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EVERALDO DALVERGA:
Como você começou?
JACOB FILHO: Bom, comecei a
trabalhar em fotografia aos quatorze anos de idade, fazendo aquelas
antigas “sete carinhas”. Passei a ganhar dinheiro já no ginásio. Com
dezoito anos, comecei a fazer a distribuição de um jornal que tinha em
Jacarepaguá e na Barra, que se chamava “Bom Dia”. Eu tinha uma kombi,
pegava o jornal, que era impresso no Jornal do Comércio, e saía
distribuindo pela Barra da Tijuca, junto com uns moleques e dali
comecei a andar... Andava às
vezes com a máquina fotográfica e fazia umas fotos;
algumas delas foram aproveitadas e com isso consegui tirar o registro de
repórter fotográfico. Depois fui cobrir férias no Fluminense. No
Fluminense fiquei uns dois meses. Sai e passei uns seis meses sem fazer
nada e fui pro Povo. Fiquei mais três meses e fui pra Visão.
Onde permaneci de 84 até 91, quando saí por causa da minha candidatura
à eleição da Arfoc. Fui demitido porque era candidato
para presidente da Arfoc em 91.
Daí pra cá, vim fazendo
“frila” (free lance), “frilei” pro Conselho Regional de Medicina,
fiz campanha do Milton Gonçalves ao governo do Estado, trabalhei para várias
empresas: a Publicom, que tinha a conta do McDonald, (tinha não, tem a
conta do McDonald); a Angular, em São Paulo, que tinha vários clientes
aqui no Rio de Janeiro (CitBank, Unibanco, Banco Itaú, enfim, tinha um
monte de empresas). Então, ao longo desse período, vim prestando serviço.
Quando saí da Visão, em 91, fui pra Folha de São Paulo, onde
fiquei quinze dias. Eles queriam me contratar, mas eu não gostei
do trabalho. Saí, preferi continuar como “frila”. Fiz alguns pra Veja
. É isso aí, quer dizer... fazendo “frila”.
EVERALDO: Você está
ligado ao Sindicato, ao movimento sindical ainda...
JACOB FILHO: Não é... isso
aí foi um acidente, quer dizer... na verdade, aprendi a fotografar com
meu pai, que também é repórter fotográfico.
EVERALDO: E seu pai?
Quem é o seu pai?
JACOB FILHO: O Alberto Jacob, né?! Desde
cedo, em casa, sempre se conviveu com máquina. Fotografia sempre foi um
negócio igual a arroz e feijão. A gente admirava o trabalho dele e ele
fotografava muito a gente. Tinha laboratório em casa, enfim, a gente
curtia muito isso. Aí tomei gosto pela coisa e fui indo. Em 89 ou 90, a
Soninha, que hoje é assessora de imprensa do Sindicato, trabalhava comigo
na Visão. Era diretora daqui, insistia pra gente vir ao
Sindicato, não sei o quê e coisa e tal... aí, nós viemos: eu e o Sassáqui,
que era “frila” da Visão
e trabalhava comigo lá.Viemos pra tal reunião. Aí tinha uns quatro
“gatos pingados” aqui. A reunião era pra eleger a comissão de repórter
fotográfico e cuidar da questão da emissão dos registros e atualização
da tabela. Como era um assunto que interessava à gente, a gente acabou
entrando nessa comissão. Ficamos acho que um ano ou qualquer coisa assim,
mais ou menos. O Sindicato era uma máquina muito ruim, podre, velha, e...
partidarizada, uma política que não era uma política sindical,
era política de partido político... a diretoria era composta por vários
partidos políticos, era uma briga constante e nada funcionava aqui. Com
isso, a gente começou a querer ir para a Arfoc, que era um
negócio mais “light” e tudo o mais. Só que a Arfoc não
queria participar das atividades dos repórteres fotográficos do
Sindicato porque achava que o Sindicato era uma coisa ruim, nociva, enfim,
uma coisa em que a Arfoc não
devia se envolver. Aí a gente resolveu fazer uma chapa, ir lá e disputar
a Arfoc e transformá-la numa instituição que nos
atendesse melhor que o Sindicato. Então, a gente resolveu fazer uma chapa
e tentar mesmo transformar a Associação numa instituição
representativa. Porque ela era na verdade uma Associação de fazer uma
festa uma vez por ano e dar credencial pro Maracanã e só, mais nada.
Não tinha nada. Então, juntou um grupo, que era o grupo da comissão
de repórter fotográfico: Sérgio Cardoso, Sassáqui, eu, o Ronald e se
fez um movimento pra poder mudar, e aí o Sassáqui não entrou, nem o
Ronald, mas fizeram campanha e arrumaram um monte de voto e a gente
conseguiu derrubar o Bafa, que era o presidente que estava na época, e aí
pegamos a Associação, que era uma associação recreativa, e a
transformamos em uma Associação Profissional. Mudamos o estatuto para
incluir a palavra profissional lá.
Daí pra cá, a gente fez o Jornal
Paparazzi, discutiu a questão do direito autoral, que modificou
completamente a tabela, valorizou mais a tabela. Mudamos o processo de distribuição da tabela, que antes era
feita pelo “boy” nas principais redações. Nós compramos um
computador e botamos um fax modem nele e tinha um programinha lá que a
gente cadastrava as empresas e os profissionais. De noite, a gente deixava
o computador ligado e ele ia discando e transmitindo a tabela via fax. Então,
a tabela, num período de inflação altíssima, inflação diária,
aquele negócio da ORTN, não sei, tinha uma atualização que era
praticamente diária. E não adiantava você fazer uma tabela que levava
um mês pra poder ser distribuída.
ANDRÉ TELLES: Não foi a
URV?
JACOB FILHO: Não, a URV
veio depois, URP veio na estabilização. É,
mas era
praticamente diária. Inflação de 80%, então, com esse equipamento, a
gente acabou com o problema e aí, quando a gente fez o Paparazzi e
a tabela começou a ser publicada no jornal, ela passou a ganhar respeito
maior. Eu lembro que na época a gente entrava nas redações pra
distribuir o jornal e, no início, as pessoas não queriam pegar porque
achavam que era o jornal do Sindicato. Depois elas viram que não era. Era
um jornal sobre fotografia, enfim, tudo mais. Aí o jornal começou a
ter... quer dizer, não tinha mais repulsa de segurar, na redação, um
jornal do Sindicato. Depois eles começaram a confundir que a Associação
era o Sindicato. A gente entrava na redação e eles diziam assim: “Pô!
