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Eram
6h30m. O despertador tocou, irritantemente. A mulher estendeu o
braço, protegido pela camisa de dormir de flanela, e desligou-o.
O homem ao seu lado sentou o peso dos seus 50 anos na beira da cama
e, por entre os resmungos matutinos, procurou os chinelos. Depois
levantou-se e enfiou-se na casa de banho, arrastando os pés.
A mulher ficou deitada, de olhos fechados, tentando recuperar as
réstias do sonho que estava a ter, e no qual preferia ficar
presa a vida toda. Era impossível! Abriu os olhos cansados
na semiobscuridade do quarto e pensou no que aconteceria se não
se levantasse. Se ficasse ali deitada, a gozar o quentinho dos lençóis
e a imaginar o galã da novela das 18h, a acordá-la
suavemente com um beijo doce.
O ruído da máquina de barbear despertou-a completamente
e ela levantou-se. Abriu o roupeiro para tirar o roupão e
fitou a sua imagem no espelho. Tinha 45 anos, mas sentia-se com
60, ao olhar para a rede que lhe prendia os rolos do cabelo e para
as mãos secas e enrugadas dos detergentes. Tinha a sua piada!
Os anúncios prometiam que se utilizasse aquele ou o outro
detergente ficaria com as mãos macias e teria uma vida maravilhosa,
com tudo a brilhar e mais tempo para se dedicar a si própria.
Nunca se pareceria com as mulheres que anunciam esses detergentes,
tão elegantes e sofisticadas. Apeteceu-lhe dar uma gargalhada.
Como se fosse possível que algum dia o galã da novela
das18h pudesse desejá-la enquanto mulher! Em vez disso, vestiu
o roupão e dirigiu-se à cozinha para preparar o pequeno-almoço.
O homem sentou-se à mesa e devorou, com ruidoso prazer, o
café e as torradas. Quando se ia despedir da mulher, reparou
no seu ar ausente, de caneca na mão e encostada ao balcão
e visivelmente preocupado perguntou:
- Que tens, Maria Rosa? Dormiste mal? - A mulher sorriu melancolicamente
e respondeu:
- Não é nada, querido. Acho que estou a chocar um
constipaçãozita!
- Vê lá se te cuidas! Até logo! – depositou-lhe
um beijo apressado na testa e saiu.
O silêncio invadiu a casa e a mulher chorou sem saber porquê.
Depois limpou as lágrimas, disse para si própria que
estava a ser pateta e foi acordar o filho, para preparar mais um
pequeno-almoço.
II
“-
Não me ames, porque eu não sei sofrer – dizia
a mulher numa angústia crescente, resistindo com dificuldade
ao beijo iminente nos lábios do homem tão perto dos
seus, que a abraçava com ternura.
- A minha vida sem ti é inconcebível. És a
mulher que eu amo e por quem daria a vida em qualquer momento! Não
resistas mais, por favor! – murmurou o homem - Não
resistas mais!”
Triim…Triim… Alguém premiu a campainha da porta.
Maria Rosa sobressaltou-se. Quem seria? Levantou-se relutante em
despregar os olhos daquela cena tão romântica e distraidamente
abriu a porta. Arrependeu-se no mesmo instante de o ter feito, mas
no lugar de um ladrão sem escrúpulos de pistola em
punho, estava uma mulher lindíssima. Era alta e magra. Rosto
oval, nariz aquilino, olhos cor de amêndoa e cabelos cor de
mel. Envolvia-a um perfume adocicado, que se insinuava devagarinho
no ambiente em seu redor. Subitamente envergonhada pelas nódoas
de gordura na bata gasta pelo uso, Maria Rosa passou as mãos
pelo cabelo desgrenhado e murmurou:
- Sim?! - Numa voz muito suave, a mulher explicou:
- Peço desculpa de estar a incomodá-la. O meu nome
é Clara Montebelo e sou a nova vizinha do 2ª esquerdo.
Informaram-me que a administração do condomínio
está seu cargo e eu gostaria de tratar desse assunto.
