As estradas de Polignano Amare Existiam duas grandes faixas de terra que uniam a cidade à fazenda. Eram dois caminhos que cortavam a sublime vegetação mediterrânea das terras do sul da Itália. Ali, o progresso não consegue apagar as marcas da História. As lendas de muitas e muitas vidas que construíram um berço cultural são também as dores mais profundas de vários povos, perpetuadas na memória da humanidade. Os campos lavados pelo sangue de gerações ainda guardam recordações de invasões e guerras devastadoras. As duas estradas decadentes já tiveram seus dias de esplendor, quando as tropas imperiais marchavam para deter as investidas mouras na região. Mais tarde, elas tornaram-se vias por onde as mercadorias chegadas de outras nações eram escoadas. A atividade comercial fizera dos dois caminhos importantes pontos de referência. Uma delas, conduzia até um antigo castelo, próspero um dia. Agora, elas tinham sido esquecidas. A prosperidade foi embora junto com o tempo. Apenas alguns poucos pastores e comerciantes cruzam aqueles trechos de terra. Os ventos uivantes confirmam a desolação e por eles os mortos falavam; os ventos são as vozes da região, impregnadas com os fluidos daqueles que já se foram. A superstição sugestiva das pessoas contavam histórias fantásticas que tiveram a região como palco. Muitos sustentavam que por lá as almas atormentadas tinham se fixado. Surgiram mitos incríveis e contos de assombrações. Mas tudo não passaria de mera especulação da fértil imaginação popular ? Com certeza, existiam muitos que consideravam tudo aquilo uma crendice infantil, criada por mentes pouco cultas. Muitos eram os incrédulos, alguns, totalmente céticos, como era o caso específico de um rico e respeitado comerciante da região, chamado Pedro. O compadre, como era conhecido, cruzava semanalmente a região para cuidar da administração de sua fazenda: controlar a produção, pagar os salários aos funcionários; enfim, cuidar dos negócios. Porém, apesar de não acreditar em nada do que o povo comentava, nunca ousou aventurar-se por um dos dois caminhos, o mais curto deles. Nesta rota, um grande mito tinha se firmado. À ela, eram atribuídas figuras de demônios, fantasmas peregrinando e a fama de maldita. E, além disso, o compadre tinha prometido à sua filha Julieta que jamais tomaria aqueles rumos. Mas certa vez, nem suas promessas foram fortes o suficiente para deter as forças ocultas de seu trágico destino. Era uma fria sexta-feira de dezembro e a noite já caíra. Ele precisava chegar à fazenda: era o dia de pagamento dos funcionários e do acerto de contas. E, mesmo com os apelos exagerados de sua filha, colocou a grossa capa negra que o protegia da neve, preparou a carruagem para a viagem e partiu. Antes de ir, Pedro jurou à Julieta que não seguiria pelo caminho mais curto, o tão temido. A luz das poucas estrelas já iluminava Bari, quando o homem se foi. Estava por demais cansado. Não podia se demorar. Decidiu, então, reduzir o tempo de viagem, adentrando a estrada mais breve. Em meio à escuridão, os cavalos relinchavam, arredios. Nem eles poderiam aceitar a infortunada decisão do compadre. O solo adormecido era novamente desbravado, acordando o local, fazendo seu espírito retomar vida. Em determinado trecho do trajeto, avistava-se um castelo medieval. Antigas ruínas, restos mortos de um passado remoto. Dentro dele, notava-se, o movimento bizarro de pessoas à luz dos castiçais; suas risadas lembravam um antigo banquete, servido a algum dos muitos homens que já estiveram lá. O compadre deteve o cavalgar ligeiro e estarreceu-se com o que acontecia. Encantou-se, ainda mais, quando se aproximou do castelo e viu o seu jardim. Em pleno inverno italiano, lindas árvores mantinham um verde intocado, nos arredores das ruínas. Dentre os ramos das árvores e arbustos, frutas lindíssimas brotavam. Não eram frutos quaisquer; eram pomos de ouro. Pedro não pode se conter. Totalmente hipnotizado, desceu da carruagem e tocou uma das frutas, boquiaberto. Os frutos eram reais; mas a realidade já lhe parecia vaga... Algumas pessoas indescritíveis saíram do castelo e vieram para o seu lado. Pedro não conseguia tirar os olhos dos pomos de ouro. Nesse ínterim, uma das pessoas quebrou a quietude: - Gostou das frutas do nosso pomar ? - Mais do que pensa - respondeu, fora de si - Pagaria um bom preço por elas, não pagarias ? - Sim, é claro! Os olhos de homem que falava ao compadre encheram-se de um brilho satânico, desprovido de qualquer luz. - O preço é muito alto. Tem consciência disso ? O compadre enlouquece de vez: - Que me importa ? Tenho rios de dinheiro, fazendas, gado, propriedades. Pago o que me pedir - retrucou - Não. - acalmou os ânimos o segundo deles - sabemos da filha que tens. O preço é ela. O primeiro homem que tinha saído do castelo ordenou a mais dois que lhe trouxessem três sacas de batatas vazias. Daí, começou a enchê-las com as frutas. Depois, as ofereceu a Pedro. O compadre vacilou, mas uma força poderosa lhe induzia a aceitar aquela proposta absurda. - Pegue as sacas, homem! Veja quanto ouro tem nelas... Ou