EVIRT - ENTREVISTA
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Everaldo Lima d’Alverga Entrevista

jJulho 2001

Clóvis Scarpino 
Jornalista e Fotógrafo

Uma Lição de Vida

"A fotografia é o que o olho do cara vê, dentro de uma alimentação de luz e angulação e o cara tem que abrir a mente e a lente".

 

Aos 71 anos, 50 dos quais dedicado a profissão, Clóvis Scarpino, formado em Economia, Jornalista, documentarista, Fotógrafo e pesquisador do Samba, iniciou sua trajetória jornalística como repórter de rua, mas logo se rendeu aos encantos da fotografia. 
Em suas andanças pelo mundo do samba, conheceu Pixinguinha, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti e Silas de Oliveira, conviveu com Ismael Silva e muitos bambas do samba e da imagem.
Com exclusividade, concedeu ao também Jornalista e Fotógrafo Everaldo
d’Alverga, uma Entrevista onde o “papo” foi marcado pela total descontração e naturalidade, trazendo-nos fatos, curiosidades e acontecimentos que marcaram a história do jornalismo em nosso País, numa verdadeira aula de vida.

EVIRT: Não poderia deixar de fazer a pergunta óbvia e básica. Como é que você começou?

SCARPINO: Comecei no Jornal Metropolitano, jornal da UME, União Metropolitana do Estudante, que saía aos domingos no encarte do Diário de Notícias, aí eu comecei lá.

 EVIRT:Os Diários Associados eram do Assis Chateaubriand, não eram?

SCARPINO: Os Diários Associados eram.

 EVIRT: Como foi trabalhar para o primeiro grande poderoso da imprensa?

SCARPINO:  Conheci o Chateaubriand no O Cruzeiro, quando eu ia lá conversar com José Medeiros, o Indalécio Wanderlei e o Luiz Carlos Barreto. Ele tinha uma pinacoteca maravilhosa, o andar inteirinho e tal. Ele passava lá sempre ligeiro, apressadinho, andando como um corredor de carro, aquelas coisas. Mas a gente via ele lá no O Cruzeiro. Depois eu vi como embaixador. Dizem que melhor seria ele diretor; o Lacerda, o secretário; e o Samuel Wainer, o chefe de reportagem. Aí daria um jornalismo bom.

 EVIRT: Na história do jornalismo, os que mais movimentavam esta atividade eram o Lacerda, o Assis Chateaubriand e o Samuel Wainer. Seriam os três?

SCARPINO: O Chateaubriand já vinha por cima deles, Chateaubriand já tinha uma escala acima do Lacerda e do Samuel.

EVIRT: O Assis Chateaubriand não era pão-duro para pagar os profissionais?

SCARPINO: Não, não. Sabe por que? O Cruzeiro foi uma equipe profissional; tinha o Jean Mazon, tinha o David Nasser, o irmão do David Nasser que trabalhava lá, o Elias, tinha o Henri Ballot, tinha tudo. O Cruzeiro tinha tudo e o Chateaubriand mandava a turma viajar, os caras viajavam mesmo, muita viagem. No Amazonas, então, eles davam um banho.

EVIRT:O Indalécio falou uma vez que o fotógrafo do O Cruzeiro tinha prestígio, às vezes  onde entrava parecia que era o rei.

SCARPINO: Mas era o rei mesmo, você entende? Por isso que a Manchete formou uma equipe fabulosa e concorreu com O Cruzeiro. Aí veio o Nicolau Drai, Jader, Gervásio Batista e muita gente aí... O Gil Pinheiro, o Alberto Jacob e outros...

EVIRT: A Manchete já entrou concorrendo? A Manchete era do Adolfo Bloch, não é?