- Terei de falar com o meu marido, ele é que trata dessas
coisas, mas deve estar a chegar. Não quer entrar e tomar
um cafezinho, enquanto espera?
- Oh!, é muito gentil da sua parte, mas já estou atrasada
para um compromisso importante. Mas amanhã teria todo o gosto
em aceitar o seu convite.
Maria Rosa olhou para a mulher desconcertada. De repente, uma delicadeza
tinha-se transformado num convite formal para tomar café.
Porque não? Não é que acontecesse muita coisa
na sua vida e a mulher não tinha ar de louca, não
é como se fosse pegar no facalhão da cozinha e estripá-la
ou qualquer coisa pior, embora não conseguisse imaginar alguma
coisa pior do que ser estripada… Abanou a cabeça para
sacudir os pensamentos idiotas que estava a ter e decidiu:
- Claro! Apareça por volta das quatro e meia e poderemos
falar um pouco melhor.
- Então, até amanhã!
E num passo gracioso, deu meia volta e desceu as escadas. Maria
Rosa fechou a porta devagarinho e sentiu-se subitamente excitada
com a mudança de rotina. Amanhã iria ter uma convidada
para lanchar!
III
Maria
Rosa voltou a olhar-se no espelho pela enésima vez. Vestia
o seu melhor vestido, um vestido verde relva sem decote e com uma
flor rosa a desabrochar do peito, e calçava os sapatos de
salto que levara ao casamento da filha e que lhe magoavam horrivelmente
os pés. A casa estava num brinco. O café, acabado
de fazer, fumegava na cafeteira. Fizera bolo de laranja e biscoitos
de canela. Pôs a uso o seu melhor serviço de café.
Estudara atentamente a forma de servir e de manter uma conversa
educada na novela das nove, da noite anterior.
A campainha da porta tocou, subitamente. Maria Rosa olhou para o
despertador em cima da cabeceira. Eram exactamente 16h30. Nem um
minuto a mais, nem um minuto a menos. Alisou novamente o vestido,
respirou fundo e foi abrir a porta à sua convidada.
Clara Montebelo vestia um vestido leve de Verão, que lhe
assentava que nem uma luva, apesar de que até um saco de
batatas a faria parecer uma mulher muito bela. Os sapatos de salto
e a mala de pele compunham o resto da figura elegante, que cumprimentou
Maria Rosa de forma educada.
Após o embaraço inicial entre duas pessoas que mal
se conhecem, disfarçado pela azáfama de servir o café
entre dois sorrisos esboçados sem jeito, Maria Rosa resolveu
cortar o silêncio:
- Falei com o meu marido ontem à noite e a próxima
reunião de condomínio é dia 6 do mês
que vem, antes das pessoas irem de férias. Em Agosto, isto
é um prédio morto. A Clara, posso tratá-la
assim, também vai de férias?
Clara mediu Maria Rosa, que se remexeu desconfortavelmente na cadeira,
com um olhar percustante, avaliando o nível de confiança
que poderia depositar naquela dona de casa que mal conhecia.
- Clara é o meu nome, que de outro modo me poderia tratar
senão pelo meu nome próprio? – respondeu de
forma afável – Ás vezes interrogo-me se teria
sido uma pessoa diferente, se me tivessem dado outro nome? Acha
que os nomes influenciam a personalidade de cada um?
Maria Rosa corou de atrapalhação, sem saber o que
responder. Não esperava nada daquilo. Na novela das nove,
da noite anterior, as actrizes haviam falado do tempo, das férias
e de roupas… Mas Clara não esperava resposta:
- Seria a mulher que sou hoje se me chamasse outro nome? O facto
de ser simpática ou antipática, inteligente, exótica
ou diferente estará relacionado com o nosso nome? Acha que
todas as Claras säo como eu? Como seria eu se não me
chamasse Clara Montebelo, mas sim outro nome qualquer… Maria
Rosa, por exemplo?
