EVIRT: Carlo, quando ocorreu seu envolvimento com Sistema Solar?
CARLO: Eu já tinha lidado com vários aspectos da energia solar desde a
minha primeira experiência com o programa VISTA, em 1980, nos meus estudos na SSU, em
1988, e em minha participação como um dos diretores da Northern California Solar Energy
Association (NCSEA) durante oito anos, onde eu planejava e organizava eventos e workshops.
Também durante minha permanência no SMUD, organizei uma série muito bem sucedida de
apresentações por peritos do campo solar, trazendo mais de 60 profissionais de energia
solar para o público de Sacramento.EVIRT: E o
que o levou a este caminho?
CARLO: O motivo do meu envolvimento
com a energia solar foi por acreditar que tal energia seja a maneira mais prática e
inteligente de satisfazer nossas necessidades energéticas, sem pesar desnecessariamente
na ecologia do nosso planeta e nosso bem estar geral, pois a energia solar é totalmente
limpa, renovável e praticamente infinita, e pode ser aplicada na geração de energia
elétrica, aquecimento do lar e de água, até resfriamento de líquidos e ambientes. No
design de arquitetura, a adoção de uma filosofia e tecnologia solar permite a criação
de prédios que são não só muito econômicos na operação, mas também super-
confortáveis e aconchegantes, mais ligados à vivência humana do que os prédios que
são artificialmente aquecidos, resfriados, condicionados, com luz e energia
"artificial".
EVIRT: Quais são os Sistemas Solares mais usados nos Estados Unidos?
CARLO: Os sistemas
térmicos, os aquecedores de água para uso doméstico, saem bem na frente na corrida de
tecnologia solares. Mas esta é uma tecnologia muito antiga, que de alguma forma já foi
usada há milênios. Foi aperfeiçoada para aplicações domésticas no início do último
século e só ficou abandonada quando chegou a energia "barata" do petróleo, e
a gente ainda não se deu conta dos problemas e custos ecológicos e sociais (poluição
das terras e oceanos, poluição do ar, efeito estufa, guerras) que acompanham a
utilização de combustíveis fosseis.
EVIRT:
E a diversificação da Energia solar?
CARLO: A energia solar
tem muitas formas, pois trata-se da irradiação do sol que chega à terra todo dia e fica
transformada nos ventos, na chuva que enche os rios e lagos, na luz que ilumina, no
aquecimento das terras e mares que garantem a nossa vida, na comida que a gente e toda
vida do planeta precisa para viver, pois nossa fonte de energia, o que nos mantém vivos,
é puramente o sol. Pode-se até dizer que os combustíveis fosseis, criados milhões de
anos atrás, são apenas matérias orgânicas, ou seja, energia solar armazenada em restos
de plantas e animais. Existem apenas três energias não-solares com alguma utilidade
prática no nosso planeta:
- a nuclear, a radioativa, que, como os combustíveis
fósseis, têm problemas sérios de armazenagem de resíduos e contaminação pela
radioatividade, que até agora não foram adequadamente resolvidos e a indústria só
está ativa até agora pela força política e econômica que tem;
- a energia de gravitação da lua, que e responsável pelas
marés que elevam os oceanos; e
- a energia geotérmica, do calor do centro do nosso planeta.
EVIRT:
E como tem sido seu aproveitamento?
CARLO: A energia solar já foi
aproveitada em várias formas no último século, com muita tecnologia, tais como
máquinas eólicas (pois é o aquecimento do ar pelo sol que gera os ventos) para bombear
água ou gerar eletricidade (este é o campo de energia alternativa de grande porte que
está crescendo com mais velocidade atualmente); estações hidroelétricas, muito comuns
na Califórnia e o nordeste dos EUA; sistemas que aquecem fluidos que propulsionam
geradores de energia elétrica; aproveitamento direto no aquecimento e resfriamento de
ambientes (conhecido como "passive solar design"); e os sistemas fotovoltáicos,
que fazem uma conversão direta da irradiação do sol para eletricidade.
EVIRT:
Onde estão localizados?
