|
EVIRT:
Não poderia deixar de fazer a pergunta óbvia e básica. Como é que você
começou?
SCARPINO:
Comecei no Jornal Metropolitano, jornal da UME, União Metropolitana do
Estudante, que saía aos domingos no encarte do Diário de Notícias, aí
eu comecei lá.
EVIRT:Os
Diários Associados eram do Assis Chateaubriand, não eram?
SCARPINO:
Os Diários Associados eram.
EVIRT:
Como foi trabalhar para o primeiro grande poderoso da imprensa?
SCARPINO:
Conheci o Chateaubriand no O Cruzeiro, quando eu ia lá
conversar com José Medeiros, o Indalécio Wanderlei e o Luiz Carlos
Barreto. Ele tinha uma pinacoteca maravilhosa, o andar inteirinho e tal.
Ele passava lá sempre ligeiro, apressadinho, andando como um corredor de
carro, aquelas coisas. Mas a gente via ele lá no O Cruzeiro. Depois eu vi
como embaixador. Dizem que melhor seria ele diretor; o Lacerda, o secretário;
e o Samuel Wainer, o chefe de reportagem. Aí daria um jornalismo bom.
EVIRT:
Na história do jornalismo, os que mais movimentavam esta atividade eram o
Lacerda, o Assis Chateaubriand e o Samuel Wainer. Seriam os três?
SCARPINO:
O Chateaubriand já vinha por cima deles, Chateaubriand já tinha uma
escala acima do Lacerda e do Samuel.
EVIRT:
O Assis Chateaubriand não era pão-duro para pagar os profissionais?
SCARPINO:
Não, não. Sabe por que? O Cruzeiro foi uma equipe profissional; tinha o
Jean Mazon, tinha o David Nasser, o irmão do David Nasser que trabalhava
lá, o Elias, tinha o Henri Ballot, tinha tudo. O Cruzeiro tinha tudo e o
Chateaubriand mandava a turma viajar, os caras viajavam mesmo, muita
viagem. No Amazonas, então, eles davam um banho.
EVIRT:O
Indalécio falou uma vez que o fotógrafo do O Cruzeiro tinha prestígio,
às vezes onde entrava
parecia que era o rei.
SCARPINO:
Mas era o rei mesmo, você entende? Por isso que a Manchete formou uma
equipe fabulosa e concorreu com O Cruzeiro. Aí veio o Nicolau Drai,
Jader, Gervásio Batista e muita gente aí... O Gil Pinheiro, o Alberto
Jacob e outros...
EVIRT:
A Manchete já entrou concorrendo? A Manchete era do Adolfo Bloch, não é?
SCARPINO:
Era. A Manchete começou e O Cruzeiro já estava no auge. Mas aí
conseguiu alcançar e concorrer. Toda semana as duas revistas que vendiam
mais eram Manchete e O Cruzeiro. Mas O Cruzeiro tinha uma vantagem, O
Cruzeiro Internacional, que era bem feito também. Não sei porque acabou.
Pegava a América Latina inteirinha. Muito bom e o fotógrafo de O
Cruzeiro era famoso. Todo fotógrafo de O Cruzeiro era um cara que viajava
muito; os outros viajavam menos. Depois os da Manchete começaram a
viajar. Depois eu aprendi com as duas escolas. Tinha a turma do jornal,
Correio da Manhã, Jornal do Brasil, depois veio a Última Hora, tinha o
Diário Carioca. No começo que tinha uns caras bons lá, também, e assim
foi indo. Aí apareceram as revistas e tal... Aí melhorou.
EVIRT:
Por que você resolveu ser fotógrafo? Começou já como fotógrafo?