SCARPINO: Era. A Manchete começou e O Cruzeiro já estava no auge. Mas aí conseguiu alcançar e concorrer. Toda semana as duas revistas que vendiam mais eram Manchete e O Cruzeiro. Mas O Cruzeiro tinha uma vantagem, O Cruzeiro Internacional, que era bem feito também. Não sei porque acabou. Pegava a América Latina inteirinha. Muito bom e o fotógrafo de O Cruzeiro era famoso. Todo fotógrafo de O Cruzeiro era um cara que viajava muito; os outros viajavam menos. Depois os da Manchete começaram a viajar. Depois eu aprendi com as duas escolas. Tinha a turma do jornal, Correio da Manhã, Jornal do Brasil, depois veio a Última Hora, tinha o Diário Carioca. No começo que tinha uns caras bons lá, também, e assim foi indo. Aí apareceram as revistas e tal... Aí melhorou.

 EVIRT: Por que você resolveu ser fotógrafo? Começou já como fotógrafo?

SCARPINO: Não, eu trabalhei dez anos como repórter de rua. Não porque eu saía com todos os fotógrafos. Eles iam comigo e tal e nunca eu via na fotografia o que eu pensava. Nunca vinha aquilo que eu estava vendo. Eu olhava a foto e tal, foto bonita e tal, boa e tal... Mas, é claro, só pode vir a imagem que você imagina, quando você fotografa mesmo. Eu estava até iludido no pensamento. Então eu saía com Nicola (Nicolau Drei), Gervásio Batista, saía com Gil Pinheiro, saía com Erno Schneider. A gente fazia reportagem para o exterior com o Erno e o Jader Neves... O Dantas era redator do Time... Você entende? A gente, vez por outra, jogava, jogava e saía, saía lá no exterior. Mas eu nunca vi... A gente não ligava... Mas tudo investimento nosso, entende, mas a gente se conhecia. O fotógrafo antigamente tinha um relacionamento bom. Depois de uma cobertura de miss, ou qualquer coisa assim, a gente se encontrava ali no Leme. Você está entendendo? Uma maneira espetacular. Todo mundo brincava, conversava, tudo isso. Tinha muita comunicação. Você passava numa redação,  conversava com todo mundo. Hoje você nem entra numa redação. Chega lá, fulano vem cá!  Aí sentava lá, conversava, deixava o cara acabar o trabalho dele, descia junto, saía. Tinha um relacionamento muito grande. Esse relacionamento acabou. Hoje é difícil.

Mas aí, eu comecei bem no grupo dos grandes repórteres, grandes fotógrafos. O Jean Quiel... O Nicolau também era um excelente fotógrafo . Depois vinha... Era um bando deles. Tinha o Paulinho Namorado, que era primo do Indalécio, maravilhoso também, morreu jovem, com 33 anos. Tinha a turma de O Cruzeiro, o Zé Medeiros que é um gênio,.Zé Medeiros era um gênio. O Luiz Carlos Barreto estava lá. Tinha o Henri Ballot, espera aí... Pra lembrar é difícil... Tinha o Indalécio. O Indalécio era um cara que só fotografava mulher, mas bom fotógrafo também e... Mais quem?  Tem que lembrar, você entende? Mas era muita gente. O Jornal do Brasil tinha o Fernando Abrunhosa, que estava lá com o Erno (Erno Schneider), tinha o Pinheirinho, o Alberto Ferreira. Tinha mais quem no Jornal do Brasil? Eu ia lá por causa do Fernando Abrunhosa e do Erno. Aí conhecia todo mundo. O Diário Associado tinha o Campanella. Tinha aquela revista... Tinha aquela revista que concorria com a Manchete e O Cruzeiro... Como é que era o nome dela? Mundo Ilustrado, bonita revista também. E aí foi assim. Aí eu fui como repórter, eu fui olhando, olhando. Até que um dia peguei a máquina e fotografei. Fotografei e tal e dei uma capa. Dei uma sorte que eu dei uma capa.

 EVIRT: Qual foi a capa?