Maria Rosa olhou-a estupefacta. Estava a ser insultada na sua própria
casa por uma desconhecida! Levantou-se repentinamente para mostrar
o caminho para a porta da rua, mas Clara manteve-se impassível
e continuou na mesma voz doce:
- Minha querida amiga, não se ofenda! Diga-me com toda a
sinceridade, é feliz?
A felicidade! Maria Rosa sentou-se e olhou Clara nos olhos:
- Que quer dizer com isso?
- Exactamente o que disse… Nem uma palavra a mais nem uma
palavra a menos! Já alguma vez leu “Alice no País
das Maravilhas”?
- Eu?... Não… Eu…
- É a história de uma rapariga que passa por várias
fases de transformação, numa tentativa de se descobrir
a si própria e ser feliz consigo mesma… Gostava de
ser feliz consigo própria, Maria Rosa? Gostava de ter outro
nome?
- Srª Montebelo, acho melhor sair da minha casa. Posso não
ser magra, nem bonita, nem ter dinheiro… Mas ainda tenho a
minha dignidade e não posso permitir que me insulte no meu
lar!
Clara agarrou Maria Rosa pelo ombros e, com os olhos a brilhar de
uma raiva incontida e, sobretudo, incompreensível, sussurrou:
- Para que quer a sua dignidade se não é feliz? Olhe
bem para si… Olhe bem para a sua vida patética e vazia.
Um poço de silêncio tão cheio de nada e de coisa
nenhuma, em que se tem afundado devagar… muito devagar. A
Maria Rosa fala, come, dorme, respira mas não vive, porque
é demasiado cobarde para pegar no seu próprio destino
com as duas mãos e transformá-lo na vida que gostaria,
de facto, viver. Olhe para si, para a sua rotina de mulher de meia
idade, que fica em casa a cuidar do marido e dos filhos… A
Maria Rosa é esposa e mãe, mas há muito tempo
que se esqueceu de ser mulher!
Largando Maria Rosa, a Clara recostou-se no sofá e pegando,
novamente, na chávena de café, bebeu um gole, tranquilamente:
- Por isso, diga-me, minha querida amiga, é feliz?
Maria Rosa olhou-a, enquanto se tentava acalmar. Não percebia
aquela explosão e também não compreendia porque
não a punha fora da sua casa. Aquela pergunta tão
simples perturbava-a, talvez por ter medo da resposta honesta. Limpou
disfarçadamente a lágrima que teimava em rolar pelo
seu rosto desengraçado. Não sabia bem o que fazer,
mas aquelas palavras tinham, de algum modo, um efeito sobre ela.
Mudar! Ser outra pessoa. Sonhava dia e noite com essa mudança
e agora parecia que a oportunidade lhe batera à porta, na
figura de Clara, a sua vizinha do 2º esquerdo, que usava roupas
de qualidade e cheirava a alfazema e a flores do campo. Olhou para
a sua imagem reflectida no vidro da cristaleira e sentiu uma onda
de vergonha subir-lhe pelo corpo acima. Os pés a incharem
dentro dos sapatos baratos, o vestido verde cor de vómito
a realçar o seu corpo sem formas e o perfume reles a emanar
de si e a provocar-lhe náuseas.
- Não, Clara, não sou feliz… Mas nem sempre
foi assim. Éramos colegas de escritório e ele era
o homem mais bonito da secção. Depois casámos
e passado um ano tive o primeiro filho e deixei o trabalho, para
tomar conta dele… deles. Do marido e do filho. Depois veio
o segundo filho… Quando dei por mim, não passava de
uma dona de casa, que arruma a casa e vai às compras, que
prepara com primor o jantar para o marido, que chega às sete
e se senta no sofá a ler o jornal. Não me interprete
mal, ele é um bom homem mas…
- Mas não a faz sentir mulher, não é?
Maria Rosa acenou devagar com a cabeça e as lágrimas
rolaram de mansinho pela face.
- Minha querida amiga, não chore. Chegou a hora de mudar.