SCARPINO:
Não, eu trabalhei dez anos como repórter de rua. Não porque eu saía
com todos os fotógrafos. Eles iam comigo e tal e nunca eu via na
fotografia o que eu pensava. Nunca vinha aquilo que eu estava vendo. Eu
olhava a foto e tal, foto bonita e tal, boa e tal... Mas, é claro, só
pode vir a imagem que você imagina, quando você fotografa mesmo. Eu
estava até iludido no pensamento. Então eu saía com Nicola (Nicolau
Drei), Gervásio Batista, saía com Gil Pinheiro, saía com Erno
Schneider. A gente fazia reportagem para o exterior com o Erno e o Jader
Neves... O Dantas era redator do Time... Você entende? A gente, vez por
outra, jogava, jogava e saía, saía lá no exterior. Mas eu nunca vi... A
gente não ligava... Mas tudo investimento nosso, entende, mas a gente se
conhecia. O fotógrafo antigamente tinha um relacionamento bom. Depois de
uma cobertura de miss, ou qualquer coisa assim, a gente se encontrava ali
no Leme. Você está entendendo? Uma maneira espetacular. Todo mundo
brincava, conversava, tudo isso. Tinha muita comunicação. Você passava
numa redação, conversava
com todo mundo. Hoje você nem entra numa redação. Chega lá, fulano vem
cá! Aí sentava lá,
conversava, deixava o cara acabar o trabalho dele, descia junto, saía.
Tinha um relacionamento muito grande. Esse relacionamento acabou. Hoje é
difícil.
Mas
aí, eu comecei bem no grupo dos grandes repórteres, grandes fotógrafos.
O
Jean Quiel... O Nicolau também era
um excelente fotógrafo . Depois vinha... Era um bando deles. Tinha o
Paulinho Namorado, que era primo do Indalécio, maravilhoso também,
morreu jovem, com 33 anos. Tinha a turma de O Cruzeiro, o Zé Medeiros que
é um gênio,.Zé Medeiros era um gênio. O Luiz Carlos Barreto estava lá.
Tinha o Henri Ballot, espera aí... Pra lembrar é difícil... Tinha o
Indalécio. O Indalécio era um cara que só fotografava mulher, mas bom
fotógrafo também e... Mais quem? Tem
que lembrar, você entende? Mas era muita gente. O Jornal do Brasil tinha
o Fernando Abrunhosa, que estava lá com o Erno (Erno Schneider), tinha o
Pinheirinho, o Alberto Ferreira. Tinha mais quem no Jornal do Brasil? Eu
ia lá por causa do Fernando Abrunhosa e do Erno. Aí conhecia todo mundo.
O Diário Associado tinha o Campanella. Tinha aquela revista... Tinha
aquela revista que concorria com a Manchete e O Cruzeiro... Como é que
era o nome dela? Mundo Ilustrado, bonita revista também. E aí foi assim.
Aí eu fui como repórter, eu fui olhando, olhando. Até que um dia peguei
a máquina e fotografei. Fotografei e tal e dei uma capa. Dei uma sorte
que eu dei uma capa.
EVIRT:
Qual foi a capa?
SCARPINO:
Foi a garota de Ipanema. O Dines queria uma foto alegre para Fatos e
Fotos, uma foto alegre. Eu escutei, fiquei quieto. Fim de ano. Queria
abrir a edição do ano seguinte com uma foto alegre, aquela coisa toda. Aí
nós... Eu via a turma sair, fim de ano, todo mundo lá... Copacabana
Palace... Aquele... Aí eu
vi: não vai dar nada, esse negócio... Antes
eu fiz a garota de Ipanema, a Heloísa, que era minha amiga à beça...
Ela pegou um pandeiro todo colorido e tal, chegou uma luz de janela bonita
e ela tocando pandeiro na janela, você entende? Fotografei e tal... Aí
nem tava ligando... Aí chegou lá, um
dia o Dines estava procurando foto pra dar capa alegre. Deu bronca em todo
mundo. “Pôxa! Onde já se viu todos vocês aí na rua. Vinte caras e não
trazerem uma foto alegre? Eu encomendei”, e tal. Aí eu falei assim:
-“Ô Dines, eu tenho uma foto aí.”