SCARPINO: Foi a garota de Ipanema. O Dines queria uma foto alegre para Fatos e Fotos, uma foto alegre. Eu escutei, fiquei quieto. Fim de ano. Queria abrir a edição do ano seguinte com uma foto alegre, aquela coisa toda. Aí nós... Eu via a turma sair, fim de ano, todo mundo lá... Copacabana Palace...  Aquele... Aí eu vi: não vai dar nada, esse negócio...  Antes eu fiz a garota de Ipanema, a Heloísa, que era minha amiga à beça... Ela pegou um pandeiro todo colorido e tal, chegou uma luz de janela bonita e ela tocando pandeiro na janela, você entende? Fotografei e tal... Aí nem tava ligando... Aí chegou lá,  um dia o Dines estava procurando foto pra dar capa alegre. Deu bronca em todo mundo. “Pôxa! Onde já se viu todos vocês aí na rua. Vinte caras e não trazerem uma foto alegre? Eu encomendei”, e tal. Aí eu falei assim:  -“Ô Dines, eu tenho uma foto aí.”

“De quem?” “Da garota de Ipanema” “Então traz”. Aí, quando ele viu: “OH!”. Naquela hora aliviou tudo, né? Publicou. A foto, ficou bonita e tudo. Aí, depois eu comecei fazer pra mim mesmo. Fazia... Aí fui fazendo e aí eu caí no samba e ia fotografando pra mim e ia guardando. Conheci a Neuma, conheci a casa da Neuma, aí comecei. Conheci todo mundo da Mangueira. Todos os compositores, o Cachaça, Cartola, Xangô, Preto Rico, Darcy da Mangueira, o Chiquinho, inúmeros. O Pelado, Lecy Brandão, quando chegou mais tarde conheci toda a ala de compositores. Toda ala de compositores eu ia e conhecia os compositores. Assim foi na Vila, assim foi no Império. Eu era amigo do Silas. Toda semana eu conversava com o Silas de Oliveira e ali eu conheci todo mundo do Império. O Aluízio Machado e o resto, todo do Império. Aí eu fui... Assim foi no Salgueiro, ia lá e conheci o Nescarzinho, o Andrade, que era o presidente, era amigo do Nescarzinho, então conheci todo mundo lá. O Noel Rosa de Oliveira, que era parceiro do Nescarzinho, o Djalma Sabiá, toda turma do Salgueiro. Conheci o Cabana, que era da Portela. Da Portela, então, conheci o Cabana, o Candeia, Zé Kéti, o Casquinha, um grupo imenso também. Foi assim... E fui conversando com a velha guarda; Mano Elói, que era mestre do Império, eu me informava com o velho China, conheci o China, fundador da Vila. Da música popular eu conheci todo mundo e fui fotografando e guardando pra mim. Tá certo? Fotografei também o livro do Haroldo Costa sobre o Salgueiro.

EVIRT: Quer dizer que a sua estréia como fotógrafo foi com uma capa. Qual o veículo?

SCARPINO: Fatos e Fotos, com a garota de Ipanema. Aí, depois eu dei outra capa no Museu da Imagem e do Som, que eu peguei um prato e uma faca e pus um cara fazendo ritmo na mão, com uma caixa com fósforo. Aí eu recebi um elogio do Efegê, que o Efegê era pesquisador. Toda semana eu conversava com o Efegê, com o Almirante, entende? Depois, no cinema, eu fiquei com o Alex Vianna. Raimundo Magalhães Júnior, Joel Silveira. Comecei a pesquisar com Raimundo Magalhães Júnior, ele me pediu pra buscar a certidão de nascimento do Machado de Assis, em uma Igreja em S. Cristóvão. Fui a primeira vez, não consegui; a segunda, não; na terceira, eu trouxe. Ele ficou todo feliz, animado e tal, quando ele viu a certidão do Machado, que ele era Machadófilo. Foi por aí... E assim foram acontecendo as coisas normalmente... Tudo normalmente.

 EVIRT: Essa certidão do Machado de Assis foi parar onde?

SCARPINO: AH! Dei pro Raimundo, na mão do Raimundo. Tem uma igreja... Eu nem me lembro, fui em três igrejas lá, foi uma delas, agora eu não me lembro qual é. Depois o Raimundo publicou. Raimundo era pesquisador, acadêmico, um bruta de um redator. O pai da Rosa Magalhães. Tudo que a Rosa tem, essas coisas, o Raimundo tinha essas pastas em casas e guardava. Um bruta de um pesquisador...


