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Everaldo Lima d’Alverga Entrevista

jDezembro 2002


Um nome na história do fotojornalismo

Alberto Jacob Filho 
Presidente da ARFOC- Associação Profissional dos Repórteres
 Fotográficos e Cinematográficos do Rio de Janeiro

Participação: André Telles e Luiz Clóvis Scarpino

Alberto Jacob Filho - Um nome na história do Fotojornalismo

 “Filho de peixe peixinho é...”. Alberto Jacob Filho traz no sangue o gosto pela fotografia, o princípio ético e o amor pela liberdade de expressão. Filho de um monstro sagrado da fotografia brasileira, Alberto Jacob, profissional que contribuiu para a construção da história do fotojornalismo brasileiro, Alberto Jacob Filho não podia fugir à regra.

 Assumiu pela primeira vez a presidência da ARFOC- Associação Profissional dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio de Janeiro - em 1992, revolucionando todo o comportamento de uma época, transformando a entidade numa instituição realmente representativa transferindo seu caráter, até então, recreativo, para  uma postura totalmente profissional.

 Alberto Jacob Filho, escreve seu nome na história do fotojornalismo brasileiro a partir do momento que trouxe respeito e impôs dignidade ao exercício da profissão.


EVERALDO DALVERGA: Como você começou?

JACOB FILHO: Bom, comecei a trabalhar em fotografia aos quatorze anos de idade, fazendo aquelas antigas “sete carinhas”. Passei a ganhar dinheiro já no ginásio. Com dezoito anos, comecei a fazer a distribuição de um jornal que tinha em Jacarepaguá e na Barra, que se chamava “Bom Dia”. Eu tinha uma kombi, pegava o jornal, que era impresso no Jornal do Comércio, e saía distribuindo pela Barra da Tijuca, junto com uns moleques e dali comecei a andar... Andava às vezes com a máquina fotográfica e fazia umas fotos; algumas delas foram aproveitadas e com isso consegui tirar o registro de repórter fotográfico. Depois fui cobrir férias no Fluminense. No Fluminense fiquei uns dois meses. Sai e passei uns seis meses sem fazer nada e fui pro Povo. Fiquei mais três meses e fui pra Visão. Onde permaneci de 84 até 91, quando saí por causa da minha candidatura à eleição da Arfoc. Fui demitido porque era candidato para presidente da Arfoc em 91.

Daí pra cá, vim fazendo “frila” (free lance), “frilei” pro Conselho Regional de Medicina, fiz campanha do Milton Gonçalves ao governo do Estado, trabalhei para várias empresas: a Publicom, que tinha a conta do McDonald, (tinha não, tem a conta do McDonald); a Angular, em São Paulo, que tinha vários clientes aqui no Rio de Janeiro (CitBank, Unibanco, Banco Itaú, enfim, tinha um monte de empresas). Então, ao longo desse período, vim prestando serviço. Quando saí da Visão, em 91, fui pra Folha de São Paulo, onde fiquei quinze dias. Eles queriam me contratar, mas eu não gostei do trabalho. Saí, preferi continuar como “frila”. Fiz alguns pra Veja . É isso aí, quer dizer... fazendo “frila”.

EVERALDO: Você está ligado ao Sindicato, ao movimento sindical ainda...

JACOB FILHO: Não é... isso aí foi um acidente, quer dizer... na verdade, aprendi a fotografar com meu pai, que também é repórter fotográfico.

EVERALDO: E seu pai? Quem é o seu pai?

JACOB FILHO: O Alberto Jacob, né?! Desde cedo, em casa, sempre se conviveu com máquina. Fotografia sempre foi um negócio igual a arroz e feijão. A gente admirava o trabalho dele e ele fotografava muito a gente. Tinha laboratório em casa, enfim, a gente curtia muito isso. Aí tomei gosto pela coisa e fui indo. Em 89 ou 90, a Soninha, que hoje é assessora de imprensa do Sindicato, trabalhava comigo na Visão. Era diretora daqui, insistia pra gente vir ao Sindicato, não sei o quê e coisa e tal... aí, nós viemos: eu e o Sassáqui, que era  “frila” da Visão e trabalhava comigo lá.Viemos pra tal reunião. Aí tinha uns quatro “gatos pingados” aqui. A reunião era pra eleger a comissão de repórter fotográfico e cuidar da questão da emissão dos registros e atualização da tabela. Como era um assunto que interessava à gente, a gente acabou entrando nessa comissão. Ficamos acho que um ano ou qualquer coisa assim, mais ou menos. O Sindicato era uma máquina muito ruim, podre, velha, e...  partidarizada, uma política que não era uma política sindical, era política de partido político... a diretoria era composta por vários partidos políticos, era uma briga constante e nada funcionava aqui. Com isso, a gente começou a querer ir para a Arfoc, que era um negócio mais “light” e tudo o mais. Só que a Arfoc não queria participar das atividades dos repórteres fotográficos do Sindicato porque achava que o Sindicato era uma coisa ruim, nociva, enfim, uma coisa em que a Arfoc não devia se envolver. Aí a gente resolveu fazer uma chapa, ir lá e disputar a Arfoc e transformá-la numa instituição que nos atendesse melhor que o Sindicato. Então, a gente resolveu fazer uma chapa e tentar mesmo transformar a Associação numa instituição representativa. Porque ela era na verdade uma Associação de fazer uma festa uma vez por ano e dar credencial pro Maracanã e só, mais nada.  Não tinha nada. Então, juntou um grupo, que era o grupo da comissão de repórter fotográfico: Sérgio Cardoso, Sassáqui, eu, o Ronald e se fez um movimento pra poder mudar, e aí o Sassáqui não entrou, nem o Ronald, mas fizeram campanha e arrumaram um monte de voto e a gente conseguiu derrubar o Bafa, que era o presidente que estava na época, e aí pegamos a Associação, que era uma associação recreativa, e a transformamos em uma Associação Profissional. Mudamos o estatuto para incluir a palavra profissional lá.

Daí pra cá, a gente fez o Jornal Paparazzi, discutiu a questão do direito autoral, que modificou completamente a tabela, valorizou mais a tabela.  Mudamos o processo de distribuição da tabela, que antes era feita pelo “boy” nas principais redações. Nós compramos um computador e botamos um fax modem nele e tinha um programinha lá que a gente cadastrava as empresas e os profissionais. De noite, a gente deixava o computador ligado e ele ia discando e transmitindo a tabela via fax. Então, a tabela, num período de inflação altíssima, inflação diária, aquele negócio da ORTN, não sei, tinha uma atualização que era praticamente diária. E não adiantava você fazer uma tabela que levava um mês pra poder ser distribuída.  

