| Parte I A História do lugar A Fundação de Santana do Deserto A Fundação do Ciriquito A Morte de Matias Barbosa Mudança da capela do Ciriquito A História do Lugar " Não se ama uma terra senão quando alguma coisa sagrada nos prende a ela, algum sacrifício ou tradição" Rocha Pombo 1711 O governador da província de Minas Gerais e Rio de Janeiro, Artur de Sá e Menezes, atendendo os insistentes apelos dos primitivos moradores da zona do Carmo, trouxe com sua comitiva, em 1702, na visita a Minas Gerais , o mestre de campo, Matias da Silva Barbosa . O coronel Matias Barbosa era uma espécie de engenheiro agrônomo, e tinha sido convidado pelo governador para: "promover, cultivar as terras e livrá-las dos índios botocudos e acaiabas que infestavam a região, causando estragos e ocasionando a morte de muitos moradores". A zona do Carmo era banhada pelo rio Ribeirão do Carmo, começando pela Vila de Nossa Senhora do Carmo, antigo nome da cidade de Mariana, até encontrar o rio Piranga, em Pontal, e com ele formar o rio Doce. Matias Barbosa era bem conhecido dos governadores, pois, em l680 , já prestara relevantes serviços à Corôa na Colônia do Sacramento no sul do Brasil, na luta entre Portugal e Espanha . No ano de 1700 , o mesmo governador, já cedera a Matias Barbosa "uma sesmaria de uma légua de testada por três de sertão, às margens do rio Paraibuna", nas cercanias de Juiz de Fora, onde fundou a localidade de "Registro" que hoje, em sua homenagem, se chama Matias Barbosa. Era ali que a Corôa cobrava impostos sobre o comércio de ouro e diamantes provenientes de Minas Gerais. Para lhe proporcionar condições de cumprir a nova missão, o governador cedeu-lhe vasta extenção de terras na zona do Carmo, cujas áreas se encontravam onde hoje estão localizadas as cidades de Furquim, Barra Longa, Santana do Deserto e Dom Silvério, com a obrigação de demarcar, abrir caminhos e promover o assentamento dos imigrantes que aqui chegavam, interessados em participar do desenvolvimento da região, sem a presença perigosa dos selvagens. Homem empreendedor e de grandes iniciativas, Matias Barbosa, a partir de 1711, foi atraíndo, primeiramente para Furquim e Barra Longa, importantes famílias de origem portuguesa, possuidoras de bens, e desejosas de se tornarem proprietárias de grandes áreas de terras contando ainda com as facilidades da mão de obra escrava. O projeto foi muito bem sucedido . Em pouco tempo, Matias Barbosa foi avançando no cumprimento de sua missão. O cônego Trindade, que foi o maior historiador daquela zona, descreveu toda a história da vida de Matias Barbosa, informando ter sido ele o mais rico vassalo português da zona do Carmo e das nascentes do rio Doce. Em trinta anos de trabalhos, abrindo caminhos, demarcando terras, afugentando índios, ele foi realizando sua missão e enriquecendo. Naquela época não havia cercas e todas as divisas de terras eram demarcadas por abertura de valas profundas que até hoje ainda podem ser vistas na região. Acumulou grande fortuna. Em seu testamento escreveu: "...só vivia em Santos entre algum negócio com que an dava de uma parte para outra, mas não a cavalo, porque nem os possuía, nem havia em Santos e São Paulo. Todos andavam a pé..." Quando faleceu em 1742 e foi aberto seu testamento e relacionado o seu patrimônio, isto é , o que sobrou para dividir, ainda era grande sua fortuna. A maior parte ele havia se desfeito em vida para as famílias de origem portuguesa, cujos descendentes são bastante conhecidos, tanto na zona do Carmo como em Dom Silvério. O patrimônio inventariado consistia basicamente de ouro, prata, diamantes, imóveis e escravos. Curiosamente, só para celebrar missas após sua morte, ele deixou consignado em seu testamento: "200 missas de esmola de 3/4 de ouro; 1000 missas de cruzados de ouro; 1000 missas de cruzados de prata; 1000 missas em Lisboa, sua terra natal, de esmolas de dois tostões de prata, cada uma; 1000 missas pelos seus pais, de cento e cinquenta réis de prata"