EVIRT:: Você teve algum professor de fotografia que levasse para o laboratório, que ensinasse a revelar? Composição?

SCARPINO: Eu aprendi a revelar no Instituto Nacional do Cinema com o Zequinha Mauro, filho do Humberto Mauro. Que tem dois caras que eu... Dois fotógrafos, o Zequinha Mauro é filho do Humberto, também é diretor de fotografia e o outro era o Mário Rocha, que era do Metropolitano também. Sabem tudo sobre cinematografia e fotografia, mas tudo, tudo, tudo, tudo...

O Zequinha e o Mário Rocha. Não é esse Mário Rocha de música, não, o Mário Rocha é outro. Parece com o Zagalo, é a cara do Zagalo. O Mário era um cara esperto. O Mário fazia Filosofia, deixou o 2º ano de Filosofia naquela época para ser fotógrafo. O Zequinha deixou de ser engenheiro, deixou o 2º ano de engenharia para trabalhar com os filmes do pai, ficar nos filmes do pai. Fazia tudo no Instituto Nacional do Cinema, nos filmes educativos, o Zequinha fazia tudo.Eu trabalhei com o Zequinha uns dez anos. Aí eu via tudo. Eles fazendo, aquele negócio todo. Mas eu nunca me dediquei ao laboratório não, porque se eu fosse para o laboratório, eu ia pegar gosto pelo laboratório, ia deixar de ser repórter. Isso acontecia, como aconteceu com muita gente. E aí eu conversava muito com Fernando Abrunhosa, irmão do Orlandinho Abrunhosa, que também era outro cara bamba no negócio. Depois eu vim conhecer os Francesqui, os dois irmãos gêmeos também, maravilhosos. O Francisco Alaor Barreto, meu professor da História do exército da borracha, dos seringueiros da Amazônia. O Alaor Barreto, pai do Alaorzinho, que foi editor de fotografia do Jornal do Brasil, me contou tudo sobre isso. O Alaor Barreto pai, né, não é o filho não. Aí com os mestres, com o Nicolau Drey, aí eu conversei com essa turma, que tinha 30, 40 anos de fotografia. Tinham fotografado na Europa toda, estavam no Brasil, uns caras maravilhosos. Então batia esse papo, a gente aprendia... Só discussão de fotografia. Ficávamos 10 horas por dia discutindo fotografia. Jantava e almoçava com fotografia.

EVIRT: Nós sabemos que o jornalismo remunera mal, mas mesmo assim as pessoas insistem em trabalhar nesse ramo da fotografia. Existe alguma explicação para isso?

SCARPINO: O que existe é o seguinte: é que o cara gosta de ser repórter. Porque o repórter fotográfico ele não é só fotógrafo, é diferente... É vocação.

 EVIRT: Você antes de ser fotógrafo...

SCARPINO: ... era repórter. Só que eu fui repórter de polícia de revista. Não era todo dia, não.

 EVIRT: Qual revista?

SCARPINO: Manchete, Fatos e Fotos. Então eu publicava assim... E toda reportagem policial lá eu fazia, eu ia com o Gervásio... Eu  e o Gervásio, de um modo geral. A gente ia e fazia. Mas sempre era uma reportagem que já tinha uma  repercussão, como eu fiz daquele paraibinha. O cara que assaltava no Corcovado, por ali e tudo. Nós fizemos e tal... uma porção de coisas... E aí você vai passando... Fiz também foto de cena apoiado pelos diretores do cinema brasileiro Hélio Silva, José Medeiros e Dib Lufti. Fiz também direção de documentários. E aí fui indo, fui fazendo.. Mas sempre ligado ao samba. Eu fotografei todo o depoimento do Museu. Eu fotografava, então eu acabei assistindo o depoimento do Museu. Eu arregimentava, eu fazia a produção do... do depoimento do Museu, dos depoentes. Você entende? Aí  eu então ia buscar o cara em casa, se fosse o Pixinguinha, se fosse o Donga, se fosse o Jacó do Bandolim, se fosse o Lupércio Miranda, se fosse Ataulfo Alves, se fosse o Ismael, que fosse... Porque sempre tinha quatro ou cinco amigos deles pra perguntar, lá no depoimento deles; “se lembra?” Pra ajudar o cara. Aí eu fiz arquitetura; fui fazendo arquitetura porque tinha depoimento de tudo... Arquitetura, depois tinha de literatura, aí eu fui conhecendo esse lado todo. Mas sempre como uma escola de aprendizado. Eu, tudo que usei, eu usei como aprendizado.


