Baile de Carnaval

Dizem por aí que amores de carnaval são passageiros, fúteis. Mas, aos olhos observadores do destino, marcantes histórias estão presentes nesses lisonjeiros momentos de desenfreada felicidade. Algumas, aniquilam vidas e outras, as solidificam. E existem ainda aquelas, que são a própria vida se manifestando e marcando as pessoas, pela eternidade.

Numa das mesas mais distantes do centro do salão, notava-se um casal. Ela, fantasiada de princesa medieval e ele, de trovador. O que mais se sobressaía naquela ocasião era a alegre vivacidade dos dois companheiros que já rumavam para a terceira idade. Confetes, serpentina e a animação inebriante os mesclavam em meio ao resto da moçada que se divertia.

Para eles, era mais do que um baile de carnaval. As mesmas marchinhas de todos os anos traziam às cabeças memórias de um tempo belo e saudoso, impetrado em momentos infinitos. O minúsculo salão de um bairro simples funcionava como uma máquina do tempo: há trinta anos, o local fora palco de um encontro, o primeiro dos dois apaixonados em toda sua vida.

Como nascedouro de todo aquele amor que cresceu e evoluiu em trinta anos, o salão remetia aos cônjuges sensações maravilhosas de antigas emoções que nunca morreram, mas que de certa forma, haviam se enfraquecido com o desenrolar dos anos.

Há trinta anos, dois corações recebiam um presente dos céus: foi uma paixão ardente, divulgada em um instante de divina luz, por palavras torpes e ao mesmo tempo ilustres, proporcionadas unicamente por uma paixão voraz.

As fantasias com que se vestiam também eram iguais às de trinta anos. Ele continuava o trovador que roubou a princesa de suas altas torres, cantando seu amor devoto, pelos ilimitados campos da vida. E, ela, a mesma princesa, que abdicava de seu castelo, para viver a vida peregrina com seu amado trovador.

E, curiosamente, a realidade não se distinguia da fantasia: fruto de um envolvimento proibido, o casal enfrentou uma tempestade de renegações por seu amor, uma espécie de Romeu e Julieta dos tempos modernos. Mas sua bravura e coragem perante esses desafios foi ainda maior que o preconceito da sociedade. Ora, ninguém diria quem eles deveriam amar, isso era inconcebível...

Logo vieram os filhos, as dívidas, a dureza da vida. Por trinta anos, o trabalho dos dois amantes foi incansável. Primeiro, a luta para pagar as prestações da casa; depois, o desafio de criar os filhos; as jornadas longas de trabalho; as noites que, comumente, tornavam-se dias.

A construção de suas vidas foi uma guerra bem sucedida. Mas também tinha deixado suas seqüelas: as dificuldades dessas três décadas escondiam atrás de si toda a magia que um dia envolveu o casal naquele modesto salão, em um baile de carnaval. As relações já não eram as mesmas; um beijo inesperado, já era algo comum; uma declaração de amor, algo totalmente ridículo.

Quando os filhos já tinham sido criados e saído de suas guardas, o trovador e a princesa caíram em depressão. A aposentadoria também tinha contribuído relativamente muito; já não havia nenhuma preocupação, nem a vida movimentada dos escritórios, nem os filhos do lado... em resumo, as vidas do casal estavam resumidas aos programas de auditório de domingos, vistos pela televisão.

Algumas pessoas afirmam ser natural essa queda de ânimos, no período que antecede a velhice. Mas aqueles que são realmente lutadores não ignoram essa batalha e se embrenham em mais uma luta.

Os amantes sabiam que seu fim estava próximo se continuassem daquele jeito; não o fim da vida, mas o fim de seus sentimentos. Uma sensação desagradável tomou conta dos dois. Era carnaval; a televisão transmitia o desfile das escolas de samba. Um pensamento síncrono dominou as mentes, com uma só lembrança e determinação: o velho baile de carnaval.

Troca de palavras confortantes e lembranças do seu primeiro baile traziam os sentimentos daquelas duas pessoas de volta ao seu apogeu.

Na noite seguinte, estavam no baile, fantasiados, pulando, dançando, vibrando, vivendo. Dentre as músicas, tocava "Máscara Negra", talvez a mais conhecida música carnavalesca do Brasil. A vontade de viver intensamente cada momento surgia juntamente com a paixão e amor que nunca morreram, mas que afloravam novamente, com total intensidade.

Mais do que um baile, mais do que saudosismo, naquele momento, o destino construía mais uma bela história: o reencontro de duas almas com a própria vida.

 


[ Anterior ] [ Próximo]