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Cristina Ribeiro  Entrevista INTERNACIONAL - EXCLUSIVO

Joe Jaramillo

"A VOZ DOS
DISCRIMINADOS
"

"O importante para negros e latinos é compreenderem que estão brigando pelos farelos e têm obrigação de tentar obter a fatia maior da torta".


Não só o Brasil ou os países da América Latina enfrentam problemas de discriminação, seja ela qual for, raça, credo ou religião. Após muitos anos de disputas raciais entre brancos e negros, os Estados Unidos encontram um outro dilema: o conflito entre negros e latinos.

Como imigrante, negra e latina, pude observar, durante minha trajetoria pelos Estados Unidos, toda essa situação bem de perto e essa é a pura e dura realidade que esse país vem enfrentando o que tem gerado uma imensa propaganda negativa de violência ao redor do mundo, com o aparecimento das gangs, dos problemas entre os bairros frequentados por latinos e negros que vivem em comunidades menos privilegiadas, comparadas as nossas favelas brasileiras.

Para esclarecer melhor esta questão entrevistei para a EVIRT um dos grandes nomes no assunto. Um hábil advogado da fascinante cidade de São Francisco na Califórnia do Norte. Americano descendente de pioneiros mexicanos, o jovem Joe Jaramillo é uma pessoa maravilhosa, de grandes ideais e que tem representado os Latinos em casos de discriminação racial, trabalhando com as comunidades negras e latinas para que, juntas, possam combater essa verdadeira praga no país. Fã da cultura brasileira, principalmente de sua música, recentemente visitou o Brasil com o interesse de aprender e observar como anda a questão da integração racial comparada com a americana.

EVIRTDesde quando surgiu esse seu interesse pela cultura brasileira e seus problemas raciais?

JOE: Bem, meu interesse começou pela música. Sou descendente de família mexicana (do sudoeste dos Estados Unidos que foi parte do México e conquistado pelos americanos) e tenho essa conexão latina e esse interesse pela música latina. Eu sempre tive muita admiração pela cultura latina e principalmente pelo Brasil, e a única barreira encontrada foi o idioma. Porém, quando finalmente fui introduzido na música brasileira, pude me deleitar através do trabalho de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Milton Nascimento, entre outros. Fiquei eletrizado com tanta beleza e poesia. Essa foi a chave que abriu as portas e a necessidade de aprender mais sobre o Brasil. Também descobri que é um pais multi-racial, assim como os Estados Unidos da América.


"No Brasil, também fui consciente sobre o racismo com algumas particularidades contra os negros. Como por exemplo, alguns poucos negros atuando em
televisão ou não tendo papéis de grande importância nas novelas".


EVIRT: Mas você aprendeu também que existem muitas diferenças...

JOE: Sim. Nos Estados Unidos, fomos proibidos de discriminar no final dos anos 60. Contudo, você vai descobrir que em nosso país ainda existem divisões sobre esse fator em várias direções. Negros e Latinos são os grupos pobres nesse país e por isso não têm muitos privilégios. É também muito raro encontrarmos grupos de amigos ou casais com raças diferentes.
No Brasil, também fui consciente sobre o racismo com algumas particularidades contra os negros. Como por exemplo, alguns poucos negros atuando em televisão ou não tendo papéis de grande importância nas novelas. Mas a diferença entre os Estados Unidos e o Brasil está nesse forte senso de identidade nacionalista dividida entre os brasileiros de todas as raças. Todos eles dão a impressão de se considerar brasileiros acima de todas as coisas. Já aqui nos Estados Unidos, as pessoas se identificam mais com sua raça ou o passado étnico, como por exemplo Mexicanos-Americanos, Africanos-Americanos, Latinos, antes de simplesmente dizerem que eles são americanos. No Brasil, notifiquei mais mistura entre as raças em situações sociais. Sabendo-se que continua existindo, obviamente, o controle dos brancos em todas as posições de poder.

EVIRT: Por que você pensa que essa é a diferença?

JOE: Penso que isso muito tem a ver com as nossas diferentes histórias. Os Estados Unidos e Brasil dividem a mesma história de ter trazido os negros escravos da África. A escravidão foi desumana e desprezível em ambos os países. Mas parece que no Brasil eles cultivaram e permaneceram com a influência africana em sua cultura, na língua, música e religião, muito mais arraigado que nos Estados Unidos. Depois da escravidão, os Estados Unidos separaram e discriminaram os negros abertamente por mais cem anos. E a outra diferença é que os Estados Unidos não são um país latino. Eles conquistaram metade do México no final do século dezenove, o que hoje é a Califórnia e o Sudoeste Americano, e então procederam com uma aberta discriminação contra os latinos. Existiam restaurantes na cidade de minha mãe que tinham placas avisando "É proibida a entrada de Mexicanos e Cachorros". E hoje eles não podem discriminar abertamente contra os latinos, mas eles continuam discriminando contra os imigrantes, com legislações que desencorajam a educação bilingüe e a língua espanhola nas escolas, e a proposição 187 - que teve sua anulação em corte - e diz que imigrantes ilegais não podem freqüentar escolas públicas ou ter atendimento médico público (tudo isso porque viola os direitos constitucionais dos imigrantes). No Brasil, você não tem esse tipo de discriminação contra os latinos porque é um país latino.

EVIRT: Quer dizer então que você encontra discriminação contra negros e latinos nos Estados Unidos ? Como esses grupos se discriminam entre si e como isso acontece ?