E eu vou ajudá-la!
IV
Rosa
bebeu mais um gole da cerveja gelada e sentiu-se um pouco entontecida,
rindo-se com os outros da piada que não ouvira, e que provavelmente
não iria entender. O seu olhar deambulou pelo bar meio vazio
naquele fim de tarde e regressou à mesa onde se encontrava,
indo pousar no homem alto e de olhos verdes, que se encontrava à
sua frente e lhe dirigia um sorriso doce e, até, convidativo.
Desviou o olhar, embaraçada e disfarçou bebendo mais
um pouco. A tensão que acumulara durante o dia, o trabalho
extenuante no escritório combinado com a consciência
pesada de ir comemorar o aniversário da colega sem a companhia
do marido, sobretudo quando respirara de alívio por ele ter
recusado o convite, começava lentamente a desaparecer e ela
sentia-se relaxar um pouco mais.
Tanta coisa acontecera nesses últimos meses. Primeiro Clara
levara-a ao cabeleireiro e à esteticista. Depois remodelara
o seu guarda-roupa, chegando a comprar roupa interior sexy e decotada,
que escondera entre as camisolas antigas, para a noite que ansiava
com o seu marido e que não fosse apenas a compilação
de gestos mecânicos e rotineiros, mas sim lhe trouxessem de
volta o prazer antigo e já esquecido. Preparara um jantar
cuidado, à luz das velas. O filho, depois de encolher os
ombros perante a sua inicial transformação, fora passar
a noite a casa de um amigo. O marido chegara e, depois de a beijar,
perguntara:
- Faltou a luz? Acendeste velas… - e ligara o interruptor.
Intrigado olhara Rosa no seu vestido e penteado novos e também
ele encolheu os ombros. Mas Rosa não desistiu. Consultou
um nutricionista e passou a frequentar um ginásio. Emagreceu
e tornou-se mais bonita. Agora gostava da figura que se desenhava
no espelho. Voltara a trabalhar e era como se tivesse rejuvenescido
20 anos. O marido gostara da mudança e aproximara-se mais
dela. Mas Rosa olhava-o, agora com outros olhos. Era um velho calvo
de 50 anos, cansado e pesado, cinzento e vazio. Como competir com
o sorriso quente do homem alto e de olhos verdes que se encontrava
à sua frente e que trabalhava consigo no escritório?!
Clara dissera-lhe:
- Virá o tempo em que a esperança e a alegria se unirão
numa só forma completa e os dias tristes e vazios serão
banidos para sempre… Virá o tempo em que te sentirás
uma verdadeira rosa, sem espinhos e a desabrochar para a vida e
as mágoas e as dores passadas não passarão
de farrapos de papel que o vento levará para longe, para
muito longe de sítio nenhum… Virá o tempo em
que palavras doces como o mel jorrarão dos seus lábios
e tu te entregarás na noite, aos teus desejos mais secretos
e às suas carícias mais ternas… E ele dirá:
“Vem comigo”. E tu irás, dona do teu próprio
destino e dos teus próprios sentidos… Virá o
tempo em que serás mulher e, sobretudo, serás tu própria!
Rosa não entendera metade deste amontoado de palavras sussurradas
ao seu ouvido, misturadas com a fragrância doce de Clara,
mas sentira-se embalada pelo seu som e acreditara que podia mudar…
E mudara. “És feliz?”, perguntara Clara. Rosa
sorriu de si para si e olhou de novo para o homem alto de olhos
verdes sentado à sua frente: “Quase…”
Saíram do bar e Rosa despediu-se dos companheiros. O homem
alto de olhos verdes ofereceu-se para a acompanhar a casa. Caminharam
em passos lentos, sem pressa, entabulando uma conversa animada sobre
as trivialidades da vida. Rosa sentia-se enleada nas suas palavras
e no seu riso, e foi com muita naturalidade que entrou na casa dele
e se atirou para cima do sofá. Ele aproximou-se e num abraço
terno, beijou-a com ardor. Rosa sentiu como se uma bola de fogo
nascesse na barriga e subisse até à garganta, transformando-se
num aperto ansioso, cheio de desejo pela satisfação
do corpo. E sem pensar em mais nada, deixou-se ir…
V
A noite
deu lugar à manhã……… Rosa remexeu-se
na cama e um sorriso de gata satisfeita desenhou-se-lhe nos lábios.