Nós, os jornalistas, tínhamos que ter um sindicato igual ao dos fotógrafos”
(risadas). Aí eu falei: Gente, mas isso não é um sindicato e o meu
sindicato é igual ao de vocês, é o mesmo. Então o Paparazzi
valorizou a fotografia, valorizou o profissional e a gente pôde observar
depois que várias publicações passaram a ter páginas sobre fotografia.
A Folha até hoje tem. Surgiu aí nesse período. Os profissionais que
estavam nas faculdades de comunicação que recebiam o jornal, faziam
faculdade de comunicação, não queriam mais escrever e sim fotografar.
Então a gente mudou um pouco o perfil também, porque os novos
profissionais da fotografia já começaram a entrar com curso superior de
Comunicação Social. Foi uma revolução pra gente, foi uma revolução.
Isso durou mais ou menos assim até 95, quando tive que assumir aqui a
presidência do Sindicato dos Jornalistas, depois daquele escândalo do
Paulo César, enfim... A gente destituiu o PC e eu tive que acumular as
duas presidências: Arfoc
e Sindicato, de 95 até 98. Foi muito estressante, muito cansativo.
Assim mesmo a gente conseguiu fazer coisas boas, ainda. Mas aí chegou 98,
eu não agüentei mais, tive que abandonar a Arfoc em função
de estar aqui no Sindicato com a crise da Manchete. Acabei saindo da
presidência e o Alcyr assumiu e foi tocando. Agora sou de novo o
presidente da Arfoc.
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"
Então o Paparazzi
valorizou a fotografia, valorizou o profissional e a gente pôde observar
depois que várias publicações passaram a ter páginas sobre fotografia.
A Folha até hoje tem. Surgiu aí nesse período."
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Edição de
lançamento do PAPARAZZI |
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EVERALDO: A Arfoc,
na realidade, só passou a ser uma entidade representativa de classe a
partir do momento que vocês assumiram essa comissão? Antes, ela foi
fundada, a Arfoc, com que objetivo?
JACOB FILHO: Olha só. Ela
foi fundada exatamente com esse objetivo. Na ata de posse, os
profissionais relatam que o objetivo da fundação era porque não tinham
uma instituição que defendia seus direitos. Os repórteres fotográficos
sempre foram tratados como jornalistas de segunda. Então tinha a ABI,
tinha o Sindicato, mas eles não queriam... O repórter fotográfico tinha
pouca participação. Relatam inclusive que houve agressão a um
profissional e que ninguém tomou providência. Então, eles fundaram uma
associação pra isso. Nesse momento, tinha vindo ao Brasil um dos
fundadores da NPPA, que é a Associação dos Repórteres Fotográficos
Americana. Nosso estatuto era cópia fiel da NPPA, traduzido. Então, o
objetivo dela foi esse. Nós não fomos os grandes revolucionários. Já...
a Arfoc teve períodos de grande importância, os
presidentes tomavam posse, os presidentes da Arfoc tomavam
posse no Palácio do Catete com Juscelino, com Getúlio. Os móveis da Arfoc
foram doados pelo Getúlio. A sala, uma das salas foi doada pelo Getúlio.
Então a regulamentação da profissão e a jornada de cinco horas foi
conseguida pelos fotógrafos junto ao Getúlio Vargas, mas eles nunca se
preocuparam em fazer uma instituição muito grande, podiam ter um
excelente centro de fotojornalismo, onde pudessem dar aula, onde pudessem
ter toda a memória dos jornais que já passaram, a gente tem muito pouca
memória, tem alguma coisa, mas tem muito pouca memória. Então... teve
uma geração anterior que foi assim extremamente importante, nós viemos
dez anos depois pra dar continuidade a esse trabalho, que foi a geração
do Ripper, a geração do Adalberto, a geração do... nós demos
continuidade a um projeto que começou na década de 80. Adalberto,
Antonio Bataglia, Luiz Carlos David, Levi Moraes e mais uns outros
profissionais que...
O PAPARAZZI é o que era O REPÓRTER
FOTOGRÁFICO, um jornal que eles fizeram, mas que durou dois ou três números
só porque eles não conseguiram viabilizar economicamente. Eu tive
algumas sortes lá. O cara que rodava o jornal era amigo do meu pai e aí
ele rodava pra gente de graça. Dava o papel e tudo, enfim, a gente
conseguiu viabilizar. E outra coisa: eles desenvolveram o projeto de
merchandising nos coletes, mais o valor na época, o merchandising era uma
coisa assim muito sem... é que nem a internet hoje, ainda não tem uma
consciência que aquilo vende. Então, o merchandising que eles
conseguiram no colete era o suficiente pra manter a estrutura funcionando,
ou seja: pagar o “boy”, a secretária, pagar a luz e o telefone e só,
acabou, não tem mais dinheiro. Quando nós chegamos, pra você ter uma idéia,
o contrato de publicidade era de trezentos reais hoje. Passamos pra cinco
mil. Isso viabilizou informatizar, fazer obra, enfim, deu um salto muito
grande. Então, com esse merchandising que a gente fez com a Brahma, nós
ficamos dez anos com a Brahma, foi possível dar continuidade a todo o
processo de modernização da Associação e participar de congressos,
fazer encontro de repórteres fotográficos. Fizemos o maior encontro de
repórter fotográfico; foi em 94, aqui no Rio de Janeiro. Vieram 150 repórteres
fotográficos e cinematográficos do país inteiro, foi um negócio assim
fantástico.
Aquele encontro ainda deu lucro,
que a gente comprou um computador com o dinheiro que sobrou. Então,
isso... Na verdade nós pegamos a experiência que eles tinham e tentamos
viabilizar. O jornal, nós buscamos o nome PAPARAZZI porque a gente
acreditava que, pagando o filme a 100% que o americano paga, ganhando 50%
que o cara ganha, não tendo direitos autorais respeitados, o equipamento
a gente paga 100% também, mais caro que o americano paga, só sendo
PAPARAZZI pra sobreviver nesse País. (risadas). Quer dizer... Entendeu?
Você tem que ter assim muita audácia, muita perseverança, muita insistência,
ser um furão pra poder conseguir sobreviver. Então é isso... Então na
verdade a Associação, ela teve momentos de importância. Nós a pegamos
num declínio; ela quase faliu em algumas administrações. A turma do
Bafa e do Noeni reformaram lá, quer dizer, trocaram o piso e tudo o mais,
pagaram as contas atrasadas, mas ficou nisso, não deram salto. Quando a
gente entrou, a gente deu um salto e está lá até hoje.
EVERALDO: Você falou na
internet. Você acredita na internet como um mercado para o repórter
fotográfico?