Registro Histórico de Scarpino - Ramos (RJ) - 31/03/64

"Levei então o Chico Buarque lá na casa do Pixinguinha, em Ramos, e o João da Baiana e o Tom Jobim".

Tom Jobim, Pixinguinha, João da Baiana e Chico Buarque.


EVIRT: Você falou na ARFOC. Quem... A ARFOC surgiu por que? Da necessidade dos fotógrafos...

SCARPINO: A ARFOC foi essa turma que fez aí... O Ângelo Gomes, o Ângelo Regato, o Jader Neves, uma turma que tinha aí... Muito mais gente... O Estrela... A ARFOC foi fundada pelos caras que cobriam futebol, né... Então eles se organizaram e tal... A ARFOC tem 55 anos e 1.200 sócios... A ARFOC tem toda memória... A memória carioca, todo o acontecimento carioca  e fora também. O Jader, por exemplo, é um cara que viajou com oito presidentes da República. A ARFOC tem também o repórter cinematográfico... Que não é mais a imagem estática, é a imagem em movimento. Francisco Tortura, do Canal 100, por exemplo, fotografou todas as  copas do mundo e todos os dribles do Garrincha e do Pelé.  

Tem mil coisas. É que o fotógrafo em si, o repórter fotográfico...Falaram, puseram na cabeça, puseram na nossa cabeça, na época, que o cara não podia aparecer. “Pô, quem faz não pode aparecer”. Só apareciam os outros, menos a gente. Pô, então você respeitava aquilo: não, eu não posso aparecer. Então eu, que fotografei o Pixinguinha de tudo que é jeito, não tenho uma foto minha com o Pixinguinha. Uma vez eu estava... Fiz uma reportagem com... Levei então o Chico Buarque lá na casa do Pixinguinha, em Ramos, e o João da Baiana e o Tom Jobim. Nós estávamos lá e tudo... O Francisco Tortura: “Quer tirar uma foto sua com ele?” Eu? Não, não posso... Não tirei, pô. Perdi uma chance de ter uma foto com o Pixinguinha, né... Perdi a chance... Mas, aí... E assim foi indo... Eu escrevo, fotografo e faço pesquisa, no fundo são três coisas; fotografia, pesquisa e o texto.

EVIRT: Qual a dificuldade pra fazer e desenvolver esse trabalho que você teve no samba?

SCARPINO: Não, o problema teria... Eu, por exemplo, assim... Teria que fazer um projeto e levar para alguém que daria certo... Que daria certo... mas eu sou meio preguiçoso mental nesse sentido ainda... e tou relaxando, tou relaxando e tal... Eu já colaborei assim... Colaboração minha em livro tem um bando. Silas de Oliveira, Paulo da Portela, Fala Mangueira. Eu fui lá com o Cachaça e o Cachaça contou pra mim assim: “Olha, eu gostaria de fazer um trabalho sobre o morro, sobre a escola. Aquilo bateu no meu ouvido e eu fiquei... Aí eu tinha feito o livro do Paulo da Portela, que a Lígia, filha do Donga, me apresentou a dois bons pesquisadores da música popular brasileira, que eram Professores de Língua Portuguesa do Colégio Pedro II, a Marília Trindade e o Arthur de Oliveira. Aí, na José Olympio eu conheci o Ivan Proença... Aí eu conheci ele e ele tinha sido criado na Visconde de Niterói, na Mangueira e tal... aí eu falei vamos fazer e tal. Aí eu peguei a Marília e o Arthur, nós trabalhamos vinte dias e fizemos o FALA MANGUEIRA. Ele tem 60 fotos.