“De
quem?” “Da garota de Ipanema” “Então traz”. Aí, quando ele
viu: “OH!”. Naquela hora aliviou tudo, né? Publicou. A foto, ficou
bonita e tudo. Aí, depois eu comecei fazer pra mim mesmo. Fazia... Aí
fui fazendo e aí eu caí no samba e ia fotografando pra mim e ia
guardando. Conheci a Neuma, conheci a casa da Neuma, aí comecei. Conheci
todo mundo da Mangueira. Todos os compositores, o Cachaça, Cartola, Xangô,
Preto Rico, Darcy da Mangueira, o Chiquinho, inúmeros. O Pelado, Lecy
Brandão, quando chegou mais tarde conheci toda a ala de compositores.
Toda ala de compositores eu ia e conhecia os compositores. Assim foi na
Vila, assim foi no Império. Eu era amigo do Silas. Toda semana eu
conversava com o Silas de Oliveira e ali eu conheci todo mundo do Império.
O Aluízio Machado e o resto, todo do Império. Aí eu fui... Assim foi no
Salgueiro, ia lá e conheci o Nescarzinho, o Andrade, que era o
presidente, era amigo do Nescarzinho, então conheci todo mundo lá. O
Noel Rosa de Oliveira, que era parceiro do Nescarzinho, o Djalma Sabiá,
toda turma do Salgueiro. Conheci o Cabana, que era da Portela. Da Portela,
então, conheci o Cabana, o Candeia, Zé Kéti, o Casquinha, um grupo
imenso também. Foi assim... E fui conversando com a velha guarda; Mano Elói,
que era mestre do Império, eu me informava com o velho China, conheci o
China, fundador da Vila. Da música popular eu conheci todo mundo e fui
fotografando e guardando pra mim. Tá certo? Fotografei também o livro do
Haroldo Costa sobre o Salgueiro.
EVIRT:
Quer dizer que a sua estréia como fotógrafo foi com uma capa. Qual o veículo?
SCARPINO:
Fatos e Fotos, com a garota de Ipanema. Aí, depois eu dei outra capa no
Museu da Imagem e do Som, que eu peguei um prato e uma faca e pus um cara
fazendo ritmo na mão, com uma caixa com fósforo. Aí eu recebi um elogio
do Efegê, que o Efegê era pesquisador. Toda semana eu conversava com o
Efegê, com o Almirante, entende? Depois, no cinema, eu fiquei com o Alex
Vianna. Raimundo Magalhães Júnior, Joel Silveira. Comecei a pesquisar
com Raimundo Magalhães Júnior, ele me pediu pra buscar a certidão de
nascimento do Machado de Assis, em uma Igreja em S. Cristóvão. Fui a
primeira vez, não consegui; a segunda, não; na terceira, eu trouxe. Ele
ficou todo feliz, animado e tal, quando ele viu a certidão do Machado,
que ele era Machadófilo. Foi por aí... E assim foram acontecendo
as coisas normalmente... Tudo normalmente.
EVIRT:
Essa certidão do Machado de Assis foi parar onde?
SCARPINO:
AH! Dei pro Raimundo, na mão do Raimundo. Tem uma igreja... Eu nem me
lembro, fui em três igrejas lá, foi uma delas, agora eu não me lembro
qual é. Depois o Raimundo publicou. Raimundo era pesquisador, acadêmico,
um bruta de um redator. O pai da Rosa Magalhães. Tudo que a Rosa tem,
essas coisas, o Raimundo tinha essas pastas em casas e guardava. Um bruta
de um pesquisador... |
EVIRT:: Você teve algum professor
de fotografia que levasse para o laboratório, que ensinasse a revelar?
Composição?
SCARPINO:
Eu aprendi a revelar no Instituto Nacional do Cinema com o Zequinha Mauro,
filho do Humberto Mauro. Que tem dois caras que eu... Dois fotógrafos, o
Zequinha Mauro é filho do Humberto, também é diretor de fotografia e o
outro era o Mário Rocha, que era do Metropolitano também. Sabem tudo
sobre cinematografia e fotografia, mas tudo, tudo, tudo, tudo...