Abriu os olhos, sentindo o calor dos raios de sol a afagarem-lhe
o corpo e virou-se, encarando o homem alto de olhos verdes a dormir
profundamente. Levantou-se de um salto, completamente desperta,
emitindo uma exclamação abafada e descobriu que estava
completamente nua. Uma onda de pânico apoderou-se dela, vestiu-se
rapidamente, recolhendo a roupa, os sapatos e a mala espalhados
por toda a casa, enquanto o corpo deitado na cama ressonava audivelmente,
na paz dos anjos e saiu porta fora, como se fugisse do diabo.
Quando chegou à rua, atravessou a estrada um pouco entontecida
e sentou-se num banco do jardim em frente. Respirou fundo e tapou
os olhos com as mãos. O que fizera? Passara a noite inteira
com um desconhecido, na prática de um sexo desenfreado…
ele era bom! Nunca tivera tantos orgasmos seguidos como na noite
anterior… Que estava a fazer? Meu Deus, o marido e o filho
deviam estar raladíssimos à sua procura, e ela ali,
sentada num banco de um jardim desconhecido, pois não tinha
a mínima ideia de onde se encontrava, e não conseguia
deixar de pensar nessa noite fabulosa, em posições
que não pensou que o ser humano fosse capaz de praticar…
Os beijos depositados com ardor e ternura, as mãos a explorar
um corpo desconhecido e bem delineado… Pára, pára
com isso! Sacudiu a cabeça para se libertar de todos os pensamentos,
apagou o sorriso que teimava em nascer e de cabeça e coração
vazios olhou em volta, descortinando uma praça de táxis.
Teria que voltar para casa e enfrentar as consequências do
seu acto inconsciente… Teria sido mesmo inconsciente? Valeria
a pena inventar uma história mirabolante de um assalto em
que ficara sem sentidos toda a noite ou outra coisa qualquer? Não,
ia enfrentar o seu marido e contar-lhe a verdade. Diria: “Alberto,
passei a noite com um homem que me mostrou como o sexo pode ser
das melhores coisas que…” Não, não valia
a pena entrar em pormenores, também não queria dizer
ao marido que era uma nulidade na cama! Diria: “Alberto, conheci
outra pessoa. Quero o divórcio!”. Também não
precisava de ser tão radical! Até porque nesse momento
Rosa não sabia o queria, ou melhor, queria um banho quente
na sua banheira e na sua casa, para se libertar daquele odor a sexo
que exalava do seu corpo. De um sexo que não era seu…
Teria que falar com a Clara, ela ajudá-la-ia a pensar melhor
sobre as coisas.
Gostava do seu marido, claro, mas acima de tudo gostava de si própria.
Mas se ela se conseguira transformar, também poderia o seu
marido ser diferente. Rosa podia ajudá-lo a ser diferente,
a ver a vida de outra forma, com emoção, valendo a
pena ser vivida. Sim, ai deixaria de ser o Alberto, seria outra
pessoa e quereria ela outra pessoa? Estremeceu ao pensar nos beijos
do homem alto de olhos verdes na sua boca, no seu peito e no seu
ventre… Ela deixara de ser Maria Rosa há muito tempo.
Hoje era uma mulher moderna, independente e rejuvenescida, capaz
de ultrapassar todos os obstáculos e saltar todas as barreiras.
Poria tudo em pratos limpos com o seu marido, não lhe ia
mentir. Decidida, encaminhou-se para um táxi que a levasse
a casa, arrastando consigo um último pensamento: ”Pelo
sim, pelo não, vou pedir a opinião da Clara!”