ANDRÉ TELLES: Não foi a URV?

JACOB FILHO: Não, a URV veio depois, URP veio na estabilização. É, mas era praticamente diária. Inflação de 80%, então, com esse equipamento, a gente acabou com o problema e aí, quando a gente fez o Paparazzi e a tabela começou a ser publicada no jornal, ela passou a ganhar respeito maior. Eu lembro que na época a gente entrava nas redações pra distribuir o jornal e, no início, as pessoas não queriam pegar porque achavam que era o jornal do Sindicato. Depois elas viram que não era. Era um jornal sobre fotografia, enfim, tudo mais. Aí o jornal começou a ter... quer dizer, não tinha mais repulsa de segurar, na redação, um jornal do Sindicato. Depois eles começaram a confundir que a Associação era o Sindicato. A gente entrava na redação e eles diziam assim: “Pô! Nós, os jornalistas, tínhamos que ter um sindicato igual ao dos fotógrafos” (risadas). Aí eu falei: Gente, mas isso não é um sindicato e o meu sindicato é igual ao de vocês, é o mesmo. Então o Paparazzi valorizou a fotografia, valorizou o profissional e a gente pôde observar depois que várias publicações passaram a ter páginas sobre fotografia. A Folha até hoje tem. Surgiu aí nesse período. Os profissionais que estavam nas faculdades de comunicação que recebiam o jornal, faziam faculdade de comunicação, não queriam mais escrever e sim fotografar. Então a gente mudou um pouco o perfil também, porque os novos profissionais da fotografia já começaram a entrar com curso superior de Comunicação Social. Foi uma revolução pra gente, foi uma revolução. Isso durou mais ou menos assim até 95, quando tive que assumir aqui a presidência do Sindicato dos Jornalistas, depois daquele escândalo do Paulo César, enfim... A gente destituiu o PC e eu tive que acumular as duas presidências: Arfoc  e Sindicato, de 95 até 98. Foi muito estressante, muito cansativo. Assim mesmo a gente conseguiu fazer coisas boas, ainda. Mas aí chegou 98, eu não agüentei mais, tive que abandonar a Arfoc em função de estar aqui no Sindicato com a crise da Manchete. Acabei saindo da presidência e o Alcyr assumiu e foi tocando. Agora sou de novo o presidente da Arfoc.  


" Então o Paparazzi valorizou a fotografia, valorizou o profissional e a gente pôde observar depois que várias publicações passaram a ter páginas sobre fotografia.
 A Folha até hoje tem. Surgiu aí nesse período."

Edição de lançamento do PAPARAZZI


EVERALDO: A Arfoc, na realidade, só passou a ser uma entidade representativa de classe a partir do momento que vocês assumiram essa comissão? Antes, ela foi fundada, a Arfoc, com que objetivo?

JACOB FILHO: Olha só. Ela foi fundada exatamente com esse objetivo. Na ata de posse, os profissionais relatam que o objetivo da fundação era porque não tinham uma instituição que defendia seus direitos. Os repórteres fotográficos sempre foram tratados como jornalistas de segunda. Então tinha a ABI, tinha o Sindicato, mas eles não queriam... O repórter fotográfico tinha pouca participação. Relatam inclusive que houve agressão a um profissional e que ninguém tomou providência. Então, eles fundaram uma associação pra isso. Nesse momento, tinha vindo ao Brasil um dos fundadores da NPPA, que é a Associação dos Repórteres Fotográficos Americana. Nosso estatuto era cópia fiel da NPPA, traduzido. Então, o objetivo dela foi esse. Nós não fomos os grandes revolucionários. Já... a Arfoc teve períodos de grande importância, os presidentes tomavam posse, os presidentes da Arfoc tomavam posse no Palácio do Catete com Juscelino, com Getúlio. Os móveis da Arfoc foram doados pelo Getúlio. A sala, uma das salas foi doada pelo Getúlio. Então a regulamentação da profissão e a jornada de cinco horas foi conseguida pelos fotógrafos junto ao Getúlio Vargas, mas eles nunca se preocuparam em fazer uma instituição muito grande, podiam ter um excelente centro de fotojornalismo, onde pudessem dar aula, onde pudessem ter toda a memória dos jornais que já passaram, a gente tem muito pouca memória, tem alguma coisa, mas tem muito pouca memória. Então... teve uma geração anterior que foi assim extremamente importante, nós viemos dez anos depois pra dar continuidade a esse trabalho, que foi a geração do Ripper, a geração do Adalberto, a geração do... nós demos continuidade a um projeto que começou na década de 80. Adalberto, Antonio Bataglia, Luiz Carlos David, Levi Moraes e mais uns outros profissionais que...

O PAPARAZZI é o que era O REPÓRTER FOTOGRÁFICO, um jornal que eles fizeram, mas que durou dois ou três números só porque eles não conseguiram viabilizar economicamente. Eu tive algumas sortes lá. O cara que rodava o jornal era amigo do meu pai e aí ele rodava pra gente de graça. Dava o papel e tudo, enfim, a gente conseguiu viabilizar. E outra coisa: eles desenvolveram o projeto de merchandising nos coletes, mais o valor na época, o merchandising era uma coisa assim muito sem... é que nem a internet hoje, ainda não tem uma consciência que aquilo vende. Então, o merchandising que eles conseguiram no colete era o suficiente pra manter a estrutura funcionando, ou seja: pagar o “boy”, a secretária, pagar a luz e o telefone e só, acabou, não tem mais dinheiro. Quando nós chegamos, pra você ter uma idéia, o contrato de publicidade era de trezentos reais hoje. Passamos pra cinco mil. Isso viabilizou informatizar, fazer obra, enfim, deu um salto muito grande. Então, com esse merchandising que a gente fez com a Brahma, nós ficamos dez anos com a Brahma, foi possível dar continuidade a todo o processo de modernização da Associação e participar de congressos, fazer encontro de repórteres fotográficos. Fizemos o maior encontro de repórter fotográfico; foi em 94, aqui no Rio de Janeiro. Vieram 150 repórteres fotográficos e cinematográficos do país inteiro, foi um negócio assim fantástico.

