Amor não linear

"É da natureza das coisas que elas sigam um processo de mudança e desintegração. Por isso, é de extrema importância darmos significado a nossas vidas".

Estavam juntos e isso bastava. O sol benfazejo revelava sua luz ao mundo, mas seus raios já são precipitados pelos corações puros, iluminados pelo amor infindável.

Eles se abraçaram, se beijaram e choraram muito, juntos, aproveitando os mais cálidos momentos que pudessem permanecer ao lado do outro. E eles queriam acreditar que a distância jamais os separaria. Na verdade, ela nunca foi forte o bastante para esfriar os amores férvidos.

A figura do avião grande e rígido se consolidava no céu. Era a aeronave que tanto atormentava os sonhos de Sílvio, a máquina cruel que o fazia sofrer com os pavores de uma viagem distante dela...

"Patrícia, quanto tempo longe de você?". Não queria mais sentir a dor de deixá-la. A figura da bela reapareceu na frente de suas vistas. E como ele a idolatrou! Seus olhos imediatamente se ligaram às pupilas da doce mulher novamente, molhados pelas saudades que baqueavam os ânimos e inflamavam os dois espíritos sem piedade. Ele acariciou o rosto dela e enxugou uma lágrima que estava prestes a escorrer-lhe pela face de princesa. As palavras falharam e os lábios se tocaram num beijo longo e ardente, que se prolongaria enquanto vive o amor.

A vida impõe duras escolhas e difíceis encargos. E Sílvio sabia que sua escolha era uma pena severa, mas que seu caminho, apesar de duvidoso, lhe daria a liberdade para viver aquele amor no futuro.

O pouso se demorou. A grande massa de metal só estacionou depois que metros e mais metros de pista foram devorados. Era uma aterrissagem de rotina, porém nos momentos em que o coração palpita com mais emoção, poucos segundos transformam-se em longos dias.

Sentia-se feliz na terra firme e a idéia de ficar pairando pelo ar o incomodava. Separar-se de seu amor não era o estilo de vida que um dia ele sonhou. Ele não era um viajante peregrino e remoía as dores de abandonar por tanto tempo sua querida.

Os olhos de Sílvio afogavam-se nas suas lágrimas contidas. Esperava alguns instantes para cruzar as portas que mudariam sua vida.

O momento, finalmente, estava se concluindo. O magnífico avião desanuviou a estratosfera azul com uma manobra quase inacreditável. Vinha de algum lugar lúgubre e distante e estava partindo para a fria Finlândia. Helsinque seria a próxima escala. Patrícia olhava o céu com dor e esperança.

A chuva caía. Em suas gotas, as lágrimas dos amantes divididos pelo espaço.

 Agora, querido leitor, torne a ler o texto dos últimos parágrafos para os primeiros.

  

Há tempos quero te encontrar
Guardando no coração
Amor para te dar
E mágoa
da
solidão
De uma noite fria
Antiga que se encerra
Purificando todos nossos dias

Fogo, Água, Ar e Terra

 


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