O
Zequinha e o Mário Rocha. Não é esse Mário Rocha de música, não, o Mário
Rocha é outro. Parece com o Zagalo, é a cara do Zagalo. O Mário era um
cara esperto. O Mário fazia Filosofia, deixou o 2º ano de Filosofia
naquela época para ser fotógrafo. O Zequinha deixou de ser engenheiro,
deixou o 2º ano de engenharia para trabalhar com os filmes do pai, ficar
nos filmes do pai. Fazia tudo no Instituto Nacional do Cinema, nos filmes
educativos, o Zequinha fazia tudo.Eu trabalhei com o Zequinha uns dez
anos. Aí eu via tudo. Eles fazendo, aquele negócio todo. Mas eu nunca me
dediquei ao laboratório não, porque se eu fosse para o laboratório, eu
ia pegar gosto pelo laboratório, ia deixar de ser repórter. Isso
acontecia, como aconteceu com muita gente. E aí eu conversava muito com
Fernando Abrunhosa, irmão do Orlandinho Abrunhosa, que também era outro
cara bamba no negócio. Depois eu vim conhecer os Francesqui, os dois irmãos
gêmeos também, maravilhosos. O Francisco Alaor Barreto, meu professor da
História do exército da borracha, dos seringueiros da Amazônia. O Alaor
Barreto, pai do Alaorzinho, que foi editor de fotografia do Jornal do
Brasil, me contou tudo sobre isso. O Alaor Barreto pai, né, não é o
filho não. Aí com os mestres, com o Nicolau Drey, aí eu conversei com
essa turma, que tinha 30, 40 anos de fotografia. Tinham fotografado na
Europa toda, estavam no Brasil, uns caras maravilhosos. Então batia esse
papo, a gente aprendia... Só discussão de fotografia. Ficávamos 10
horas por dia discutindo fotografia. Jantava e almoçava com fotografia.
EVIRT:
Nós sabemos que o jornalismo remunera mal, mas mesmo assim as pessoas
insistem em trabalhar nesse ramo da fotografia. Existe alguma explicação
para isso?
SCARPINO:
O que existe é o seguinte: é que o cara gosta de ser repórter. Porque o
repórter fotográfico ele não é só fotógrafo, é diferente... É vocação.
EVIRT:
Você antes de ser fotógrafo...
SCARPINO:
... era repórter. Só que eu fui repórter de polícia de revista. Não
era todo dia, não.
EVIRT:
Qual revista?
SCARPINO:
Manchete, Fatos e Fotos. Então eu publicava assim... E toda reportagem
policial lá eu fazia, eu ia com o Gervásio... Eu
e o Gervásio, de um modo geral. A gente ia e fazia. Mas sempre era
uma reportagem que já tinha uma repercussão,
como eu fiz daquele paraibinha. O cara que assaltava no Corcovado, por ali
e tudo. Nós fizemos e tal... uma porção de coisas... E aí você vai
passando... Fiz também foto de cena apoiado pelos diretores do cinema
brasileiro Hélio Silva, José Medeiros e Dib Lufti. Fiz também direção
de documentários. E aí fui indo, fui fazendo.. Mas sempre ligado ao
samba. Eu fotografei todo o depoimento do Museu. Eu fotografava, então eu
acabei assistindo o depoimento do Museu. Eu arregimentava, eu fazia a
produção do... do depoimento do Museu, dos depoentes. Você entende? Aí
eu então ia buscar o cara em casa, se fosse o Pixinguinha, se
fosse o Donga, se fosse o Jacó do Bandolim, se fosse o Lupércio Miranda,
se fosse Ataulfo Alves, se fosse o Ismael, que fosse... Porque sempre
tinha quatro ou cinco amigos deles pra perguntar, lá no depoimento deles;
“se lembra?” Pra ajudar o cara. Aí eu fiz arquitetura; fui fazendo
arquitetura porque tinha depoimento de tudo... Arquitetura, depois tinha
de literatura, aí eu fui conhecendo esse lado todo. Mas sempre como uma
escola de aprendizado. Eu, tudo que usei, eu usei como aprendizado.
| Registro
Histórico de Scarpino - Ramos (RJ) - 31/03/64 |
|
 |
"Levei então o Chico Buarque lá na casa do
Pixinguinha, em Ramos, e o João da Baiana e o Tom Jobim". |
|
Tom
Jobim, Pixinguinha, João da Baiana e Chico Buarque.
|
|
EVIRT:
Você falou na ARFOC. Quem... A ARFOC surgiu por que? Da necessidade dos
fotógrafos...