Aquele encontro ainda deu lucro, que a gente comprou um computador com o dinheiro que sobrou. Então, isso... Na verdade nós pegamos a experiência que eles tinham e tentamos viabilizar. O jornal, nós buscamos o nome PAPARAZZI porque a gente acreditava que, pagando o filme a 100% que o americano paga, ganhando 50% que o cara ganha, não tendo direitos autorais respeitados, o equipamento a gente paga 100% também, mais caro que o americano paga, só sendo PAPARAZZI pra sobreviver nesse País. (risadas). Quer dizer... Entendeu? Você tem que ter assim muita audácia, muita perseverança, muita insistência, ser um furão pra poder conseguir sobreviver. Então é isso... Então na verdade a Associação, ela teve momentos de importância. Nós a pegamos num declínio; ela quase faliu em algumas administrações. A turma do Bafa e do Noeni reformaram lá, quer dizer, trocaram o piso e tudo o mais, pagaram as contas atrasadas, mas ficou nisso, não deram salto. Quando a gente entrou, a gente deu um salto e está lá até hoje.

EVERALDO: Você falou na internet. Você acredita na internet como um mercado para o repórter fotográfico?

JACOB FILHO: Eu acho que ela não é um mercado pro repórter fotográfico, hoje ela é um meio. Um meio de escoar a produção, um meio dele obter informações, mas mercado, eu acho difícil porque, pelo menos ao que a gente tem assistido aí, eles não utilizam muita qualidade nesse aspecto, é mais retrato. A gente tem observado e tem, inclusive, criticado e brigado aqui no Sindicato com os repórteres de texto por saírem com maquininha tipo xereta eletrônica, pra fazer foto pro site. Não estão preocupados com a qualidade, entendeu? Então, eu acho, se adquirir uma competitividade maior, ou seja, se o negócio do site firmar mesmo, se se tornar um veículo, hoje ele é um canal, não um veículo, se ele for um veículo, aí, se tiver competitividade, ele tem que investir em qualidade. Aí é mercado pra gente.

EVERALDO: Jacob, você tem experiência em casa, sabe da dificuldade do fotógrafo, você cresceu com o seu pai tendo essa dificuldade toda. Explica o seguinte: na sua opinião, por que as pessoas insistem em trabalhar neste ramo do Jornalismo? Existe alguma explicação pra isto?

JACOB FILHO: Bom... olha só. É uma profissão bonita. Quer dizer... eu até... eu dei uma entrevista... se eu pensasse, se eu tivesse vinte anos, talvez não entrasse pra essa profissão não, tinha seguido uma outra profissão. Mas é uma profissão bonita, você amadurece rápido, você tem acesso a informações que você não teria. Ou seja, você vê o governador falar em off que, porra, ele é um canalha mesmo, que ele roubou e não sei o quê e coisa e tal, mas que a população de uma certa forma não sabe disso.

Então você consegue ter uma visão melhor do mundo e das pessoas, do que sendo um médico, um engenheiro, enfim. Então, o jornalismo é uma profissão interessante.

Não essa porcaria de jornalismo que se produz no Brasil. Mas o jornalismo é uma profissão interessante e as pessoas ficam seduzidas pela magia da profissão. Você já reparou no estereótipo do repórter fotográfico? É igual a um guerrilheiro. Ele usa colete, entendeu? Ele usa uma máquina... empunha a máquina como se fosse dar um tiro, a munição dele é o filme. Ele conta as munições igual o guerrilheiro conta. Cada tiro que ele dispara... o cara está com um pente de dez e ele está com um pente de 36 ou um pente de 24 ou um pente de 12. Então, ele se acha um guerrilheiro. Qualquer confusão que tenha, ele é o primeiro a estar lá na frente, como se estivesse dando tiro em alguém, enfim. Então essa magia da coisa, né? De uma forma dele expressar a arte de ser, de ser guerrilheiro, que se torna a magia. Se torna... as pessoas ficam encantadas com isto e entram na profissão.

EVERALDO: É, mas essa magia também, ela vem de todo um... vamos dizer assim...  existe todo um suporte da fotografia que era o filme, esse romantismo. Agora existem novas tecnologias, esses equipamentos modernos, aí, que você não precisa mais de filme, o suporte é outro, agora não é mais negativo, agora é pixel...

JACOB FILHO: Não, não é ponto. Não é grão... Agora é ponto, é pixel, sei lá...

EVERALDO: Você acha que com isso, com essa facilidade, você programa a máquina e ela faz tudo sozinha...

JACOB FILHO: Não, não faz.

EVERALDO: Não vai tirar a criatividade do fotógrafo, não?

JACOB FILHO: Não faz. Quem enxerga a luz é você. Esse é o grande problema. A gente tem feito provas aqui (Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro), aí chega um “mané” aqui, tira zero. “Mas pra que eu tenho que saber temperatura de cor?”. “Mas pra que eu tenho que saber profundidade de foco?”. “A máquina faz, o Photoshop faz”. Faz... quadrado. Mas não faz o artístico. E se você quiser passar uma emoção na sua imagem, o retrato... o cara ali posado pra você, é só luz. O animal não sabe. Ele não sabe que ele tem que medir... se ele der luz mais alta, um lado vai sair preto, se ele der a luz mais baixa, o outro vai sair branco, ele não sabe disso. Entendeu? Ele não sabe que, se ele fotografar com luz fluorescente, vai sair verde. Ele não sabe que se ele fotografar na sombra, vai sai azul. Ele não sabe nada. Então ele não vai conseguir nunca, ele vai sempre fazer uma coisa... Pode até fazer uma grande foto por... por cagada. Porque aí a máquina, por algum motivo, deu a luz correta e fez. Você vê o seguinte: eu uso equipamento eletrônico, com filme ainda. Não uso a máquina no automático, a máquina funciona no normal. Apesar de ter 50 programas lá, só uso no manual, diafragma e velocidade. A gente só usa... eu só uso em show, onde você tem uma oscilação de luz. Dá uma pré-fixada na velocidade e deixa o diafragma aberto, pra ele poder... o que der, deu, né? Você fica no show de rock, aquela luz piscando, às vezes você perde a foto porque você está preocupado, buscando luz. Então, aí tudo bem. Agora, você sabe o que está fazendo. Agora, se você quer o cara na contraluz, você vai ter que prefixar a coisa... então não muda. Acho que não muda, nem no filme nem na parte eletrônica. A parte eletrônica tem ainda um romantismo, tem ainda... um romantismo não. Você tem algumas críticas por causa da questão da segurança. Se foi você mesmo que produziu ou se aquela imagem foi alterada.

EVERALDO: A foto digital, né?