E tem um negócio maluco, o livro tem 60 fotos, era pra ter seis. Puseram lá um diagramador na época que não conhecia nada. Ele dividiu lá duas, três páginas para por as fotografias: “Não, não. É por capítulo.” Aí, cada capítulo eu encaixava o máximo de fotos. Encaixei 60... He, he, he...

O Livro Fala Mangueira aí. Tá esgotado, eu não tenho nenhum ainda... Mas é uma beleza.



"Eu já vi disco aí com trinta fotos do Noel Rosa que não têm o nome de um fotógrafo. Portanto, que o maior fotógrafo brasileiro é o arquivo. 
O arquivo é o mais famoso deles e agora é o fotojornalista chamado divulgação".  



EVIRT: Comparando aquele equipamento com o de hoje, aqueles eram...

SCARPINO: Eram mais pesados. Era outra coisa... A turma do Instituto Nacional do Cinema... O Zequinha Mauro é que conta, filho do Humberto Mauro, porque o Zequinha Mauro sabe tudo sobre fotografia e cinematografia. Em primeiro... Tudo caixote. Eu levava... Era emulsão de vidro. De emulsão de vidro tem fotógrafos gênios, que são o Malta e o Marc Ferrez. Quer dizer, uma complicação tremenda... Pro sujeito fazer uma fotografia lá do Pão de Açúcar, era um negócio... Você tinha que ir pra lá, esperar, aquele negócio todo. Aí apareceu a 35 mm, houve aquela evolução e o tamanho... Porque com a 35 mm você publicava... Aquilo que eu te falei, uma foto deixou de ser tapa buraco, ficou um tapa buracão. Mas na revista, moda, não usava mais a foto como tapa buraco, usava a foto mesmo como ilustração. Aí tem essas coisas... E a fotografia foi crescendo assim... Hoje em dia você... E na fotografia é engraçado... Na nossa faixa tem repórter fotográfico, por exemplo: eu sou economista. Tem o Chico Nélson. O Chico Nélson é um fotógrafo... Chico Nélson é um cientista político... Tem fotógrafo arquiteto, tem fotógrafo engenheiro. O Alcyr Cavalcante, presidente da ARFOC, por exemplo, é um cara formado em Filosofia, está fazendo Antropologia. Quer dizer, a cultura do fotógrafo é ampla. Você está entendendo? E o jornalista de texto nunca sacou isso. O jornalista de texto sempre achou que o texto que era bom. Inclusive negava até o crédito da gente. Ele não dava o crédito e tal...  Porque não sabia quem era e não ia pesquisar nem nada, essas coisas... O crédito e essas coisas aí começaram a aparecer com a turma de O Cruzeiro e, mais tarde, com a criação do setor de pesquisa do Jornal do Brasil, hoje existente em todos os jornais. Tinha que ter o crédito... Era tudo burlado... Eu já vi disco aí com trinta fotos do Noel Rosa que não têm o nome de um fotógrafo. Portanto, que o maior fotógrafo brasileiro é o arquivo. O arquivo é o mais famoso deles e agora é o fotojornalista chamado divulgação.

EVIRT: O primeiro Jornal que começou a dar crédito aos fotógrafos, ali em cima na fotografia, foi o Jornal do Brasil?

SCARPINO: Eu não lembro, isso eu tenho que pesquisar. Eu sei que o Samuel fez uma façanha...

 EVIRT: Na Última Hora?

SCARPINO: Na Última Hora. Quando o cara saía... O carro saía, o repórter saía sempre na frente, sentado no jipe, na frente. O Samuel mudou, pôs o repórter sentado atrás  e o fotógrafo na frente pro fotógrafo chegar primeiro em qualquer situação. Mudou isso, Samuel que mudou isso e aí... Outra coisa... Quando eu era repórter, eu fiquei dez anos repórter, a turma falava assim pra mim... O jornalista... O jornalista de texto; “Ah! Vai sozinho, depois o fotógrafo chega lá. Deixa o fotógrafo chegar”. Eu queria sair com o fotógrafo, os caras falavam “não”. Mas eu, teimoso, saía. Aí eu saía com os caras. Era tudo igual, a mesma coisa. Você vê que o próprio fotógrafo era discriminado na redação. Bom... O Luiz Bueno... O Luiz Bueno, ele foi o primeiro fotógrafo a ser contratado no Correio da Manhã. Ele era amigo do Carlos Lacerda. O pai dele tinha sido fotógrafo da família do Lacerda e aí o Lacerda pediu pra ele ser contratado. O fotógrafo era pra buscar... “Vai lá limpar esse cinzeiro aqui.”, “Vai lá jogar esse cafezinho lá fora.”, “Vai lá fazer isso.” Fotógrafo era tratado assim...