JACOB FILHO: Eu acho que ela
não é um mercado pro repórter fotográfico, hoje ela é um meio. Um
meio de escoar a produção, um meio dele obter informações, mas
mercado, eu acho difícil porque, pelo menos ao que a gente tem assistido
aí, eles não utilizam muita qualidade nesse aspecto, é mais retrato. A
gente tem observado e tem, inclusive, criticado e brigado aqui no
Sindicato com os repórteres de texto por saírem com maquininha tipo xereta
eletrônica, pra fazer foto pro site. Não estão
preocupados com a qualidade, entendeu? Então, eu acho, se adquirir uma
competitividade maior, ou seja, se o negócio do site firmar mesmo, se se
tornar um veículo, hoje ele é um canal, não um veículo, se ele for um
veículo, aí, se tiver competitividade, ele tem que investir em
qualidade. Aí é mercado pra gente.
EVERALDO: Jacob, você tem
experiência em casa, sabe da dificuldade do fotógrafo, você cresceu com
o seu pai tendo essa dificuldade toda. Explica o seguinte: na sua opinião,
por que as pessoas insistem em trabalhar neste ramo do Jornalismo? Existe
alguma explicação pra isto?
JACOB FILHO: Bom... olha só.
É uma profissão bonita. Quer dizer... eu até... eu dei uma
entrevista... se eu pensasse, se eu tivesse vinte anos, talvez não
entrasse pra essa profissão não, tinha seguido uma outra profissão. Mas
é uma profissão bonita, você amadurece rápido, você tem acesso a
informações que você não teria. Ou seja, você vê o governador falar
em off que, porra, ele é um canalha mesmo, que ele roubou e não
sei o quê e coisa e tal, mas que a população de uma certa forma não
sabe disso.
Então você consegue ter uma visão
melhor do mundo e das pessoas, do que sendo um médico, um engenheiro,
enfim. Então, o jornalismo é uma profissão interessante.
Não essa porcaria de jornalismo
que se produz no Brasil. Mas o jornalismo é uma profissão interessante e
as pessoas ficam seduzidas pela magia
da profissão. Você já reparou no estereótipo do repórter
fotográfico? É igual a um guerrilheiro. Ele usa colete, entendeu? Ele
usa uma máquina... empunha a máquina como se fosse dar um tiro, a munição
dele é o filme. Ele conta as munições igual o guerrilheiro conta. Cada
tiro que ele dispara... o cara está com um pente de dez e ele está com
um pente de 36 ou um pente de 24 ou um pente de 12. Então, ele se acha um
guerrilheiro. Qualquer confusão que tenha, ele é o primeiro a estar lá
na frente, como se estivesse dando tiro em alguém, enfim. Então essa
magia da coisa, né? De uma forma dele expressar a arte de ser, de ser
guerrilheiro, que se torna a magia. Se torna... as pessoas ficam
encantadas com isto e entram na profissão.
EVERALDO: É, mas essa magia
também, ela vem de todo um... vamos
dizer assim... existe todo um suporte da fotografia que era o filme, esse
romantismo. Agora existem novas tecnologias, esses equipamentos modernos,
aí, que você não precisa mais de filme, o suporte é outro, agora não
é mais negativo, agora é pixel...
JACOB FILHO: Não, não é
ponto. Não é grão... Agora é ponto, é pixel, sei lá...
EVERALDO: Você acha que com
isso, com essa facilidade, você programa a máquina e ela faz tudo
sozinha...
JACOB FILHO: Não, não faz.
EVERALDO: Não vai tirar a
criatividade do fotógrafo, não?
JACOB FILHO: Não faz. Quem
enxerga a luz é você. Esse é o grande problema. A gente tem feito
provas aqui (Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio
de Janeiro), aí chega um “mané” aqui, tira zero. “Mas pra que eu
tenho que saber temperatura de cor?”. “Mas pra que eu tenho que saber
profundidade de foco?”. “A máquina faz, o Photoshop faz”. Faz...
quadrado. Mas não faz o artístico. E se você quiser passar uma emoção
na sua imagem, o retrato... o cara ali posado pra você, é só luz. O
animal não sabe. Ele não sabe que ele tem que medir... se ele der luz
mais alta, um lado vai sair preto, se ele der a luz mais baixa, o outro
vai sair branco, ele não sabe disso. Entendeu? Ele não sabe que, se ele
fotografar com luz fluorescente, vai sair verde. Ele não sabe que se ele
fotografar na sombra, vai sai azul. Ele não sabe nada. Então ele não
vai conseguir nunca, ele vai sempre fazer uma coisa... Pode até fazer uma
grande foto por... por cagada. Porque aí a máquina, por algum
motivo, deu a luz correta e fez. Você vê o seguinte: eu uso equipamento
eletrônico, com filme ainda. Não uso a máquina no automático, a máquina
funciona no normal. Apesar de ter 50 programas lá, só uso no manual,
diafragma e velocidade. A gente só usa... eu só uso em show, onde você
tem uma oscilação de luz. Dá uma pré-fixada na velocidade e deixa o
diafragma aberto, pra ele poder... o que der, deu, né? Você fica no show
de rock, aquela luz piscando, às vezes você perde a foto porque você
está preocupado, buscando luz. Então, aí tudo bem. Agora, você sabe o
que está fazendo. Agora, se você quer o cara na contraluz, você vai ter
que prefixar a coisa... então não muda. Acho que não muda, nem no filme
nem na parte eletrônica. A parte eletrônica tem ainda um romantismo, tem
ainda... um romantismo não. Você tem algumas críticas por causa da
questão da segurança. Se foi você mesmo que produziu ou se aquela
imagem foi alterada.
EVERALDO: A foto digital, né?
JACOB FILHO: É... é. A
foto eletrônica... aí é o seguinte. Porra! Deu um puta sombrão na foto
que eu fiz do Scarpino, eu vou lá e meto um fundo azul. Pronto, quem vai
dizer que não? Se o cara fizer um trabalhinho certinho, ninguém diz que
não. Entendeu? Então, é... eu acho que desvaloriza a nossa profissão,
a partir do momento que qualquer bundão pode fazer fotografia hoje.
Antes, não.Você vê o seguinte. São raros os lugares onde tem estagiário
como repórter fotográfico, raríssimo você encontrar um estagiário no
repórter fotográfico. Por quê? Se ele for à rua e queimar, queimou...
texto tem
uma tonelada. Texto tem uma tonelada. Por quê? O cara foi lá,
apurou, apurou mal, o cara liga pro outro coleguinha do
jornal, reapura a porra da matéria. O cara apurou bem, mas fez um texto
de merda, ele vai lá e reescreve aquela porra toda. Entendeu? Nós sempre
fomos mais... quer dizer... tivemos sempre assim uma certa segurança no
mercado por causa disso. Hoje, em função da eletrônica, a gente está
correndo um risco seriamente de, inclusive, a função ser extinta ou o
jornalista ser o famoso jornalista multimídia e ter que fazer tudo.