JACOB FILHO: É... é. A foto eletrônica... aí é o seguinte. Porra! Deu um puta sombrão na foto que eu fiz do Scarpino, eu vou lá e meto um fundo azul. Pronto, quem vai dizer que não? Se o cara fizer um trabalhinho certinho, ninguém diz que não. Entendeu? Então, é... eu acho que desvaloriza a nossa profissão, a partir do momento que qualquer bundão pode fazer fotografia hoje. Antes, não.Você vê o seguinte. São raros os lugares onde tem estagiário como repórter fotográfico, raríssimo você encontrar um estagiário no repórter fotográfico. Por quê? Se ele for à rua e queimar, queimou... texto tem uma tonelada. Texto tem uma tonelada. Por quê? O cara foi lá, apurou, apurou mal, o cara liga pro outro coleguinha do jornal, reapura a porra da matéria. O cara apurou bem, mas fez um texto de merda, ele vai lá e reescreve aquela porra toda. Entendeu? Nós sempre fomos mais... quer dizer... tivemos sempre assim uma certa segurança no mercado por causa disso. Hoje, em função da eletrônica, a gente está correndo um risco seriamente de, inclusive, a função ser extinta ou o jornalista ser o famoso jornalista multimídia e ter que fazer tudo.

EVERALDO: Então, na realidade, você não tem nada contra a foto digital. Você tem contra as empresas que manipulam...

JACOB FILHO: Não, a imagem digital, eu não tenho nada contra. Agora ... o que também não faz com que o filme seja ... o filme pode ser a sua segurança. Como se fosse a cópia carbono do repórter de antigamente. O cara batia a matéria com cópia, né? Passava com cópia. Aí, o que acontecia. Você... o redator pegava a matéria, tirava  o nome do cara, botava outro, dizia que o cara era bandido, não sei o que e saía lá “Scarpino é um bandido, tem que ser preso.” Aí, o cara liga pra lá, manda o advogado, que porra... ele não é bandido, que não é nada, que não sei o quê. “Não, mas você disse que era bandido sim, que matou, que aconteceu.” “Não, eu não disse isso não.” Não sei o quê. Aí, vai verificar o repórter. “Olha, eu não escrevi isso não. O redator que inventou essa porra.” Entendeu? Isso você poderia até fazer. Poderia até ter isso pra poder se precaver. Mas nada impede que a empresa pegue aquilo e manipule. Manipule daqui a 20 anos. A gente cansa de ver isso. A Veja manipula eletronicamente, até mal, deixa a perna do cara. Um outro jornal, lá do sul, tira o Jaime Lerner da foto, entendeu? A gente chegou a aprovar um código de ética pelo seguinte: tudo que você faz no laboratório, você pode fazer, entendeu? Tudo que você pode fazer no laboratório, você pode fazer na imagem digital.

EVERALDO: Pode?

JACOB FILHO: Não. A gente aprovou um código de ética que o princípio era esse. É ético fazer tudo que você fazia no laboratório convencional você fazer no laboratório digital. Então, é tipo o seguinte: uma foto saiu um pouco escura, aí você usava papel que levava mais tempo pra absorver luz, a foto saiu muito clara; papel mais sensível, enfim. Essas combinações, proteger porque deu uma sombra, um pequeno retoque porque arranhou o negativo. Isso tudo pode ser feito. Mas, arrancar a cabeça do cara e botar outra, não. A gente até admite isso em entretenimento ou ilustração. Tipo assim: Carnaval desse ano a Mangueira vai desfilar com Carlinhos de Jesus e Ana Botafogo. Um é sambista e a outro é...

EVERALDO: Um é bailarino popular e a outra é bailarina clássica.

JACOB FILHO: É... aí o cara na redação: vamos botar o cara girando o pandeiro e a Ana Botafogo fazendo um pás de deux lá em cima. Beleza! Faz as duas fotos e monta. Mas tem que botar do lado: “Fotomontagem sobre a foto de fulano de tal”. Porque é mera ilustração. Agora, eu não posso é fazer o seguinte: “Brizola incentiva a criminalidade no Rio de Janeiro”. E, na manchete, aí eu ponho o Brizola com um fuzil na mão. Aí, não dá, né? Ou então ele de pirata ou ele com duas pistolas, assaltando os outros na rua.

ANDRÉ TELLES:  A não ser que tenham feito a foto dele com as pistolas. Né?

JACOB FILHO: Não, o cara põe na mão...

ANDRÉ TELLES: Não, não. Eu tô dizendo... a não ser que o cara... algum fotógrafo tenha feito a foto do cara com uma pistola e com a metralhadora na mão. Aí, porra. Aí é legal.

JACOB FILHO: Não... mas, aí entendeu... mas a montagem, nesse aspecto, ela é ruim. Aí é antiético. É criminoso, não é nem antiético, é criminoso.

EVERALDO: Então a gente não pode acreditar na informação, de repente, desses jornais ou...

JACOB FILHO: Não, não, não. Tem lances... já saiu foto de futebol que a bola... a foto era... vamos botar assim, 18x24, mas o corte que ia entrar lá no jornal era 18x20, aí a  bola ia ficar fora. Aí o que o cara fez? Cortou a foto, pegou a bola e botou mais pra dentro do quadro. Aí é foda, né? O outro lance era do cacete, mas aí tinha uma perna de um jogador que... apaga a perna do jogador... (risadas). Aí é foda, né? (risadas).

EVERALDO: Que nem aquele gol que o Pelé perdeu, acho que contra a Tchecoslováquia. Não é? Eu já vi filme que o Pelé faz aquele gol. Aquele que ele passa pela bola, passa pelo goleiro e joga a bola pra fora. Eu já vi filme que a bola entrou (risadas).

JACOB FILHO: Não, mais aí... no cinema, você usa até a ficção, né? Aí é diferente... da Televisão , né? Televisão você também usa a ficção. Aí é diferente...

Você vê a TV Globo fazer muito isso. “Mataram Joãozinho Não Sei das Coisas com 50 tiros na cara”. Aí ela faz a reconstituição. Aí coloca lá RECONSTITUIÇÃO. Aí é diferente. Mas no jornal não dá pra fazer isso não.

EVERALDO: Eu citei esse negócio porque a gente está falando só de fotografia, mas na Arfoc também  tem o repórter cinematográfico.

JACOB FILHO: Sim, mas é diferente.

EVERALDO: E como é que fica a credibilidade do...

JACOB  FILHO: Não, você vê. Eles tiveram a mudança do cinema pro vídeo e agora vão ter a mudança do vídeo pro CD. Entendeu? O grande problema é que a alteração de uma imagem de televisão, como ela é seqüenciada, ela é mais cara.

A menos que se tenha computadores velozes o suficiente pra fazer em dois minutos. A fotografia você faz em dois minutos porque é um quadro só.

