Ensaio 03


Fotos: Everaldo d'Alverga
Texto: Neide Tavares

O RECADO

mis01.jpg (19747 bytes) A noite cai, logo as ruas estarão desertas. Um ou outro carro perde-se velozmente numa esquina. Nossos vizinhos de rua logo armam suas camas em caixas de papelão, suas cobertas muitas da vezes feitas de jornal. Alguns se aconchegam em bueiros, onde podem sentir o vento quente para lhes aquecer.

Observo tudo, por menor que seja o gesto, e entristeço-me com o quadro que vejo: fome, pobreza, miséria, doença. E choro. Choro por me sentir inútil. Diante dos meus olhos, vejo tudo e nada faço para mudar este quadro. O silêncio da noite é mais triste, sombrio, sinto a respiração de cada irmão abandonado ao relento.

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Mas, sabe? Às vezes a pobreza nos enobrece e grande é aquele que sabe sorrir na hora da dor, mesmo sabendo que não tem nenhum motivo para isto. Grande é quando este irmão, mesmo na sua pobreza, ainda encontra força para estender a mão ao seu companheiro de rua e dividir o seu pão, com a fé de que adiante ele receberá em dobro.

A pobreza nada mais é que um grande sintoma das dificuldades impostas pela vida, pela sociedade e por nossos erros. Então não podemos fechar os olhos para a sujeira do mundo. Não ignoremos a fome, não esqueçamos de nossos irmãozinhos desamparados, que muitas das vezes precisam de uma mão firme e forte para os guiar. Não deixemos que se sintam incapazes, Vamos fazer dos nossos defeitos a virtude de ajudar, acolher, amar. Vamos fazer da distância um motivo para a aproximação; não os reprove, olhe a sua volta e reflita. Transforme o sofrimento deles em momentos de alegrias. Porque cada grão, cada migalha, enfim qualquer que seja a ajuda, você estará fazendo deles as pessoas mais felizes do mundo.

Façamos dos obstáculos, degraus para a vida. Podemos vencer e crescer com estes seres abandonados por ela. Basta ter fé, grandeza de espírito e esperança de que dias melhores virão.

Nunca esqueça de estender a mão, de dar um sorriso, para quem perdeu a esperança de viver e tentar e, acima de tudo, ter a certeza de que vai vencer.

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Neide Tavares 


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