EVERALDO: Então, na
realidade, você não tem nada contra a foto digital. Você tem contra as
empresas que manipulam...
JACOB FILHO: Não, a imagem
digital, eu não tenho nada contra. Agora ... o que também não faz com
que o filme seja ... o filme pode ser a sua segurança. Como se fosse a cópia
carbono do repórter de antigamente. O cara batia a matéria com cópia, né?
Passava com cópia. Aí, o que acontecia. Você... o redator pegava a matéria,
tirava o nome do cara, botava
outro, dizia que o cara era bandido, não sei o que e saía lá
“Scarpino é um bandido, tem que ser preso.” Aí, o cara liga pra lá,
manda o advogado, que porra... ele não é bandido, que não é nada, que
não sei o quê. “Não, mas você disse que era bandido sim, que matou,
que aconteceu.” “Não, eu não disse isso não.” Não sei o quê. Aí,
vai verificar o repórter. “Olha, eu não escrevi isso não. O redator
que inventou essa porra.” Entendeu? Isso você poderia até fazer.
Poderia até ter isso pra poder se precaver. Mas nada impede que a empresa
pegue aquilo e manipule. Manipule daqui a 20 anos. A gente cansa de ver
isso. A Veja manipula eletronicamente, até mal, deixa a
perna do cara. Um outro jornal, lá do sul, tira o Jaime Lerner da foto,
entendeu? A gente chegou a aprovar um código de ética pelo seguinte:
tudo que você faz no laboratório, você pode fazer, entendeu? Tudo que
você pode fazer no laboratório, você pode fazer na imagem digital.
EVERALDO: Pode?
JACOB FILHO: Não. A gente
aprovou um código de ética que o princípio era esse. É ético fazer
tudo que você fazia no laboratório convencional você fazer no laboratório
digital. Então, é tipo o seguinte: uma foto saiu um pouco escura, aí
você usava papel que levava mais tempo pra absorver luz, a foto saiu
muito clara; papel mais sensível, enfim. Essas combinações, proteger
porque deu uma sombra, um pequeno retoque porque arranhou o negativo. Isso
tudo pode ser feito. Mas, arrancar a cabeça do cara e botar outra, não.
A gente até admite isso em entretenimento ou ilustração. Tipo assim:
Carnaval desse ano a Mangueira vai desfilar com Carlinhos de Jesus e Ana
Botafogo. Um é sambista e a outro é...
EVERALDO: Um é bailarino
popular e a outra é bailarina clássica.
JACOB FILHO: É... aí o
cara na redação: vamos botar o cara girando o pandeiro e a Ana Botafogo
fazendo um pás de deux
lá em cima. Beleza! Faz as duas fotos e monta. Mas tem que
botar do lado: “Fotomontagem sobre a foto de fulano de tal”. Porque é
mera ilustração. Agora, eu não posso é fazer o seguinte: “Brizola
incentiva a criminalidade no Rio de Janeiro”. E, na manchete, aí eu
ponho o Brizola com um fuzil na mão. Aí, não dá, né? Ou então ele de
pirata ou ele com duas pistolas, assaltando os outros na rua.
ANDRÉ TELLES:
A não ser que tenham feito a foto dele com as pistolas. Né?
JACOB FILHO: Não, o cara põe
na mão...
ANDRÉ TELLES: Não, não.
Eu tô dizendo... a não ser que o cara... algum fotógrafo tenha feito a
foto do cara com uma pistola e com a metralhadora na mão. Aí, porra. Aí
é legal.
JACOB FILHO: Não... mas, aí
entendeu... mas a montagem, nesse aspecto, ela é ruim. Aí é antiético.
É criminoso, não é nem antiético, é criminoso.
EVERALDO: Então a gente não
pode acreditar na informação, de repente, desses jornais ou...
JACOB FILHO: Não, não, não.
Tem lances... já saiu foto de futebol que a bola... a foto era... vamos
botar assim, 18x24, mas o corte que ia entrar lá no jornal era 18x20, aí
a bola ia ficar fora. Aí o
que o cara fez? Cortou a foto, pegou a bola e botou mais pra dentro do
quadro. Aí é foda, né? O outro lance era do cacete, mas aí tinha uma
perna de um jogador que... apaga a perna do jogador... (risadas). Aí é
foda, né? (risadas).
EVERALDO: Que nem aquele gol
que o Pelé perdeu, acho que contra a Tchecoslováquia. Não é? Eu já vi
filme que o Pelé faz aquele gol. Aquele que ele passa pela bola, passa
pelo goleiro e joga a bola pra fora. Eu já vi filme que a bola entrou
(risadas).
JACOB FILHO: Não, mais aí...
no cinema, você usa até a ficção, né? Aí é diferente... da Televisão
, né? Televisão você também usa a ficção. Aí é diferente...
Você vê a TV Globo fazer muito
isso. “Mataram Joãozinho Não Sei das Coisas com 50 tiros na cara”. Aí
ela faz a reconstituição. Aí coloca lá RECONSTITUIÇÃO. Aí é
diferente. Mas no jornal não dá pra fazer isso não.
EVERALDO: Eu citei esse negócio
porque a gente está falando só de fotografia, mas na Arfoc também
tem o repórter cinematográfico.
JACOB FILHO: Sim, mas é
diferente.
EVERALDO: E como é que fica
a credibilidade do...
JACOB FILHO: Não, você vê. Eles tiveram a mudança do cinema
pro vídeo e agora vão ter a mudança do vídeo pro CD. Entendeu? O
grande problema é que a alteração de uma imagem de televisão, como ela
é seqüenciada, ela é mais cara.
A menos que se tenha computadores
velozes o suficiente pra fazer em dois minutos. A fotografia você faz em
dois minutos porque é um quadro só.
EVERALDO: Nós temos notícias,
às vezes... eu estou falando isso pela vivência sua, de jornalista que
é espancado, jornalista que é...
JACOB FILHO: Essa vivência
é do meu pai, não é minha não...
EVERALDO: NÃO! Não... mas
você...
JACOB FILHO: Quem apanhou
muito foi ele.
EVERALDO: Não. Foi seu pai
quem apanhou, mas você chorou muito...
JACOB FILHO: Ah! Sim. Eu
chorei muito, sofri muito.
EVERALDO: Mas você chorou
muito porque seu pai foi preso, apanhou, aquele negócio todo. Você
passou por essa situação?