EVERALDO: Nós temos notícias, às vezes... eu estou falando isso pela vivência sua, de jornalista que é espancado, jornalista que é...

JACOB FILHO: Essa vivência é do meu pai, não é minha não...

EVERALDO: NÃO! Não... mas você...

JACOB FILHO: Quem apanhou muito foi ele.

EVERALDO: Não. Foi seu pai quem apanhou, mas você chorou muito...

JACOB FILHO: Ah! Sim. Eu chorei muito, sofri muito.

EVERALDO: Mas você chorou muito porque seu pai foi preso, apanhou, aquele negócio todo. Você passou por essa situação?

JACOB FILHO: Não.

EVERALDO: Agora, existe algum conselho pro repórter fotográfico evitar uma coisa dessas?

JACOB FILHO: Eu acho que o conselho é o seguinte: é não discutir. Entendeu? Tipo assim... você está... aí o PM chega: “Não pode ficar aqui.” “Sim, senhor.” Aí, dali a pouco, você está ali de novo. Aí, plá plá plá... “Eu já não falei que...” “Ih, desculpe, eu esqueci”. Dali a pouco você esta lá de novo. É isso.

ANDRÉ TELLES: Vocês desculpem eu estar entrando no assunto. Mas houve uma história assim que eu acho... em primeiro lugar tem que ter bom senso. Tem uma história dessa que... eu era o único fotógrafo numa situação de manifestação sindical. Os sindicalistas me adorando, os PMs me odiando. Eu simplesmente coloquei a situação. Quando os caras começaram “não fotografa, não fotografa, não fotografa”, eu: “Gente, calma. Deixa eu fora disso. Deixa eu aqui quieto”. Aí os PMs chegaram a discutir comigo. Aí eu fiz assim... um gestual qualquer. Depois eu fui lá perto dos PMs. Cheguei assim: “Pôxa! O senhor está brigando comigo. Eu estou aqui. Eu estou aqui. Os senhores estão aqui obrigados, eu também estou. A revista internacional mandou eu vir pra cá fazer a matéria, fazer essa porcaria aqui”. Eu estava fotografando pros sindicalistas. Então criei uma “cascata” ali que eu fiquei fotografando o dia inteiro eles dando porrada nos sindicalistas, sem problema, entendeu? Eu criei... em todas as situações minhas, dessas de conflito... A não ser quando você é agredido imediatamente. Aí, não sei. Mas se você não for agredido, calma. É o que ele está falando. Calma, bicho!

JACOB FILHO: Disse “não pode. Aqui não pode.” Sim, senhor.  Daqui a pouco você está lá de novo.

ANDRÉ TELLES: Arruma outro lugar.

JACOB FILHO: É... mas tem que ser malandro. Entendeu? Quer dizer... no caso do meu pai, não tinha como ser malandro porque, porra, era a repressão, né? Aí era foda, né. Mas PM é assim, né? Tudo bem e tal.

O grande problema é que é o seguinte. A polícia, ela vem dessa escola da ditadura, da repressão.  Então, ela não está preparada pra lidar com movimento civil organizado. Ou seja, ela não está preparada pra lidar com o cidadão, né? Quer dizer que ela está ali no seu direito de fazer sua manifestação, de esculhambar o Fernando Henrique, mas não quebra nada. Ela só está ali protestando. Eles não têm ainda essa coisa. Pelo resquício da ditadura. Os coronéis, os generais ainda são oriundos lá da ditadura. Então, é...  “bate, prende, esfola”, entendeu? Prende e arrebenta, né? Quer dizer, aí, prende e arrebenta e acabou. Então, aí, o que acontece. O maior instrumento da democracia, ou seja, a única instituição que pode garantir o direito dos cidadãos não é nem o Executivo nem o Legislativo. Quem garante é o Judiciário. Se você tem o Judiciário rápido, eficiente e justo, rapidinho você consolida o processo democrático. Porque o dia que eu te der uma porrada e você for lá... e em seis meses eu tenho que vender a minha casa pra te pagar indenização. Eu vou pensar duas vezes antes de te dar uma porrada. Então é isso, é que... esse período democrático fez com que a gente buscasse. Isso... e meu pai entrou na porrada, quase perdeu um pulmão, quebrou a cabeça e não ganhou porra nenhuma. Tem uma lesão no pulmão que, de vez em quando, enguiça. Até hoje. Qualquer porrada que PM lhe der, registra a queixa na delegacia e abre uma ação indenizatória.

EVERALDO: Tivemos várias agressões. O Alaor Filho, quando botaram o Exército na rua, foi agredido. Como é que ficou aquilo?  Ficou por isso mesmo?

JACOB FILHO: Aí é o direito de cada um, né? Ele não quis... não moveu ação judicial. Na verdade, ele estava sendo processado por desrespeito à ordem e desacato à autoridade.

EVERALDO: E o Jornal do Brasil, como entidade, não se meteu também?

JACOB FILHO: É... eles não... eles não se interessam por isso. Entendeu?

SCARPINO: Não bancam mais o repórter. Antigamente eles bancavam.

JACOB FILHO: Eles não se interessam. As empresas jornalísticas, eles não se interessam por isso.

 EVERALDO: O Scarpino estava falando aí de negócio de violência...

 JACOB FILHO: Não, era de direito autoral.

EVERALDO: Ah! Era direito autoral.

JACOB FILHO: É.

EVERALDO: Eu vou fazer uma pergunta porque depois eu quero entrar, falar sobre a foto de Sebastião Salgado, que é considerado um dos maiores jornalistas brasileiros. Pra você dar sua opinião. Qual a diferença básica, pra você, quando se está fotografando na rua, assim, na pancadaria, no trabalho diário do repórter fotográfico, essa pauleira, para um projeto documental? É fotojornalismo também o projeto documental?