SCARPINO:
A ARFOC foi essa turma que fez aí... O Ângelo Gomes, o Ângelo Regato, o
Jader Neves, uma turma que tinha aí... Muito mais gente... O Estrela... A
ARFOC foi fundada pelos caras que cobriam futebol, né... Então eles se
organizaram e tal... A ARFOC tem 55 anos e 1.200 sócios... A ARFOC tem
toda memória... A memória carioca, todo o acontecimento carioca
e fora também. O Jader, por exemplo, é um cara que viajou com
oito presidentes da República. A ARFOC tem também o repórter cinematográfico...
Que não é mais a imagem estática, é a imagem em movimento. Francisco
Tortura, do Canal 100, por exemplo, fotografou todas as
copas do mundo e todos os dribles do Garrincha e do Pelé.
Tem
mil coisas. É que o fotógrafo em si, o repórter fotográfico...Falaram,
puseram na cabeça, puseram na nossa cabeça, na época, que o cara não
podia aparecer. “Pô, quem faz não pode aparecer”. Só apareciam os
outros, menos a gente. Pô, então você respeitava aquilo: não, eu não
posso aparecer. Então eu, que fotografei o Pixinguinha de tudo que é
jeito, não tenho uma foto minha com o Pixinguinha. Uma vez eu estava...
Fiz uma reportagem com... Levei então o Chico Buarque lá na casa do
Pixinguinha, em Ramos, e o João da Baiana e o Tom Jobim. Nós estávamos
lá e tudo... O Francisco Tortura: “Quer tirar uma foto sua com ele?”
Eu? Não, não posso... Não tirei, pô. Perdi uma chance de ter uma foto
com o Pixinguinha, né... Perdi a chance... Mas, aí... E assim foi
indo... Eu escrevo, fotografo e faço pesquisa, no fundo são três
coisas; fotografia, pesquisa e o texto.
EVIRT:
Qual a dificuldade pra fazer e desenvolver esse trabalho que você teve no
samba?
SCARPINO:
Não, o problema teria... Eu, por exemplo, assim... Teria que fazer um
projeto e levar para alguém que daria certo... Que daria certo... mas eu
sou meio preguiçoso mental nesse sentido ainda... e tou relaxando, tou
relaxando e tal... Eu já colaborei assim... Colaboração minha em livro
tem um bando. Silas de Oliveira, Paulo da Portela, Fala Mangueira. Eu fui
lá com o Cachaça e o Cachaça contou pra mim assim: “Olha, eu gostaria
de fazer um trabalho sobre o morro, sobre a escola. Aquilo bateu no meu
ouvido e eu fiquei... Aí eu tinha feito o livro do Paulo da Portela, que
a Lígia, filha do Donga, me apresentou a dois bons pesquisadores da música
popular brasileira, que eram Professores de Língua Portuguesa do Colégio
Pedro II, a Marília Trindade e o Arthur de Oliveira. Aí, na José
Olympio eu conheci o Ivan Proença... Aí eu conheci ele e ele tinha sido
criado na Visconde de Niterói, na Mangueira e tal... aí eu falei vamos
fazer e tal. Aí eu peguei a Marília e o Arthur, nós trabalhamos vinte
dias e fizemos o FALA MANGUEIRA. Ele tem 60 fotos.
E
tem um negócio maluco, o livro tem 60 fotos, era pra ter seis. Puseram lá
um diagramador na época que não conhecia nada. Ele dividiu lá duas, três
páginas para por as fotografias: “Não, não. É por capítulo.” Aí,
cada capítulo eu encaixava o máximo de fotos. Encaixei 60... He, he, he...
O
Livro Fala Mangueira aí. Tá esgotado, eu não tenho nenhum ainda...
Mas é uma beleza.
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"Eu já vi disco aí com trinta fotos do Noel
Rosa que não têm o nome de um fotógrafo.
