Um certo José Ninguém

O sol quente e impiedoso castigava o couro cabeludo de José, o velho José. O calor daqueles dias de verão superava as estatísticas da meteorologia e parecia que a cada ano que se passa os homens se vêem cada vez mais derrotados pela grande estrela, horas pai, horas carrasco. E Zé continuava a sua incessante caminhada pelas ruas da metrópole. Sua cabeça já desprovida de cabelos avermelhava-se numa proporção gradual ao aumento do calor.

A face repleta de rugas e os lábios ressequidos mostravam os sinais claros de fadiga. Mas Zé não parava. Ele precisava circular pelas ruas da grande cidade. Destino? Lugar nenhum. Zé considerava-se antes de mais nada um cidadão e não media esforços para reprimir a desordem no país, fiscalizar as ruas, zelar pela família brasileira.

Com uma Constituição Federal abaixo do seu braço direito, José da Silva remergulhava no seu devaneio. Inconscientemente, ele sabia que esta era a única razão de sua vida e que o Estado tornara-se sua religião. Para qualquer lugar que ia, carregava aquele livro precocemente envelhecido pelas chuvas e pelos raios do sol a que era exposto dia e noite. Apesar de nunca ter convivido no meio acadêmico, Zé já conhecia uma grande variedade de artigos e incisos contidos no código.

Ouvira uma vez um magistrado falando sobre as leis e então maravilhou-se inocentemente, contagiado por uma alegria torpe e infantil, que no fundo do seu coração, ele tinha ciência que não era real. Seu preferido era o artigo quinto, o qual garante direito à vida, liberdade, propriedade. De alguma maneira Zé acreditava cegamente, que debaixo de toda aquela legislação, restaria a sua salvação e não compreendia como palavras tão entusiásticas e lindas como aquelas não eram respeitadas.

- Mas que diacho!! Se dê ao respeito, homem!, pensava alto assustando os pedestres do centro da cidade com a sua voz gutural e seu corpo completamente depauperado.

Zé sabia que ele não era apenas um mendigo! Não senhor! Afinal, tinha berço, tinha cultura, descendia de imigrantes prósperos e fortes! Com a cabeça já meio atordoada pelo calor e as idéias confusas com a fome, esforçava-se ao máximo para se recordar de tempos promissores em que vivera, quando a plantação de laranjas estava no auge: os americanos disputavam entre si a colheita de Zé. E assim como a colheita, a mesa também era farta...

Lembrou-se vagamente de uma ceia de Natal: um grande peru enchia a mesa, frutas... A lembrança da comida lhe fazia o estômago roncar, mas agora já não conseguia ingerir qualquer alimento.

Sim senhor, este era o senhor José da Silva, o Zé Ninguém. Mais um dos muitos Josés da Silva, mais um dos muitos filhos ilegítimos da nossa pátria.

Contudo, não se zangava, apenas caminhava num compasso marcado, como um boi que ruma para o matadouro. A Constituição debaixo do braço era a única ligação que ainda lhe restava com a realidade...

O sol esquenta mais e as pernas de José se dobram, num movimento crucial e definitivo. No seu rosto, estampa-se um fervoroso e eterno sorriso, do alívio que só a morte poderia oferecer. O corpo mutilado pela vida permanecia no asfalto do centro da cidade, enquanto o Instituo Médico Legal não chegava.

No chão podia-se notar um livro carcomido, a Constituição Federal. Algumas folhas separavam-se do caderno depenado e dentre elas estava a página 6. Naquela folha suja e rasgada distinguiam-se poucas letras. Do que restava podia-se ler somente a abreviatura "Art. 5º".


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