JACOB  FILHO: Não. É, é... não significa que você, quando vai fazer um projeto mais elaborado, você não consiga trazer imagens fortes e expressivas, como aquela do hot news (notícia quente) do dia-a-dia. Muitas vezes você vai fazer o hot news também e traz retrato comum, porque não aconteceu nada de importante. Quem passou por revista sabe a importância que tem o material... você lida muito com a questão da periodicidade do material. Então eu lembro assim: entrevista do Fernando Henrique... entrevista coletiva do Fernando Henrique. No dia seguinte, todo mundo vai dar a mesma foto do Fernando Henrique falando ao microfone. Mas, aí o que acontece? Acontece que eu vou fazer uma foto do Fernando Henrique dando uma entrevista que... isso é uma segunda-feira, a minha revista só sai no sábado e a outra revista só vai sair no outro sábado. Então, são quinze dias que aquela foto vai ficar ali. No jornal não. No dia seguinte ele já embrulhou um peixe, já era. Já tem outra imagem circulando. Então, muitas das vezes a foto era A FOTO do Fernando Henrique sendo fotografado ou sendo entrevistado. Ou uma foto dele pegando o elevador, alguma coisa que rendesse algo diferente. Então, o trabalho documental, quando você... como o Salgado faz. Sem entrar no mérito da qualidade do trabalho, que ele faz e outros fotógrafos também fazem, é perfeitamente cabível e quando bem feito tem excelente qualidade. Como fotojornalismo mesmo. Entendeu? Não significa que você tem que produzir as fotos; produzir foto é outra coisa. Mas, porra! Meu trabalho é sobre os índios da Amazônia, eu vou levar dois anos documentando isso. Então não preciso chegar lá e pedir à índia pra se maquiar, pra ela ficar na pontinha do barco, entendeu? Posso ir pra lá e passar dois anos documentando o dia-a-dia dos índios. Vão sair daí excelentes fotos, entendeu? Então eu acho que não cabe crítica com relação a desvalorizar o trabalho documental como se ele não fosse jornalístico. Ele é também. É o que a Geography Universal faz. Sei lá. Você vai ficar lá, socado atrás de uma moita, esperando o leão transar com a leoa, o leão caçar, entendeu? Então, isso aí é um trabalho documental. Só que, porra, é um desgaste fodido pra você fazer e vêm imagens impressionantes, muito boas.

EVERALDO: É porque... olha só... na minha opinião. Isso na minha opinião. O Sebastião Salgado, ele consegue reunir toda a história da humanidade, eu vou dizer porquê. Olha só. Ele abre um leque para várias discussões. Através da obra dele, nós podemos trabalhar uma infinidade de ações, como: história, psicologia, violência, educação, economia, sociologia, filosofia, arte, religião e até fotografia. O que a gente bem entender. Você acha que com essa abertura, provocando admiração e indignação, Sebastião Salgado abre um leque pro jornalista que quer mudanças sociais e diz um não pros profissionais que só possuem domínio técnico, estão só preocupados em gravar fatos... só em registrar?

JACOB FILHO: Não, olha só. Eu não vejo no trabalho dele, assim, nenhuma grande contribuição pra humanidade, nenhuma. O trabalho dele é bonito, ele é plástico e noventa por cento do resultado é laboratório. O material é tão manipulado como se fosse uma imagem digital em laboratório. Então, não acho, assim, que seja nenhum gênio, é que ele faz um negócio diferente, tem tempo, tem lugar certo e outra coisa, velho, criança e miséria sempre deram boa foto, desde que a fotografia foi inventada. Então, você sabe que tem miséria em Uganda. Então, se você for pra lá, também vai trazer fotos boas. Entendeu? Com certeza você vai trazer. Você pega o material do Evandro Teixeira e passa pelo laboratório do Salgado pra você ver como vai ser outra coisa. Agora, você pega o do Salgado e manda fazer num só p/b, num laboratório “furreca” aqui pra ver a merda que vai ficar. Entendeu? Você percebe na imagem aquela coisa do cinza, do preto, do branco, da granulação, aquilo é manipulado... ele transforma uma imagem simples num trabalho de arte, manipulado em laboratório. Não vejo... também não quero dizer assim que o Salgado é um merda. Não é. Entendeu? Ele é um cara inteligente, que tem méritos, acho que ele é um cara extremamente inteligente, extremamente oportunista, não no sentido pejorativo, mas no sentido da oportunidade, porque você pode ter a oportunidade e não ser oportunista, ou seja, deixar a oportunidade passar e não fazer nada. Então, acho ele até tecnicamente pobre, quer dizer, se você não vê uma foto dele revelada de acordo com o que a Kodak manda fazer num D76, com tantos minutos de exposição. Você não vê uma foto dele assim tecnicamente perfeita.

 EVERALDO: Foto no Dectol, revelada...

JACOB FILHO: É, é. Entendeu? Você não tem nenhum trabalho dele assim. Então, o trabalho, ele ganha importância, eu acho que ele tem uma grande contribuição, ele deu uma grande contribuição. Primeiro que ele, de uma certa forma, abriu um espaço a mais na fotografia mundial e outra que abriu um espaço pra gente também. Quer dizer, posso não concordar com o que ele faz ou não achar lá tão importante assim. Mas de qualquer forma, ele pelo menos fomenta. A gente tem uma geração aqui, que é uma casta, que vive pegando dinheiro do governo, que nem casta da Embratur... Embratur não, da Embrafilme. Era uma casta que pegava dinheiro, fazia uns troços de merda e, porra, e era considerado o máximo. Pelo menos o Salgado veio pra confirmar que esses caras são uns merdas realmente. Esses caras que vivem pegando dinheiro da Funarte, passam quatro meses na França... entendeu? Aí fazem um trabalho de merda que qualquer amador, qualquer “foca” faz, vai lá e igualzinho a eles, entendeu? Não tem qualidade nem técnica nem qualidade de imagem mesmo. Nem assim... porra, esse é um retrato bonito, é um cartão postal da França. Nem isso tem. Entendeu?  

EVERALDO: O Cartier-Bresson afirmava que o fotógrafo tinha que observar de longe o densenrolar do acontecimento e assim que a cena chegasse ao auge fotografá-la. Só assim você consegue “aquela foto”, só assim você chega naquele “momento” que vem a ser o “momento decisivo”. O Sebastião Salgado já acha diferente, ele acha que você não tem que ficar fora de nada. Você tem que vir por dentro da cena porque todo momento é decisivo. Será que não está nessa diferença de fotografar...