quer que mudemos de idéia ? - perguntaram-lhe, em tom de ironia. O homem pegou. Quando chegou à fazenda, muito mais tarde, apenas o ar preenchia o espaço, antes ocupado pelo ouro. Então, ele foi dormir intrigado, ignorando a terrível maldição que viria sobre sua própria cabeça. Passadas duas semanas do ocorrido, o compadre Pedro faleceu. Foi uma morte tão arrebatadora e misteriosa, que nenhum médico pode identificar a sua causa. Foram chamados especialistas de Milão e até da Alemanha para realizarem a autópsia no cadáver do homem, mas, curiosamente, não existiam vestígios de doenças. A filha Julieta começou a perambular durante a noite, como se estivesse possuída, sibilando palavras incompreensíveis e soltando gargalhadas infernais. A irrefragável amnésia que sofria ao acordar de seus sonhos tortuosos podia enganar a todos, menos à Maria RioGrande, a sua tia, que pressentia tudo aquilo como algo muito além de uma mera tristeza de uma filha pela morte do pai. Então, Maria RioGrande convidou alguns compadres e comadres para passar umas temporadas na fazenda. Pensava ela que, fazendo aquilo, espantaria o mal. Mas a companhia de toda aquela gente somente serviu para presenciar a manifestação de forças ocultas, que mergulharam aquela fazenda em período de trevas interminável. A maldição que caíra sobre Pedro e era herdada por sua filha estava apenas começando. Num tempo em que não existia luz elétrica, era difícil vigiar a noite. As mulheres dormiam todas juntas em um dos cômodos da casa, amedrontadas, porque sabiam que o sonambulismo anormal de Julieta persistia e se repetia todas as noites. Certa vez, a moça entrou no quarto das mulheres com um chicote em suas mãos. Com a face alterada, ela começou a agitar o chicote, no breu da madrugada. Os golpes acertavam com precisão Maria RioGrande, que chorava na cama, enquanto Julieta ria e xingava. Toda noite, isso acontecia. E, sempre, quando Julieta entrava no quarto, fora do controle, uma das comadres que a chamavam de "Alma Bendita" fingiam que tinham sido atingidas. Foi o único modo de salvar Maria RioGrande. A maldição prosseguia sem que ninguém pudesse impedir: aos poucos, as panelas e a dispensa eram preenchidas por cinzas, que tomavam o lugar da comida. Os ventos que percorriam a casa arremessavam moedas de ouro sob a farta e comprida mesa da cozinha. Talvez, aquele fosse o pagamento pela alma de Pedro, que a própria filha afirmava estar penando nos Ínferos do universo. Sempre que se referia ao compadre Pedro, Julieta comentava a uma das mulheres, que estavam na casa, de seu martírio. Dizia ela ou alguém que não fosse ela, que o compadre estaria padecendo de dores terríveis, com um escaldante braseiro sobre suas pernas. Nem o consolo dos vizinhos e muito menos a força dos amigos estavam melhorando a situação insondável. Maria RioGrande resolveu chamar um primo, que também era padre. Impressionado com o que se sucedia, o padre decidiu fazer uma novena pelo local e seguir com uma procissão. Inútil. No dia da procissão, enquanto rezava, um aparador de grama surgiu dos ares, quase desabando em sua cabeça. O padre, temendo o pior, esqueceu-se do sacerdócio e tratou rapidamente de abandonar a fazenda. Um novo familiar apareceu na história. Era um militar de alta patente dos exércitos do rei Vittorio Emanuele III. Este achava que podia dar um basta em tudo usando a força. Mas seus métodos também não surtiram efeitos quaisquer. O máximo que ele conseguir realizar foi impedir Julieta de chicotear mais uma vez a pobre da Maria RioGrande. Quando tomou-a em seus braços, tarde da noite, a moça estava roxa, com um aspecto cadavérico. O general logo desistiu da sua missão. E assim, a fazenda começou a ser abandonada por todos que nela residiam ou que a frequentavam. Até Maria RioGrande tinha partido para Foggia, totalmente traumatizada. Mas Julieta não quis sair do local. O cume de sua loucura foi ter afogado um filho de suas entranhas no poço que abastecia a casa. Nunca soube explicar de quem era aquele filho ou porque procedera àquele ato. A única coisa certa é que aquilo serviu para atormentá-la ainda mais. Por muitos anos não se soube mais notícias sobre Julieta, que ficou vivendo sozinha na fazenda maldita que herdara. Depois de algum tempo, encontraram seu cadáver, já em estado avançado de decomposição, justamente no pomar da fazenda. Como na época não havia mais herdeiros, a propriedade acabou tornando-se um bem do Estado italiano. Alguns agentes foram designados para avaliar a propriedade. E eles também achavam que todas as histórias que agora giravam em torno da fazenda não se passavam da fértil superstição popular. Chegando até lá, eles mudaram da opinião. Um vento gélido e uivante percorreu a casa invadida por gente estranha e junto com esse vento, um barulho metálico. Como o som provinha dos fundos da casa, os agentes logo correram para entender o que tinha ocorrido. Quando chegaram na cozinha, puderam observar que, por debaixo da grande mesa, tinham sido arremessadas algumas moedas. De ouro.
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