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CONTOS EVIRT

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Patricia Oliveira

Seixal - Portugal

  Texto de Origem Portuguesa
 
A Vizinha do 2º Esquerdo
 
 

Eram 6h30m. O despertador tocou, irritantemente. A mulher estendeu o braço, protegido pela camisa de dormir de flanela, e desligou-o. O homem ao seu lado sentou o peso dos seus 50 anos na beira da cama e, por entre os resmungos matutinos, procurou os chinelos. Depois levantou-se e enfiou-se na casa de banho, arrastando os pés.

A mulher ficou deitada, de olhos fechados, tentando recuperar as réstias do sonho que estava a ter, e no qual preferia ficar presa a vida toda. Era impossível! Abriu os olhos cansados na semiobscuridade do quarto e pensou no que aconteceria se não se levantasse. Se ficasse ali deitada, a gozar o quentinho dos lençóis e a imaginar o galã da novela das 18h, a acordá-la suavemente com um beijo doce.

O ruído da máquina de barbear despertou-a completamente e ela levantou-se. Abriu o roupeiro para tirar o roupão e fitou a sua imagem no espelho. Tinha 45 anos, mas sentia-se com 60, ao olhar para a rede que lhe prendia os rolos do cabelo e para as mãos secas e enrugadas dos detergentes. Tinha a sua piada! Os anúncios prometiam que se utilizasse aquele ou o outro detergente ficaria com as mãos macias e teria uma vida maravilhosa, com tudo a brilhar e mais tempo para se dedicar a si própria. Nunca se pareceria com as mulheres que anunciam esses detergentes, tão elegantes e sofisticadas. Apeteceu-lhe dar uma gargalhada. Como se fosse possível que algum dia o galã da novela das18h pudesse desejá-la enquanto mulher! Em vez disso, vestiu o roupão e dirigiu-se à cozinha para preparar o pequeno-almoço.

O homem sentou-se à mesa e devorou, com ruidoso prazer, o café e as torradas. Quando se ia despedir da mulher, reparou no seu ar ausente, de caneca na mão e encostada ao balcão e visivelmente preocupado perguntou:

- Que tens, Maria Rosa? Dormiste mal? - A mulher sorriu melancolicamente e respondeu:
- Não é nada, querido. Acho que estou a chocar um constipaçãozita!
- Vê lá se te cuidas! Até logo! – depositou-lhe um beijo apressado na testa e saiu.
O silêncio invadiu a casa e a mulher chorou sem saber porquê. Depois limpou as lágrimas, disse para si própria que estava a ser pateta e foi acordar o filho, para preparar mais um pequeno-almoço.

II

“- Não me ames, porque eu não sei sofrer – dizia a mulher numa angústia crescente, resistindo com dificuldade ao beijo iminente nos lábios do homem tão perto dos seus, que a abraçava com ternura.
- A minha vida sem ti é inconcebível. És a mulher que eu amo e por quem daria a vida em qualquer momento! Não resistas mais, por favor! – murmurou o homem - Não resistas mais!”

Triim…Triim… Alguém premiu a campainha da porta. Maria Rosa sobressaltou-se. Quem seria? Levantou-se relutante em despregar os olhos daquela cena tão romântica e distraidamente abriu a porta. Arrependeu-se no mesmo instante de o ter feito, mas no lugar de um ladrão sem escrúpulos de pistola em punho, estava uma mulher lindíssima. Era alta e magra. Rosto oval, nariz aquilino, olhos cor de amêndoa e cabelos cor de mel. Envolvia-a um perfume adocicado, que se insinuava devagarinho no ambiente em seu redor. Subitamente envergonhada pelas nódoas de gordura na bata gasta pelo uso, Maria Rosa passou as mãos pelo cabelo desgrenhado e murmurou:

- Sim?! - Numa voz muito suave, a mulher explicou:
- Peço desculpa de estar a incomodá-la. O meu nome é Clara Montebelo e sou a nova vizinha do 2ª esquerdo. Informaram-me que a administração do condomínio está seu cargo e eu gostaria de tratar desse assunto.
- Terei de falar com o meu marido, ele é que trata dessas coisas, mas deve estar a chegar. Não quer entrar e tomar um cafezinho, enquanto espera?
- Oh!, é muito gentil da sua parte, mas já estou atrasada para um compromisso importante. Mas amanhã teria todo o gosto em aceitar o seu convite.