VI
O táxi
parou em frente ao seu prédio e Rosa, ao apear-se, reparou
no grupo de vizinhos que observavam o transporte de um corpo envolvido
num lençol branco para a ambulância. O seu coração
ficou pequenino e a primeira coisa que lhe ocorreu foi que o marido
morrera com algum ataque cardíaco devido à sua ausência.
Aproximou-se cambaleante de uma vizinha reformada, que, por passar
o dia inteiro à janela a registar o frenesim de entradas
e saídas (Rosa tinha a certeza que ela tinha um livrinho
de folhas sebentas onde apontava as horas de entrada e saída
de todas as pessoas do prédio, era bem melhor que um cão
de guarda!), sabia tudo.
- Que aconteceu?
A velha sobressaltou-se e disse, semicerrando os olhos:
- A vizinha do 2º esquerdo foi juntar-se a Deus Nosso Senhor
que está no céu.
Rosa sentiu a força a faltar-lhe nas pernas. Clara! Não,
não era possível!
- Como? – foi a única coisa que conseguiu balbuciar.
- Ora! A velhice é mesmo assim, estamos bem agora, daqui
a uns minutos o coração pára por estar cansado,
e já não abrimos mais os olhos. Com oitenta anos,
quase se espera que mais dia ou menos dia tal aconteça.
Rosa olhou-a, confusa.
- Oitenta anos? Está enganada. A Clara não teria mais
de quarenta, além disso sendo o marido médico…
- Mas qual Clara e qual marido? A vizinha do 2º esquerdo chamava-se
Carla, tinha oitenta anos e era viúva há dez. E o
marido foi pintor da construção civil e se pintou
algum hospital, foi o mais próximo que esteve do mundo da
medicina. E você? Afinal onde tem andado? O seu marido anda
louco à sua procura… Foi outra vez para a Judiciária
e o seu filho anda a perguntar de porta em porta…
Rosa não ouviu mais da algaraviada admoestadora da mulher
e correu para casa. Sentou-se na cama e tentou pensar, dar algum
sentido aos pensamentos descoordenados que lhe ocorriam. O Alberto
estava vivo, ela passara a noite com outro homem e Clara estava
morta, a Clara que não se chamava Clara mas sim Carla e tinha
oitenta anos. Sentia-se enlouquecer, enquanto travava uma batalha
consigo própria para rejeitar que a sua mente absorvesse
a idéia de não existência de uma mulher elegante,
a cheirar a rosas e a lavanda, com quem tomara café tantas
vezes e a ajudara a transformar-se no que era agora. E o que era?
Uma Rosa a murchar, temendo que ninguém a fosse colher.
Olhou para a sua figura no espelho. As roupas desgrenhadas, a pintura
esborratada do calor da noite e o cabelo em desalinho. Começou
a rir baixinho até esse riso se transformar em gargalhadas
histéricas e depois em lágrimas que rolavam grossas
pela sua face abaixo, transformando-a numa pintura de guerra e soluços
chorosos vindos do fundo do seu peito. Clara estava morta…
morta… ressequida e vazia, debaixo de vários palmos
de terra húmida e fria, numa escuridão eterna. Voltou
a olhar para o espelho. Quisera tanto mudar e ser diferente e agora
ali estava, patética e ridícula, completamente desamparada
e sentindo-se tão só, tão cheia de nada e de
coisa nenhuma.
Levantou-se e, pegando numa toalha húmida, começou
a retirar a maquilhagem, em gestos lentos e sofridos, como se cada
passagem fosse o arrancar de lascas da sua própria carne.
A figura de Clara ia-se tornando cada vez menos nítida na
sua mente e a água que passou no rosto levou a sua fragrância
doce e as suas palavras difíceis.
Despiu-se e vestiu a bata cinzenta… Dramaticamente de avental
posto, Maria Rosa dirigiu-se para a cozinha. Tinha o jantar para
fazer e a roupa para lavar.
Humm… Talvez amanhã comprasse uma bata nova…
colorida!
FIM
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