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EVIRT: Desde quando surgiu esse seu interesse pela
cultura brasileira e seus problemas raciais? JOE:
Bem, meu interesse começou pela música. Sou descendente de família mexicana (do
sudoeste dos Estados Unidos que foi parte do México e conquistado pelos americanos) e
tenho essa conexão latina e esse interesse pela música latina. Eu sempre tive muita
admiração pela cultura latina e principalmente pelo Brasil, e a única barreira
encontrada foi o idioma. Porém, quando finalmente fui introduzido na música brasileira,
pude me deleitar através do trabalho de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Milton
Nascimento, entre outros. Fiquei eletrizado com tanta beleza e poesia. Essa foi a chave
que abriu as portas e a necessidade de aprender mais sobre o Brasil. Também descobri que
é um pais multi-racial, assim como os Estados Unidos da América.
"No Brasil, também fui consciente
sobre o racismo com algumas particularidades contra os negros. Como por exemplo, alguns
poucos negros atuando em
televisão ou não tendo papéis de grande importância nas novelas".
EVIRT: Mas você aprendeu também que existem
muitas diferenças...
JOE: Sim. Nos Estados Unidos, fomos
proibidos de discriminar no final dos anos 60. Contudo, você vai descobrir que em nosso
país ainda existem divisões sobre esse fator em várias direções. Negros e Latinos
são os grupos pobres nesse país e por isso não têm muitos privilégios. É também
muito raro encontrarmos grupos de amigos ou casais com raças diferentes.
No Brasil, também fui consciente sobre o racismo com algumas particularidades contra os
negros. Como por exemplo, alguns poucos negros atuando em televisão ou não tendo papéis
de grande importância nas novelas. Mas a diferença entre os Estados Unidos e o Brasil
está nesse forte senso de identidade nacionalista dividida entre os brasileiros de todas
as raças. Todos eles dão a impressão de se considerar brasileiros acima de todas as
coisas. Já aqui nos Estados Unidos, as pessoas se identificam mais com sua raça ou o
passado étnico, como por exemplo Mexicanos-Americanos, Africanos-Americanos, Latinos,
antes de simplesmente dizerem que eles são americanos. No Brasil, notifiquei mais mistura
entre as raças em situações sociais. Sabendo-se que continua existindo, obviamente, o
controle dos brancos em todas as posições de poder.
EVIRT: Por que você pensa que essa é a diferença?
JOE: Penso que isso muito tem a ver com as
nossas diferentes histórias. Os Estados Unidos e Brasil dividem a mesma história de ter
trazido os negros escravos da África. A escravidão foi desumana e desprezível em ambos
os países. Mas parece que no Brasil eles cultivaram e permaneceram com a influência
africana em sua cultura, na língua, música e religião, muito mais arraigado que nos
Estados Unidos. Depois da escravidão, os Estados Unidos separaram e discriminaram os
negros abertamente por mais cem anos. E a outra diferença é que os Estados Unidos não
são um país latino. Eles conquistaram metade do México no final do século dezenove, o
que hoje é a Califórnia e o Sudoeste Americano, e então procederam com uma aberta
discriminação contra os latinos. Existiam restaurantes na cidade de minha mãe que
tinham placas avisando "É proibida a entrada de Mexicanos e Cachorros". E hoje
eles não podem discriminar abertamente contra os latinos, mas eles continuam
discriminando contra os imigrantes, com legislações que desencorajam a educação
bilingüe e a língua espanhola nas escolas, e a proposição 187 - que teve sua
anulação em corte - e diz que imigrantes ilegais não podem freqüentar escolas
públicas ou ter atendimento médico público (tudo isso porque viola os direitos
constitucionais dos imigrantes). No Brasil, você não tem esse tipo de discriminação
contra os latinos porque é um país latino.
EVIRT: Quer dizer então que você encontra
discriminação contra negros e latinos nos Estados Unidos ? Como esses grupos se
discriminam entre si e como isso acontece ?
JOE: Existem tempos de imensa cooperação
e também tempo de muita tensão. Durante a luta pelos direitos civis nos anos 60, latinos
e negros trabalharam juntos para lutar por chances na lei para a proibição da
discriminação nos empregos, educação, casas e lugares públicos. Negros e latinos
continuaram trabalhando juntos para lutar por uma ação afirmativa pelos direitos de
igualdades. Porém, eles também são tensos. Imigrantes latinos têm mudado para a
historicamente vizinhança negra porque eles são mais disponíveis e esse choque cultural
pode criar tensão. Alguns negros crêem que os latinos não têm o direito de estar aqui
porque aqui não é o seu país e os molestam quando falam espanhol em lugar do Inglês.