Maria Rosa olhou para a mulher desconcertada. De repente, uma delicadeza tinha-se transformado num convite formal para tomar café. Porque não? Não é que acontecesse muita coisa na sua vida e a mulher não tinha ar de louca, não é como se fosse pegar no facalhão da cozinha e estripá-la ou qualquer coisa pior, embora não conseguisse imaginar alguma coisa pior do que ser estripada… Abanou a cabeça para sacudir os pensamentos idiotas que estava a ter e decidiu:

- Claro! Apareça por volta das quatro e meia e poderemos falar um pouco melhor.
- Então, até amanhã!
E num passo gracioso, deu meia volta e desceu as escadas. Maria Rosa fechou a porta devagarinho e sentiu-se subitamente excitada com a mudança de rotina. Amanhã iria ter uma convidada para lanchar!

III

Maria Rosa voltou a olhar-se no espelho pela enésima vez. Vestia o seu melhor vestido, um vestido verde relva sem decote e com uma flor rosa a desabrochar do peito, e calçava os sapatos de salto que levara ao casamento da filha e que lhe magoavam horrivelmente os pés. A casa estava num brinco. O café, acabado de fazer, fumegava na cafeteira. Fizera bolo de laranja e biscoitos de canela. Pôs a uso o seu melhor serviço de café. Estudara atentamente a forma de servir e de manter uma conversa educada na novela das nove, da noite anterior.

A campainha da porta tocou, subitamente. Maria Rosa olhou para o despertador em cima da cabeceira. Eram exactamente 16h30. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Alisou novamente o vestido, respirou fundo e foi abrir a porta à sua convidada.

Clara Montebelo vestia um vestido leve de Verão, que lhe assentava que nem uma luva, apesar de que até um saco de batatas a faria parecer uma mulher muito bela. Os sapatos de salto e a mala de pele compunham o resto da figura elegante, que cumprimentou Maria Rosa de forma educada.

Após o embaraço inicial entre duas pessoas que mal se conhecem, disfarçado pela azáfama de servir o café entre dois sorrisos esboçados sem jeito, Maria Rosa resolveu cortar o silêncio:
- Falei com o meu marido ontem à noite e a próxima reunião de condomínio é dia 6 do mês que vem, antes das pessoas irem de férias. Em Agosto, isto é um prédio morto. A Clara, posso tratá-la assim, também vai de férias?

Clara mediu Maria Rosa, que se remexeu desconfortavelmente na cadeira, com um olhar percustante, avaliando o nível de confiança que poderia depositar naquela dona de casa que mal conhecia.
- Clara é o meu nome, que de outro modo me poderia tratar senão pelo meu nome próprio? – respondeu de forma afável – Ás vezes interrogo-me se teria sido uma pessoa diferente, se me tivessem dado outro nome? Acha que os nomes influenciam a personalidade de cada um?

Maria Rosa corou de atrapalhação, sem saber o que responder. Não esperava nada daquilo. Na novela das nove, da noite anterior, as actrizes haviam falado do tempo, das férias e de roupas… Mas Clara não esperava resposta:

- Seria a mulher que sou hoje se me chamasse outro nome? O facto de ser simpática ou antipática, inteligente, exótica ou diferente estará relacionado com o nosso nome? Acha que todas as Claras säo como eu? Como seria eu se não me chamasse Clara Montebelo, mas sim outro nome qualquer… Maria Rosa, por exemplo?

Maria Rosa olhou-a estupefacta. Estava a ser insultada na sua própria casa por uma desconhecida! Levantou-se repentinamente para mostrar o caminho para a porta da rua, mas Clara manteve-se impassível e continuou na mesma voz doce:

- Minha querida amiga, não se ofenda! Diga-me com toda a sinceridade, é feliz?
A felicidade! Maria Rosa sentou-se e olhou Clara nos olhos:
- Que quer dizer com isso?
- Exactamente o que disse… Nem uma palavra a mais nem uma palavra a menos! Já alguma vez leu “Alice no País das Maravilhas”?
- Eu?... Não… Eu…
- É a história de uma rapariga que passa por várias fases de transformação, numa tentativa de se descobrir a si própria e ser feliz consigo mesma… Gostava de ser feliz consigo própria, Maria Rosa? Gostava de ter outro nome?
- Srª Montebelo, acho melhor sair da minha casa. Posso não ser magra, nem bonita, nem ter dinheiro… Mas ainda tenho a minha dignidade e não posso permitir que me insulte no meu lar!
Clara agarrou Maria Rosa pelo ombros e, com os olhos a brilhar de uma raiva incontida e, sobretudo, incompreensível, sussurrou:

