelo Amaral, é mais seguro que
ele o acompanhe.
Maciel
aguarda alguns minutos, entra na sala de espera um senhor aparentando
uns sessenta anos, com andar calmo e olhar atento:
- O senhor deve ser o técnico?!
- Isso mesmo. Meu nome é Maciel, sou da eletrônica
Máster.
- OK! Vamos lá! Mas peço ao senhor a gentileza de
não olhar muito para os pacientes, alguns são agressivos,
outros brincalhões, mais acabam tomando um tempo danado da
gente, então o senhor não saia do meu lado e se for
cumprimentado por alguém, cumprimente-o também, mas
nada mais que isso, se for encarado por alguém, por favor,
não encare de volta. Você sabe como são doentes
mentais, nunca se sabe o que estão pensando, esses malucos
ao mesmo tempo em que estão calmos, podem ficar irritadíssimos.
Maciel
acompanha Amaral num enorme corredor mau iluminado e frio, com quartos
por todos os lados, cheio de homens andando de um lado para outro,
com roupas brancas esquisitas, uma espécie de lençol
com mangas. Alguns o cumprimentam, outros o encaram, ao atravessar
o corredor, chegam num pátio amplo com muros altos por todos
os lados. Poucos homens conversam em grupo, a maioria anda e fala
sozinho, Maciel observa um rapaz ainda jovem que toma certa distancia,
e parte em disparada na direção do enorme muro como
se tentasse alcançar o topo. Ao ver a atenção
de Maciel voltada para o rapaz, Amaral responde:
- Aquele é o Robertinho, está internado aqui há
quatro anos. Ele passa o dia tentando pular, já até
aumentamos o muro de quatro para seis metros, na esperança
dele desistir, mas não, ele encarou isso como um desafio
maior ainda.
Maciel nem bem desligou sua atenção de Robertinho,
sente um toque no ombro e ao olhar para trás se depara com
um senhor de idade, completamente nu, a não ser por um quepe
da marinha à cabeça.
- Bom dia capitão! (Diz o senhor batendo continência
para Maciel)
- Ah esse ai é o coronel Dionísio, (explica Amaral)
desde que foi para reserva da marinha ficou desse jeito, não
tem família, apenas uma irmã que o visita uma ou duas
vezes por ano. Para ele todos aqui são marujos, apenas eu
sou o Almirante, foi à única maneira que descobri
para ele me respeitar.
Ao
final do pátio, uma sala grande, com várias cadeiras
brancas enfileiradas onde alguns (mais ou menos quinze homens) estavam
sentados frente à televisão desligada (e sem o botão
do seletor de canais) como se esperassem alguma coisa a um bom tempo.
- Bem senhor Maciel este é o aparelho. (Diz Amaral)
Maciel dirige-se ao televisor, todos se levantam, mas sentam-se
novamente assim que Amaral lança um olhar de reprovação.
Maciel assustado e pouco a vontade retira o botão do bolso:
- Bem! O problema é simples de resolver, basta colocar este
botão aqui... E pronto. Está nova. Agora vocês
podem assistir tv à vontade e selecionar os canais.
Quando Maciel e Amaral estavam se preparando para sair da sala,
levanta-se ao fundo um dos internos, rapaz jovem, de pele branca,
quase transparente, albino, com sobrancelha e cabelos cambiante
entre amarelo e branco, aparentava ter quase dois metros de altura,
com olhar fixo e raivoso para Maciel ele diz:
- Fui eu quem arrancou esse botão do lugar. Arranquei e joguei
fora!
- Por que fez isso Claudionor? (Pergunta Amaral)
- Porque eu gosto de assistir a novela das oito, todos os dias esses
caras ficam trocando de canal o tempo todo, não param em
canal nenhum, cada um quer ver uma coisa e nunca se decidem. Então
no sábado eu coloquei no canal da novela e tirei o botão
para que ninguém mais trocasse o canal.
Amaral olha para Maciel que está inerte, e para o interno
a principio com vontade de rir, mas controla-se e repreende:
- Tudo bem Claudionor, entendi! Vou conversar com todos para que
cheguem a um acordo com as programações de tv, agora,
por favor, não faça isso novamente, senão terei
que proibi-lo de assistir televisão.
Claudionor pede desculpas e começa a chorar como uma criança,
senta-se no chão com o dedo polegar na boca e a cabeça
baixa.
-Levante daí Claudionor, tudo bem! Eu disse que vou proibi-lo
se fizer isso novamente, mas como você é um bom menino,
eu sei que não vai fazer OK! Então pode levantar-se
e ir para seu quarto agora. (Amaral ajuda Claudionor a levantar-se
que sai de cabeça baixa).
- Tudo
bem Sr. Maciel, vamos embora. - diz Amaral sorrindo - Ao chegarem
ao final do corredor, vira-se para o técnico:
- Sr. Maciel, já passou do horário de troca de turno.
Eu já devia ter saído a tempos, então vou deixá-lo
que siga para saída de serviço sozinho, pois tenho
que sair pela porta de funcionários que fica ao outro lado.
Mas não tenha medo, daqui a diante são só alguns
metros e os internos desta área são inofensivos, é
só o senhor seguir até o final do corredor, e já
está na saída, ai o segurança abrirá
o portão para o senhor, Tudo bem!
- Se forem só alguns metros, eu posso ir sozinho sim, obrigado.
E qualquer problema é só ligar.
Maciel
caminha quase correndo, pelo corredor e rapidamente chega ao portão
de serviço, o segurança o observa por uma pequena
portinhola, onde só possível ver os olhos do homem:
- Boa tarde. O senhor pode abrir o portão por favor.
- Não! - diz o segurança com as mãos no trinco
da pequena abertura.
- Desculpe, mas como não pode abrir? Eu preciso ir embora!
Tenho muito trabalho a fazer.
- He He He! Ora... Ora, tem muito trabalho a fazer. Ta certo!
- Meu senhor, eu sou o técnico de tv, vim aqui para consertar
o aparelho dos internos.
- Ai meu chapa! Aqui todos dizem isso! Volte para seu quarto ou
vou chamar o enfermeiro. - Diz o segurança fechando com violência
a portinhola.
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