JACOB FILHO: Não.
EVERALDO: Agora, existe
algum conselho pro repórter fotográfico evitar uma coisa dessas?
JACOB FILHO: Eu acho que o
conselho é o seguinte: é não discutir. Entendeu? Tipo assim... você
está... aí o PM chega: “Não pode ficar aqui.” “Sim, senhor.” Aí,
dali a pouco, você está ali de novo. Aí, plá
plá plá... “Eu já não falei que...” “Ih,
desculpe, eu esqueci”. Dali a pouco você esta lá de novo. É isso.
ANDRÉ TELLES: Vocês
desculpem eu estar entrando no assunto. Mas houve uma história assim que
eu acho... em primeiro lugar tem que ter bom senso. Tem uma história
dessa que... eu era o único fotógrafo numa situação de manifestação
sindical. Os sindicalistas me adorando, os PMs me odiando. Eu simplesmente
coloquei a situação. Quando os caras começaram “não fotografa, não
fotografa, não fotografa”, eu: “Gente, calma. Deixa eu fora disso.
Deixa eu aqui quieto”. Aí os PMs chegaram a discutir comigo. Aí eu fiz
assim... um gestual qualquer. Depois eu fui lá perto dos PMs. Cheguei
assim: “Pôxa! O senhor está brigando comigo. Eu estou aqui. Eu estou
aqui. Os senhores estão aqui obrigados, eu também estou. A revista
internacional mandou eu vir pra cá fazer a matéria, fazer essa porcaria
aqui”. Eu estava fotografando pros sindicalistas. Então criei uma
“cascata” ali que eu fiquei fotografando o dia inteiro eles dando
porrada nos sindicalistas, sem problema, entendeu? Eu criei... em todas as
situações minhas, dessas de conflito... A não ser quando você é
agredido imediatamente. Aí, não sei. Mas se você não for agredido,
calma. É o que ele está falando. Calma, bicho!
JACOB FILHO: Disse “não
pode. Aqui não pode.” Sim, senhor.
Daqui a pouco você está lá de novo.
ANDRÉ TELLES: Arruma outro
lugar.
JACOB FILHO: É... mas tem
que ser malandro. Entendeu? Quer dizer... no caso do meu pai, não tinha
como ser malandro porque, porra, era a repressão, né? Aí era foda, né.
Mas PM é assim, né? Tudo bem e tal.
O grande problema é que é o
seguinte. A polícia, ela vem dessa escola da ditadura, da repressão.
Então, ela não está preparada pra lidar com movimento civil
organizado. Ou seja, ela não está preparada pra lidar com o cidadão, né?
Quer dizer que ela está ali no seu direito de fazer sua manifestação,
de esculhambar o Fernando Henrique, mas não quebra nada. Ela só está
ali protestando. Eles não têm ainda essa coisa. Pelo resquício da
ditadura. Os coronéis, os generais ainda são oriundos lá da ditadura.
Então, é... “bate,
prende, esfola”, entendeu? Prende e arrebenta, né? Quer dizer, aí,
prende e arrebenta e acabou. Então, aí, o que acontece. O maior
instrumento da democracia, ou seja, a única instituição que pode
garantir o direito dos cidadãos não é nem o Executivo nem o
Legislativo. Quem garante é o Judiciário. Se você tem o Judiciário rápido,
eficiente e justo, rapidinho você consolida o processo democrático.
Porque o dia que eu te der uma porrada e você for lá... e em seis meses
eu tenho que vender a minha casa pra te pagar indenização. Eu vou pensar
duas vezes antes de te dar uma porrada. Então é isso, é que... esse período
democrático fez com que a gente buscasse. Isso... e meu pai entrou na
porrada, quase perdeu um pulmão, quebrou a cabeça e não ganhou porra
nenhuma. Tem uma lesão no pulmão que, de vez em quando, enguiça. Até
hoje. Qualquer porrada que PM lhe der, registra a queixa na delegacia e
abre uma ação indenizatória.
EVERALDO: Tivemos várias
agressões. O Alaor Filho, quando botaram o Exército na rua, foi
agredido. Como é que ficou aquilo? Ficou
por isso mesmo?
JACOB FILHO: Aí é o
direito de cada um, né? Ele não quis... não
moveu ação judicial. Na verdade, ele estava sendo
processado por desrespeito à ordem e desacato à autoridade.
EVERALDO: E o Jornal do
Brasil, como entidade, não se meteu também?
JACOB FILHO: É... eles não...
eles não se interessam por isso. Entendeu?
SCARPINO: Não bancam mais o
repórter. Antigamente eles bancavam.
JACOB FILHO: Eles não se
interessam. As empresas jornalísticas, eles não se interessam por isso.
EVERALDO: O Scarpino estava
falando aí de negócio de violência...
JACOB FILHO: Não, era de
direito autoral.
EVERALDO: Ah! Era direito
autoral.
JACOB FILHO: É.
EVERALDO: Eu vou fazer uma
pergunta porque depois eu quero entrar, falar sobre a foto de Sebastião
Salgado, que é considerado um dos maiores jornalistas brasileiros. Pra
você dar sua opinião. Qual a diferença básica, pra você, quando se
está fotografando na rua, assim, na pancadaria, no trabalho diário do
repórter fotográfico, essa pauleira, para um projeto documental? É
fotojornalismo também o projeto documental?
JACOB FILHO: Não. É, é... não significa que você, quando
vai fazer um projeto mais elaborado, você não consiga trazer imagens
fortes e expressivas, como aquela do hot news (notícia quente) do
dia-a-dia. Muitas vezes você vai fazer o hot news também e traz
retrato comum, porque não aconteceu nada de importante. Quem passou por
revista sabe a importância que tem o material... você lida muito com a
questão da periodicidade do material. Então eu lembro assim: entrevista
do Fernando Henrique... entrevista coletiva do Fernando Henrique. No dia
seguinte, todo mundo vai dar a mesma foto do Fernando Henrique falando ao
microfone. Mas, aí o que acontece? Acontece que eu vou fazer uma foto do
Fernando Henrique dando uma entrevista que... isso é uma segunda-feira, a
minha revista só sai no sábado e a outra revista só vai sair no outro sábado.