Portanto, que o maior fotógrafo
brasileiro é o arquivo.
O arquivo é o mais famoso deles e agora é o
fotojornalista chamado divulgação".
|
EVIRT: Comparando aquele
equipamento com o de hoje, aqueles eram...
SCARPINO:
Eram mais pesados. Era outra coisa... A turma do Instituto Nacional do Cinema...
O Zequinha Mauro é que conta, filho do Humberto Mauro, porque o Zequinha Mauro
sabe tudo sobre fotografia e cinematografia. Em primeiro... Tudo caixote. Eu
levava... Era emulsão de vidro. De emulsão de vidro tem fotógrafos gênios,
que são o Malta e o Marc Ferrez. Quer dizer, uma complicação tremenda... Pro
sujeito fazer uma fotografia lá do Pão de Açúcar, era um negócio... Você
tinha que ir pra lá, esperar, aquele negócio todo. Aí apareceu a 35 mm, houve
aquela evolução e o tamanho... Porque com a 35 mm você publicava... Aquilo
que eu te falei, uma foto deixou de ser tapa buraco, ficou um tapa buracão. Mas
na revista, moda, não usava mais a foto como tapa buraco, usava a foto mesmo
como ilustração. Aí tem essas coisas... E a fotografia foi crescendo assim...
Hoje em dia você... E na fotografia é engraçado... Na nossa faixa tem repórter
fotográfico, por exemplo: eu sou economista. Tem o Chico Nélson. O Chico Nélson
é um fotógrafo... Chico Nélson é um cientista político... Tem fotógrafo
arquiteto, tem fotógrafo engenheiro. O Alcyr Cavalcante, presidente da ARFOC,
por exemplo, é um cara formado em Filosofia, está fazendo Antropologia. Quer
dizer, a cultura do fotógrafo é ampla. Você está entendendo? E o jornalista
de texto nunca sacou isso. O jornalista de texto sempre achou que o texto que
era bom. Inclusive negava até o crédito da gente. Ele não dava o crédito e
tal... Porque não sabia quem era e
não ia pesquisar nem nada, essas coisas... O crédito e essas coisas aí começaram
a aparecer com a turma de O Cruzeiro e, mais tarde, com a criação do setor de
pesquisa do Jornal do Brasil, hoje existente em todos os jornais. Tinha que ter
o crédito... Era tudo burlado... Eu já vi disco aí com trinta fotos do Noel
Rosa que não têm o nome de um fotógrafo.
Portanto, que o maior fotógrafo
brasileiro é o arquivo. O arquivo é o mais famoso deles e agora é o
fotojornalista chamado divulgação.
EVIRT:
O primeiro Jornal que começou a dar crédito aos fotógrafos, ali em cima na
fotografia, foi o Jornal do Brasil?
SCARPINO:
Eu não lembro, isso eu tenho que pesquisar. Eu sei que o Samuel fez uma façanha...
EVIRT:
Na Última Hora?
SCARPINO:
Na Última Hora. Quando o cara saía... O carro saía, o repórter saía sempre
na frente, sentado no jipe, na frente. O Samuel mudou, pôs o repórter sentado
atrás e o fotógrafo na frente pro
fotógrafo chegar primeiro em qualquer situação. Mudou isso, Samuel que mudou
isso e aí... Outra coisa... Quando eu era repórter, eu fiquei dez anos repórter,
a turma falava assim pra mim... O jornalista... O jornalista de texto; “Ah!
Vai sozinho, depois o fotógrafo chega lá. Deixa o fotógrafo chegar”. Eu
queria sair com o fotógrafo, os caras falavam “não”. Mas eu, teimoso, saía.
Aí eu saía com os caras. Era tudo igual, a mesma coisa. Você vê que o próprio
fotógrafo era discriminado na redação. Bom... O Luiz Bueno... O Luiz Bueno,
ele foi o primeiro fotógrafo a ser contratado no Correio da Manhã. Ele era
amigo do Carlos Lacerda. O pai dele tinha sido fotógrafo da família do Lacerda
e aí o Lacerda pediu pra ele ser contratado. O fotógrafo era pra buscar...