Porém, eles devem saber que os latinos estavam no Sudoeste do país por ciclos de
oportunidades. Também alguns negros percebem que os latinos estão roubando suas
posições de trabalho, o que, aliás, não está tão fácil porque muitos imigrantes
latinos trabalham em posições que ninguém quer fazer e por menos dinheiro que o
mínimo. Porém, isso não é tudo. O importante para negros e latinos é compreenderem
que estão brigando pelos farelos e têm obrigação de tentar obter a fatia maior da
torta.
EVIRT: Você pensa que é mais fácil conseguir uma
fatia maior da torta aqui do que no Brasil?
JOE: Sim, porque a situação econômica
aqui é muito melhor e isso faz, geralmente, com que as coisas se tornem mais fáceis.
Todavia, precisamos também compreender que ainda existem setores na economia que
continuam em grande depressão. Principalmente nas cidades do interior e de zona rural,
onde moram muitos latinos e negros pobres. Os negros têm passado bem atualmente, eu
penso, porque começaram em postos não muito privilegiados, como empregadas, lavadores de
pratos, trabalhadores braçais, isso há muito tempo atrás, mas têm trabalhado para
subir. Os latinos são os sucessores dos negros nestes postos, atualmente. Penso que os
Estados Unidos precisam tornar mais fácil essa situação, levantando a escada para esses
trabalhadores ou ajudá-los a começar seus próprios negócios. O governo também precisa
fazer corporações mais responsáveis e providenciar melhores benefícios e oportunidades
para os trabalhadores.
"Quanto mais escura a pele, maior
será a discriminação contra qualquer
pessoa por brancos, latinos ou até mesmo pelos próprios negros"
EVIRT: Você nos falou sobre o porquê dos negros
estarem ressentidos com os latinos nos Estados Unidos, mas qual a situação dos latinos
perante aos negros?
JOE: Novamente eles são exemplo de uma
cooperação maravilhosa e solidariedade, mas um terrível exemplo de racismo. Penso que
isso é verdade: quanto mais escura a pele, maior será a discriminação contra qualquer
pessoa por brancos, latinos ou até mesmo pelos próprios negros. Porém, eu não posso
negar que alguns latinos são racistas contra os negros. Isso é tão tolo porque latinos
geralmente são a mistura do Europeu ** (Espanhois), indígenas e também, em alguns
casos, de africanos. Especialmente entre os porto-riquenhos, cubanos e dominicanos que se
encontram por aqui, existem muitos negros latinos. O que já não é tão comum entre os
mexicanos, mas também existe. Com essa mistura, há famílias latinas que têm brancos,
morenos e negros em seu seio. Mas há muitos pais latinos rezando para que seus bebês
nasçam fora desse "guero" (que significa pele clara) ou "blanco" .
Todavia, o que devemos fazer é trabalhar com nossos irmãos e irmãs negros e juntos
celebrar nossa cultura. Como minorias neste país, é importante trabalharmos
unidos para melhorar as situações dos dois grupos.
EVIRT: Podem os brasileiros aprender alguma coisa com relação à raça
americana? Podem os americanos aprender alguma coisa da origem brasileira?
JOE: Definitivamente a resposta é sim
para ambas as perguntas. A cultura popular brasileira e sua música continuam sendo o elo
mais forte para a história, identidade e consciência social do Brasil. Caetano Veloso
canta sobre a história da Bahia, o horror da escravidão, a beleza de Itapuã.
Alcione e muitos outros cantam sobre as práticas religiosas e os orixás. Clara Nunes
cantou sobre a história das três raças. Nos Estados Unidos, usamos muito pouco nossa
rica cultura e tradição em nossa música popular. Americanos africanos são os
responsáveis pelo desenvolvimento da maioria das músicas populares, desde o rock, blues,
rap e gospel, muito pouco dessa tão rica tradição. A música latina nos Estados Unidos
é dominada por artistas da América Latina. Eu penso que os artistas nos Estados Unidos
poderiam se concentrar mais em nossa rica e tradicional cultura e em elos com a África e
América Latina.
EVIRT: E o que o Brasil pode aprender através dos Estados Unidos?
JOE: Penso que nos Estados Unidos existe mais organização e esforços
para se ser consciente da falta sobre as minorias no governo, corporações e inclusão
das histórias e culturas das minorias nas escolas. Continuamos a ter um grande caminho a
ser percorrido.
Outro fator é o tratamento para com os indígenas, que têm uma história de sangue não
só aqui como no Brasil. Penso que a população indígena daqui está tendo muito mais
oportunidades com demarcações de terras pelo governo federal do que a do Brasil. Talvez
este seja o lado negativo da forte identidade nacional no Brasil e o que dificulta o
reconhecimento do que é preciso para dar uma especial atenção aos grupos de minoria,
que são os que mais precisam.
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