JOE: Existem tempos de imensa cooperação e também tempo de muita tensão. Durante a luta pelos direitos civis nos anos 60, latinos e negros trabalharam juntos para lutar por chances na lei para a proibição da discriminação nos empregos, educação, casas e lugares públicos. Negros e latinos continuaram trabalhando juntos para lutar por uma ação afirmativa pelos direitos de igualdades. Porém, eles também são tensos. Imigrantes latinos têm mudado para a historicamente vizinhança negra porque eles são mais disponíveis e esse choque cultural pode criar tensão. Alguns negros crêem que os latinos não têm o direito de estar aqui porque aqui não é o seu país e os molestam quando falam espanhol em lugar do Inglês. Porém, eles devem saber que os latinos estavam no Sudoeste do país por ciclos de oportunidades. Também alguns negros percebem que os latinos estão roubando suas posições de trabalho, o que, aliás, não está tão fácil porque muitos imigrantes latinos trabalham em posições que ninguém quer fazer e por menos dinheiro que o mínimo. Porém, isso não é tudo. O importante para negros e latinos é compreenderem que estão brigando pelos farelos e têm obrigação de tentar obter a fatia maior da torta.

EVIRT: Você pensa que é mais fácil conseguir uma fatia maior da torta aqui do que no Brasil?

JOE: Sim, porque a situação econômica aqui é muito melhor e isso faz, geralmente, com que as coisas se tornem mais fáceis. Todavia, precisamos também compreender que ainda existem setores na economia que continuam em grande depressão. Principalmente nas cidades do interior e de zona rural, onde moram muitos latinos e negros pobres. Os negros têm passado bem atualmente, eu penso, porque começaram em postos não muito privilegiados, como empregadas, lavadores de pratos, trabalhadores braçais, isso há muito tempo atrás, mas têm trabalhado para subir. Os latinos são os sucessores dos negros nestes postos, atualmente. Penso que os Estados Unidos precisam tornar mais fácil essa situação, levantando a escada para esses trabalhadores ou ajudá-los a começar seus próprios negócios. O governo também precisa fazer corporações mais responsáveis e providenciar melhores benefícios e oportunidades para os trabalhadores.


"Quanto mais escura a pele, maior será a discriminação contra qualquer
pessoa por brancos, latinos ou até mesmo pelos próprios negros"


EVIRT: Você nos falou sobre o porquê dos negros estarem ressentidos com os latinos nos Estados Unidos, mas qual a situação dos latinos perante aos negros?

JOE: Novamente eles são exemplo de uma cooperação maravilhosa e solidariedade, mas um terrível exemplo de racismo. Penso que isso é verdade: quanto mais escura a pele, maior será a discriminação contra qualquer pessoa por brancos, latinos ou até mesmo pelos próprios negros. Porém, eu não posso negar que alguns latinos são racistas contra os negros. Isso é tão tolo porque latinos geralmente são a mistura do Europeu ** (Espanhois), indígenas e também, em alguns casos, de africanos. Especialmente entre os porto-riquenhos, cubanos e dominicanos que se encontram por aqui, existem muitos negros latinos. O que já não é tão comum entre os mexicanos, mas também existe. Com essa mistura, há famílias latinas que têm brancos, morenos e negros em seu seio. Mas há muitos pais latinos rezando para que seus bebês nasçam fora desse "guero" (que significa pele clara) ou "blanco" . Todavia, o que devemos fazer é trabalhar com nossos irmãos e irmãs negros e juntos celebrar nossa cultura. Como minorias neste país, é importante trabalharmos unidos para melhorar as situações dos dois grupos.

EVIRT: Podem os brasileiros aprender alguma coisa com relação à raça americana? Podem os americanos aprender alguma coisa da origem brasileira?

JOE: Definitivamente a resposta é sim para ambas as perguntas. A cultura popular brasileira e sua música continuam sendo o elo mais forte para a história, identidade e consciência social do Brasil. Caetano Veloso canta sobre a história da Bahia, o horror da escravidão, a beleza de Itapuã.
Alcione e muitos outros cantam sobre as práticas religiosas e os orixás. Clara Nunes cantou sobre a história das três raças. Nos Estados Unidos, usamos muito pouco nossa rica cultura e tradição em nossa música popular. Americanos africanos são os responsáveis pelo desenvolvimento da maioria das músicas populares, desde o rock, blues, rap e gospel, muito pouco dessa tão rica tradição. A música latina nos Estados Unidos é dominada por artistas da América Latina. Eu penso que os artistas nos Estados Unidos poderiam se concentrar mais em nossa rica e tradicional cultura e em elos com a África e América Latina.

EVIRT: E o que o Brasil pode aprender através dos Estados Unidos?
JOE: Penso que nos Estados Unidos existe mais organização e esforços para se ser consciente da falta sobre as minorias no governo, corporações e inclusão das histórias e culturas das minorias nas escolas. Continuamos a ter um grande caminho a ser percorrido.
Outro fator é o tratamento para com os indígenas, que têm uma história de sangue não só aqui como no Brasil. Penso que a população indígena daqui está tendo muito mais oportunidades com demarcações de terras pelo governo federal do que a do Brasil. Talvez este seja o lado negativo da forte identidade nacional no Brasil e o que dificulta o reconhecimento do que é preciso para dar uma especial atenção aos grupos de minoria, que são os que mais precisam.

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