“Vai lá limpar esse cinzeiro aqui.”, “Vai lá jogar esse cafezinho lá
fora.”, “Vai lá fazer isso.” Fotógrafo era tratado assim...
Aí
o Lacerda mandou legalizar o Luiz Bueno. Aí o diretor administrativo não quis.
Não sei o que lá e tal... Aí o Bueno foi lá e “Pô, Lacerda o cara não
quer me legalizar”. O Lacerda foi lá, deu uma bronca, o cara legalizou e
estava aí o primeiro fotógrafo legalizado e tudo. Com Carteira Profissional. O
Luiz Bueno, aquela figura maravilhosa...
EVIRT:
O primeiro fotógrafo legalizado foi na Tribuna da Imprensa com...
SCARPINO:
NÃO! Correio da Manhã com o Luiz Bueno. E o Luiz fotografava para o Correio,
aquela folha Burrico, aí fotografava tudo. Tinha uma coluna Burrico, tinha uma
foto e um texto, ele fazia tudo isso. Tinha tudo isso. Tinha mais coisa. Tem uma
cena dele maravilhosa, era com o Presidente da República Washington Luis.
Washington Luis apertado com a bexiga... Procurou um lugar pra fazer xixi e tal
e foi atrás de uma árvore fazer um xixi, né... Antes do início de um comício
e tal... apertado, foi lá. Aí o Hélio viu, foi lá e fotografou.OH! O
Presidente da República fazendo xixi é uma boa, né... Fotografou... Aí os
caras, os guardas chegaram e tiraram dele... Tiraram a máquina dele e tal e aí
seguraram, ele ficou triste querendo falar com o chefe da guarda. Ficaram
segurando e tal, aí houve um tumulto lá, de repente assim... o cara fazendo a
segurança do Presidente. Aí o cara disse; “Segura essa máquina aqui”. E
saíram de novo e deram a máquina pra ele mesmo e ...ih, ih... ele saltou
fora...
EVIRT:
Essa foto ainda existe?
SCARPINO:
Ele tinha... Agora eu não sei, entende? Ele se safou e ainda conseguiu levar a
foto. E as coisas foram acontecendo assim... Você entende? Tudo normal, tudo,
tudo. E a música, onde tinha um pagode pra eu ir lá, eu tava lá, era
convidado e tal...
lEVIRT:
Hoje, com o avanço tecnológico, esses equipamentos são bem mais leves, mais
eficientes, com foco automático e outras coisas que nós podemos programar a máquina
e ela faz praticamente tudo...
SCARPINO:
É... A gente não faz mais nada... Mas a gente continua apertando botão.
EVIRT:
É... Existe alguma restrição sua com esses novos equipamentos?
SCARPINO:
Não. Fica tudo mais fácil para o cara, né. Então tem menos criatividade.
Fica mais fácil e depois aquele problema... Se o fotógrafo, qualquer fotógrafo,
se está interessado em fazer a foto, ele tem que sair do registro, que a
maioria agora é o registro. Se você está trabalhando para o jornal, você
quer o registro. Mas quando ele quer fazer a foto dele... Que eu sempre
aconselhava, todo mundo. Falava assim para essa turma: Olha vai, leva a sua máquina
e tira a sua foto na jogada. Se interessar a você estar fotografando o
presidente da república, se interessar, você faz a foto e guarda pra você.
Nunca ninguém fez isso. Eu falava pra qualquer um deles, qualquer assunto que
você vai cobrir, se fosse um assunto interessante, então você fazia a foto e
guardava pra você. Entende? Então você tinha o seu arquivo. Mas nunca ninguém
fez isso. Todos os arquivos deles ficaram perdidos nos jornais, os jornais...
Acabou o Correio da Manhã, hoje em dia você não sabe onde estão as coisas...
e ficou por aí... Mas um arquivo de um jornal vale uma fortuna, feito por vinte
fotógrafos. Vale milhões e o fotógrafo não tem nada lá...As agências é
que... Agora quem tem cabeça guarda os negativos.