Aí o Lacerda mandou legalizar o Luiz Bueno. Aí o diretor administrativo não quis. Não sei o que lá e tal... Aí o Bueno foi lá e “Pô, Lacerda o cara não quer me legalizar”. O Lacerda foi lá, deu uma bronca, o cara legalizou e estava aí o primeiro fotógrafo legalizado e tudo. Com Carteira Profissional. O Luiz Bueno, aquela figura maravilhosa...

EVIRT: O primeiro fotógrafo legalizado foi na Tribuna da Imprensa com...

SCARPINO: NÃO! Correio da Manhã com o Luiz Bueno. E o Luiz fotografava para o Correio, aquela folha Burrico, aí fotografava tudo. Tinha uma coluna Burrico, tinha uma foto e um texto, ele fazia tudo isso. Tinha tudo isso. Tinha mais coisa. Tem uma cena dele maravilhosa, era com o Presidente da República Washington Luis. Washington Luis apertado com a bexiga... Procurou um lugar pra fazer xixi e tal e foi atrás de uma árvore fazer um xixi, né... Antes do início de um comício e tal... apertado, foi lá. Aí o Hélio viu, foi lá e fotografou.OH! O Presidente da República fazendo xixi é uma boa, né... Fotografou... Aí os caras, os guardas chegaram e tiraram dele... Tiraram a máquina dele e tal e aí seguraram, ele ficou triste querendo falar com o chefe da guarda. Ficaram segurando e tal, aí houve um tumulto lá, de repente assim... o cara fazendo a segurança do Presidente. Aí o cara disse; “Segura essa máquina aqui”. E saíram de novo e deram a máquina pra ele mesmo e ...ih, ih... ele saltou fora...

EVIRT: Essa foto ainda existe?

SCARPINO: Ele tinha... Agora eu não sei, entende? Ele se safou e ainda conseguiu levar a foto. E as coisas foram acontecendo assim... Você entende? Tudo normal, tudo, tudo. E a música, onde tinha um pagode pra eu ir lá, eu tava lá, era convidado e tal...

lEVIRT: Hoje, com o avanço tecnológico, esses equipamentos são bem mais leves, mais eficientes, com foco automático e outras coisas que nós podemos programar a máquina e ela faz praticamente tudo...

SCARPINO: É... A gente não faz mais nada... Mas a gente continua apertando botão.

EVIRT: É... Existe alguma restrição sua com esses novos equipamentos?

SCARPINO: Não. Fica tudo mais fácil para o cara, né. Então tem menos criatividade. Fica mais fácil e depois aquele problema... Se o fotógrafo, qualquer fotógrafo, se está interessado em fazer a foto, ele tem que sair do registro, que a maioria agora é o registro. Se você está trabalhando para o jornal, você quer o registro. Mas quando ele quer fazer a foto dele... Que eu sempre aconselhava, todo mundo. Falava assim para essa turma: Olha vai, leva a sua máquina e tira a sua foto na jogada. Se interessar a você estar fotografando o presidente da república, se interessar, você faz a foto e guarda pra você. Nunca ninguém fez isso. Eu falava pra qualquer um deles, qualquer assunto que você vai cobrir, se fosse um assunto interessante, então você fazia a foto e guardava pra você. Entende? Então você tinha o seu arquivo. Mas nunca ninguém fez isso. Todos os arquivos deles ficaram perdidos nos jornais, os jornais... Acabou o Correio da Manhã, hoje em dia você não sabe onde estão as coisas... e ficou por aí... Mas um arquivo de um jornal vale uma fortuna, feito por vinte fotógrafos. Vale milhões e o fotógrafo não tem nada lá...As agências é que... Agora quem tem cabeça guarda os negativos.