CARLO: Onde tiver mais
sol, claro! Quanto mais, melhor para ter um maior e mais rápido retorno de investimento
no sistema. Quanto aos sistemas eólicos, na Califórnia temos milhares de máquinas, para
quem não conhece, que formam uma visão estupenda nas colinas leste do San Francisco, na
Altamont Pass, e em vários lugares no sul da Califórnia. Milhares de sistemas térmicos
de aquecimento de água, como outros milhares de sistemas fotovoltáicos, adornam os
telhados de residências e comércios em muitos estados dos EUA, como em outros países do
mundo, sobretudo na Europa.
EVIRT:
A questão climática influi na montagem dos Sistemas Solares?
CARLO: Sim, mas
também depende do tipo de sistema. Sistemas de aquecimento de água precisam de muito
sol, com preferência de ambiente quente, quanto mais melhor para converter os raios do
sol em água quente. Os sistemas fotovoltáicos preferem muito sol, mas de preferência
sem temperaturas elevadas, que tendem a baixar o rendimento de energia elétrica. A
elevação também contribui na produção de energia, pois quanto mais alto o ambiente ,
menos atmosfera tem para bloquear os raios do sol. Finalmente, o que é mais importante na
seleção da locação para instalar um sistema solar, é o clima particular daquela
locação, quantas horas de sol recebe tanto diariamente como anualmente. E pode até ser
uma locação com ótimas caraterísticas climáticas, mas se o acesso ao sol for
dificultado por prédios ou árvores, não tem como captar o sol.
EVIRT:
Como funciona o Sistema Solar?
CARLO: Bom, pergunta
simples com resposta complicada. Os sistemas térmicos dá para entender com facilidade e
trata-se essencialmente do efeito estufa aproveitado para aquecer o ar ou um líquido,
como água. Os raios do sol entram numa caixa passando por um lado transparente, de vidro
ou plástico. Eles batem contra e são absorvidos por uma superfície escura, normalmente
preta e por causa da energia, que era luz, ficar presa no material (pois material escuro
não permite a saída de luz), acaba virando energia térmica, a da movimentação das
partículas ao nível atômico. Esta energia, uma radiação de freqüência muito mais
baixa do que a luz, consegue escapar do material escuro, mas ao contrário da luz, não é
capaz de passar pelo material transparente e se avoluma, presa entre o vidro e o material
escuro, até que é aproveitada de alguma maneira, tipicamente por um líquido que absorve
o calor e o leva para um tanque, ou por ar que vai circulando pelo ambiente a ser
aquecido.
Mas o processo fotovoltáico é bem mais
complicado para explicar aqui, e eu costumo dizer que é "magia técnica",
desenvolvida pelo programa espacial dos EUA, nos anos 50. Tem a ver com semicondutores,
aqueles engenhos que viraram transistores nos rádios e computadores. O processo de
fabricação de células fotovoltáicas é muito parecido com o da fabricação de chips
de computador, até usando o mesmo material básico, a sílica. A célula fotovoltáica é
fabricada de um cristal de sílica com certas impurezas que criam um desequilíbrio de
elétrons, e vamos dizer, para simplificar, pois na verdade não é tão simples assim,
que a luz que atinge as células derruba estes elétrons, força-os a correr por um
circuito para ser utilizados como energia elétrica, pois eles voltam para o início da
corrida, para ser energizados de volta. Como dá para ver, nada é consumido neste
processo e os painéis fotovoltáicos têm duração de vida praticamente sem fim, e na
indústria são geralmente garantidos por 25 anos de vida. Muitos painéis criados mais de
trinta anos atrás, com tecnologia até inferior à de hoje, continuam funcionando. |
EVIRT: Como
é empregada a energia para o Meio Rural?
CARLO: De maneira geral, pode se usar tanto a energia eólica quanto a
fotovoltáica para bombear água para irrigação ou criação de animais. Estas são as
aplicações mais comuns, dependendo da quantidade de sol ou vento do lugar. E pode-se
também utilizar sistemas de geração de energia elétrica de qualquer porte para
sustentar as atividades de um comércio, ou residência. Mas no meio rural de países em
desenvolvimento, marcados principalmente pela pobreza e pequenas propriedades usadas
apenas para sobreviver, a energia solar traz a esperança de se viver uma vida melhor, sem
as preocupações de comprar combustíveis fósseis e sofrer problemas ecológicos e de
saúde, e até de aumentar a renda familiar com maior produção agrícola (com
bombeamento de água, por exemplo), ou de criação de animais (com cercas eletrificadas,
muito mais baratas do que cercas convencionais).EVIRT: O que vem
a ser a Radiação Solar?