- Para que quer a sua dignidade se não é feliz? Olhe bem para si… Olhe bem para a sua vida patética e vazia. Um poço de silêncio tão cheio de nada e de coisa nenhuma, em que se tem afundado devagar… muito devagar. A Maria Rosa fala, come, dorme, respira mas não vive, porque é demasiado cobarde para pegar no seu próprio destino com as duas mãos e transformá-lo na vida que gostaria, de facto, viver. Olhe para si, para a sua rotina de mulher de meia idade, que fica em casa a cuidar do marido e dos filhos… A Maria Rosa é esposa e mãe, mas há muito tempo que se esqueceu de ser mulher!
Largando Maria Rosa, a Clara recostou-se no sofá e pegando, novamente, na chávena de café, bebeu um gole, tranquilamente:

- Por isso, diga-me, minha querida amiga, é feliz?
Maria Rosa olhou-a, enquanto se tentava acalmar. Não percebia aquela explosão e também não compreendia porque não a punha fora da sua casa. Aquela pergunta tão simples perturbava-a, talvez por ter medo da resposta honesta. Limpou disfarçadamente a lágrima que teimava em rolar pelo seu rosto desengraçado. Não sabia bem o que fazer, mas aquelas palavras tinham, de algum modo, um efeito sobre ela. Mudar! Ser outra pessoa. Sonhava dia e noite com essa mudança e agora parecia que a oportunidade lhe batera à porta, na figura de Clara, a sua vizinha do 2º esquerdo, que usava roupas de qualidade e cheirava a alfazema e a flores do campo. Olhou para a sua imagem reflectida no vidro da cristaleira e sentiu uma onda de vergonha subir-lhe pelo corpo acima. Os pés a incharem dentro dos sapatos baratos, o vestido verde cor de vómito a realçar o seu corpo sem formas e o perfume reles a emanar de si e a provocar-lhe náuseas.

- Não, Clara, não sou feliz… Mas nem sempre foi assim. Éramos colegas de escritório e ele era o homem mais bonito da secção. Depois casámos e passado um ano tive o primeiro filho e deixei o trabalho, para tomar conta dele… deles. Do marido e do filho. Depois veio o segundo filho… Quando dei por mim, não passava de uma dona de casa, que arruma a casa e vai às compras, que prepara com primor o jantar para o marido, que chega às sete e se senta no sofá a ler o jornal. Não me interprete mal, ele é um bom homem mas…

- Mas não a faz sentir mulher, não é?
Maria Rosa acenou devagar com a cabeça e as lágrimas rolaram de mansinho pela face.
- Minha querida amiga, não chore. Chegou a hora de mudar. E eu vou ajudá-la!

IV

Rosa bebeu mais um gole da cerveja gelada e sentiu-se um pouco entontecida, rindo-se com os outros da piada que não ouvira, e que provavelmente não iria entender. O seu olhar deambulou pelo bar meio vazio naquele fim de tarde e regressou à mesa onde se encontrava, indo pousar no homem alto e de olhos verdes, que se encontrava à sua frente e lhe dirigia um sorriso doce e, até, convidativo. Desviou o olhar, embaraçada e disfarçou bebendo mais um pouco. A tensão que acumulara durante o dia, o trabalho extenuante no escritório combinado com a consciência pesada de ir comemorar o aniversário da colega sem a companhia do marido, sobretudo quando respirara de alívio por ele ter recusado o convite, começava lentamente a desaparecer e ela sentia-se relaxar um pouco mais.

Tanta coisa acontecera nesses últimos meses. Primeiro Clara levara-a ao cabeleireiro e à esteticista. Depois remodelara o seu guarda-roupa, chegando a comprar roupa interior sexy e decotada, que escondera entre as camisolas antigas, para a noite que ansiava com o seu marido e que não fosse apenas a compilação de gestos mecânicos e rotineiros, mas sim lhe trouxessem de volta o prazer antigo e já esquecido. Preparara um jantar cuidado, à luz das velas. O filho, depois de encolher os ombros perante a sua inicial transformação, fora passar a noite a casa de um amigo. O marido chegara e, depois de a beijar, perguntara:

- Faltou a luz? Acendeste velas… - e ligara o interruptor. Intrigado olhara Rosa no seu vestido e penteado novos e também ele encolheu os ombros. Mas Rosa não desistiu. Consultou um nutricionista e passou a frequentar um ginásio. Emagreceu e tornou-se mais bonita. Agora gostava da figura que se desenhava no espelho. Voltara a trabalhar e era como se tivesse rejuvenescido 20 anos. O marido gostara da mudança e aproximara-se mais dela. Mas Rosa olhava-o, agora com outros olhos. Era um velho calvo de 50 anos, cansado e pesado, cinzento e vazio. Como competir com o sorriso quente do homem alto e de olhos verdes que se encontrava à sua frente e que trabalhava consigo no escritório?! Clara dissera-lhe:

- Virá o tempo em que a esperança e a alegria se unirão numa só forma completa e os dias tristes e vazios serão banidos para sempre… Virá o tempo em que te sentirás uma verdadeira rosa, sem espinhos e a desabrochar para a vida e as mágoas e as dores passadas não passarão de farrapos de papel que o vento levará para longe, para muito longe de sítio nenhum… Virá o tempo em que palavras doces como o mel jorrarão dos seus lábios e tu te entregarás na noite, aos teus desejos mais secretos e às suas carícias mais ternas… E ele dirá: “Vem comigo”. E tu irás, dona do teu próprio destino e dos teus próprios sentidos… Virá o tempo em que serás mulher e, sobretudo, serás tu própria!

Rosa não entendera metade deste amontoado de palavras sussurradas ao seu ouvido, misturadas com a fragrância doce de Clara, mas sentira-se embalada pelo seu som e acreditara que podia mudar… E mudara. “És feliz?”, perguntara Clara. Rosa sorriu de si para si e olhou de novo para o homem alto de olhos verdes sentado à sua frente: “Quase…”

Saíram do bar e Rosa despediu-se dos companheiros. O homem alto de olhos verdes ofereceu-se para a acompanhar a casa. Caminharam em passos lentos, sem pressa, entabulando uma conversa animada sobre as trivialidades da vida. Rosa sentia-se enleada nas suas palavras e no seu riso, e foi com muita naturalidade que entrou na casa dele e se atirou para cima do sofá. Ele aproximou-se e num abraço terno, beijou-a com ardor. Rosa sentiu como se uma bola de fogo nascesse na barriga e subisse até à garganta, transformando-se num aperto ansioso, cheio de desejo pela satisfação do corpo. E sem pensar em mais nada, deixou-se ir…

V

A noite deu lugar à manhã……… Rosa remexeu-se na cama e um sorriso de gata satisfeita desenhou-se-lhe nos lábios. Abriu os olhos, sentindo o calor dos raios de sol a afagarem-lhe o corpo e virou-se, encarando o homem alto de olhos verdes a dormir profundamente. Levantou-se de um salto, completamente desperta, emitindo uma exclamação abafada e descobriu que estava completamente nua. Uma onda de pânico apoderou-se dela, vestiu-se rapidamente, recolhendo a roupa, os sapatos e a mala espalhados por toda a casa, enquanto o corpo deitado na cama ressonava audivelmente, na paz dos anjos e saiu porta fora, como se fugisse do diabo.

Quando chegou à rua, atravessou a estrada um pouco entontecida e sentou-se num banco do jardim em frente. Respirou fundo e tapou os olhos com as mãos. O que fizera? Passara a noite inteira com um desconhecido, na prática de um sexo desenfreado… ele era bom! Nunca tivera tantos orgasmos seguidos como na noite anterior… Que estava a fazer? Meu Deus, o marido e o filho deviam estar raladíssimos à sua procura, e ela ali, sentada num banco de um jardim desconhecido, pois não tinha a mínima ideia de onde se encontrava, e não conseguia deixar de pensar nessa noite fabulosa, em posições que não pensou que o ser humano fosse capaz de praticar… Os beijos depositados com ardor e ternura, as mãos a explorar um corpo desconhecido e bem delineado… Pára, pára com isso! Sacudiu a cabeça para se libertar de todos os pensamentos, apagou o sorriso que teimava em nascer e de cabeça e coração vazios olhou em volta, descortinando uma praça de táxis.

Teria que voltar para casa e enfrentar as consequências do seu acto inconsciente… Teria sido mesmo inconsciente? Valeria a pena inventar uma história mirabolante de um assalto em que ficara sem sentidos toda a noite ou outra coisa qualquer? Não, ia enfrentar o seu marido e contar-lhe a verdade. Diria: “Alberto, passei a noite com um homem que me mostrou como o sexo pode ser das melhores coisas que…” Não, não valia a pena entrar em pormenores, também não queria dizer ao marido que era uma nulidade na cama! Diria: “Alberto, conheci outra pessoa. Quero o divórcio!”. Também não precisava de ser tão radical! Até porque nesse momento Rosa não sabia o queria, ou melhor, queria um banho quente na sua banheira e na sua casa, para se libertar daquele odor a sexo que exalava do seu corpo. De um sexo que não era seu… Teria que falar com a Clara, ela ajudá-la-ia a pensar melhor sobre as coisas.