EVIRT: Você acha que com essas novas tecnologias, com essas facilidades, mudou a maneira de fotografar? Houve uma influencia significativa na linguagem fotográfica?


" Todo fotógrafo é um poeta. Ele já sai com a mente de poeta".


SCARPINO: Não. Não, é porque é assim... Por incrível que pareça, o fotógrafo tem que ter vocação. Primeiro ele tem que ser um cara assim, que ele enxerga o belo, não enxerga o defeituoso. Ele vai enxergando o belo sempre. Ele vai sempre enxergando a coisa alegre, a coisa... Você entende? Todo fotógrafo é um poeta. Todo fotógrafo é um poeta. Ele já sai com a mente de poeta. O beija-flor bonito lá, ele vai e fotografa. Vê uma janela bonita fala; “Que janela bonita!” Vai e fotografa. Ele já é poeta. Todo fotógrafo é poeta, não deixa de ser. Até no cadáver ele é poeta. Fotografando um defunto ele é poeta. Você entende? Então é isso. O cara já tem uma vocação de poesia mesmo, de visual, essas coisas. Se não, não dá. Primeiro você abre a mente, depois você abre a lente, aí que dá fotografia. Mas o fotógrafo é um poeta, não tenha dúvida. Todo colega meu fotógrafo eu sei que ele é poeta.

EVIRT: Scarpino foi bacana a gente bater esse papo. Agora eu queria saber quais os fotógrafos que você admira e em quais se inspirou. Basta dizer um, mas você pode citar vários se quiser e depois pra dar seqüência a esse nosso trabalho. Quem você indicaria de uma forma mais imediata...

SCARPINO: Com quem eu trabalhei na Manchete, por exemplo. Eu vou falar com quem eu trabalhei, que eu era repórter, saí com os caras, fui dez anos repórter de rua, então eu tinha o Nicolau Dray, o Jean Quiel, tem o Jader Neves, o Gervásio Batista, o Gil Pinheiro, o pai do Jacob, o Alberto Jacob, o que eu estou lembrando assim no momento... O Alaor já foi diferente... O Erno Schneider, que já fazia trabalho diferente na Manchete, mas o Schneider foi editor de fotografia no Globo, no Jornal do Brasil, com o Alberto Ferreira, por exemplo. O Luiz Carlos Barreto, o Zé Medeiros, o Zé Medeiros eu sou coruja dele, você esta entendendo? O Zé Medeiros foi um cara que... No cinema... Ele era diretor... Uma vez ele brincou comigo e “Vem cá, fica uma semana comigo que eu vou te dar todos os meus diafragmas”. (risadas) Por que eu era da Embrafilme, ia lá, fotografava a equipe, a equipe técnica e então o Zé brincava comigo assim. Mas era meu amigo desde O Cruzeiro. Maravilhoso! O Zé tinha uma cultura... A cultura do fotógrafo também influi, por exemplo. A cultura do Zé Medeiros é muito mais alta que a do Sebastião. O Zé Medeiros tem um livro, “O Poeta da Luz”. Ele tem umas fotos deitado pra santo lá, o pessoal deitado pra santo lá que é maravilhoso. Estupidamente maravilhoso! O livro está aí, o “Poeta da Luz”, na FUNARTE tem e tal. Depois ele foi ser diretor de fotografia do cinema brasileiro e conseguiu ser diretor de cinema também.

EVIRT: Você tem alguma coisa a dizer, pra acrescentar, que a gente não falou?

SCARPINO: Não, eu acho que o fotógrafo... Aquilo que eu te falei, tem que usar... A fotografia é o que o olho do cara vê, dentro de uma alimentação de luz e angulação e o cara tem que abrir a mente e a lente. 


 Clóvis Scarpino, Ismael Silva e Zé Kéti estão no Curta metragem: Noitada do Samba - realizado no Teatro Opinião 
com os grandes Compositores Cariocas. Direção de Clóvis Scarpino e Carlos Tourinho. 


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