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A Fundação de Santana do Deserto1735Vinte anos após "lançar posses, cultivar e povoar" São José da Barra Longa, Furquin, Gualacho e Corvinas, o coronel Matias Barbosa, já agora um ilustre senhor, possuidor de grande fortuna, acompanhado de 70 homems brancos, fortemente armados e grande número de escravos, desceu o rio Doce, partindo de sua nascente em Pontal e nos arredores da foz do rio do Peixe lança as bases de Santana do Rio do Peixe, que depois passou a se chamar Santana do Deserto e ergueu ali uma capela. O local era habitado por índios bravios. Promoveu a demarcação das terras em sesmarias e atraiu para a localidade os primeiros interessados. Era uma capela de "madeiras mais duráveis" que ali existiu até poucos anos atrás, quando foi demolida e em seu lugar construida uma igreja de alvenaria. A revista do arquivo público mineiro registra que em 1734 Matias Barbosa passou a "explorar as matas do vale do rio Doce, onde tinha vastos domínios de terras." 1740
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| A Fundação de Ciriquito Terminada a demarcação de Santana do Deserto, Matias Barbosa subiu com seus escravos o rio do Peixe até alcançar um contorno ao pé do morro. Dá ao local o nome de Circuito. Foi essa a descrição que ele fez do local, onde ergueu uma capela e hoje é popularmente conhecida como Ciriquito, corruptela da palavra Circuito. Como era hábito, a capela foi sempre o primeiro marco de formação de um povoado. Circuito foi o primeiro nome de todo o local onde hoje se encontra assentada a cidade de Dom Silvério. Matias Barbosa não deixou seu nome ligado a nenhuma obra que o lembrasse na antiga povoação do Ciriquito, como fez na zona do Carmo, a não ser a divisão das terras em sesmarias. Aquela era a última etapa de sua obra e de seus compromissos com o governador da província mineira. Ele tinha pressa. Estava velho e cansado de tantas lutas, de tanto enfrentar os índios botucudos, defensores de suas terras. Sabia que não iria viver por muito tempo e não desejava morrer nessas paragens. Não se tem indícios do local exato em que a rústica capela foi edificada. A tradição oral, no entanto, situa sua localização no final da curva do contorno, onde um pequeno córrego deslisa suavemente para o rio do Peixe. O local era privilegiado de terras muito férteis. A topografia do terreno nada mudou até hoje, a não ser o desvio que o rio do Peixe possa ter sofrido ao longo dos anos.
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A Morte de Matias Barbosa 1742Em 25/07/1742 morre Matias Barbosa em Antonio Dias, Ouro Preto. Seu testamento foi redigido em 01/02/1738 pelo padre Manoel Pereira Batalha, da Vila do Carmo (Mariana), aprovado pelo tabelião Brito e pelo juiz da comarca. Sua esposa Dona Luiza de Sousa Oliveira e sua única filha e herdeira, Maria Barbosa da Silva ficaram de posse de todo o patrimônio, e logo começaram a se desfazer das terras e demais bens herdados. Dona Luiza ainda conservou por algum tempo uma grande sesmaria em Santana do Deserto, tendo doado à capela local uma gleba de terras para a sua sustentação e patrimônio. Dona Luiza, já viúva, casou com o advogado do espólio , Dr. Manuel Ribeiro de Carvalho. Com o falecimento de Dona Luiza, o novo marido vendeu tudo que ela possuía, e foi depois promovido ao presbiterato. Em 28/12/1759 foi ordenado padre em Mariana, deixando estas paragens e nunca mais retornando.
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Mudança na Capela do Ciriquito1752
A primitiva capela já não mais se encontra no local onde tinha sido erguida por Matias Barbosa. Fora transferida para outro local onde hoje está situada a matriz de Dom Silvério. Pelo alvará régio de Dom José I datado de 16/01/1752 a nova capela e mais vinte e duas outras igrejas do bispado de Mariana passam à condição de colativa, podendo assim "ser providas de párocos proprietários que cumpram com a sua obrigação". Assim dizia o principal tópico do Alvará: "Eu, El-Rei , como Governador e Perpétuo Administrador que sou do Mestrado, Cavalaria e Ordens de Nosso Senhor Jesus Cristo, Faço saber aos que este meu Alvará virem, que , atendendo ao que me representou o Ouvidor da Comarca de Vila Rica, sobre os prejuízos espirituais e temporais que resultavam aos fregueses das igrejas do bispado de Mariana, em não terem Pastores próprios... ...Hey por bem criar e erigir em nova Vigararia Colada a Igreja de São José da Barra Longa... ... e mais vinte e duas outras ( inclusive a capela do ciriquito)". |