Então, são quinze dias que aquela foto vai ficar ali. No jornal não. No
dia seguinte ele já embrulhou um peixe, já era. Já tem outra imagem
circulando. Então, muitas das vezes a foto era A FOTO do Fernando
Henrique sendo fotografado ou sendo entrevistado. Ou uma foto dele pegando
o elevador, alguma coisa que rendesse algo diferente. Então, o trabalho
documental, quando você... como o Salgado faz. Sem entrar no mérito da
qualidade do trabalho, que ele faz e outros fotógrafos também fazem, é
perfeitamente cabível e quando bem feito tem excelente qualidade. Como
fotojornalismo mesmo. Entendeu? Não significa que você tem que produzir
as fotos; produzir foto é outra coisa. Mas, porra! Meu trabalho é sobre
os índios da Amazônia, eu vou levar dois anos documentando isso. Então
não preciso chegar lá e pedir à índia pra se maquiar, pra ela ficar na
pontinha do barco, entendeu? Posso ir pra lá e passar dois anos
documentando o dia-a-dia dos índios. Vão sair daí excelentes fotos,
entendeu? Então eu acho que não cabe crítica com relação a
desvalorizar o trabalho documental como se ele não fosse jornalístico.
Ele é também. É o que a Geography Universal faz. Sei lá. Você vai
ficar lá, socado atrás de uma moita, esperando o leão transar com a
leoa, o leão caçar, entendeu? Então, isso aí é um trabalho
documental. Só que, porra, é um desgaste fodido pra você fazer e vêm
imagens impressionantes, muito boas.
EVERALDO: É porque... olha
só... na minha opinião. Isso na minha opinião. O Sebastião Salgado,
ele consegue reunir toda a história da humanidade, eu vou dizer porquê.
Olha só. Ele abre um leque para várias discussões. Através da obra
dele, nós podemos trabalhar uma infinidade de ações, como: história,
psicologia, violência, educação, economia, sociologia, filosofia, arte,
religião e até fotografia. O que a gente bem entender. Você acha que
com essa abertura, provocando admiração e indignação, Sebastião
Salgado abre um leque pro jornalista que quer mudanças sociais e diz um não
pros profissionais que só possuem domínio técnico, estão só
preocupados em gravar fatos... só em registrar?
JACOB FILHO: Não, olha só. Eu não
vejo no trabalho dele, assim, nenhuma grande contribuição pra
humanidade, nenhuma. O trabalho dele é bonito, ele é plástico e noventa
por cento do resultado é laboratório. O material é tão manipulado como
se fosse uma imagem digital em laboratório. Então, não acho, assim, que
seja nenhum gênio, é que ele faz um negócio diferente, tem tempo, tem
lugar certo e outra coisa, velho, criança e miséria sempre deram boa
foto, desde que a fotografia foi inventada. Então, você sabe que tem miséria
em Uganda. Então, se você for pra lá, também vai trazer fotos boas.
Entendeu? Com certeza você vai trazer. Você pega o material do Evandro
Teixeira e passa pelo laboratório do Salgado pra você ver como vai ser
outra coisa. Agora, você pega o do Salgado e manda fazer num só p/b, num
laboratório “furreca” aqui pra ver a merda que vai ficar. Entendeu?
Você percebe na imagem aquela coisa do cinza, do preto, do branco, da
granulação, aquilo é manipulado... ele transforma uma imagem simples
num trabalho de arte, manipulado em laboratório. Não vejo... também não
quero dizer assim que o Salgado é um merda. Não é. Entendeu? Ele é um
cara inteligente, que tem méritos, acho que ele é um cara extremamente
inteligente, extremamente oportunista, não no sentido pejorativo, mas no
sentido da oportunidade, porque você pode ter a oportunidade e não ser
oportunista, ou seja, deixar a oportunidade passar e não fazer nada. Então,
acho ele até tecnicamente pobre, quer dizer, se você não vê uma foto
dele revelada de acordo com o que a Kodak manda fazer num D76, com tantos
minutos de exposição. Você não vê uma foto dele assim tecnicamente
perfeita.
EVERALDO: Foto no Dectol,
revelada...
JACOB FILHO: É, é. Entendeu? Você não
tem nenhum trabalho dele assim. Então, o trabalho, ele ganha importância,
eu acho que ele tem uma grande contribuição, ele deu uma grande
contribuição. Primeiro que ele, de uma certa forma, abriu um espaço a
mais na fotografia mundial e outra que abriu um espaço pra gente também.
Quer dizer, posso não concordar com o que ele faz ou não achar lá tão
importante assim. Mas de qualquer forma, ele pelo menos fomenta. A gente
tem uma geração aqui, que é uma casta, que vive pegando dinheiro do
governo, que nem casta da Embratur... Embratur não, da Embrafilme. Era
uma casta que pegava dinheiro, fazia uns troços de merda e, porra, e era
considerado o máximo. Pelo menos o Salgado veio pra confirmar que esses
caras são uns merdas realmente. Esses caras que vivem pegando dinheiro da
Funarte, passam quatro meses na França... entendeu? Aí fazem um
trabalho de merda que qualquer amador, qualquer “foca” faz, vai lá e
igualzinho a eles, entendeu? Não tem qualidade nem técnica nem qualidade
de imagem mesmo. Nem assim... porra, esse é um retrato bonito, é um cartão
postal da França. Nem isso tem. Entendeu?
EVERALDO:
O Cartier-Bresson afirmava que o fotógrafo
tinha que observar de longe o densenrolar do acontecimento e assim que a
cena chegasse ao auge fotografá-la. Só assim você consegue “aquela
foto”, só assim você chega naquele “momento” que vem a ser o
“momento decisivo”. O Sebastião Salgado já acha diferente, ele acha
que você não tem que ficar fora de nada. Você tem que vir por dentro da
cena porque todo momento é decisivo. Será que não está nessa diferença
de fotografar...
JACOB FILHO: Não sei. Esses caras
criam muita teoria em cima do nada. Na verdade, eu acho o seguinte:
Bresson foi o cara que começou a fotografar a realidade. Como Jean Mason
fez aqui. Aqui todo mundo fazia o cara posado. Jean Mason começou a fazer
os caras como eles eram. Aí é que está a diferença, o cara
gesticulando. Criou o fotojornalismo no Brasil. Então o Bresson teve a época
dele. Bresson hoje e nada é a mesma coisa. Bresson hoje, se fosse pra rua
fazer a foto, foto de merda. Mas ele teve o período dele, onde todo mundo
fazia foto quadrada e começou a fazer as pessoas como eram. Então, fica
cada um fazendo a teoria diferente. Agora, o repórter fotográfico, ele não
pode ser um sujeito distante, à parte. Entendeu? De não interferir... Não
é que ele não possa interferir, que ele não deva interferir. Na
verdade, ele não tem que interferir. Mas ele tem que viver aquilo ali.