EVIRT:
Você acha que com essas novas tecnologias, com essas facilidades, mudou a
maneira de fotografar? Houve uma influencia significativa na linguagem fotográfica?
"
Todo
fotógrafo é um poeta. Ele já sai com a mente de poeta".
SCARPINO:
Não. Não, é porque é assim... Por incrível que pareça, o fotógrafo tem
que ter vocação. Primeiro ele tem que ser um cara assim, que ele enxerga o
belo, não enxerga o defeituoso. Ele vai enxergando o belo sempre. Ele vai
sempre enxergando a coisa alegre, a coisa... Você entende? Todo fotógrafo é
um poeta. Todo fotógrafo é um poeta. Ele já sai com a mente de poeta. O
beija-flor bonito lá, ele vai e fotografa. Vê uma janela bonita fala; “Que
janela bonita!” Vai e fotografa. Ele já é poeta. Todo fotógrafo é poeta, não
deixa de ser. Até no cadáver ele é poeta. Fotografando um defunto ele é
poeta. Você entende? Então é isso. O cara já tem uma vocação de poesia
mesmo, de visual, essas coisas. Se não, não dá. Primeiro você abre a mente,
depois você abre a lente, aí que dá fotografia. Mas o fotógrafo é um poeta,
não tenha dúvida. Todo colega meu fotógrafo eu sei que ele é poeta.
EVIRT:
Scarpino foi bacana a gente bater esse papo. Agora eu queria saber quais os fotógrafos
que você admira e em quais se inspirou. Basta dizer um, mas você pode citar vários
se quiser e depois pra dar seqüência a esse nosso trabalho. Quem você
indicaria de uma forma mais imediata...
SCARPINO:
Com quem eu trabalhei na Manchete, por exemplo. Eu vou falar com quem eu
trabalhei, que eu era repórter, saí com os caras, fui dez anos repórter de
rua, então eu tinha o Nicolau Dray, o Jean Quiel, tem o Jader Neves, o Gervásio
Batista, o Gil Pinheiro, o pai do Jacob, o Alberto Jacob, o que eu estou
lembrando assim no momento... O Alaor já foi diferente... O Erno Schneider, que
já fazia trabalho diferente na Manchete, mas o Schneider foi editor de
fotografia no Globo, no Jornal do Brasil, com o Alberto Ferreira, por exemplo. O
Luiz Carlos Barreto, o Zé Medeiros, o Zé Medeiros eu sou coruja dele, você
esta entendendo? O Zé Medeiros foi um cara que... No cinema... Ele era
diretor... Uma vez ele brincou comigo e “Vem cá, fica uma semana comigo que
eu vou te dar todos os meus diafragmas”. (risadas) Por que eu era da
Embrafilme, ia lá, fotografava a equipe, a equipe técnica e então o Zé
brincava comigo assim. Mas era meu amigo desde O Cruzeiro. Maravilhoso! O Zé
tinha uma cultura... A cultura do fotógrafo também influi, por exemplo. A
cultura do Zé Medeiros é muito mais alta que a do Sebastião. O Zé Medeiros
tem um livro, “O Poeta da Luz”. Ele tem umas fotos deitado pra santo lá, o
pessoal deitado pra santo lá que é maravilhoso. Estupidamente maravilhoso! O
livro está aí, o “Poeta da Luz”, na FUNARTE tem e tal. Depois ele foi ser
diretor de fotografia do cinema brasileiro e conseguiu ser diretor de cinema
também.
EVIRT:
Você tem alguma coisa a dizer, pra acrescentar, que a gente não falou?
SCARPINO:
Não, eu acho que o fotógrafo... Aquilo que eu te falei, tem que usar... A
fotografia é o que o olho do cara vê, dentro de uma alimentação de luz e
angulação e o cara tem que abrir a mente e a lente.
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Clóvis Scarpino,
Ismael Silva e Zé Kéti estão no Curta metragem: Noitada do Samba -
realizado no Teatro Opinião
com os grandes Compositores Cariocas. Direção de Clóvis Scarpino e Carlos
Tourinho.
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