JACOB FILHO: Não sei. Esses caras criam muita teoria em cima do nada. Na verdade, eu acho o seguinte: Bresson foi o cara que começou a fotografar a realidade. Como Jean Mason fez aqui. Aqui todo mundo fazia o cara posado. Jean Mason começou a fazer os caras como eles eram. Aí é que está a diferença, o cara gesticulando. Criou o fotojornalismo no Brasil. Então o Bresson teve a época dele. Bresson hoje e nada é a mesma coisa. Bresson hoje, se fosse pra rua fazer a foto, foto de merda. Mas ele teve o período dele, onde todo mundo fazia foto quadrada e começou a fazer as pessoas como eram. Então, fica cada um fazendo a teoria diferente. Agora, o repórter fotográfico, ele não pode ser um sujeito distante, à parte. Entendeu? De não interferir... Não é que ele não possa interferir, que ele não deva interferir. Na verdade, ele não tem que interferir. Mas ele tem que viver aquilo ali. Ele não pode fotografar o Ministro da Aeronáutica sem saber quem é o ministro, se ele está envolvido em alguma falcatrua. Entendeu? Ou se ele está ali, porque ele está ali, quem é aquele sujeito. Por quê? Se não ele não vai conseguir retratar aquele sujeito. Uma suposição. O cara é o sujeito que está envolvido em uma denúncia de que matou não sei quem. Se o cara levar o dedo na cabeça, você... já dá uma foto, de repente, interessante. Entendeu? Ou alguma expressão de ódio. Entendeu? Só o retrato do olho do cara. Entendeu? Enfim, qualquer coisa. Então, ele não pode... por isso que a gente sempre disse: o cara tem que ir a cinema, ler jornal, sabe? Ir à exposição, o cara tem que ver televisão, o cara tem que estar informado. Ouvir rádio, ele tem que estar informado. Ele não pode ir pra uma entrevista sem saber o que vai fazer e sem conhecer o assunto. Quer dizer, então, ele não consegue retratar direito. Por que o Salgado faz trabalho documental e ele não faz um trabalho assim: “Ah! Hoje eu vou pra Nigéria, vou ver o que tem lá.”? Como quem não quer nada? Não. Ele pesquisa, ele levanta, ele vai na boa, ele não vai na roubada. Ele não vai atravessar um deserto pra ver o que ele acha no meio do caminho do deserto. Ele só vai aonde ele sabe que tem coisa boa pra fotografar. É isso. Então, o Bresson teve a época dele e foi importante. Eu acho que ele iniciou, ele criou uma linguagem nova. Tirou a gente daquela porcaria de fotografia, vamos botar assim, entre aspas, “artística”, que era o cara chapado atrás, colado na parede e porra.

EVERALDO: E foi fazendo...

JACOB FILHO: Então, essas teorias deles, na bem verdade...

EVERALDO: Não funcionam muito não, né?

JACOB FILHO: Não, não é questão de funcionar. É o seguinte. Eu sempre disse isso ao meu professor: duvido que o Jorge Amado, quando escrevia um texto, ele dizia assim: “vou botar uma metonímia aqui. Vou botar uma hipérbole aqui. Isso aqui, hiperbolicamente...”. Ele ia lá e dizia que o cara tinha a boca maior que o mundo e foda-se. Aí vem a porra do gramático: Ah! O Jorge Amado usou aqui uma figura de linguagem que não sei o quê. Ele é um cara que usa muito figura de linguagem. A porra do gramático é que cria o conceito sobre a forma do escritor. O escritor, muita das vezes, nem sabe que porra é essa figura de linguagem ou estava intencionado em botar figura de linguagem nenhuma.

EVERALDO: Você, quando está na rua fotografando, não dá pra você dizer “não eu vou fazer isso, vou fazer aquilo”, não. Ou você faz ou não faz nada. Depois vê o que foi que fez também, né? Muitas vezes é isso...

JACOB FILHO: Depende, depende da situação.

EVERALDO: Só pancadaria. Pancadaria você já entra na cena e vai fotografando e depois...

JACOB FILHO: Aí você senta o dedo e reza pra Deus pra ver o que sai. Reza pra alguém morrer, pra você ter a foto.

SCARPINO: Essa daí é a foto nervosa.

EVERALDO: É a foto nervosa. Só você que fez.

JACOB FILHO: É... bate nele. Bate agora. Pô! Eu já cansei de incentivar invasão de troço. Fica nego lá: “vamos invadir, vamos invadir”. Invade que eu garanto. Aí... Ah! (risadas). A Imprensa tá aqui, garante e aí... Ah!

EVERALDO: Aí entra todo mundo na porrada, inclusive você.

ANDRÉ TELLES:  Eles rezam pra gente ir lá. Eles rezam. Teve uma confusão... teve um incêndio numa favela aí, famosa e tal. Aí começou a rolar um tititi que os caras iam fechar a rua. Aí eu tô escutando. Aí o pessoal do O DIA saiu, nós não tínhamos saído. Aí os moradores foram pra rua. Quando nós estávamos saindo, que era distante do incêndio, nós fomos saindo de carro, os moradores cercaram nosso carro e o motorista ficou assustado e eu falei: “Cara, calma, calma. Eles querem que a gente fique aqui. Calma, calma. Não sai, não arranca”. Aí fiquei gritando com o cara, consegui acalmar o cara. Quando eu saí do carro... aí os caras foram pra rua.

JACOB FILHO: Na favela, quando você chega com a câmera, vem os molequinhos e perguntam: “moço, vai passar em que canal? É da Globo?”

ANDRÉ TELLES: Eles não sabem distinguir o que é câmera de vídeo da de câmera fotográfica.  Normalmente eles acham que tudo vai pra rede de televisão.

JACOB FILHO: “Vai passar em que canal, moço?” “Não, isso é pra jornal”. “Que jornal?” “É o jornal tal”. Mas é isso. Pra coisa do conceito... nego fica inventando estratégia de marketing pra ganhar mais dinheiro. Entendeu? (risadas) Na verdade é isso. “Não, porque minha fotografia vem do fundo da alma.” Que nem a porra do cara, joga uma porrada de tinta vermelha na parede, aí depois vem o crítico, vai dizer assim: “Não, mas é que o vermelho, ele estava num momento de fúria, de raiva, é todo o ‘eu’ dele jogado na parede”. Porra! Tá uma cagada (risadas). Porra! Tá uma merda (risadas).

EVERALDO: Na fotografia, não dá pra você fazer uma cagada dessas, não.

JACOB FILHO: Não, mas é o cara que cria um conceito. Vai aí nesses picaretas que ficam pegando o dinheiro da Funarte, aí. Mas que merda de foto é essa aqui? “Não, isso aí é porque...”

EVERALDO: É foto conceitual. Foto não sei o quê... foto abstrata.

JACOB FILHO: Eu resumo assim: foto de merda. Entendeu? Então, esses caras ficam criando conceito pra poder valorizar e ficar teorizando assim...

EVERALDO: As Faculdades de Comunicação existem e têm uma disciplina que se chama Fotojornalismo. Você não acha...

JACOB FILHO: Não é fotojornalismo, é fotografia, né?

EVERALDO: Não. A disciplina está lá, Fotojornalismo. Você precisa de universidade, ou de alguma coisa, pra aprender fotojornalismo ou você aprende na prática com um companheiro mais antigo e passando experiência pra você?