Ele não pode fotografar o Ministro da Aeronáutica sem saber quem é o
ministro, se ele está envolvido em alguma falcatrua. Entendeu? Ou se ele
está ali, porque ele está ali, quem é aquele sujeito. Por quê? Se não
ele não vai conseguir retratar aquele sujeito. Uma suposição. O cara é
o sujeito que está envolvido em uma denúncia de que matou não sei quem.
Se o cara levar o dedo na cabeça, você... já dá uma foto, de repente,
interessante. Entendeu? Ou alguma expressão de ódio. Entendeu? Só o
retrato do olho do cara. Entendeu? Enfim, qualquer coisa. Então, ele não
pode... por isso que a gente sempre disse: o cara tem que ir a cinema, ler
jornal, sabe? Ir à exposição, o cara tem que ver televisão, o cara tem
que estar informado. Ouvir rádio, ele tem que estar informado. Ele não
pode ir pra uma entrevista sem saber o que vai fazer e sem conhecer o
assunto. Quer dizer, então, ele não consegue retratar direito. Por que o
Salgado faz trabalho documental e ele não faz um trabalho assim: “Ah!
Hoje eu vou pra Nigéria, vou ver o que tem lá.”? Como quem não quer
nada? Não. Ele pesquisa, ele levanta, ele vai na boa, ele não vai na
roubada. Ele não vai atravessar um deserto pra ver o que ele acha no meio
do caminho do deserto. Ele só vai aonde ele sabe que tem coisa boa pra
fotografar. É isso. Então, o Bresson teve a época dele e foi
importante. Eu acho que ele iniciou, ele criou uma linguagem nova.
Tirou a gente daquela porcaria de fotografia, vamos botar assim, entre
aspas, “artística”, que era o cara chapado atrás, colado na parede e
porra.
EVERALDO: E foi fazendo...
JACOB FILHO: Então, essas
teorias deles, na bem verdade...
EVERALDO: Não funcionam
muito não, né?
JACOB FILHO: Não, não é
questão de funcionar. É o seguinte. Eu sempre disse isso ao meu
professor: duvido que o Jorge Amado, quando escrevia um texto, ele dizia
assim: “vou botar uma metonímia aqui. Vou botar uma hipérbole aqui.
Isso aqui, hiperbolicamente...”. Ele ia lá e dizia que o cara tinha a
boca maior que o mundo e foda-se. Aí vem a porra do gramático: Ah! O
Jorge Amado usou aqui uma figura de linguagem que não sei o quê. Ele é
um cara que usa muito figura de linguagem. A porra do gramático é que
cria o conceito sobre a forma do escritor. O escritor, muita das vezes,
nem sabe que porra é essa figura de linguagem ou estava intencionado em
botar figura de linguagem nenhuma.
EVERALDO: Você, quando está na
rua fotografando, não dá pra você dizer “não eu vou fazer isso, vou
fazer aquilo”, não. Ou você faz ou não faz nada. Depois vê o que foi
que fez também, né? Muitas vezes é isso...
JACOB FILHO: Depende, depende da
situação.
EVERALDO: Só pancadaria.
Pancadaria você já entra na cena e vai fotografando e depois...
JACOB FILHO: Aí você senta o dedo
e reza pra Deus pra ver o que sai. Reza pra alguém morrer, pra você ter
a foto.
SCARPINO: Essa daí é a foto
nervosa.
EVERALDO: É a foto nervosa. Só
você que fez.
JACOB FILHO: É... bate nele. Bate
agora. Pô! Eu já cansei de incentivar invasão de troço. Fica nego lá:
“vamos invadir, vamos invadir”. Invade que eu garanto. Aí... Ah!
(risadas). A Imprensa tá aqui, garante e aí... Ah!
EVERALDO: Aí entra todo mundo na
porrada, inclusive você.
ANDRÉ TELLES:
Eles rezam pra gente ir lá. Eles rezam. Teve uma confusão... teve
um incêndio numa favela aí, famosa e tal. Aí começou a rolar um tititi
que os caras iam fechar a rua. Aí eu tô escutando. Aí o pessoal do O
DIA saiu, nós não tínhamos saído. Aí os moradores foram pra rua.
Quando nós estávamos saindo, que era distante do incêndio, nós fomos
saindo de carro, os moradores cercaram nosso carro e o motorista ficou
assustado e eu falei: “Cara, calma, calma. Eles querem que a gente fique
aqui. Calma, calma. Não sai, não arranca”. Aí fiquei gritando com o
cara, consegui acalmar o cara. Quando eu saí do carro... aí os caras
foram pra rua.
JACOB FILHO: Na favela, quando você
chega com a câmera, vem os molequinhos e perguntam: “moço, vai passar
em que canal? É da Globo?”
ANDRÉ TELLES: Eles não sabem
distinguir o que é câmera de vídeo da de câmera fotográfica.
Normalmente eles acham que tudo vai pra rede de televisão.
JACOB FILHO: “Vai passar em que
canal, moço?” “Não, isso é pra jornal”. “Que jornal?” “É o
jornal tal”. Mas é isso. Pra coisa do conceito... nego fica inventando
estratégia de marketing pra ganhar mais dinheiro. Entendeu? (risadas) Na
verdade é isso. “Não, porque minha fotografia vem do fundo da alma.”
Que nem a porra do cara, joga uma porrada de tinta vermelha na parede, aí
depois vem o crítico, vai dizer assim: “Não, mas é que o vermelho,
ele estava num momento de fúria, de raiva, é todo o ‘eu’ dele jogado
na parede”. Porra! Tá uma cagada (risadas). Porra! Tá uma merda
(risadas).
EVERALDO: Na fotografia, não dá
pra você fazer uma cagada dessas, não.
JACOB FILHO: Não, mas é o cara
que cria um conceito. Vai aí nesses picaretas que ficam pegando o
dinheiro da Funarte, aí. Mas que merda de foto é essa aqui? “Não,
isso aí é porque...”
EVERALDO: É foto conceitual. Foto
não sei o quê... foto abstrata.
JACOB FILHO: Eu resumo assim: foto
de merda. Entendeu? Então, esses caras
ficam criando conceito pra poder valorizar e ficar teorizando assim...
EVERALDO: As Faculdades de Comunicação
existem e têm uma disciplina que se chama Fotojornalismo. Você não
acha...
JACOB FILHO: Não é
fotojornalismo, é fotografia, né?
EVERALDO: Não. A disciplina está
lá, Fotojornalismo. Você precisa de universidade, ou de alguma coisa,
pra aprender fotojornalismo ou você aprende na prática com um
companheiro mais antigo e passando experiência pra você?
JACOB FILHO: Não, fotografia...
