Caneta de prata Havia confusão nas mentes; havia medo nos corações. Aqueles longos dias de outono pareciam não ter mais fim. Andares apressados e rostos fechados contagiavam toda a população, como uma enorme epidemia. Os olhares preocupados das pessoas denunciavam a tensão acumulada e o perigo iminente. As bocas caladas eram a maior expressão do temor. Sentado à sua escrivaninha de mogno, o antigo professor escrevia. Não era mais um de seus belos poemas nem tampouco o mestre da oratória preparava uma aula. Era uma carta. Um desabafo. Uma confissão. Era a certeza de que o seu destino de já estava traçado. A carta era destinada a seu irmão, ao mais amado irmão. Ali, entre lágrimas e lembranças, o velho professor se despedia. Dentre os poucos móveis da casa, notavam-se condecorações. Exímio poeta, o professor havia recebido vários prêmios do Ministério da Educação. O mesmo governo que uma vez o colocou nos seus braços, agora o caçava como um criminoso. Era preciso que suas obras fossem esquecidas, porque a chama da verdade assustava os poderosos. Mas, apesar de tudo, estava feliz, pois sabia que mesmo que calassem a sua voz, eles jamais conseguiriam apagar a chama da verdade. Três batidas na porta da casa quebram a concentração do mestre. Ele levanta, hesita. Outras batidas se sucedem. O professor sabe que ele não pode fugir e num sopro de coragem abre a porta. Então, seu destino parece tomar contornos mais nítidos. A figura do soldado segurando um fuzil surge na sua frente e junto, a intimação. E o professor, já preparado, ruma para o inevitável. - O senhor porta alguma arma - pergunta o soldado, com voz metálica e algemas na mão. Sem pensar o professor responde imediatamente: - Porto sim, uma arma muito poderosa, mais poderosa que o seu fuzil. O soldado, assustado, num movimento de defesa, empunha a sua arma e ordena que o professor lhe passe o perigoso artefato. E o professor, calmamente, dirige a sua mão ao bolso esquerdo de sua camisa azul e dele retira uma caneta. Uma caneta de prata, a mesma que recebera em sua formatura, com as iniciais do seu nome gravadas e que, com carinho, ele conservou através dos seus anos de andança. O soldado, irado, arranca a caneta da frágil e trêmula mão do professor e a atira longe. Em seguida, algema o velho senhor e ambos partem no camburão. O destino do professor permanece um mistério. Nem seus alunos, nem os vizinhos, nem os familiares conhecem o seu paradeiro. Alguns dizem que fora morto. Quanto à caneta, esta permanece no jardim da casa, abandonada. Musgos de tonalidade verde e branco cobrem o seu corpo. Mas ela permanece lá, viva e eterna.
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