CARLO: Quando as pessoas me falam que não têm nada contra a energia
nuclear, eu sempre digo que concordo, contanto que o reator nuclear fique a uma distância
de 93,000,000 de milhas da minha casa, uma distância que eu considero bastante segura.
Pois é o nosso sol que fica a esta distancia, o mais poderoso reator nuclear que a gente
tem, que vem trabalhando há bilhões de anos e tem ainda mais alguns bilhões de anos de
vida pela frente. Este nosso sol maravilhoso até trabalha com a fusão de átomos, uma
tecnologia que não é ainda viável na terra. Aqui temos a fissão nuclear que é
responsável por um sistema muito ineficiente e perigoso de geração de energia
elétrica. Mas o nosso sol continua nos enviando energia todo dia, na forma de raios de
luz, partículas fotônicas ou ondas, você quem escolhe segundo sua preferencia
quântica. Esta luz é geralmente absorvida por superfícies escuras, como o mar, a terra,
as folhas das plantas, e até nós mesmos, onde é geralmente convertida em calor, ou
usada em processos químicos e convertida em outra forma de energia (como nos alimentos).
EVIRT: Quando foi criado o primeiro grupo de Energia Solar nos E.U.A?
CARLO: Imagino
que nos anos 70, quando a indústria solar renasceu e cresceu. Os grupos principais nos
EUA são a American Solar Energy Society (ASES), que faz parte do International Solar
Energy Society (ISES). O nosso grupo local, o NCSEA, faz parte da ASES. Tem também muitos
outros grupos, mais técnicos ou comerciais, que representam os cientistas, fabricantes,
vendedores, instaladores, etc.
EVIRT:
Explique a Distribuição Espectral de Radiação Direta?
CARLO: Tem a ver com a qualidade, vamos dizer, de uma certa
radiação. Dentro da gama de luz, o nosso sol emite uma radiação onde consta
principalmente luz visível, mas também radiação além das duas pontas da gama
visível, ou seja, de luz ultravioleta e infravermelha. Para os sistemas térmicos, a luz
visível e a infravermelha servem para criar calor, mas os sistemas fotovoltáicos
aproveitam principalmente a gama visível. Outros sistemas que aproveitam de outras áreas
da distribuição espectral estão sendo experimentados, para eventualmente ter um sistema
mais eficiente e mais barato, que permite uma maior conversão de radiação solar para
eletricidade.
EVIRT:
Quais são, para a humanidade, os benefícios apresentados pelos Sistemas Solares?
CARLO: Já falei um pouco sobre este assunto, sobre as vantagens de
uma ecologia basicamente limpa. Mas vamos além disso e falamos de um ponto de vista que,
acho, pode beneficiar a humanidade: o do respeito pela natureza, por esta inacreditável
criação que é o mundo. Já nos foi concedida, desde o início do mundo, uma fonte
interminável, segura, saudável, e confiável de energia. Para saber aproveitar esta esta
energia, não precisamos de muita alta tecnologia, mesmo se esta tal tecnologia estiver
nos trazendo sistemas solares sempre melhores. Mas precisamos de amor por nosso planeta e
por nós mesmos e nossos descendentes. Pois nossa maneira atual de viver, com fontes de
energia convencionais, está trazendo destruição ao do nosso planeta, a extinção de
milhares de espécies, genocídios nas guerras, poluição, problemas de saúde e sociais.
Mas se fizermos as coisas com carinho, com cuidado para o nosso planeta, tentando deixar o
lugar melhor de como o encontramos para futuras gerações, a solução é a utilização
de energia solar. É uma idéia complemente abrangente, não estamos falando só de
energia, que é apenas uma comodidade, uma coisa que a gente paga na conta cada mês. Mas
estamos falando, por exemplo, que se decidimos não usar combustíveis fosseis, vamos ter
que utilizar métodos orgânicos para nossa produção agrícola, com o resultado de
comida mais saudável e menos destruição do nosso planeta. Sem gasolina para colocar nos
nossos carros, vamos ter que encontrar uma solução, como bicicletas, transporte
coletivo, andar a pé (que idéia esquisita!!!), ou até outros energéticos como
combustível, tal o hidrogênio, ou álcool, ambos com mínimos prejuízos ao nosso
ambiente.
EVIRT:
Você tem acompanhado os programas que envolvem o Sistema Solar no Brasil?