Fotojornalismo se aprende com... Primeiro: a fotografia mesmo você
aprende com alguém, raramente você consegue entrar num curso. Hoje o único
curso que tem eu acho que é do Senai e tem esses caças níqueis
por aí. Mas Senai é o único que tem. Tinha no Liceu...
EVERALDO: São Paulo, não é?
JACOB FILHO: Não, aqui no Rio.
Tinha no Liceu que era o Jorge Pedra que ensinava muito bem. Agora,
em São Paulo tem uma faculdade de fotografia, você faz o curso. A Estácio
lançou um Politécnico de Fotografia, mas não habilita a ser repórter
fotográfico, mas eles... parece que dão alguma coisa de fotojornalismo lá
também.
Nós conseguimos aprovar... desde
92, foi logo assim que a gente entrou na Arfoc, nós
participamos de um Congresso Nacional da Federação e conseguimos fazer
que ela constituísse um Projeto de Lei alterando a que regulamenta a
profissão, pra exigir curso universitário pros repórteres fotográficos.
Essa lei foi aprovada no ano 2000, mas foi pro Fernando Henrique assinar e
o Dornelles pediu veto. Vetou a Lei e aí fodeu tudo. Aí, continua a lei
antiga do jeito que tá.
EVERALDO: Continua a lei antiga que
você... o registro
parcial...
JACOB FILHO: Não precisa curso
universitário, não precisa ter formação, a bem verdade. Então, o que
a gente tá tentando... a gente tá tentando uma nova lei agora... quer
dizer, tem outro projeto pra tentar voltar essa coisa da regulamentação.
E aí nós estamos nos antecipando e discutindo agora o currículo, como
é que a gente quer o currículo para a formação desse profissional. Então,
estamos discutindo isso já. Que é para poder formar o profissional. Não
pode ser a mesma, o mesmo curso universitário que forma o repórter de
texto. Tem que ser um curso que tenha uma bagagem mais centrada em cima
disso. Eu acho até que o profissional deveria sair, mais completo, até
com a formação em texto também.
EVERALDO: Nosso bate-papo aqui foi
legal. Você tem mais alguma coisa pra acrescentar...
JACOB FILHO: Não... eu acho que
faltou foi a questão do direito autoral.
A questão do “Direito Autoral”
é importante. O Brasil tinha uma legislação, a de 73, que foi alterada,
se eu não me engano em 98 ou 99, inclusive eu participei da elaboração,
da discussão que eu falei. Fui a Brasília fazer lobby e tudo, o
Aluísio Nunes, que foi secretário da Presidência, era o relator da Lei.
Eu fui lá duas vezes conversar com ele pra poder tirar alguns artigos que
prejudicavam o jornalismo como um todo. Jornalismo, os escritores, enfim.
Aí a fotografia se deu bem. Antes
da lei anterior de 73, a fotografia era considerada protegida quando ela
era artística. Hoje não, é fotografia. Produzida por qualquer meio. Então,
se o seu filho fizer, fizer fora de foco, fizer tremida, se fizer de lado,
do jeito que sair a imagem, aquela obra está protegida. Então, o direito
autoral, hoje, ele é importante. Na Europa, Estados Unidos, os
profissionais mais velhos, já aposentados, vivem e ganham ainda salários
referentes a venda do seu material. Os caras que fotografaram a história
do cinema americano, as fotografias da II Guerra Mundial, todo mundo ganha
dinheiro ainda hoje com isso. A família, as famílias, os herdeiros
ganham dinheiro com isso. Só no Brasil é que a gente não ganha nada.
Quer dizer...
EVERALDO: E qual é a lei que
regulamenta o direito autoral?
JACOB FILHO: Ah! O número dela eu não
sei, não.
EVERALDO: Mas ela existe...
JACOB FILHO: Existe, a lei de 73.
Era pouco usada, pouco difundida, a gente montou uma estrutura boa na
Associação, a gente conseguiu ganhar ações até em pequenas causas, de
uso de imagem indevida, enfim. Então, hoje a gente veio a fundar uma
Associação arrecadadora de direito autoral dos jornalistas, que a sede
é em São Paulo, mas pode ter escritório no país inteiro. Então, a Arfoc
é a única instituição dos jornalistas que tem advogado de direito
autoral, contratado para prestar assessoria aos seus associados. Então, a
gente tem conseguido vitórias importantes na questão do direito autoral,
mas ainda as pessoas têm muito medo de fazer essa cobrança e as
empresas, no início, elas tratavam isso como o criador de frango. O cocô
do frango era um tormento. Tinha que jogar aquela porra fora, fedia, dava
doença, enfim. Até que descobriu que aquilo fermentado vira adubo orgânico.
Aí, muitas das vezes, o adubo orgânico é mais caro pra madame botar na
plantinha dela, na zona sul, é mais caro que um quilo de frango. Então,
o cocô virou mais importante do que a produção do frango, que é a
atividade principal, né? Então, a venda de noticiário, ela pode ser tão
importante quanto a publicação, entende? Você vê assim, você vê
assim... pra eles, da Reuters, vivem de venda de noticiário. Eles não têm
um jornal para publicar o noticiário que eles produzem, eles distribuem
aquele noticiário. Então, os jornais ainda não perceberam isso e aí não
perceberam, não investem, fazem as agências do jeito que fazem, na
trambicagem, sem pagar nada. Eles não perceberam que a partir do momento
que começarem a remunerar bem os profissionais, através da venda do
material, conseguem ter uma produção melhor e com mais qualidade, porque
aí o profissional vai correr mais atrás, porque ele sabe que ele vai
ganhar em cima da venda daquele material e não aquele salário
“merreca” que ele ganha no final do mês.
EVERALDO: Mas é uma experiência,
a gente às vezes... eu não sei nem se pagam direito ao profissional...
JACOB FILHO: Não... a Agência
Estado paga, Agência JB paga. A Agência Estado, eu acho que estava
pagando 20 ou 25%. A Folha paga alguma coisa. O Globo pegou o que pagava e
incorporou no salário, que é uma coisa ruim. Como era também ruim uma
proposta que a Federação tinha de cobrar um dia de faturamento de todas
as empresas jornalísticas do país inteiro e depois dividir por todos os
empregados. Eu acho ruim porque você... direito autoral é o direito da
sua criação, do seu esforço. Então, porra. Se eu subo no morro pra
fazer uma puta foto, por que o cara que não subiu vai ganhar igual a mim?
Então não faz sentido, ele tem que ganhar individual. Eu sempre briguei
com isso. Quem fez, quem correu atrás tem o direito de receber pelo que
fez.
EVERALDO: Valeu Jacob. Obrigado.
@@@@@@
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