ENSAIO 06
Fotos: Cesar Miecznikowski
Texto: Ivan de Almeida
UM RIO QUE SE INVENTA
![]() |
![]() |
|
|
Houve uma época em que corria. De tardinha calçava o
tênis, ia para a Atlântica ou para a Lagoa, e empregava-me nesse prazer
masoquista que é a corrida. Preferia a Lagoa, pois saía correndo para um
lado, e, fazendo o contorno, chegava pelo outro, sem voltar sobre o mesmo
caminho. Apesar do mar da Avenida Atlântica, a Lagoa tem algo a mais, que
é geografia. O mesmo tempo de exercício ali é menos monótono –ainda
que mais exigente-, pois a paisagem se transforma a cada momento e
modulamos nosso ritmo pelo local no qual estamos. Na Atlântica é sempre
o mesmo ritmo, a mesma cadência, e isso aborrece um pouco. Digo isso porque o Rio é assim também, variado, e essa variação, esse detalhamento rico, é o que nos diverte. O Rio tem locais, cada qual com sua identidade, cada qual com seu micro-clima. É claro que há as paisagens que identificam a cidade nas fotos turísticas; as praias, o Pão de Açúcar, o Cristo do Corcovado, mas elas não a resumem. Santa Teresa, Urca, os trechos da Lagoa, Grajaú, Vila Isabel, cada um desses lugares nos oferece uma particularidade que confirma o ambiente carioca. Havia um professor, em meu curso de arquitetura, que falava da “Unidade na Variedade”. Trata-se disso. |
||
![]() |
![]() |
|
|
E se engana quem achar que o Rio são as montanhas e o
mar, pura e simplesmente. Cidade ardilosa, feminina, ela, como as
mulheres, deixa parecer naturais aqueles artifícios de embelezamento
feitos pelos seus habitantes. Pois o mar já não está ali, no lugar onde
estava quando aqui chegaram os franceses e os portugueses, em uma grande
extensão que vai do Caju até o Posto Seis. As lagoas já não exibem seu
perfil original. Morros foram desmanchados, aterros foram feitos. Tudo
isso, entretanto, de tal maneira que poucas décadas depois o resultado da
intervenção não é mais sentido como artificial, mas como parte do
ambiente natural. Assim são o Passeio Público, a Praça Paris, o
Castelo, a praça XV. Assim é Copacabana. Onde não houve modificação
do perfil do litoral ou dos morros, há avenidas, elevados, pistas de veículos
e de bicicletas, que criam novos ângulos de observação da paisagem e a
compõem. Em um promontório, um forte. Em um remanso da baia,
amuradas de pedra de desenho caprichoso. No Corcovado, a estátua do
Cristo, tão perfeitamente integrada na cidade e tão elegante, quando
poderia, fosse outra a proporção e o desenho ou fosse outro o morro na
qual está, ser um adereço kitsch. E unindo tudo, juntando tudo isso, as
onipresentes pedras portuguesas. Sabe-se lá o porquê, mas o carioca vem reformando esse sítio que habita, ao longo dos governos, dos ciclos, das épocas, com uma espantosa unidade estética –claro, há os desvios, como a triste reurbanização da Av. Nossa Senhora de Copacabana, mas são exceção-, de modo que vemos tudo, após alguns anos, como se sempre tivesse sido daquele jeito, menos por parecer obra da natureza do que por se amalgamar perfeitamente com o ambiente, disfarçando as cicatrizes da intervenção. É a marca da estética carioca, criada por cariocas que interpretam o que vêem em torno de si. Assim como é natural que os italianos, cercados que estão pela fina estética romana, produzam um excelente desenho, o Rio também é capaz de transmitir aos seus habitantes a influência desse passado-presente que emerge como uma marca da sua cultura. |
||
|
|
||
|
O paisagismo registrado em diversos Estados
brasileiros, através das lentes digitais de Cesar Miecznikowski
pode ser visto no site: http://members.nbci.com/_XMCM/cesar_mie/
|
||
| [ VOLTAR ] | ||