CARLO: É uma pergunta muito difícil. Nos quatro anos que estive no
Brasil, vi muito progresso nesta área, muita atividade do governo na criação de
programas e leis, e muito influxo de empresas estrangeiras tentando se estabelecer no
país. Vários programas cooperativos entre os governos do Brasil e países estrangeiros,
principalmente os EUA, trouxeram milhares de sistemas solares para os moradores do
sertão, e até alguns sistemas eólicos de maior porte foram instalados. Mas pelo que eu
vi, o progresso era lento, apesar da abundância de irradiação solar na grande parte do
país, e da múltiplas aplicações que podiam ser beneficiadas pela energia solar.
EVIRT: Quais são as perspectivas para o Novo Milênio?
CARLO: Às vezes penso que só uma catástrofe será capaz de
despertar o povo para que ele deixe de usar as energias convencionais e mude para uma
sociedade solar. Que vai acontecer, vai, pois as energias fósseis vão ficar sempre mais
difícil de se extrair do solo, e os problemas da queima deles só vêm aumentando, com
atenção particular ao efeito estufa. Talvez seja este último problema que vai afetar o
globo inteiro, que vai mudar a opinião da gente, mas espero que não cheguemos a tal
situação drástica. E temos que tomar cuidado com as soluções técnicas que vem vêm
sendo oferecidas pelos poderes econômicos que querem nos vender estas tecnologias mais
caras. Tem gente que fala que a energia nuclear é a mais barata e segura que existe, mas
ninguém até agora fez o cálculo dos custos de desarmar uma usina nuclear, como as
primeiras que estão precisando disso agora, nem dos custos de eventuais acidentes que com
certeza vão acontecer. Tem outra gente que fala da energia da fusão, como a do nosso
sol, que traria para o mundo toda a energia que a gente quisesse gastar sem pensar duas
vezes, só que aí as leis de termodinâmica também não permitem isso, pois toda energia
vira energia do nível inferior, ou seja, calor, assim o uso ilimitado de energia da
fusão só iria aquecendo demais o nosso planeta, que é ainda maior consideração com o
crescimento logarítmico da população.
Mas a indústria solar tem também crescido, se fortalecido, e se
aperfeiçoado. Agora tem sistemas e tecnologia de qualquer tipo, comprovados por anos de
experiência em uso atual. E o futuro promete mais avanços, de células mais eficientes
até combustíveis como hidrogênio, fabricado em processos com energia solar. Mas na
minha opinião, o sistema mais futurístico é o mais antigo, pois a energia solar é uma
coisa muito básica, que a gente tem nos nossos corpos, e por todo lado do nosso ambiente.
O mundo pode sobreviver muito bem sem energia nuclear, mas sem o sol, a terra seria
inferno, não teria vida nenhuma. O sol faz parte da nossa natureza, nós somos o sol. E
para aproveitar o sol, não precisamos de muita tecnologia, pelo menos quanto aos nossos
ambientes e comida. Mas agora que estamos viciados na eletricidade, vamos precisar pensar
em quanta eletricidade a gente precisa mesmo, e quanta sai desperdiçada com usos
exagerados, ou realmente não essenciais. Quando soubermos identificar nossas
necessidades, visando a saúde da população e do nosso planeta, poderemos aproveitar as
ótimas tecnologias que convertem a luz do sol em eletricidade.
EVIRT:
Como você analisa a questão do custo?
CARLO: De maneira geral, economizar é sempre importante, pois
economizar qualquer coisa significa economizar dinheiro, e quem não quer ter mais
dinheiro? No caso da energia, já foi comprovado sem dúvidas que economizar energia, na
maioria dos casos, sai muito mais barato do que usar mais energia. Parece óbvio, mas
muitas vezes tem que se fazer investimentos na melhoria de equipamentos para realizar esta
economia, e muitas pessoas acham estes investimentos proibitivos. Na verdade, os
investimentos em melhorias de equipamentos mais eficientes são uns dos melhores
investimentos possíveis hoje em dia, melhor do que jogar dinheiro na bolsa, ou na
Internet. E tem mais uma vantagem de até maior conseqüência: economizar energia de
origem fóssil reduz a poluição, o efeito estufa, e problemas sociais e de saúde, assim
garantindo um mundo melhor para as futuras gerações. |