JACOB FILHO: Não, fotografia... Fotojornalismo se aprende com... Primeiro: a fotografia mesmo você aprende com alguém, raramente você consegue entrar num curso. Hoje o único curso que tem eu acho que é do Senai e tem esses caças níqueis por aí. Mas Senai é o único que tem. Tinha no Liceu...

EVERALDO: São Paulo, não é?

JACOB FILHO: Não, aqui no Rio. Tinha no Liceu que era o Jorge Pedra que ensinava muito bem. Agora, em São Paulo tem uma faculdade de fotografia, você faz o curso. A Estácio lançou um Politécnico de Fotografia, mas não habilita a ser repórter fotográfico, mas eles... parece que dão alguma coisa de fotojornalismo lá também.

Nós conseguimos aprovar... desde 92, foi logo assim que a gente entrou na Arfoc, nós participamos de um Congresso Nacional da Federação e conseguimos fazer que ela constituísse um Projeto de Lei alterando a que regulamenta a profissão, pra exigir curso universitário pros repórteres fotográficos. Essa lei foi aprovada no ano 2000, mas foi pro Fernando Henrique assinar e o Dornelles pediu veto. Vetou a Lei e aí fodeu tudo. Aí, continua a lei antiga do jeito que tá. 

EVERALDO: Continua a lei antiga que você... o  registro parcial...

JACOB FILHO: Não precisa curso universitário, não precisa ter formação, a bem verdade. Então, o que a gente tá tentando... a gente tá tentando uma nova lei agora... quer dizer, tem outro projeto pra tentar voltar essa coisa da regulamentação. E aí nós estamos nos antecipando e discutindo agora o currículo, como é que a gente quer o currículo para a formação desse profissional. Então, estamos discutindo isso já. Que é para poder formar o profissional. Não pode ser a mesma, o mesmo curso universitário que forma o repórter de texto. Tem que ser um curso que tenha uma bagagem mais centrada em cima disso. Eu acho até que o profissional deveria sair, mais completo, até com a formação em texto também.

EVERALDO: Nosso bate-papo aqui foi legal. Você tem mais alguma coisa pra acrescentar...

JACOB FILHO: Não... eu acho que faltou foi a questão do direito autoral.

A questão do “Direito Autoral” é importante. O Brasil tinha uma legislação, a de 73, que foi alterada, se eu não me engano em 98 ou 99, inclusive eu participei da elaboração, da discussão que eu falei. Fui a Brasília fazer lobby e tudo, o Aluísio Nunes, que foi secretário da Presidência, era o relator da Lei. Eu fui lá duas vezes conversar com ele pra poder tirar alguns artigos que prejudicavam o jornalismo como um todo. Jornalismo, os escritores, enfim.

Aí a fotografia se deu bem. Antes da lei anterior de 73, a fotografia era considerada protegida quando ela era artística. Hoje não, é fotografia. Produzida por qualquer meio. Então, se o seu filho fizer, fizer fora de foco, fizer tremida, se fizer de lado, do jeito que sair a imagem, aquela obra está protegida. Então, o direito autoral, hoje, ele é importante. Na Europa, Estados Unidos, os profissionais mais velhos, já aposentados, vivem e ganham ainda salários referentes a venda do seu material. Os caras que fotografaram a história do cinema americano, as fotografias da II Guerra Mundial, todo mundo ganha dinheiro ainda hoje com isso. A família, as famílias, os herdeiros ganham dinheiro com isso. Só no Brasil é que a gente não ganha nada. Quer dizer...

EVERALDO: E qual é a lei que regulamenta o direito autoral?

JACOB FILHO: Ah! O número dela eu não sei, não.

EVERALDO: Mas ela existe...

JACOB FILHO: Existe, a lei de 73. Era pouco usada, pouco difundida, a gente montou uma estrutura boa na Associação, a gente conseguiu ganhar ações até em pequenas causas, de uso de imagem indevida, enfim. Então, hoje a gente veio a fundar uma Associação arrecadadora de direito autoral dos jornalistas, que a sede é em São Paulo, mas pode ter escritório no país inteiro. Então, a Arfoc é a única instituição dos jornalistas que tem advogado de direito autoral, contratado para prestar assessoria aos seus associados. Então, a gente tem conseguido vitórias importantes na questão do direito autoral, mas ainda as pessoas têm muito medo de fazer essa cobrança e as empresas, no início, elas tratavam isso como o criador de frango. O cocô do frango era um tormento. Tinha que jogar aquela porra fora, fedia, dava doença, enfim. Até que descobriu que aquilo fermentado vira adubo orgânico. Aí, muitas das vezes, o adubo orgânico é mais caro pra madame botar na plantinha dela, na zona sul, é mais caro que um quilo de frango. Então, o cocô virou mais importante do que a produção do frango, que é a atividade principal, né? Então, a venda de noticiário, ela pode ser tão importante quanto a publicação, entende? Você vê assim, você vê assim... pra eles, da Reuters, vivem de venda de noticiário. Eles não têm um jornal para publicar o noticiário que eles produzem, eles distribuem aquele noticiário. Então, os jornais ainda não perceberam isso e aí não perceberam, não investem, fazem as agências do jeito que fazem, na trambicagem, sem pagar nada. Eles não perceberam que a partir do momento que começarem a remunerar bem os profissionais, através da venda do material, conseguem ter uma produção melhor e com mais qualidade, porque aí o profissional vai correr mais atrás, porque ele sabe que ele vai ganhar em cima da venda daquele material e não aquele salário “merreca” que ele ganha no final do mês.

EVERALDO: Mas é uma experiência, a gente às vezes... eu não sei nem se pagam direito ao profissional...

JACOB FILHO: Não... a Agência Estado paga, Agência JB paga. A Agência Estado, eu acho que estava pagando 20 ou 25%. A Folha paga alguma coisa. O Globo pegou o que pagava e incorporou no salário, que é uma coisa ruim. Como era também ruim uma proposta que a Federação tinha de cobrar um dia de faturamento de todas as empresas jornalísticas do país inteiro e depois dividir por todos os empregados. Eu acho ruim porque você... direito autoral é o direito da sua criação, do seu esforço. Então, porra. Se eu subo no morro pra fazer uma puta foto, por que o cara que não subiu vai ganhar igual a mim? Então não faz sentido, ele tem que ganhar individual. Eu sempre briguei com isso. Quem fez, quem correu atrás tem o direito de receber pelo que fez.

EVERALDO: Valeu Jacob. Obrigado.  

 

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