Gostava do seu marido, claro, mas acima de tudo gostava de si própria. Mas se ela se conseguira transformar, também poderia o seu marido ser diferente. Rosa podia ajudá-lo a ser diferente, a ver a vida de outra forma, com emoção, valendo a pena ser vivida. Sim, ai deixaria de ser o Alberto, seria outra pessoa e quereria ela outra pessoa? Estremeceu ao pensar nos beijos do homem alto de olhos verdes na sua boca, no seu peito e no seu ventre… Ela deixara de ser Maria Rosa há muito tempo. Hoje era uma mulher moderna, independente e rejuvenescida, capaz de ultrapassar todos os obstáculos e saltar todas as barreiras. Poria tudo em pratos limpos com o seu marido, não lhe ia mentir. Decidida, encaminhou-se para um táxi que a levasse a casa, arrastando consigo um último pensamento: ”Pelo sim, pelo não, vou pedir a opinião da Clara!”

VI

O táxi parou em frente ao seu prédio e Rosa, ao apear-se, reparou no grupo de vizinhos que observavam o transporte de um corpo envolvido num lençol branco para a ambulância. O seu coração ficou pequenino e a primeira coisa que lhe ocorreu foi que o marido morrera com algum ataque cardíaco devido à sua ausência. Aproximou-se cambaleante de uma vizinha reformada, que, por passar o dia inteiro à janela a registar o frenesim de entradas e saídas (Rosa tinha a certeza que ela tinha um livrinho de folhas sebentas onde apontava as horas de entrada e saída de todas as pessoas do prédio, era bem melhor que um cão de guarda!), sabia tudo.

- Que aconteceu?
A velha sobressaltou-se e disse, semicerrando os olhos:
- A vizinha do 2º esquerdo foi juntar-se a Deus Nosso Senhor que está no céu.
Rosa sentiu a força a faltar-lhe nas pernas. Clara! Não, não era possível!
- Como? – foi a única coisa que conseguiu balbuciar.
- Ora! A velhice é mesmo assim, estamos bem agora, daqui a uns minutos o coração pára por estar cansado, e já não abrimos mais os olhos. Com oitenta anos, quase se espera que mais dia ou menos dia tal aconteça.
Rosa olhou-a, confusa.

- Oitenta anos? Está enganada. A Clara não teria mais de quarenta, além disso sendo o marido médico…
- Mas qual Clara e qual marido? A vizinha do 2º esquerdo chamava-se Carla, tinha oitenta anos e era viúva há dez. E o marido foi pintor da construção civil e se pintou algum hospital, foi o mais próximo que esteve do mundo da medicina. E você? Afinal onde tem andado? O seu marido anda louco à sua procura… Foi outra vez para a Judiciária e o seu filho anda a perguntar de porta em porta…

Rosa não ouviu mais da algaraviada admoestadora da mulher e correu para casa. Sentou-se na cama e tentou pensar, dar algum sentido aos pensamentos descoordenados que lhe ocorriam. O Alberto estava vivo, ela passara a noite com outro homem e Clara estava morta, a Clara que não se chamava Clara mas sim Carla e tinha oitenta anos. Sentia-se enlouquecer, enquanto travava uma batalha consigo própria para rejeitar que a sua mente absorvesse a idéia de não existência de uma mulher elegante, a cheirar a rosas e a lavanda, com quem tomara café tantas vezes e a ajudara a transformar-se no que era agora. E o que era? Uma Rosa a murchar, temendo que ninguém a fosse colher.

Olhou para a sua figura no espelho. As roupas desgrenhadas, a pintura esborratada do calor da noite e o cabelo em desalinho. Começou a rir baixinho até esse riso se transformar em gargalhadas histéricas e depois em lágrimas que rolavam grossas pela sua face abaixo, transformando-a numa pintura de guerra e soluços chorosos vindos do fundo do seu peito. Clara estava morta… morta… ressequida e vazia, debaixo de vários palmos de terra húmida e fria, numa escuridão eterna. Voltou a olhar para o espelho. Quisera tanto mudar e ser diferente e agora ali estava, patética e ridícula, completamente desamparada e sentindo-se tão só, tão cheia de nada e de coisa nenhuma.

Levantou-se e, pegando numa toalha húmida, começou a retirar a maquilhagem, em gestos lentos e sofridos, como se cada passagem fosse o arrancar de lascas da sua própria carne. A figura de Clara ia-se tornando cada vez menos nítida na sua mente e a água que passou no rosto levou a sua fragrância doce e as suas palavras difíceis.

Despiu-se e vestiu a bata cinzenta… Dramaticamente de avental posto, Maria Rosa dirigiu-se para a cozinha. Tinha o jantar para fazer e a roupa para lavar.
Humm… Talvez amanhã comprasse uma bata nova… colorida!

FIM

 

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